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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

29
Jan17

O livro do tempo

Rita PN

 

Do presente, não conhecia mais do que o momento exato. Nem uma hora para trás, nem cinco minutos adiante. Vivia entre o agarrar tremulamente o copo de água, o espaço que o separava dos lábios e entre a demora do vazio, desse mesmo copo, a ecoar novamente na bancada. 

Persistia nos vinte passos arrastados que o separavam do sofá onde o seu corpo, vago, caía e se deixava ficar. Diante dele, ocupando todo e qualquer espaço vazio, o presente.
A incapacidade de acompanhar o tempo, havia ao longo dos últimos anos, imposto uma longa distância entre Domingos e o filho, sentado um metro à sua esquerda.

«Ontem a tua mãe estava muito bonita. Mas hoje ainda não a vi. Que será dela?»

Madalena morrera durante o parto, quarenta anos antes; Duarte não chegara a conhecer a mãe.

«Ó pai, lá está você, a mãe já não se encontra entre nós.»

«Disparates. Só dizes disparates. Pensei eu que te fazias um homem, continuas igual. És tu e o Tó Zé do Edgar, ainda a semana passada lá estive na tasca, só disparates, um cachopo daqueles filho de boa gente. E tu vais pelo mesmo caminho.»

Tó Zé tinha agora 58 anos. E Domingos 83 a avaliar pelas muitas histórias contadas pelas rugas das suas mãos. Noutros tempos, era certo, quando a destreza era outra. Agora, já nem história tinha. Vivia a uma distância de 40 anos dos vinte passos arrastados que o separavam da realidade.
Estendeu lentamente o braço e concentrou-se na abertura dos dedos da mão. Agarrou no livro pousado na pequena mesa de apoio, à sua direita, e levou-o até si. Exatamente até si - escrito pelo filho Duarte, mal Domingos sabia que a história nele contada era também a sua.

«Gosta do livro pai?»

«Tem bom ar. Eu é que não tenho aqui os meus óculos, para ler qualquer coisinha.»

Aos olhos de Domingos, com ou sem a precisão das lentes, as letras nada mais eram do que aglomerados de linhas em páginas, todas elas iguais, sem sentido algum - assim lhe pesavam os dias. 

 

“E sem conhecer as histórias que o livro contava, voltou a esticar o braço, a concentrar-se na abertura dos dedos da mão e a pousá-lo na mesa de apoio, à sua direita.
Também o presente havia por ele sido deixado num qualquer recanto da sala, que julgo não saber precisar e que tão pouco voltará a viver." - Findos, o livro e mais um serão de domingo. 

 

28
Jan17

Três malas e eu, trinta e cinco degraus descendentes e um combóio

Rita PN

 

 

 

 

Fechei com cuidado a última mala - lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço, recentemente desguarnecido de qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Trinta e cinco degraus descendentes e um combóio para apanhar.

Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém havia deixado aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem, pensei.
«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»

Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela porta, para o interior. Pousei no chão as três malas, mais leves do que eu me sentia, e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.
«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»

Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas nos levarem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo combóio.
«Também os combóios são uma constante da vida.»

Um combóio, três malas e eu. Após trinta e cinco degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.
«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»

Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, 35 degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos.

26
Jan17

Amanhecer-te

Rita PN

Talvez fique por aqui
a olhar-te (de olhos fechados).
Talvez fique por aqui
a pensar-te (em silêncio).
Talvez fique somente por aqui
à espera que o sol se ponha e que a noite caia
e que queiras com ela cair
ao meu lado.
Talvez fique apenas por aqui,
ou talvez seja eu quem chegue
quando os teus olhos se abrirem e vires o sol a nascer.
Existem sonhos que só tens acordado.

26
Jan17

A melhor arma contra o ódio é o meu amor por ti

Rita PN

                        Imagem real. Cessar-fogo em Allepo, Síria. 22 de Outro de 2016

 

 

 

Troco todos os disparos pelo bater do teu coração. Troco o caos pelo sossego do teu peito e qualquer uma das minhas missões por uma só missão: fazer-te feliz.
Troco a guerra pela nossa paz e os meus gritos por sussurros ao teu ouvido. Troco a minha força bruta pelo sabor do toque suave na tua pele e pelo teu toque delicado, na minha.
Troco o desespero de milhares de mulheres e crianças, pela oportunide de poder fazer uma só mulher feliz, a minha mulher.

Troco o cenário de morte entre inocentes, culpados e inimigos, pela emoção de poder vir a assistir ao nascimento de um filho.
As noites mal dormidas em que acordo em sobressalto, troco-as por noites mal dormidas a dois. Os pesadelos pelos sonhos. O cenário de guerra e destruição, pelo erguer de uma casa - a nossa casa - crianças a correr, um cão a ladrar e nós abraçados a sorrir, perante tudo aquilo que juntos construímos e ao mundo trouxemos.
Troco os bombardeamentos aéreos pela beleza de um céu estrelado e pelo sorriso da lua ao teu lado.

 

Que seque a sede de vingança, estou sedento de te amar!

 
A arma, troco-a por um anel, a minha farda pelo teu vestido branco, no cantil já nascem flores de esperança e no meu rosto, outrora sisudo, um sorriso rasgado. Só o coração continua acelarado. 
Troco o necessário por uma felicidade capaz de reerguer toda esta cidade em ruínas - capacidade e poder que só o amor encerra.

Também já eu assim me senti, em ruínas, durante o tempo em que aqui não estiveste e sempre que fui eu quem não esteve aí. Quando pensei que o melhor para nós seria a separação. O teu mundo e o meu não combinavam, ou assim pensei ser. O teu sempre me cativou de tão belo e simples, delicado mas forte, repleto de sonhos e objetivos concretos, de pequenas coisas que aprendi a amar. O meu... do meu nem falemos.
Mas tu ficaste. Viste algo mais para além de um soldado, de uma farda, de uma mente formatada para ver em cada esquina um inimigo e dúvidar até da própria sombra. Graças a isso, o meu mundo agora é o teu. O nosso mundo.

Abdico de tudo pelo privilégio de viver o resto da minha vida ao teu lado. E ter-te do meu.
Quero que saibas que se um dia te considerei o meu ponto fraco, hoje sei-te o meu ponto forte. O melhor de mim.

Anda, vem comigo, há um lugar fantástico que só agora descobri. Um lugar onde só tu me soubeste levar, um lugar onde só tu soubeste chegar e onde pretendo que fiques.
Anda, vem comigo. O meu coração é já aqui.

24
Jan17

A ti, Porto

Rita PN

Fotografia de Rita Palma Nascimento

    Fotografia de Rita Palma Nascimento

 

 

 

Enquanto não existe amanhã...
Percorro-te as ruas, cruzo-te as esquinas, absorvo cada rasgo de luz por entre ruas e ruelas, travessas escondidas.
Quando desço a avenida sou pequena. Tão pequena e tu tão imponente. Escultural, perfeito de ambos os lados, Aliados.
Alegre passeio p'lo Passeio Alegre, onde me levam os carris de histórias tantas, do Infante até à Foz, dando voz a tempos idos. Elétrico caminho, assim, devagarinho, para te apreciar mais um pouco.
Um olhar pintado a aguarela.
D'ouro são as tuas àguas, aquelas que D.Luís atravessa, unindo-te à outra margem de onde te volto a contemplar, como uma criança à janela. Nova tela a aguarela.
Aos Rabelos confias o teu sangue, que o mundo bebe e na outra margem descansa. Entre Calem, Sandman, Offley e tantos outros, o Porto bebe-se Tawny ou Ruby.
A Gaia tanto confias, mas o encanto volta a ser teu.
Sem palavras para a Ribeira, perco-me na tua beira e guardo-te no olhar.
Sei que já vos levei à Foz, só não vos falei do mar atróz e fascinante. Silêncio, só se ouve o teu canto, cem turistas num recanto chamado farol. Intimidados com tamanha rebeldia, tiram-te mais uma fotografia e tu agradeces, rebentando.
Tens a Música em Casa e na Lello as tuas histórias, tens em Serralves o pulmão, a arte no Rivoli e a frescura no Bolhão. Santa Catarina sobe e desce, até á hora em que adormece e se muda a direção.
E à luz do Sol ou da Lua, eu já me sinto tua e não me canso de ti.
Por ruas, ruelas e calçadas o teu encanto nunca se apaga, seja de dia ou adiante... e já é de madrugada.

23
Jan17

Ela

Rita PN

Nunca precisarás da cor dos seus olhos, se a olhares para além deles. Nunca precisarás do contorno do seu rosto, mas sim do esboçar do seu sorriso. Não te sentirás sozinho se não ouvires a sua voz, mas sentir-te-ás sim, se não lhe sentires o coração.

Nunca te sentirás perdido mesmo que a percas de vista, se for nela que te encontras. Nem nunca caminharás só, porque a terás sempre ao teu lado.

Por vezes o vento sopra, é verdade, aproveita-o e vê como lhe remexe ele os cabelos e lhe toca suave a pele. Por vezes chove, mas repara como ela dança na chuva.

Nunca sentirás a sua falta, poderás sim, sentir a falta do seu coração, porque é lá que irás morar. Irás sentir muitas vezes que o silêncio fala e ouvirás nele a voz doce dos seus sonhos. Da menina que a dormir ou acordada fecha por momentos os olhos e torna tudo real. Mas nunca irás sentir falta dela, poderás sim, sentir s falta de quem ela te fazia sentir.

E um dia vais olhar para trás, não conseguirás ver mais do que meia duzia de pegadas e ela será capaz de retirar de todas elas a melhor imagem, de todo o caminho os melhores momentos, conseguirá escrever toda a história na estrelas e pedir ao Sol que se ponha, apenas para a deixar essa história brilhar. Pedirá ao mar que cante para ti se a voz lhe falhar, à Lua que te sorria caso ela esteja a chorar e ao mundo que te proteja, se algum dia ela falhar.

E como tudo na vida tem um lado bom, é para esse que ela te ensinará a olhar É desse que ela vai estar.

Pára agora para reparar! 

22
Jan17

Num sonho meu

Rita PN

Respiro
Efémeros instantes de viagens inacabadas
onde o sonho é o meu sangue efervescente
de irrealidades reais, 
Que me moldam o corpo e me despem a alma
me deslizam as vestes e me rasgam a calma
Se me dou às minhas asas… 
Nem tempo tenho para morrer.

 

Não caibo em mim, nem nos meus braços
por mil palmos de céu abraçados,
Mares salgados entranhados
poro a poro na minha pele.
Inspirados,
esses sonhos desvendados que me navegam nas veias
ao sabor das marés palpitantes
(Que passam rés)
Do pleno estado de felicidade que sou.

 

Abro os olhos
Estou além…
Viajante inacabada. Incansável sonhadora. Insaciada de sentir
que o sangue que em mim corre
tem o cheiro, tem a cor e o sabor do sonho 
que é ser feliz.

21
Jan17

O artesão de poemas

Rita PN

 

O meu avô Alberto era artesão. E poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Utilizava, por isso, matéria bruta e retirava da vida a inspiração necessária para cada nova criação.

Era eu ainda criança quando o vi, pela primeira vez, abraçar um tronco de madeira, trazido pelo lenhador lá da aldeia, o senhor Carvalho – coincidência ou presságio à nascença, visto não lhe serem conhecidos antepassados com o mesmo desígnio.

«Alberto, este é íntegro o suficiente para ti. Não merece a morte pelas cinzas. Dá-lhe vida, ancião.»

E o meu avô segurou cuidadosamente nos braços aquilo que, para mim, não era mais do que um pedaço de madeira grande e pesado. Os seus olhos fixaram-no, ternurentos, como quando olhavam para mim. Tive a sensação de que embalava uma criança. C’os diabos, que imaginação a minha, aquilo era só um tronco morto e sem vida.

«Entenderás a seu tempo a poesia da vida, meu rapaz.»

Pousou o tronco e afagou-lhe o dorso, suavemente, como quem desperta os sonhos das mãos.

«Não te sinto o coração velho madeiro. Mas dar-te-ei o meu.»

E foi assim que vi nascer o que na altura não entendia - A poesia, esculpida pelas mãos do meu avô.

«Clarice. Clarice, a tua avó meu rapaz.»

O meu avô Alberto era artesão. E poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Esculpiu os mais bonitos poemas, entre os quais a minha avó, que nunca cheguei a conhecer.
O meu avô Alberto não sabia ler, mas sentia. E sentir foi o que fez dele o maior poeta da nossa aldeia e o maior mestre artesão da história daquele lugarejo.

«A poesia não são palavras que rimam meu rapaz. São palavras que se sentem. Eu e a tua avó fomos poesia e os nossos nomes não rimavam.»

 

Desenganem-se aqueles que no papel, esculpem versos pomposos sem os sentir realmente por dentro.

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