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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

20
Fev17

Amantes no tempo

Rita PN

 

 

Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam.
Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.
 
- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - nem qual o destino que os espera. Toda a vida vivi intensamente, cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje - já calejado da vida - me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, o volume dos seios e a carne dos lábios, de olhos fechados.
 
Eurico rodou o banco, de lona verde escura, ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele - com a ponta do meu indicador - e lhe medisse a profundidade.
Quanto mais profunda, mais longa era.
 
- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir, para além de ti e de um vazio que nunca poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal, sempre que na demora da ausência, recordares uma mulher e - de olhos fechados - lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não amar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.
 
Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.
 
- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.
 
Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:
 
- Deve ser ali o lugar para onde vão, para o sítio onde o sol se põe. Com a pressa de chegar, nem reparam como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!
 



Há quem por ti passe tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.

Rita

20
Fev17

Meu amor

Rita PN

Morro-te. Não te cumpri.
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas,
me desviaram de ti.

Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento
que viste partir.

Morremos. Não nos cumprimos.
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar.
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

 

... Meu amor!

                       

16
Fev17

Que nunca nos falte a coragem para sermos felizes

Rita PN

 

 

Que nunca nos falte a coragem de sorrir, a coragem de chorar de alegria, a coragem de lutar e a coragem de viver.
Que nunca nos faltemos a nós, nem àqueles que mais importam, que nunca faltemos aos nossos sonhos nem percamos de vista a estrada. Que nunca nos deixemos ficar na segurança de não arriscar, por mais que o risco nos faça tremer. Que o medo seja sempre superado pela certeza de querer alcançar, ou pelo menos querer tentar.
Que nunca nos faltem razões para sorrir, amigos com que partilhar, pessoas a quem amar, lugares onde possamos ser felizes.
Que nunca faltemos ao presente, nem deixemos de a ele nos entregar, por mais que o passado nos deixe na sombra o coração. Porque coração não nos falta, nós é que lhe faltamos demais.
Que nunca deixemos de abraçar, mas que o abraço também não nos falte, que nunca fechemos a porta depois de ter saído alguém. Mantenhamo-la entreaberta, alguém a saberá atravessar.
Que nunca percamos um beijo por ter medo de amar, um olhar por ter medo de gostar, um qualquer momento por ter medo de viver. Mas que nunca os tenhamos demais, por medo de estarmos sós, ou por querer preencher vazios.
Que não sejam apenas os momentos a fazer-nos felizes, mas que nos possamos assim sentir em todos eles. Que nunca deixemos de nos amar por aos outros tudo dar, que nunca deixemos de receber por nos querermos esconder, que nunca no passado nos deixemos ficar, se é no presente que tudo se pode mudar.
Que nunca percamos a coragem de gostar e de o dizer, de desculpar os outros, nos desculparmos a nós e de pedir desculpa. Que nunca guardemos palavras, sentimentos e emoções por medode chorar. Que mais nos assuste não sorrir do que qualquer lágrima que possa cair.
Que sejemos sempre fortes o suficiente, que acreditemos sempre em nós, que sejemos a nossa espada e a nossa armadura, o nosso mapa e o nosso tempo. Que sejemos o que somos, em tudo e para todos.
Sobretudo, que nunca sejemos nós os responsáveis por não nos erguer, nem de no mesmo sítio continuar.
Porque a vida é um nada tão curto. Sendo que o que hoje pode ser feito, amanhã poderá já não ser.
Então, tenhamos sempre presente:
Que nunca nos falte a coragem para sermos FELIZES!

15
Fev17

Uma viagem ao mundo de Lara

Rita PN

 

 

 

Livros, cadernos, blocos de notas, frases soltas em post-it, poemas, canetas, postais, recortes de jornal, páginas de revistas e fotografias – tudo espalhado num círculo à sua volta. Para lá da linha fronteiriça, um vazio interminável. Tão cheio de nada que, tudo quanto pudesse chegar, não teria espaço para se fixar – o nada é um território demasiado denso, que ocupa um espaço excessivamente grande - assim sentia aquele lugar.

 

- Lara, que desarrumação vem a ser esta?
- É a minha mente, mãe. Inquietações minhas.

 

A extensão do cosmos era, aos olhos de Lara, tão metricamente exatata, quanto o seu distanciamento às mentes mais comuns. Imensurável.
O seu apetite por cultura, lugares, gentes, aprendizagens, conversas construtivas e observações atentas e detalhadas sobre comportamentos humanos e sociais, era voraz. Nunca um prato cheio lhe era suficiente.
Necessidade primária, em tudo idêntica à ingestão de um doce após um salgado. Surgindo, após o doce, um novo desejo salgado.Também assim acontecia no cardápio de Lara, onde certa era a presença de um qualquer ingredinte capaz de lhe aguçar, mais avidamente, a gula do saber.

Apressada, mas nem sempre desajeitada, percorria caminhos, por utopias anteriormente pisados. Neles, segundo ela, sempre que avançava dois passos, também o horizonte se distanciava dois passos, obrigando-a a nunca terminar a jornada. Gostava particularmente desses jogos, sem vencedores nem vencidos, onde todos se intitulavam piões aprendizes.

Por vezes, incompleta, detinha-se diante do espelho, atenta ao seu reflexo. Olhar para si, era como abrir a janela para um mundo diferente todos os dias. Novos espaços para conhecer, outros praticamente esquecidos, ruas cheias, outras vazias e um livro branco a um canto, com tanto por escrever…
Feita de frases simples, mas nem sempre de fácil interpretação, assim se sabia ela.
Aprendia mais consigo, do que com muitas das histórias – de formas humanas - com quem se cruzava. Mergulhada numa introspeção contínua, analisava capítulos de leitura imprecisa e sentia palavras, soberba e apaixonadamente, como jamais alguém a poderia vir a sentir a ela. 

- Já estás outra vez de roda do espelho?
- Um espelho reflete bem mais do que aquilo que nele vês– respondia.
 As pessoas só atentam na superficialidade da imagem refletida. Na cor, no tamanho, nos pormenores  externos. Não é por acaso que o espelho tem uma conotação física e narcisista, mãe. E o conteúdo da imagem? Também ele é refletido, embora nem todos estejam aptos a vê-lo. Talvez, porque nos seja  necessário mais do que apenas os olhos para ver, na sua pureza nua, a totalidade de uma imagem.

- Lá estás tu e as tuas divagações. Era melhor que fizesses pela vida, ao invés de perderes horas embrenhada  em filosofias que a lugar nenhum te levam.
- O melhor lugar onde posso chegar é ao coração das pessoas.

14
Fev17

Uma breve reflexão sobre Tudo o Que o Amor Não É

Rita PN

 

Usando como título o nome de um livro da autoria do psicólogo e professor Eduardo Sá:

Em dia de festejos de São Valentim e onde a palavra em foco é o Amor, considero importante parar e refletir um pouco sobre tudo o que afinal o Amor não é. Para assim nos consciencializarmos de qual é, afinal de contas, o seu exato papel nas nossas vidas.

O Amor é um sentimento alvo de investigações e definições diversas, desde a psicologia à ciência, sem nunca esquecer a arte que dele vive e sobrevive. Na literatura, com maior foco na poesia, encontram-se-lhe milhares de definições. Certo é, porém, que as investigações se estendem, também elas, à investigação criminal e judicial, tal como é uma realidade (mais próxima do que se imagina), a entrada diária do amor nos gabinetes de Apoio à Vítima.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Opressão, ciúme doentio, perseguição, desconfiança cega, ameaça, domínio do outro, controlo asfixiante da vida, dos passos, das roupas que se vestem, dos amigos, dos colegas, até da direção do olhar e das observações feitas, palavras ditas.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Ameaça e violência. Homicídio.
É doença. É distúrbio. De personalidade ou psicológico, mas nunca será Amor.

Medo. É tudo o que o Amor não é. E é preciso algum grau de consciencialização e de decisão interior para a vítima de uma relação que deveria ser de Amor, paixão e romantismo tomar a decisão de se deslocar a uma esquadra policial, a fim de apresentar queixa contra o namorado/marido ou ex-namorado/marido.

 

A agressão não é um ato de Amor, tal como o pedido de desculpas que se sucede não é Amor declarado. 
É comum desculpar-se uma vez, duas, três vezes. À quarta, as sequelas são efetivamente visíveis. Mas atenção, o verdadeiro Amor não deixa marcas na pele nem feridas na alma. O verdadeiro Amor não sangra.
A esperança ilusória de que o outro irá alterar o seu comportamento, de que o seu arrependimento é real e a ideia de que a fazê-lo, o parceiro o fará por Amor, são enganos que evidenciam a morte da primeira vítima: o Amor próprio. 
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

É necessária uma maior consciencialização humana, uma maior abordagem do tema, campanhas que cheguem mais próximas das vítimas, mãos e corações abertos, pessoas dispostas a ajudar. É necessário transparecer segurança, é necessária ajuda psiquiátrica, é necessário apoio, é necessário AMOR.

 

Dia 14 de Fevereiro, enquanto muitos comemoram o Amor (mesmo que só uma vez por ano nesta data), outros recebem-no, julgam eles/elas, violentamente. Um estalo embrulhado em papel com corações, um cestinho de ameaças, um ramo de opressões, um qualquer perfume com aroma a feridas abertas, marcas e hematomas.
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

O Amor não mata. Tragédias gregas querem-se em livros, fruto da imaginação dos seus autores. Nos dias que correm já ninguém morre de Amor, mas sim pela falta dele.
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

A quem realmente o vive, o partilha, o dá e o recebe genuinamente e pelo coração, ficam os meus votos sinceros de uma feliz São Valentim antecipado!

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