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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

23
Set17

Um alfaiate não cose vidas

Rita PN

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Dormíamos a maior parte das vezes no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos o que mais parecido havia com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de algum animal durante o período de tempo que durava o destacamento.

Embarquei em Portugal em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete com trinta mil toneladas de peso e capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era, também, parte integrante do nosso equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número e o nome do soldado e o seu tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a aquela a quem chamávamos a Fiel Companheira de Mato, a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, uma arma de grande porte a quem os guerrilheiros ganharam um grande respeito.

Durante as patrulhas as principais funções eram de reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou em linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão. Podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse espaço de tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos por escassos minutos para comer qualquer coisa ou para aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha muitas vezes a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?
(Voltemos ao cais...) 
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

22
Set17

As Valas

Rita PN

 

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 Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da companhia que vinha ao nosso encontro, solicitava ajuda à aviação. Tinham caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo IN.

Foi o apelo mais dramático de que me recordo durante toda uma Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação para que bombardeasse tudo. Incluindo toda a companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável, o IN avançava sobre eles em número bastante superior.

 

Quis deus que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de outros tantos obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não deveria passar de uma miragem. 

Seguimos. Quem seguia nas viaturas saltou para o chão. A coluna avançava a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.

 

Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos, mortos e menos trinta e uma vidas, das nossas.

 À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos… gritos e mais gritos… mas estes de alegria. Disseram-me, porque eu já nem os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia. 

Ali, o sangue das nossas colónias cheirava a perecimento. E as lágrimas, mais pesadas que todo o nosso armamento, sabiam a luto, ódio e potrefação.

 

Com a noite, descemos às valas, que era onde se dormia em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem e quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.

 

Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

 

 
(Baseado em factos verídicos e em 3 testemunhos reais que me foram relatados na primeira pessoa.)

19
Set17

De amor se fez

Rita PN

Aproxima-te, de mansinho.
Suave e devagarinho.
Descontraidamente, como quem mente
ao silêncio que me consome
a alma nua.
Desfolhada que a vida me fez...
rosada a tez (pétalas de saudade),
que um dia vã se fez, na incerteza da hora.

 

Aproxima-te, de mansinho.
Traz o dia. E o sol. E as manhãs risonhas.
E o chilrear das aves lá fora. E o som do mundo. A junção de todas as notas da vida a bater na vidraça.
Aproxima-te, devagarinho
para que eu não te veja chegar
e ocupar o lugar do silêncio que ainda dorme no meu leito e me deixa ao acordar.

 

Suave e de mansinho.
Devagar, devagarinho...
Para que o soalho de sonhos não ranja
e constranja - sem querer -
as notas soltas do choro da criança
que é o amor ao nascer.

 

06
Set17

Trapézio

Rita PN

Roçou o vento no trapézio,
quando seguia, já em pontas,
a subtileza do passo
no equilíbrio da vida...
Tombou e ficou
a dor das feridas lambidas,
quantas vezes caladas,
quantas vezes escondidas...
quantas mais vezes ardidas no ruído ensurdecedor do silêncio.
Solas gastas, pegadas despidas.
Noites soluçadas,
manhãs esquecidas, p'la calçada adormecida de sonhos...
Ao virar da rua deserta,
vinte e oito escadas para lado nenhum.


(Ainda ontem lá estava o trapézio...)

 

30
Ago17

(Im)Perfeitos

Rita PN

Escritos por nós e sobre nós próprios,
rascunhos de passos a lápis traçados
e limpos. Apagados que foram os rastos
das pontas perdidas
das vidas que se arrastam,
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão,
das pegadas errantes que deixamos.

Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado
p’la tinta da caneta com que tememos escrever,
o presente assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!

Que terrível seria aparecer
vestidos de folha de redação da primária,
de vermelho riscada e a transparecer
erros comuns.
A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém”.

24
Ago17

Cativar...

Rita PN

«XXI

Foi então que apareceu a raposa.
– Olá, bom dia! – disse a raposa.
– Olá, bom dia! – respondeu educadamente o principezinho, que se virou para trás mas não viu ninguém.
– Estou aqui, debaixo da macieira – disse a voz.
– Quem és tu? – perguntou o principezinho – És bem bonita…
– Sou uma raposa – disse a raposa.
– Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho. – Estou triste…
– Não posso ir brincar contigo – disse a raposa. – Ainda ninguém me cativou…
– Ah! Então, desculpa! – disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar.
– “Cativar” quer dizer o quê?
– Vê-se logo que não és de cá – disse a raposa. – De que andas tu à procura?
– Ando à procura dos homens – disse o principezinho. – “Cativar” quer dizer o quê?
– Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar – disse a raposa. – É um grande inconveniente! E também fazem criação de galinhas. Aliás, na minha opinião, é o único interesse deles. Andas à procura de galinhas?
– Não – disse o principezinho. – Ando à procura de amigos. “Cativar” quer dizer o quê?
– É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços”…
– Criar laços?
-Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…
– Parece-me que estou a perceber – disse o principezinho. – Sabes, há uma certa flor… tenho a impressão que ela me cativou…
– É bem possível – disse a raposa. – Vê-se cada coisa cá na Terra…
– Oh! Mas não é na Terra! – disse o principezinho.
A raposa pareceu muito intrigada.
– Então, é noutro planeta?
– É.
– E nesse planeta há caçadores?
– Não.
– Começo a achar-lhe alguma graça… E galinhas?
– Não.
– Não há beleza sem senão… – suspirou a raposa.


Mas voltou a insistir na mesma ideia:
– Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…


A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo…
– Se fazes favor… Cativa-me! – acabou finalmente por pedir.
– Eu bem gostava – respondeu o principezinho, – mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e um bocado de coisas para conhecer…
– Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa. – Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
– E tenho que fazer o quê? – disse o principezinho.
– Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas podes-te sentar cada dia um bocadinho mais perto…

 

O principezinho voltou no dia seguinte.

– Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. – Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… Precisamos de rituais.
– O que é um ritual? – disse o principezinho.
– Também é uma coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas. Por exemplo, os meus caçadores têm um ritual. À quinta-feira, vão dançar com as raparigas da aldeia. Por isso, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear às vinhas. Se os caçadores fossem dançar num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora da despedida:
– Ai! – suspirou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
– A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar…
– Pois pedi – disse a raposa.
– Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
– Pois vou – disse a raposa.
– Então não ganhaste nada com isso!
– Ai ganhei, sim, senhor! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…
E acrescentou:
– Anda, vai ver as rosas outras vez. Vais entender que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

 

O principezinho foi ver as rosas outras vez.
– Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada – disse-lhes ele. – Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como a minha raposa era, uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e ela passou a ser única no mundo.
E as rosas ficaram bastante arreliadas.
– Vocês são bonitas, mas vazias – insistiu o principezinho. – Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas, sozinha é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.

 

Depois voltou para o pé da raposa e despediu-se:
– Adeus…
– Adeus – despediu-se a raposa. – Agora vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos…
– O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Os homens já não se lembram desta verdade – disse a raposa. – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa…
– Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.»


O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry (Tradução de Joana Morais Varela, Ed. Presença, pp. 66-74)

21
Ago17

Sem mais, sem menos

Rita PN
 
 
 

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Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco que exista alguém que a mais se eleve
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida,
envolto no sopro de um cobertor de memórias
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa sem tecto e paredes de papel onde o coração dormita.

 

Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo o quanto por ela passa
por mais ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem se nãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita;
Aos contornos, frequentemente largo
o amargo cheiro das pregas vazias.
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadados os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.

 

Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
E os que muito sentem, escolheram o rés-do-céu para viver.
E sonhar no centésimo andar, a contar do vale dos mortos.
Não creio que tenhamos nós mais do que eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir
sem sentir, que todos nós temos alguma coisa
entre nascer e morrer. Espaço cronológico que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos.
Mas temos. E dar-lhe-emos valor?

 

… é amor do Criador, o oxigénio que a todos brinda, por igual.

07
Ago17

Verão fúnebre

Rita PN

Oh pátria, herege pátria!
Passasse um cometa no teu rosto sepulcral…
Soasse longínqua a harpa de Orfeu
e chovesse, pela mão direita de Zeus,
sobre os teus cabelos de ouro,
águas mansas de cristal.
Deserta até ao osso,
trás o verão a morte à terra,
notas graves, cânticos de fogo,
severa estiagem, fundo sem posso
ventos mortais, cinzas na serra,
secas estivais, a sede impera…
- Ansiada quimera! – grita o Homem sem condenação,
assistindo ao enterro da Fénix,
cem vezes morta pela mesma nação.
Corações descalços caminham sobre a cinzas;
choram-se lágrimas cansadas sobre a semente do pão;
Heróis de cá e lá empenham as suas vidas
em cenários de horror e destruição.
(E tu a ver...)

 

Na Era do sabichão, letais são mãos da razão.

 

04
Ago17

Abandono

Rita PN

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Em terra de pouca sorte,
insípida p’las águas do pranto,
dizia o vento - que corria parado -
memórias cansadas,
ao entardecer da vida num banco
de praça, deserta e despida,
tricotando, incerta, a nudez
da memória de outrora, esquecida.

 

E à luz da janela improvável,
na cal já gasta esculpida,
vivia de língua amputada
o silêncio da despedida.

 

19
Jul17

Diz-me, o que é que te diferencia?

Rita PN

Vivemos, boa parte do tempo, julgando-nos - a nós e aos outros - sob parâmetros errados e pré-estabelecidos de ideais de sucesso e aptidões pessoais. 
Da mesma forma, são poucos os que não seguem o rebanho e param para refletir sobre qual é, afinal de contas, a sua genealidade. Essa característica inata, pautada por habilidades e talentos intrínsecos, capazes de tornar únicos os seus detentores. 

Ambicionar ser bom em tudo, sempre foi meio caminho para não se ser óptimo em nada. Aí reside a importância de nos questionarmos e apostarmos naquilo que nos pode, efetivamente, distinguir e fazer sobressair social e profissionalmente entre os demais: os nossos talentos inatos. A genealidade de cada um.

Diz-me, o que é que te diferencia?

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