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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

O livro do tempo

 

Do presente, não conhecia mais do que o momento exato. Nem uma hora para trás, nem cinco minutos adiante. Vivia entre o agarrar tremulamente o copo de água, o espaço que o separava dos lábios e entre a demora do vazio, desse mesmo copo, a ecoar novamente na bancada. 

Persistia nos vinte passos arrastados que o separavam do sofá onde o seu corpo, vago, caía e se deixava ficar. Diante dele, ocupando todo e qualquer espaço vazio, o presente.
A incapacidade de acompanhar o tempo, havia ao longo dos últimos anos, imposto uma longa distância entre Domingos e o filho, sentado um metro à sua esquerda.

«Ontem a tua mãe estava muito bonita. Mas hoje ainda não a vi. Que será dela?»

Madalena morrera durante o parto, quarenta anos antes; Duarte não chegara a conhecer a mãe.

«Ó pai, lá está você, a mãe já não se encontra entre nós.»

«Disparates. Só dizes disparates. Pensei eu que te fazias um homem, continuas igual. És tu e o Tó Zé do Edgar, ainda a semana passada lá estive na tasca, só disparates, um cachopo daqueles filho de boa gente. E tu vais pelo mesmo caminho.»

Tó Zé tinha agora 58 anos. E Domingos 83 a avaliar pelas muitas histórias contadas pelas rugas das suas mãos. Noutros tempos, era certo, quando a destreza era outra. Agora, já nem história tinha. Vivia a uma distância de 40 anos dos vinte passos arrastados que o separavam da realidade.
Estendeu lentamente o braço e concentrou-se na abertura dos dedos da mão. Agarrou no livro pousado na pequena mesa de apoio, à sua direita, e levou-o até si. Exatamente até si - escrito pelo filho Duarte, mal Domingos sabia que a história nele contada era também a sua.

«Gosta do livro pai?»

«Tem bom ar. Eu é que não tenho aqui os meus óculos, para ler qualquer coisinha.»

Aos olhos de Domingos, com ou sem a precisão das lentes, as letras nada mais eram do que aglomerados de linhas em páginas, todas elas iguais, sem sentido algum - assim lhe pesavam os dias. 

 

“E sem conhecer as histórias que o livro contava, voltou a esticar o braço, a concentrar-se na abertura dos dedos da mão e a pousá-lo na mesa de apoio, à sua direita.
Também o presente havia por ele sido deixado num qualquer recanto da sala, que julgo não saber precisar e que tão pouco voltará a viver." - Findos, o livro e mais um serão de domingo. 

 

Três malas e eu, trinta e cinco degraus descendentes e um combóio

 

 

 

 

Fechei com cuidado a última mala - lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço, recentemente desguarnecido de qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Trinta e cinco degraus descendentes e um combóio para apanhar.

Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém havia deixado aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem, pensei.
«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»

Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela porta, para o interior. Pousei no chão as três malas, mais leves do que eu me sentia, e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.
«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»

Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas nos levarem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo combóio.
«Também os combóios são uma constante da vida.»

Um combóio, três malas e eu. Após trinta e cinco degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.
«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»

Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, 35 degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos.

Amanhecer-te

Talvez fique por aqui
a olhar-te (de olhos fechados).
Talvez fique por aqui
a pensar-te (em silêncio).
Talvez fique somente por aqui
à espera que o sol se ponha e que a noite caia
e que queiras com ela cair
ao meu lado.
Talvez fique apenas por aqui,
ou talvez seja eu quem chegue
quando os teus olhos se abrirem e vires o sol a nascer.
Existem sonhos que só tens acordado.

A melhor arma contra o ódio é o meu amor por ti

                        Imagem real. Cessar-fogo em Allepo, Síria. 22 de Outro de 2016

 

 

 

Troco todos os disparos pelo bater do teu coração. Troco o caos pelo sossego do teu peito e qualquer uma das minhas missões por uma só missão: fazer-te feliz.
Troco a guerra pela nossa paz e os meus gritos por sussurros ao teu ouvido. Troco a minha força bruta pelo sabor do toque suave na tua pele e pelo teu toque delicado, na minha.
Troco o desespero de milhares de mulheres e crianças, pela oportunide de poder fazer uma só mulher feliz, a minha mulher.

Troco o cenário de morte entre inocentes, culpados e inimigos, pela emoção de poder vir a assistir ao nascimento de um filho.
As noites mal dormidas em que acordo em sobressalto, troco-as por noites mal dormidas a dois. Os pesadelos pelos sonhos. O cenário de guerra e destruição, pelo erguer de uma casa - a nossa casa - crianças a correr, um cão a ladrar e nós abraçados a sorrir, perante tudo aquilo que juntos construímos e ao mundo trouxemos.
Troco os bombardeamentos aéreos pela beleza de um céu estrelado e pelo sorriso da lua ao teu lado.

 

Que seque a sede de vingança, estou sedento de te amar!

 
A arma, troco-a por um anel, a minha farda pelo teu vestido branco, no cantil já nascem flores de esperança e no meu rosto, outrora sisudo, um sorriso rasgado. Só o coração continua acelarado. 
Troco o necessário por uma felicidade capaz de reerguer toda esta cidade em ruínas - capacidade e poder que só o amor encerra.

Também já eu assim me senti, em ruínas, durante o tempo em que aqui não estiveste e sempre que fui eu quem não esteve aí. Quando pensei que o melhor para nós seria a separação. O teu mundo e o meu não combinavam, ou assim pensei ser. O teu sempre me cativou de tão belo e simples, delicado mas forte, repleto de sonhos e objetivos concretos, de pequenas coisas que aprendi a amar. O meu... do meu nem falemos.
Mas tu ficaste. Viste algo mais para além de um soldado, de uma farda, de uma mente formatada para ver em cada esquina um inimigo e dúvidar até da própria sombra. Graças a isso, o meu mundo agora é o teu. O nosso mundo.

Abdico de tudo pelo privilégio de viver o resto da minha vida ao teu lado. E ter-te do meu.
Quero que saibas que se um dia te considerei o meu ponto fraco, hoje sei-te o meu ponto forte. O melhor de mim.

Anda, vem comigo, há um lugar fantástico que só agora descobri. Um lugar onde só tu me soubeste levar, um lugar onde só tu soubeste chegar e onde pretendo que fiques.
Anda, vem comigo. O meu coração é já aqui.

A ti, Porto

Fotografia de Rita Palma Nascimento

    Fotografia de Rita Palma Nascimento

 

 

 

Enquanto não existe amanhã...
Percorro-te as ruas, cruzo-te as esquinas, absorvo cada rasgo de luz por entre ruas e ruelas, travessas escondidas.
Quando desço a avenida sou pequena. Tão pequena e tu tão imponente. Escultural, perfeito de ambos os lados, Aliados.
Alegre passeio p'lo Passeio Alegre, onde me levam os carris de histórias tantas, do Infante até à Foz, dando voz a tempos idos. Elétrico caminho, assim, devagarinho, para te apreciar mais um pouco.
Um olhar pintado a aguarela.
D'ouro são as tuas àguas, aquelas que D.Luís atravessa, unindo-te à outra margem de onde te volto a contemplar, como uma criança à janela. Nova tela a aguarela.
Aos Rabelos confias o teu sangue, que o mundo bebe e na outra margem descansa. Entre Calem, Sandman, Offley e tantos outros, o Porto bebe-se Tawny ou Ruby.
A Gaia tanto confias, mas o encanto volta a ser teu.
Sem palavras para a Ribeira, perco-me na tua beira e guardo-te no olhar.
Sei que já vos levei à Foz, só não vos falei do mar atróz e fascinante. Silêncio, só se ouve o teu canto, cem turistas num recanto chamado farol. Intimidados com tamanha rebeldia, tiram-te mais uma fotografia e tu agradeces, rebentando.
Tens a Música em Casa e na Lello as tuas histórias, tens em Serralves o pulmão, a arte no Rivoli e a frescura no Bolhão. Santa Catarina sobe e desce, até á hora em que adormece e se muda a direção.
E à luz do Sol ou da Lua, eu já me sinto tua e não me canso de ti.
Por ruas, ruelas e calçadas o teu encanto nunca se apaga, seja de dia ou adiante... e já é de madrugada.

Ela

Nunca precisarás da cor dos seus olhos, se a olhares para além deles. Nunca precisarás do contorno do seu rosto, mas sim do esboçar do seu sorriso. Não te sentirás sozinho se não ouvires a sua voz, mas sentir-te-ás sim, se não lhe sentires o coração.

Nunca te sentirás perdido mesmo que a percas de vista, se for nela que te encontras. Nem nunca caminharás só, porque a terás sempre ao teu lado.

Por vezes o vento sopra, é verdade, aproveita-o e vê como lhe remexe ele os cabelos e lhe toca suave a pele. Por vezes chove, mas repara como ela dança na chuva.

Nunca sentirás a sua falta, poderás sim, sentir a falta do seu coração, porque é lá que irás morar. Irás sentir muitas vezes que o silêncio fala e ouvirás nele a voz doce dos seus sonhos. Da menina que a dormir ou acordada fecha por momentos os olhos e torna tudo real. Mas nunca irás sentir falta dela, poderás sim, sentir s falta de quem ela te fazia sentir.

E um dia vais olhar para trás, não conseguirás ver mais do que meia duzia de pegadas e ela será capaz de retirar de todas elas a melhor imagem, de todo o caminho os melhores momentos, conseguirá escrever toda a história na estrelas e pedir ao Sol que se ponha, apenas para a deixar essa história brilhar. Pedirá ao mar que cante para ti se a voz lhe falhar, à Lua que te sorria caso ela esteja a chorar e ao mundo que te proteja, se algum dia ela falhar.

E como tudo na vida tem um lado bom, é para esse que ela te ensinará a olhar É desse que ela vai estar.

Pára agora para reparar! 

Num sonho meu

Respiro
Efémeros instantes de viagens inacabadas
onde o sonho é o meu sangue efervescente
de irrealidades reais, 
Que me moldam o corpo e me despem a alma
me deslizam as vestes e me rasgam a calma
Se me dou às minhas asas… 
Nem tempo tenho para morrer.

 

Não caibo em mim, nem nos meus braços
por mil palmos de céu abraçados,
Mares salgados entranhados
poro a poro na minha pele.
Inspirados,
esses sonhos desvendados que me navegam nas veias
ao sabor das marés palpitantes
(Que passam rés)
Do pleno estado de felicidade que sou.

 

Abro os olhos
Estou além…
Viajante inacabada. Incansável sonhadora. Insaciada de sentir
que o sangue que em mim corre
tem o cheiro, tem a cor e o sabor do sonho 
que é ser feliz.

O artesão de poemas

 

O meu avô Alberto era artesão. E poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Utilizava, por isso, matéria bruta e retirava da vida a inspiração necessária para cada nova criação.

Era eu ainda criança quando o vi, pela primeira vez, abraçar um tronco de madeira, trazido pelo lenhador lá da aldeia, o senhor Carvalho – coincidência ou presságio à nascença, visto não lhe serem conhecidos antepassados com o mesmo desígnio.

«Alberto, este é íntegro o suficiente para ti. Não merece a morte pelas cinzas. Dá-lhe vida, ancião.»

E o meu avô segurou cuidadosamente nos braços aquilo que, para mim, não era mais do que um pedaço de madeira grande e pesado. Os seus olhos fixaram-no, ternurentos, como quando olhavam para mim. Tive a sensação de que embalava uma criança. C’os diabos, que imaginação a minha, aquilo era só um tronco morto e sem vida.

«Entenderás a seu tempo a poesia da vida, meu rapaz.»

Pousou o tronco e afagou-lhe o dorso, suavemente, como quem desperta os sonhos das mãos.

«Não te sinto o coração velho madeiro. Mas dar-te-ei o meu.»

E foi assim que vi nascer o que na altura não entendia - A poesia, esculpida pelas mãos do meu avô.

«Clarice. Clarice, a tua avó meu rapaz.»

O meu avô Alberto era artesão. E poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Esculpiu os mais bonitos poemas, entre os quais a minha avó, que nunca cheguei a conhecer.
O meu avô Alberto não sabia ler, mas sentia. E sentir foi o que fez dele o maior poeta da nossa aldeia e o maior mestre artesão da história daquele lugarejo.

«A poesia não são palavras que rimam meu rapaz. São palavras que se sentem. Eu e a tua avó fomos poesia e os nossos nomes não rimavam.»

 

Desenganem-se aqueles que no papel, esculpem versos pomposos sem os sentir realmente por dentro.

A caminho do céu

 

 

Tenho um baloiço de corda suspenso uma nuvem.
É do alto do seu voo que te observo, docemente suspensa. Os sonhos parecem maiores quando vistos daqui. E tu, tão mais pequeno – como eu, quando dele desço e olho para cima. Reparo que também o fazes. 
Irei trazer-te cá, para comigo sonhares mais alto. Prometo.
Mas hoje não. Estou com pressa para descer.

 

Aqui em baixo tenho uns sapatos de sato alto que uso quando quero ser mulher.
Comecei descalça, mas a visão rasteira e nivelada não me permitia olhar além do horizonte mais comum – esse que todos os pares de olhos alcançam. Aprendi então, a equilibrar-me a seis centímetros do chão, travando guerras e batalhas com que a vida constantemente me desafia. Estender o campo de visão, é outra das mais-valias destes sapatos. – Qual guerreiro a cavalo.
Hei-de mostrar-tos quando me cruzar contigo no final do dia. Altura em que saio de cena, tiro os sapatos e calço todos os segredos que há por revelar em mim. Não tentes, porém, descalçar-me. Prefiro levar-te ao baloiço.

 «É durante a subida que sinto mais do que quilo que quero, talvez menos do que seja capaz.»

Sento-me contigo no meu baloiço, agarro as cordas da vida com força e dou balanço ao corpo, consciente de que cada recuo nos fará subir mais alto depois. 

«É daqui que se sonha e ainda não chegámos ao céu.»

Vejo as tuas mãos agarrarem, ligeiramente acima das minhas, as mesmas cordas. E sinto o teu corpo balançar, agora, ao ritmo do meu. Entre avanços e recuos, subimos mais alto e tocamos o céu.
Caem-me dos pés os segredos, que te havia pedido para não descalçares. E tu reparas. E sorris ao interpelar-me: Não me mostraste os sapatos!

 

« Preferi os sonhos. Os sapatos nunca nos trariam ao céu.»

Desajeitado

Que alegria é esta que hoje visto?
Que fato é este que hoje ostento?
Se tudo na vida é passagem
Se nada que sou é talento…

 

Calcei sapatos escuros
Cada passo é duvidar
Quando a alegria é bilhete de ida,
A queda é forma de voltar.
Dos meus passos e das asas da vida,
Cedo aprendi a cismar
Do que me tira a lucidez,
Eu só penso em acordar.

 

Mas é tal o bem que me sinto
Que me deixo ir por avidez,
Embarco eu no teu sorriso
Perdes tu a timidez.
Só desta vez.
Só mais uma vez.
É a última vez.

Entrevista com Mariana Brito Lança

Hoje partilho convosco a primeira entrevista neste blog. 
Pedi à Mariana que nos contasse uma história, ela abriu-nos o seu mundo. 

Autora da página Ponto de Rebuçado https://www.facebook.com/Ponto-de-Rebu%C3%A7ado-953571698108049/?fref=ts  que, antecipadamente, vos convido a visitar, Mariana Brito Lança, terapeuta da fala de profissão, tem 27 anos e é natural de Beja. Mantém com as palavras uma relação de amizade - que adjetiva compulsiva - reconhecendo que a paixão que por elas nutre "assumiu proporções deliciosamente desastrosas".

 

[Rita] - Quando e como começou a tua relação com as palavras?

[Mariana] - O início da minha relação com as palavras não teve propriamente uma data. Não as encontrei como quem esbarra com o amor numa esquina. Sinto que, no fundo, elas sempre estiveram lá. Antes de mim, até. A minha avó é poetiza, o meu pai seguiu-lhe os passos e eu, desde pequenina, cresci sensível às palavras e às emoções que carregam.

 

[Rita] - De que forma as tuas vivências e o teu crescimento influenciam tanto o que lês quanto o que escreves? 

[Mariana] - Sempre ouvi dizer que para se escrever é preciso ler muito. Curiosamente, e apesar de gostar de ler, não me lembro de ser uma devoradora de livros. Lembro-me do prazer da leitura, da viagem da interpretação, lembro-me dos bancos da escola e como a professora de português espicaçava em mim a paixão da palavras. Contudo, foi com o “tornar-me adulta” que esta paixão assumiu proporções deliciosamente desastrosas. A escrita, em mim, começou a dar os primeiros passos como forma de catarse, como se precisasse dela, e só dela, para os momentos mais desafiantes da minha vida. A escrita começou por ser uma grande amiga, compulsiva. Leio por lazer, escrevo por necessidade e imenso prazer.

 

[Rita] - O que é que mais te atrai no teu processo criativo, o mundo sonhado e utopias, o mundo real ou ambos? 

[Mariana] - As minhas utopias abraçam sempre o real. Não sei fugir de mim, mesmo quando sonho ser o que vai para além do que me caracteriza. Aquilo que me fascina na escrita é isso mesmo: poder voar para fora do que sou, deixando em cada linha um travo da pessoa que trago dentro.

 

[Rita] - As personagens que crias são muitas vezes de carne e osso. Algumas são uma projeção de ti mesma e as restantes? 

[Mariana] - Ainda estou num processo de introdução à escritora que mora em mim. Fomos apresentadas há pouco tempo e ainda nos estamos a conhecer. Posso dizer, neste momento, que a MBL existe em cada uma das suas personagens. A sua rebeldia, neste aspeto, é incansável. As personagens que construo estão, maioritariamente, ligadas às minhas vivências internas e vestem a pele das pessoas que no dia-a-dia me tocam.

 

[Rita] - Dos muitos livros que certamente já leste, qual foi o que mais te marcou e porquê? 

[Mariana ] - Esta pergunta não se faz. Cada livro é uma viagem e eu ainda agora apanhei o comboio. Espontaneamente, aquilo que me vem à cabeça: Maleza. Maleza, a minha avó. Leio e releio as suas obras, e consigo viajar sempre um bocadinho mais longe.

 

[Rita] - Quais os escritores que são para ti uma referência? 

[Mariana] - Alberto Caeiro. Não há até à data pessoa que mexa mais comigo, que entre em mim de forma mais arrebatadora. Assumidamente apaixonada

 

[Rita] - Dá-me o teu parecer relativo ao atual panorama literário português.

[Mariana] - A escrita em português é das coisas mais bonitas e tocantes de se ler. A nossa língua dá ainda mais alma às palavras, talvez pelo choradinho do fado que embala esta poesia de ser português. Temos, no nosso baú literário, tesouros incríveis. E, nos tempos que correm, somos assaltados por génios de palavras que substituíram a pena pelo ecrã tátil. Eras diferentes, a  mesma alma: a portuguesa.

 

[Rita] - Consideras que os meios de divulgação digitais são um suporte importante para a divulgação do que muito se escreve em Portugal? 

[Mariana] - A era digital “rasgou” os livros com cheiro a biblioteca mas trouxe-nos a possibilidade de ter em casa a mesma imensidão literária, só que sem capa. Grandes e (mais) pequenos, todos temos lugar na biblioteca do mundo.

 

[Rita] - De que forma gostavas de ver o teu trabalho chegar ao público? Abordas sobretudo vivências. Qual é a tua principal preocupação ao transmitir a mensagem? Que sentimentos tencionas despertar no leitor? 

[Mariana] - A divulgação do meu trabalho surge a pedido do meu público. Algo que inicialmente era só meu começou a querer saltar cá para fora, motivado pelos ouvintes mais atentos das minhas palavras caladas, palavras essas que pelos vistos gritaram alto de mais. Que sentimentos tenciono despertar? Um turbilhão deles basta-me. Só exijo dos outros aquilo que também dou.

 

[Rita] - Tens aspirações maiores no que à escrita diz respeito? Pensas em editar ou em desenvolver projetos ligados à literatura e à escrita? 

[Mariana] - Para já, aspiro continuar apaixonada. Quem sabe se desta paixão, sem reticências ou pontos finais, não resulta um romance? Até lá, saboreio o momento.

 

Obrigada Mariana, foi um gosto ter-te aqui!

 

 

A casa

 

 

Ao cimo da rua uma casa.
Paredes brancas e muita luz. Num recanto, a lareira antevém ardentes noites de inverno; ao fundo, um quintal onde os pequenos semeiam alegria e os mais crescidos colhem amor nas noites de lua cheia. 
Ao cimo da rua uma casa. 
Três quartos no primeiro andar - o nosso, o dela e o dele. Falta um para o terceiro que está para chegar. Temos tempo e com tempo tudo se ajeita.
No rés-do-chão a cozinha, ampla, onde as horas passam a voar, e os cheiros se misturam com o amor que transborda da cafeteira, sempre que pela manhã, ele lhe prepara o café.  
Lá fora, as sonoras gargalhadas das crianças, o cachorro a ladrar e a mesa posta - é domingo, dia de almoço em família.

Ao cimo da rua uma casa. Paredes de felicidade. Telhado de afeto e carinho. O chão, esse era d’amor.
Se desciam a rua, as mãos sempre dadas, os sorrisos rasgados e a alegria de quem nada exige da vida, a mais que felicidade. São 4 e um cachorro. Em breve serão 5 e um cão.
Já foram dois e subiam a rua. A mesma rua e as mesmas mãos entrelaçadas, o mesmo sorriso, a mesma alegria. Ao cimo, ainda não existia uma casa, mas a lua sempre fora encantadora quando vista dali.

Hoje, subi a rua e não encontrei a casa.Não nos vi a nós, nem tão pouco ouvi ninguém. Na verdade, não sei por quem procurava. 

Abri os olhos, acordei - são 7 horas da manhã e eu estou novamente a sonhar.

Mais um dia a começar.

 

Na voz de um homem

 

 

Desculpa o atraso.
És sempre tão pontual e eu chego sempre atrasado, por vezes nem compareço. Desculpa o atraso, mas estive sempre ocupado. O trabalho e os meus afazeres diários. A rotina. A falta de tempo.
Desculpa o atraso nos “bons dias" e todos aqueles dias em que nem tos dei. Os teus chegavam sempre a horas.
Desculpa o atraso nas respostas às tuas mensagens, à tua presença, à tua atenção. Desculpa por todas as vezes em que não foste prioridade, mesmo em plena consciência de que, na maioria das vezes, eu sempre fui a tua.

 

Desculpa por todas as vezes em que não retribui os teus sorrisos abertos, o conchego do teu abraço e a doçura contidada em cada beijo teu.
O trabalho e a falta de tempo, ou todo o tempo que deixei passar embrenhado nos meus pensamentos, à volta de mim mesmo e fugi. Não de ti, mas de mim, do meu subconsciente que me dizia que eras tu quem eu queria ao meu lado, que eras tu quem me trazia tudo aquilo que sempre desejei, que eras tu quem ali estava sem qualquer obrigação, sempre à hora certa - nunca foi o momento errado.

 

Por fraqueza fugi. Porque sou fraco e tu és forte. Mas não tão forte que te seja indispensável a presença e o carinho de alguém, o conforto e o apoio nos momentos difíceis. E eu sou fraco e fujo, por cobardia, ao pensar que não sei como apoiar uma mulher que é dona de uma força soberba e que tanto admiro e que, apesar da muralha que construíu, ainda consegue ser doce, meiga, delicada e ter um dom comum a poucas, ser Mulher com letra grande.

 

Desculpa por todas as vezes em que não te olhei com medo de ver em ti o que sabia que iria encontrar. Por ver em ti os meus pontos fracos. Por te saber o meu ponto forte.
Desculpa o meu atraso sempre que precisaste de mim, e desculpa-me ainda mais as vezes em que nem cheguei.
Desculpa os momentos intensos que não vivemos, os passeios que não fizemos, as aventuras que não partilhámos, todas as noites em que não olhámos juntos para o céu nem adormecemos lado a lado.

 

Tu és a amiga, a amante e a mulher que sempre quis e eu só agora tive a certeza disso. E mais uma vez já venho atrasado.
Desculpa por não te ter levado a ver o mar, o por do sol e a lua, sei o quanto gostas. Mas ainda vamos a tempo. Prometo não me atrasar desta vez.

 

Desculpa por ser eu o meu próprio centro de atenções e desatento, não interpretar os teus sinais.
Tu chegas sempre a horas para tudo e mais alguma coisa, antecipadamente até para algumas. Tu chegas lá e fazes. E eu, cobarde, deixei tanto por fazer e dizer.

 

Só agora percebi que nos teus olhos vejo os meus, que no teu sorriso encontro o motivo do meu, que em ti encontro o que sempre procurei - e do qual andei a fugir todo este tempo. 

Desculpa-me por me achar fraco, por todas as idas e vindas, por todos os meus atrasos e pelas vezes que nem cheguei. Desculpa por me ter sido necessário já aqui não estares, para que eu percebesse que só permaneço estável, íntegro e completo ao pé de ti.

 

Desculpa, mais uma vez cheguei atrasado para dizer que Te Amo.

Sei que já aqui não estás, mas espero ainda ter vindo a tempo. Mesmo que te atrases, hoje sou eu quem espera por ti.

Sou um corpo de emoções

Sou um corpo de emoções 
Desenhado por tudo o que sinto,
Limitado pelas tentações
A que não cedo, mas que pressinto.
Sou menina na minha aparência
Sou um sonho por alcançar
Sou mulher no meu viver
Sou o mistério por desvendar.
Sou frágil na minha figura
E leve se o medo perder
De assim me entregar,
Às asas do que posso viver.

Na nudez do meu silêncio,
Sou tudo o que em mim desenhei
Tudo aquilo que sinto,
Muito do que nunca direi.
Vestida nas minhas palavras
Surjo aos olhos de quem me lê,
Na transparência de uma imagem
Sou aquilo que se vê.

Por falar em amizade

 

 

Sete biliões de habitantes na terra e tu contas pelos dedos as pessoas que te cativaram realmente.

 

Muitas são as pessoas que passam pela nossa vida, poucas são aquelas que acabam por ficar. Muitas são aquelas que conheces, com quem até podes ir beber uns copos de vez em quando, mas poucas são aquelas a quem realmente chamas AMIGO.

 

São ainda mais aquelas com quem falas, mas são poucas aquelas com quem conversas. Muitas estão só de passagem, outras trazem as malas consigo e ficam. Dentro delas trazem tudo o que são, para além da aparência. Trazem a sua personalidade, as suas ideias e ideais, objetivos e visão do mundo, da vida e dos dias. São essas que te acrescentam alguma coisa, que têm qualquer coisa para dar, que te mostram um outro lado das coisas, que te fazem ver a vida de um outro ângulo, que te conseguem fazer pensar de forma diferente daquela a que estás habituado, que pegam num problema teu e o minimizam, mostrando-te o quanto mais o mundo tem para te oferecer, mostrando-te que basta um sorriso teu para mudar o dia - tudo tem um lado bom, ou menos mau.

 

São essas que te dão uma outra perspetiva daquilo que vês. São mais do que o ir beber um copo, mais do que uma conversa banal, mais do que um conhecimento, são pessoas que vale a pena conhecer. São as que não estão de passagem, mas que ficam sem qualquer obrigação. Aquelas em quem podes confiar, aquelas com quem te podes abrir, aquelas com quem podes contar realmente. Porque essas, dão-te aquilo que são, e muitas vezes o que são é um infinito. Mesmo que aches de mais. Já há tantas que são de menos.

 

E são estas que são capazes de te ensinar a remar quando não existe vento, que te puxam as orelhas quando és teimoso, que te obrigam a abrir os olhos quando vives com eles semicerrados, que te dão um abraço quando precisas, ou mesmo sem precisares. São as que estão porque querem estar. São aquelas que não te dizem o que queres ouvir, mas sim o que precisas de ouvir. São reais.

 

Uma pessoa é sempre mais do que a sua aparência, é aquilo que pensa, aquilo que vê e a maneira como vê, a forma como marca a diferença, a sua personalidade e postura, aquilo que tem para dar sem pensar em receber. Porque aos verdadeiros sempre bastou um sorriso nosso.

 

Muitos são aqueles que conheces. Poucos são aqueles que se importam e a quem podes chamar AMIGO.




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  23. S
  24. O
  25. N
  26. D