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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Um voo com destino ao Futuro

 

 

8h45 – SALA DE EMBARQUE

 

Um homem lê o jornal.
Uma mulher amamenta o filho.
Duas crianças brincam e saltam por cima dos bancos.
Um casal idoso dás as mãos.
Um casal jovem mexe no telemóvel. Ela tira fotos, ele passa os olhos no facebook.
Duas amigas conversam.
Dois amigos comentam.
Um homem de negócios reponde a e-mails.
Uma mulher de negócios retoca a maquilhagem.
3 turistas trocam impressões à roda de um mapa.
Um rapaz dorme.
Um militar parece ansioso.
Um pai brinca com o filho.
Um avô conta uma história.
Uma menina encosta-se ao vidro e, em silêncio, segue com o olhar os aviões que aterram e os que descolam.
Alice, a mãe, apenas observa.

 

Ouve-se: “Primeira chamada para o voo com destino a Lisboa.”

 

A menina que observava aviões dirige-se ao segurança da porta de embarque:
- O meu avião vai para Lisboa?
- Sim.
- E de onde vêm todos os outros?
- Do mundo inteiro.
- E eu não posso ir para o mundo inteiro?
- Quando fores grande.
- Mas todos estes senhores são grandes e só vão para Lisboa…

 

Alice levanta-se e prepara-se para o embarque:


- Clarinha não aborreças o senhor, vamos?
- Mas mãe, tu disseste que íamos para o futuro…
- E vamos.
- O futuro fica em Lisboa?
- Por agora sim, quando fores grande ficará onde tu quiseres.
- NO MUNDO INTEIRO!!!
Oh mãe, acho que estes senhores estão enganados. Eles também vão para o futuro?
- Não Clarinha, vão apenas para Lisboa.
- Hmmm… para irem para o futuro eles precisam de ser pequenos outra vez não é?
- Talvez. Ou talvez precisem apenas de sonhar tanto quanto tu.

O caminho a seguir

Às costas carregava o tempo e nos pés os percalços do caminho. Não podia parar porque, embora de rosto voltado para trás, o relógio avançava e os ponteiros seguiam. E seguiam também os seu pés molhados, enregelados do frio, doridos do caminho, sentido cada pedra que pisavam, cada centímetro do chão. 

Sem permissão, entravam-lhe pelos olhos as paisagens, pessoas cruzavam o seu caminho e os sons exteriores quebravam o silêncio, quando só o seu coração se ouvia tum, tum,tum, tum; batimento certo, solitário porém, sem a musicalidade da vida.
Os ponteiros seguiam a um ritmo acelerado fazendo correr o tempo. Os pés acompanhavam e a vida alargava a passada parecendo, porém, não sair do mesmo sítio.
Olhava para trás a sombra, para a frente o relógio, para o presente os pés doridos e, à medida que se alteravam as paisagens, novos rostos surgiam, outros partiam, alguns, poucos, ficavam. Apesar das mudanças, em Artur permanecia a esperança de chegar onde a vontade queria, de conseguir alcançar o que a força permitia e de nunca deixar de lutar pelo que sempre acreditou que um dia seria possível.
Sabia que numa dada hora o relógio viraria, permitindo aos ponteiros olhar  para o mesmo caminho que os pés percorriam. O ritmo acertar-se-ia e Artur passaria a acompanhar o andar do tempo e o correr dos dias sem fugir da vida. Cortaria metas, abraçaria conquistas, ganharia as suas lutas e teria finalmente a certeza de que havia valido a pena molhar, gelar, arrastar e ferir os pés para o conseguir!


O caminho não tem fim, a não ser quando o tempo pára e se esgota o tum,tum,tum,tum que o faz viver.

Apesar dos percalços, Artur não desistiu dos seus sonhos e deixou-nos uma grande lição:
Enquanto houver pés para andar, força para lutar, vontade de conseguir, olhos para ver, coração para sentir e cabeça para pensar, o caminho a seguir vai ser aquele em que realmente se acreditar!

Bocas caladas. Mentes amarradas. Corações amordaçados.

 

Descia a avenida, quando ao longe avistei um enorme aglomerado de gente.
Uma multidão, termo comummente utilizado. Tão comum quanto aqueles que dela faziam parte.
Silenciosos. Estranhos entre eles – desconfio que estranhos a eles próprios também. Olhavam-se e entreolhavam-se, mas nada diziam – os que se olhavam. Já que a maioria baixava a cabeça naquele ato já banalizado de quem ignora os restantes. Olhavam para baixo. Para o umbigo, talvez. Na pior das hipóteses já haviam desistido da vida e, apenas existindo, olhavam para o chão.

Observava-os. Também eu calada, receando quebrar o silêncio daquela marcha muda de gente. Na verdade, nem sabia o que lhes poderia dizer. Pareciam alienados, cada um no seu mundo aparte dos restantes. Embora lado a lado.
Nada mais ouviam senão os seus próprios “Eu”. Pensamentos negativos, egos obesos, medos e problemas – vim a perceber mais tarde.
Ninguém ouvia sonhos, ambições, desejos, a força do querer, a voz da alegria e o nome da felicidade. Espantem-se agora, assim eu me espantei, ninguém conseguia ouvir o seu próprio bater do coração. Nas suas mentes ecoava somente o “eu”, “eu”, “eu”, de tal forma alto que ensurdeceram para o mundo.

No meio de tanta gente, aquele silêncio começava a tornar-se incómodo. Ninguém dizia nada a ninguém, no entanto mantinham-se juntos. Ninguém se afastava.
“Menina faça silêncio” – sussurrou-me alguém. “O seu coração bate muito alto, desconcentra-me.”

“Que raio de observação a sua... dizer que o meu coração bate muito alto. O seu é que sofre amordaçado. O meu coração bate ao volume necessário à vida e ao compasso que eu o fizer bater. Era o que mais faltava mandá-lo calar. E digo-lhe mais, se todos os corações tivessem a liberdade de se fazer ouvir, tal como eu permito ao meu que faça, imagine que bonita seria a melodia que se faria ouvir aqui! Mas vocês preferem o barulho ensurdecedor dos vossos egos e de tudo quanto há de negativo em vós. “

Segui adiante certa de que toda aquela gente, durante as suas vidas, haveria abafado a voz dos seus corações, com palavras mudas que nada mais teriam sido, senão a voz do medo de estarem sozinhas.
E ali estavam elas, juntas mas caladas, sendo o silêncio e o medo da solidão, o seu único elo de ligação.

Assim vai o mundo.

Bate coração, bate.

 

Lê-me como quem beija

 

 

Lê-me como quem beija e sente o toque das palavras na alma, o arrepio na pele e a suavidade nos lábios quando as lês. 

Lê-me como quem beija e deixa-te absorver por cada linha, em cada gesto escrito e descrito e em cada rasto sentido, deixado pelos dedos suaves de alguém ao escrever.

Lê-me como quem beija e deixa que os teus olhos pintem uma tela, um beijo em aguarela, ao sabor de um poema.
Lê-me como quem beija e sente o coração palpitar, a mente esvoaçar e o corpo tremer.

Lê-me como quem beija e deixa-te pelas linhas levar, sente os teus olhos a fechar de vagar e agora, a sonhar, relembra-me só mais uma vez. 

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