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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

31
Mar17

Da dificuldade à oportunidade

Rita PN

 

 

Verificou o relógio, como era seu costume e passou os olhos pelas frestas de luz provenientes da janela do quarto. Jogou para trás os lençóis e espreguiçou-se demoradamente. No chão, os chinelos esperavam-lhe os pés despidos e na porta, o roupão previa-lhe o corpo.
A mobília daquele espaço era a mesma que vira pela última vez, há seis horas atrás, antes de adormecer. Os objetos permaneciam milimetricamente arrumados, o tapete não se movera um centímetro e as roupas penduradas, mantinham a mesma ordem. As mais claras em primeiro lugar, antevendo o escurecer das seguintes.
Em todas as divisões a ordem fora mantida durante a noite. Nada se movera.

Lá fora, o trânsito seguia o fluxo normal, com os engarrafamentos habituais e as buzinadelas repetidas. O caminho não se alterara nas últimas vinte e quatro horas. Certezas que também mantinha a respeito do frenesim da paisagem em constante movimento. A pressa movia-se sobre dois pés, as malas que pendiam dos ombros femininos pareciam pêndulos, as pastas dos engravatados corriam à sua frente e curvadas, as crianças arrastavam os pés esforçadamente, para levar adiante o peso do conhecimento que carregavam às costas.

 

Tudo acontecia conforme previsto. Dentro do previsível conforto da vida, que às gentes do mundo agradava.

 

- Mas porquê? – questionou-se – Tudo tão obvio, tão igual, tão banal, tão rotineiro e habitual. Porquê assim e não de outra forma? O que é que nos leva a isto? E pior, à sua aceitação? – Continuou a questionar-se.

Parou. Observou. Escutou. Demorou-se nos gestos e nas expressões de quem passava – sempre vira no óbvio algo incrível.
Olhou para o céu e para as pedras da calçada, onde entre duas, uma flor brotava.

- O que fazes tu aqui? A nascer em plena selva urbana, entre duas pedras à mercê de tantos pés…  

Um espanto assombroso tomou conta dela, desencadeando uma corrente de novas questões e admirações, fruto de um misterioso incómodo interior que sentia sempre que olhava mais profundamente para aquilo que os outros olhos não viam.

 

Quem se admira não se conforma com o que lhe é apresentado.

 

Não verificou o relógio como era seu costume, nem passou os olhos pelas frestas de luz provenientes da janela do quarto. Jogou, apenas, para trás os lençóis e espreguiçou-se demoradamente. No chão, os chinelos não lhe esperavam os pés despidos e na porta, o roupão não se encontrava pendurado. 
À sua frente, um caos. Nada estava conforme previsto. Nem a mobília, nem os objetos, tão pouco a ordem das roupas.
Com frio, viu-se obrigada a procurar o relógio, a vasculhar entre os cabides pelo seu vestido azul, a saltar por entre as caixas desordeiras que se estendiam pelo chão - dentro dos seus minutos contados.

Lá fora, as ruas cortadas não permitiam a rota normal. Desviou caminho e enveredou por atalhos, o que lhe permitiu observar novos detalhes, novos rostos, novos gestos e chegar à mesma hora ao local habitual.

- Onde estão os restantes?
- Atrasados devido aos congestionamentos de trânsito.

Pensou na flor que vira nascer entre duas pedras, num lugar improvável, em pleno caos citadino, exposta ao perigo. Analisou-lhe as dificuldades que tivera para ali florescer e as que agora enfrentava para, no mesmo local, sobreviver.

-Aquela flor nasceu para me provar que é na dificuldade que se encontra a oportunidade.

- Desculpa? Estás a falar de quê?

-De mim, José. De mim.

 



Olha para o mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo!
Rita

30
Mar17

Já não é tão alto o céu

Rita PN

Já não é tão alto o céu
Se na encosta da lua, sentado
Sonho o universo sem véu, 
nú e por desbravar.
Longe do negrume que assola a escuridão
da tua ambição
e de um caminho ainda réu
das margens do choro de um rio,
onde um barco vazio,
escoa perdido
por entre as pedras da calçada
onde te sentas
e lamentas:
- "Quão distante é o céu...”

Já não é tão longe a estrela
que me guia, lá no alto
quando à noite, sentado no asfalto
olho para trás e me sei capaz
de voar.
- Basta sonhar -
(E na lua já estive)
Porquê sabotar o descolar
do futuro
Se já não é tão alto o céu?

E tu, que parado ficas
a olhar para mim,
criticas-me as asas
"São contos de fadas"
dizes-me, já sem história.
E enquanto eu visto o universo nú
e acendo as estrelas da vitória
Tu cobres-te, gélido, com a mortalha
e dás por finda a batalha
da vida.

Respiras. Mas já não sonhas.

27
Mar17

Primeira Edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra

Rita PN

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A Chiado Editora, a Hall Paxis e a Herdade Monte Novo e Figueirinha têm o prazer de anunciar a primeira edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra, nas categorias de Poesia e Prosa.

 

Sob a temática "Alentejo", os textos a concurso poderão ser submetidos até 10 de Maio para o endereço electrónico geral@chiadoeditora.com com a indicação expressa no campo de assunto: //DO MOSTO À PALAVRA 2017 //.

Poesia: um poema com  limite de 1.000 (mil) caracteres com espaços

Prosa: um texto com limite de 3.000 (três mil) caracteres com espaços

 

Prémios: 

  • 1º Lugar (Prosa e Poesia) – Publicação de um livro por parte da Chiado Editora + 50 livros de poesia do catálogo CHIADO
  • 2º Lugar (Poesia) – Pack de garrafas de vinho rotuladas com o poema do participante + + 20 livros de poesia do catálogo CHIADO
  • 2º Lugar (Prosa) – Pack de garrafas de vinho rotuladas com excerto do texto do participante. + 20 livros de prosa do catálogo CHIADO
  • 3º Lugar (Poesia) – Pack de garrafas de vinho de rótulo normal + 10 livros de poesia do catálogo CHIADO
  • 3º Lugar (Prosa) – Pack de garrafas de vinho de rótulo normal + 10 livros de prosa do catálogo CHIADO


A cerimónia de atribuição de Prémios terá lugar a 27 de Maio pelas 15h em pleno coração alentejano, na cidade de Beja e será aberta ao público em geral.

 

A entrega do Prémio decorrerá em contexto rural e a par de histórias contadas em torno de um copo de vinho, declamações, leituras e momentos musicais que animarão uma tarde passada à boa maneira alentejana. 
Como não poderia deixar de ser, encontrar-se-á aberta a todos os presentes, uma degustação de vinhos, azeites e tapas, para uma celebração da Alma Alentejana, dos seus Vinhos e Autores.

 

Para mais informações:

e-mail: geral@chiadoeditora.com

tel.: 213 460 100

27
Mar17

Inquietude

Rita PN

 

Cala-te. Por favor cala-te.
Que impere o silêncio!
Pára. Por favor pára.
Só a bonança
Desta dança
Que é viver.
Sossega...
Peço-te eu.
E tu sem me ouvir
Aceleras noite e dia
Nessa tão estranha euforia
De algo mais aprender
Conhecer
Criar
Ensinar
Fazer.

 

Abres-me as portas do mundo
As janelas dos sonhos
Os olhos da alma…
Desenfreada e insaciavelmente
Como quem depende de tão grande inquietude
Para me fazer ser - quem sou.
Mas hoje não. Imploro-te:
Não sejas tão perspicaz,
Não penses, não queiras, não cries, não sonhes, não sejas...
Mais do que paz.

 

(Essa que só o teu silêncio me traz.)

26
Mar17

Apatia

Rita PN

Incorro em pasmaceira de jumêncio
sempre que se abate o silêncio
para lá da chuva que cai.
Tudo padece,
nada apetece,
a apatia envaidece
e a tristeza agradece
(o trono)
à alegria que se esvai.
Entrego ao sossego o meu corpo
e à elegância da chuva o quem em minh’alma vai.
Sentimento silvestre que em bailado agreste,
pinta áspera e rupestre,
a decadência que me trai.

 

Vestir-se-á somente de memórias
o frio que (em mim) a manhã sente?
Ou mente
o sol quando espreita, longínquo
e da doce e sumarenta polpa da vida
me faz crente?

 

Com o arco íris me enganas...

 

23
Mar17

Ser-se mais qualquer coisa

Rita PN

Primeiro esgotaram o tempo
sem parar e tirar o relógio.
Esses que vivem agora sem espaço
cronológico.
Seguem já sem propósito
não sonham, não sentem
não falam só mentem
a si próprios, devastados.
Seguem a corrente de gente
que se diz cansada
de ser quem é!
Já sem querer ser mais qualquer coisa.

Sabem lá de si,
do tempo e do espaço onde ficaram
os sonhos que nem começaram
a sonhar. – Quanto mais a viver.
Ouvem e repetem como se fossem suas
todas as queixas
todas as deixas
de alguém que as escreveu para se expressar.
Já não sabem sentir.
Já não sabem pensar.
Já não sabem falar por si. – Há que citar
quem ainda vive, ou viveu
com tempo para ser mais alguma coisa.

21
Mar17

Aos Poetas, neste Dia Mundial da Poesia

Rita PN

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Poetas.

Seres que só sonham. Seres que só sentem. Essa sede que têm de amar a tudo e a todos. Até à vida.

Poetas.
Esses seres que vivem do avesso. Com o coração de fora. Que estranha forma de vida!
Os Poetas de nada sabem senão da vida. E tudo o que sabem já é demais.
Os Poetas usam-te. Usam-te os olhos, o nariz, os lábios, cada fio de cabelo, até a sola dos pés. Descrevem-te os contornos e embelezam-te a alma, mesmo quando negra.
Já os vi usar paisagens, cidades, edificios inteiros, recantos escondidos, a terra e o mar, o céu, a lua, o grito e o silêncio, o Mundo. A guerra e a paz, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o amor e o ódio.
Os Poetas são especialistas em sentir. Experimentam as suas mais diversas formas. São seres insaciados. Por isso tantas vezes morrem novos. Overdose de sentidos.

Poetas.
Estes seres obcecados com a musicalidade daquilo que dizem. De tudo o que vêm. Até do que escrevem.
A teimosia que encerram em querer pintar a vida. Acham-se donos das cores do arco-íris. E são.

Poetas.
Esses seres capazes de transformar o que dói num sorriso. O que fere em amor. O que mata em vida. A escuridão em luz.
Nunca vi ninguém venerar tanto um sentimento agreste como a saudade, quanto um poeta. Desconfio até que estes seres transformam qualquer presença em ausência, só para fruir de mais uns versos para escrever.
A verdade é que vivem com as entranhas de fora e mesmo assim, passam despercebidos. Não se fazem notar, nem sabem, eles próprios, se são bonitos ou feios. Repugnam o supérfulo, admiram o detalhe. Parecem alienados do mundo. Transmitem serenidade, mas se lhes abrires a cabeça protege-te do furacão de ideias e conhecimentos. Da inteligência.

Os Poetas estão-se nas tintas para o paleio e conversa fiada. Só querem escrever. Só querem sentir.
Alimentam-se sobretudo de amor e quando este lhes falta morrem devagarinho e gritam, gritam tanto que o silêncio ensurdece. E nascem poemas. Tristes. Mas que gostas de ler. (Excepto se deles fizeres parte. Aí repugnas a poesia).

Poetas. Poetas.
Ninguém se torna poeta. Ninguém almeja ser poeta. Alguns nascem poetas e só esses morrem poetas, porque foram poetas na vida.


E eu que não sou poeta (quanto muito poetisa), estou certa que no dia em que morrer alguns irão perguntar:
-Morreu? Morreu de quê?
E alguém lhes responderá:
-Coitada. Nasceu poeta.

21
Mar17

Quando uma guitarra se cala

Rita PN

Faz hoje 14 anos que partiste... meu Ídolo maior❤

Ao meu avô Goinhas Palma:

 

Quando eu era pequenina

E me sentava a ouvir-te tocar,

Sonhava em ter as tuas mãos

E esse ágil dedilhar.

Acordes de uma vida,

Notas tantas vezes tocadas,

Melodias gastas, outras sentidas,

Cordas com alma se p'los teus dedos pisadas.

 

Corria-te o Fado nas veias

E era tua essa guitarra

Que por paixão acompanhava

Vozes ainda sem nome, mas que hoje

(Pudesses tu nesse tempo prever)

Por uma delas o Coliseu esgotava.

 

E enquanto essas vozes se elevam,

A tua guitarra nunca mais se ouviu.

Ficou a carcaça do Fado

E a alma? Essa partiu.

A alegria de tantas notas,

Os acordes com que cresci,

Mais ninguém os sabe tocar

E eu nunca mais os ouvi...

 

As cordas envelheceram.

A guitarra já não toca.

O avô não está em casa.

O Fado é só Saudade.

E esse é o fado que trago.

Os anos passam

E eu já não sou pequena...

Nem me sento a ouvir-te tocar.

Não porque esteja grande,

Mas porque Tu já aqui não estás

Para contigo me fazer sonhar.

20
Mar17

Xeque-Mate

Rita PN

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Sem precisão temporal – a guerra roubou-lhe o significado do tempo, contou-me uma noite depois de dar por terminada a sua mais longa partida de xadrez. Não dormiu durante vinte e sete horas. Ciente da sua capacidade de superação e de resposta ao imprevisto, fez xeque-mate ao rei adversário. Não se deixava surpreender, jogava o seu jogo e o jogo do seu opositor, mantendo a concentração e alterando a sua estratégia sempre que o adversário julgava te-lo surpreendido. Venceu pela persistência. 


- Esta é uma lição que deverás levar para a vida João Pedro, não são as ondas quem desgasta as rochas, é a sua ação contínua sobre elas.

Dizia ele em mais um dos seus testemunhos:

Sem precisão temporal, durante uma acção de reconhecimento aéreo, foi localizada uma base do IN camuflada no interior do mato. Base essa, que as forças terrestres especializadas tomariam de assalto durante a madrugada seguinte. A aproximação dos homens requeria especial atenção e precaução, não só pelas condições do terreno demasiado acidentado, como pela existência de populações nas proximidades. Qualquer falha alertaria o IN e consequentemente, ditaria a sentença de morte para muitos de nós.

Depois de uma análise detalhada da missão, o comandante da companhia ordenou que se formassem quatro grupos. Um primeiro grupo, composto por vinte e cinco homens, saltaria de helicóptero sobre o alvo – a base do IN – enquanto o segundo e terceiro grupos montariam emboscadas nas zonas de acesso. Iria ser mantido como reserva um quarto grupo que atuaria como reforço, ou entreveria numa eventual perseguição às tropas do IN.
Já a noite caíra quando o segundo e terceiro grupos saíram em silêncio para uma marcha de seis horas – segundo constatou o alferes Morais, porque como te disse meu filho, a guerra roubou-me o significado do tempo. Hoje, ao olhar para trás e ao relembrar as histórias que te conto, não sei se elas duraram um minuto ou um ano. Na altura, sei-o, foram o que vivi de mais semelhante com a eternidade. Esse espaço intemporal e infinito que só se conhece após a morte. E não foi isso que eu vivi? A morte? Matei quem era para nascer quem me tornei naquele cenário de horror e carnificina. - O segundo grupo posicionou-se perto da base e o terceiro permaneceu na periferia do rio.

Não houve qualquer sinal de alerta por parte do IN nem das populações, mas era importante manter toda a descrição, atenção e concentração a fim de evitar qualquer contacto até os homens do primeiro grupo realizarem o assalto - Como numa partida de xadrez. É crucial certificares-te de que o teu oponente não te decifra antecipadamente. Qualquer palavra, gesto, trejeito ou olhar podem fornecer-lhe indicações a respeito do teu pensamento estratégico, ou deixar clara a movimentação na tua próxima jogada. Nunca se sabe de que capacidades estão os outros dotados. E quer no jogo, como na guerra, como na vida, a aptidão e prontidão para uma rápida resposta pode debilitar e surpreender o outro lado. A morte já não me surpreende, mas a surpresa poder-me-á levar à morte.

Os comandantes da companhia ordenaram aos camaradas que iriam constituir o anel de cerco que se dispusessem em posição de emboscada, em grupos organizados de cinco elementos. De rádios ligados e em escuta permanente. Aguardariam pelo início da operação em silêncio e imóveis. Eu estava entre eles.

Ao amanhecer cacimbava, o que dificultou a descolagem dos helicópteros.
Voavam a baixa altitude e assim que o alvo foi localizado na orla da mata, o capitão saltou. Os restantes vinte e quatro soldados seguiram-no, num salto contra o tempo. De imediato o grupo de vinte e cinco homens, já reunido em solo firme, levou a cabo o assalto.
Seguiram-se tiros, gritos e vultos a correr. Granadas e corpos caídos. Ordens, ordens e mais tiros, tiros, tiros e tiros. Sobraram os mortos, os nossos militares feridos e algumas das gentes que por ali viviam.
Ouvi novamente o barulho ensurdecedor das pás e das turbinas dos helicópteros sob escolta de um helicanhão. Evacuaram as tropas, recolheram os feridos e abandonaram o local.

Seguiu-se uma nova caminhada de seis horas de regresso à base – e essa foi a duração da eternidade para o alferes Morais que caiu sem vida a dez passos do nosso aquartelamento.

[ Baseado em factos históricos verídicos - Guerral Colonial 1961-1974]

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