Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Da dificuldade à oportunidade

 

 

Verificou o relógio, como era seu costume e passou os olhos pelas frestas de luz provenientes da janela do quarto. Jogou para trás os lençóis e espreguiçou-se demoradamente. No chão, os chinelos esperavam-lhe os pés despidos e na porta, o roupão previa-lhe o corpo.
A mobília daquele espaço era a mesma que vira pela última vez, há seis horas atrás, antes de adormecer. Os objetos permaneciam milimetricamente arrumados, o tapete não se movera um centímetro e as roupas penduradas, mantinham a mesma ordem. As mais claras em primeiro lugar, antevendo o escurecer das seguintes.
Em todas as divisões a ordem fora mantida durante a noite. Nada se movera.

Lá fora, o trânsito seguia o fluxo normal, com os engarrafamentos habituais e as buzinadelas repetidas. O caminho não se alterara nas últimas vinte e quatro horas. Certezas que também mantinha a respeito do frenesim da paisagem em constante movimento. A pressa movia-se sobre dois pés, as malas que pendiam dos ombros femininos pareciam pêndulos, as pastas dos engravatados corriam à sua frente e curvadas, as crianças arrastavam os pés esforçadamente, para levar adiante o peso do conhecimento que carregavam às costas.

 

Tudo acontecia conforme previsto. Dentro do previsível conforto da vida, que às gentes do mundo agradava.

 

- Mas porquê? – questionou-se – Tudo tão obvio, tão igual, tão banal, tão rotineiro e habitual. Porquê assim e não de outra forma? O que é que nos leva a isto? E pior, à sua aceitação? – Continuou a questionar-se.

Parou. Observou. Escutou. Demorou-se nos gestos e nas expressões de quem passava – sempre vira no óbvio algo incrível.
Olhou para o céu e para as pedras da calçada, onde entre duas, uma flor brotava.

- O que fazes tu aqui? A nascer em plena selva urbana, entre duas pedras à mercê de tantos pés…  

Um espanto assombroso tomou conta dela, desencadeando uma corrente de novas questões e admirações, fruto de um misterioso incómodo interior que sentia sempre que olhava mais profundamente para aquilo que os outros olhos não viam.

 

Quem se admira não se conforma com o que lhe é apresentado.

 

Não verificou o relógio como era seu costume, nem passou os olhos pelas frestas de luz provenientes da janela do quarto. Jogou, apenas, para trás os lençóis e espreguiçou-se demoradamente. No chão, os chinelos não lhe esperavam os pés despidos e na porta, o roupão não se encontrava pendurado. 
À sua frente, um caos. Nada estava conforme previsto. Nem a mobília, nem os objetos, tão pouco a ordem das roupas.
Com frio, viu-se obrigada a procurar o relógio, a vasculhar entre os cabides pelo seu vestido azul, a saltar por entre as caixas desordeiras que se estendiam pelo chão - dentro dos seus minutos contados.

Lá fora, as ruas cortadas não permitiam a rota normal. Desviou caminho e enveredou por atalhos, o que lhe permitiu observar novos detalhes, novos rostos, novos gestos e chegar à mesma hora ao local habitual.

- Onde estão os restantes?
- Atrasados devido aos congestionamentos de trânsito.

Pensou na flor que vira nascer entre duas pedras, num lugar improvável, em pleno caos citadino, exposta ao perigo. Analisou-lhe as dificuldades que tivera para ali florescer e as que agora enfrentava para, no mesmo local, sobreviver.

-Aquela flor nasceu para me provar que é na dificuldade que se encontra a oportunidade.

- Desculpa? Estás a falar de quê?

-De mim, José. De mim.

 



Olha para o mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo!
Rita

Já não é tão alto o céu

Já não é tão alto o céu
Se na encosta da lua, sentado
Sonho o universo sem véu, 
nú e por desbravar.
Longe do negrume que assola a escuridão
da tua ambição
e de um caminho ainda réu
das margens do choro de um rio,
onde um barco vazio,
escoa perdido
por entre as pedras da calçada
onde te sentas
e lamentas:
- "Quão distante é o céu...”

Já não é tão longe a estrela
que me guia, lá no alto
quando à noite, sentado no asfalto
olho para trás e me sei capaz
de voar.
- Basta sonhar -
(E na lua já estive)
Porquê sabotar o descolar
do futuro
Se já não é tão alto o céu?

E tu, que parado ficas
a olhar para mim,
criticas-me as asas
"São contos de fadas"
dizes-me, já sem história.
E enquanto eu visto o universo nú
e acendo as estrelas da vitória
Tu cobres-te, gélido, com a mortalha
e dás por finda a batalha
da vida.

Respiras. Mas já não sonhas.

Primeira Edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra

Cartaz Evento Literario af.jpg

 

A Chiado Editora, a Hall Paxis e a Herdade Monte Novo e Figueirinha têm o prazer de anunciar a primeira edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra, nas categorias de Poesia e Prosa.

 

Sob a temática "Alentejo", os textos a concurso poderão ser submetidos até 10 de Maio para o endereço electrónico geral@chiadoeditora.com com a indicação expressa no campo de assunto: //DO MOSTO À PALAVRA 2017 //.

Poesia: um poema com  limite de 1.000 (mil) caracteres com espaços

Prosa: um texto com limite de 3.000 (três mil) caracteres com espaços

 

Prémios: 

  • 1º Lugar (Prosa e Poesia) – Publicação de um livro por parte da Chiado Editora + 50 livros de poesia do catálogo CHIADO
  • 2º Lugar (Poesia) – Pack de garrafas de vinho rotuladas com o poema do participante + + 20 livros de poesia do catálogo CHIADO
  • 2º Lugar (Prosa) – Pack de garrafas de vinho rotuladas com excerto do texto do participante. + 20 livros de prosa do catálogo CHIADO
  • 3º Lugar (Poesia) – Pack de garrafas de vinho de rótulo normal + 10 livros de poesia do catálogo CHIADO
  • 3º Lugar (Prosa) – Pack de garrafas de vinho de rótulo normal + 10 livros de prosa do catálogo CHIADO


A cerimónia de atribuição de Prémios terá lugar a 27 de Maio pelas 15h em pleno coração alentejano, na cidade de Beja e será aberta ao público em geral.

 

A entrega do Prémio decorrerá em contexto rural e a par de histórias contadas em torno de um copo de vinho, declamações, leituras e momentos musicais que animarão uma tarde passada à boa maneira alentejana. 
Como não poderia deixar de ser, encontrar-se-á aberta a todos os presentes, uma degustação de vinhos, azeites e tapas, para uma celebração da Alma Alentejana, dos seus Vinhos e Autores.

 

Para mais informações:

e-mail: geral@chiadoeditora.com

tel.: 213 460 100

Inquietude

 

Cala-te. Por favor cala-te.
Que impere o silêncio!
Pára. Por favor pára.
Só a bonança
Desta dança
Que é viver.
Sossega...
Peço-te eu.
E tu sem me ouvir
Aceleras noite e dia
Nessa tão estranha euforia
De algo mais aprender
Conhecer
Criar
Ensinar
Fazer.

 

Abres-me as portas do mundo
As janelas dos sonhos
Os olhos da alma…
Desenfreada e insaciavelmente
Como quem depende de tão grande inquietude
Para me fazer ser - quem sou.
Mas hoje não. Imploro-te:
Não sejas tão perspicaz,
Não penses, não queiras, não cries, não sonhes, não sejas...
Mais do que paz.

 

(Essa que só o teu silêncio me traz.)

Apatia

Incorro em pasmaceira de jumêncio
sempre que se abate o silêncio
para lá da chuva que cai.
Tudo padece,
nada apetece,
a apatia envaidece
e a tristeza agradece
(o trono)
à alegria que se esvai.
Entrego ao sossego o meu corpo
e à elegância da chuva o quem em minh’alma vai.
Sentimento silvestre que em bailado agreste,
pinta áspera e rupestre,
a decadência que me trai.

 

Vestir-se-á somente de memórias
o frio que (em mim) a manhã sente?
Ou mente
o sol quando espreita, longínquo
e da doce e sumarenta polpa da vida
me faz crente?

 

Com o arco íris me enganas...

 

Ser-se mais qualquer coisa

Primeiro esgotaram o tempo
sem parar e tirar o relógio.
Esses que vivem agora sem espaço
cronológico.
Seguem já sem propósito
não sonham, não sentem
não falam só mentem
a si próprios, devastados.
Seguem a corrente de gente
que se diz cansada
de ser quem é!
Já sem querer ser mais qualquer coisa.

Sabem lá de si,
do tempo e do espaço onde ficaram
os sonhos que nem começaram
a sonhar. – Quanto mais a viver.
Ouvem e repetem como se fossem suas
todas as queixas
todas as deixas
de alguém que as escreveu para se expressar.
Já não sabem sentir.
Já não sabem pensar.
Já não sabem falar por si. – Há que citar
quem ainda vive, ou viveu
com tempo para ser mais alguma coisa.

Um alfaiate não cose vidas

2-marioferreiradasilva32_lisboa-07-07-1972.jpg

 


Dormíamos a maior parte das vezes no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos o que mais parecido havia com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de algum animal durante o período de tempo que durava o destacamento.

Embarquei em Portugal em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete com trinta mil toneladas de peso e capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era, também, parte integrante do nosso equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número e o nome do soldado e o seu tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a aquela a quem chamávamos a Fiel Companheira de Mato, a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, uma arma de grande porte a quem os guerrilheiros ganharam um grande respeito.

Durante as patrulhas as principais funções eram de reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou em linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão. Podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse espaço de tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos por escassos minutos para comer qualquer coisa ou para aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha muitas vezes a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?
(Voltemos ao cais...) 
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

Aos Poetas, neste Dia Mundial da Poesia

17390425_10208465484811558_289893643186807238_o.jp

 

 

 

Poetas.

Seres que só sonham. Seres que só sentem. Essa sede que têm de amar a tudo e a todos. Até à vida.

Poetas.
Esses seres que vivem do avesso. Com o coração de fora. Que estranha forma de vida!
Os Poetas de nada sabem senão da vida. E tudo o que sabem já é demais.
Os Poetas usam-te. Usam-te os olhos, o nariz, os lábios, cada fio de cabelo, até a sola dos pés. Descrevem-te os contornos e embelezam-te a alma, mesmo quando negra.
Já os vi usar paisagens, cidades, edificios inteiros, recantos escondidos, a terra e o mar, o céu, a lua, o grito e o silêncio, o Mundo. A guerra e a paz, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o amor e o ódio.
Os Poetas são especialistas em sentir. Experimentam as suas mais diversas formas. São seres insaciados. Por isso tantas vezes morrem novos. Overdose de sentidos.

Poetas.
Estes seres obcecados com a musicalidade daquilo que dizem. De tudo o que vêm. Até do que escrevem.
A teimosia que encerram em querer pintar a vida. Acham-se donos das cores do arco-íris. E são.

Poetas.
Esses seres capazes de transformar o que dói num sorriso. O que fere em amor. O que mata em vida. A escuridão em luz.
Nunca vi ninguém venerar tanto um sentimento agreste como a saudade, quanto um poeta. Desconfio até que estes seres transformam qualquer presença em ausência, só para fruir de mais uns versos para escrever.
A verdade é que vivem com as entranhas de fora e mesmo assim, passam despercebidos. Não se fazem notar, nem sabem, eles próprios, se são bonitos ou feios. Repugnam o supérfulo, admiram o detalhe. Parecem alienados do mundo. Transmitem serenidade, mas se lhes abrires a cabeça protege-te do furacão de ideias e conhecimentos. Da inteligência.

Os Poetas estão-se nas tintas para o paleio e conversa fiada. Só querem escrever. Só querem sentir.
Alimentam-se sobretudo de amor e quando este lhes falta morrem devagarinho e gritam, gritam tanto que o silêncio ensurdece. E nascem poemas. Tristes. Mas que gostas de ler. (Excepto se deles fizeres parte. Aí repugnas a poesia).

Poetas. Poetas.
Ninguém se torna poeta. Ninguém almeja ser poeta. Alguns nascem poetas e só esses morrem poetas, porque foram poetas na vida.


E eu que não sou poeta (quanto muito poetisa), estou certa que no dia em que morrer alguns irão perguntar:
-Morreu? Morreu de quê?
E alguém lhes responderá:
-Coitada. Nasceu poeta.

Quando uma guitarra se cala

Faz hoje 14 anos que partiste... meu Ídolo maior❤

Ao meu avô Goinhas Palma:

 

Quando eu era pequenina

E me sentava a ouvir-te tocar,

Sonhava em ter as tuas mãos

E esse ágil dedilhar.

Acordes de uma vida,

Notas tantas vezes tocadas,

Melodias gastas, outras sentidas,

Cordas com alma se p'los teus dedos pisadas.

 

Corria-te o Fado nas veias

E era tua essa guitarra

Que por paixão acompanhava

Vozes ainda sem nome, mas que hoje

(Pudesses tu nesse tempo prever)

Por uma delas o Coliseu esgotava.

 

E enquanto essas vozes se elevam,

A tua guitarra nunca mais se ouviu.

Ficou a carcaça do Fado

E a alma? Essa partiu.

A alegria de tantas notas,

Os acordes com que cresci,

Mais ninguém os sabe tocar

E eu nunca mais os ouvi...

 

As cordas envelheceram.

A guitarra já não toca.

O avô não está em casa.

O Fado é só Saudade.

E esse é o fado que trago.

Os anos passam

E eu já não sou pequena...

Nem me sento a ouvir-te tocar.

Não porque esteja grande,

Mas porque Tu já aqui não estás

Para contigo me fazer sonhar.

Xeque-Mate

oie_4164049NG9BvYGA.jpg

 

Sem precisão temporal – a guerra roubou-lhe o significado do tempo, contou-me uma noite depois de dar por terminada a sua mais longa partida de xadrez. Não dormiu durante vinte e sete horas. Ciente da sua capacidade de superação e de resposta ao imprevisto, fez xeque-mate ao rei adversário. Não se deixava surpreender, jogava o seu jogo e o jogo do seu opositor, mantendo a concentração e alterando a sua estratégia sempre que o adversário julgava te-lo surpreendido. Venceu pela persistência. 


- Esta é uma lição que deverás levar para a vida João Pedro, não são as ondas quem desgasta as rochas, é a sua ação contínua sobre elas.

Dizia ele em mais um dos seus testemunhos:

Sem precisão temporal, durante uma acção de reconhecimento aéreo, foi localizada uma base do IN camuflada no interior do mato. Base essa, que as forças terrestres especializadas tomariam de assalto durante a madrugada seguinte. A aproximação dos homens requeria especial atenção e precaução, não só pelas condições do terreno demasiado acidentado, como pela existência de populações nas proximidades. Qualquer falha alertaria o IN e consequentemente, ditaria a sentença de morte para muitos de nós.

Depois de uma análise detalhada da missão, o comandante da companhia ordenou que se formassem quatro grupos. Um primeiro grupo, composto por vinte e cinco homens, saltaria de helicóptero sobre o alvo – a base do IN – enquanto o segundo e terceiro grupos montariam emboscadas nas zonas de acesso. Iria ser mantido como reserva um quarto grupo que atuaria como reforço, ou entreveria numa eventual perseguição às tropas do IN.
Já a noite caíra quando o segundo e terceiro grupos saíram em silêncio para uma marcha de seis horas – segundo constatou o alferes Morais, porque como te disse meu filho, a guerra roubou-me o significado do tempo. Hoje, ao olhar para trás e ao relembrar as histórias que te conto, não sei se elas duraram um minuto ou um ano. Na altura, sei-o, foram o que vivi de mais semelhante com a eternidade. Esse espaço intemporal e infinito que só se conhece após a morte. E não foi isso que eu vivi? A morte? Matei quem era para nascer quem me tornei naquele cenário de horror e carnificina. - O segundo grupo posicionou-se perto da base e o terceiro permaneceu na periferia do rio.

Não houve qualquer sinal de alerta por parte do IN nem das populações, mas era importante manter toda a descrição, atenção e concentração a fim de evitar qualquer contacto até os homens do primeiro grupo realizarem o assalto - Como numa partida de xadrez. É crucial certificares-te de que o teu oponente não te decifra antecipadamente. Qualquer palavra, gesto, trejeito ou olhar podem fornecer-lhe indicações a respeito do teu pensamento estratégico, ou deixar clara a movimentação na tua próxima jogada. Nunca se sabe de que capacidades estão os outros dotados. E quer no jogo, como na guerra, como na vida, a aptidão e prontidão para uma rápida resposta pode debilitar e surpreender o outro lado. A morte já não me surpreende, mas a surpresa poder-me-á levar à morte.

Os comandantes da companhia ordenaram aos camaradas que iriam constituir o anel de cerco que se dispusessem em posição de emboscada, em grupos organizados de cinco elementos. De rádios ligados e em escuta permanente. Aguardariam pelo início da operação em silêncio e imóveis. Eu estava entre eles.

Ao amanhecer cacimbava, o que dificultou a descolagem dos helicópteros.
Voavam a baixa altitude e assim que o alvo foi localizado na orla da mata, o capitão saltou. Os restantes vinte e quatro soldados seguiram-no, num salto contra o tempo. De imediato o grupo de vinte e cinco homens, já reunido em solo firme, levou a cabo o assalto.
Seguiram-se tiros, gritos e vultos a correr. Granadas e corpos caídos. Ordens, ordens e mais tiros, tiros, tiros e tiros. Sobraram os mortos, os nossos militares feridos e algumas das gentes que por ali viviam.
Ouvi novamente o barulho ensurdecedor das pás e das turbinas dos helicópteros sob escolta de um helicanhão. Evacuaram as tropas, recolheram os feridos e abandonaram o local.

Seguiu-se uma nova caminhada de seis horas de regresso à base – e essa foi a duração da eternidade para o alferes Morais que caiu sem vida a dez passos do nosso aquartelamento.

[ Baseado em factos históricos verídicos - Guerral Colonial 1961-1974]

Quando os filhos não têm um super-herói, mas sim uma super-guerreira - Feliz dia do Pai, Mãe!

 

 

Elas são mães e pais, não necessariamente por esta ordem, mas sim em simultâneo. Super Guerreiras sempre com a espada numa mão e o coração como escudo na outra.

E esse é o seu papel principal. Embora se desdobrem em tantos outros papéis num curto espaço de 24 horas. Não têm tempo para ler o guião, por isso improvisam. A intuição de que são dotadas raramente as deixa ficar mal e quando se trata dos filhos, nem o cansaço as vence.

"Enquanto sou mãe e pai sou também cozinheira, lavadeira, faxineira, professora, educadora, amiga e companheira, conselheira, organizadora, trabalhadora num qualquer departamento ou negociante, sou filha, sou amiga, sou vizinha, sou enfermeira e médica sempre que necessário, motorista, jardineira, anjo da guarda ou polícia, por vezes até cientista, pago contas, estico dinheiro e invento tempo para ser um bocadinho eu. Tudo isto em pose de senhora, num corpo feminino que os aconchega no colo, que se molda às cabeças no ombro e lhes deu de mamar quando eram bebés. Um corpo e uma mente com a flexibilidade necessária para cada nova situação com que me deparo e a voz doce e meiga que os protege, com a necessidade pontual da autoridade que os alerta e coloca em sentido."

Super Guerreiras. Para elas não há dias de folga, não existe um "toma agora tu conta deles para eu descansar", ou mesmo acompanhar as amigas num final de dia. Tudo para não falar de privar consigo mesmas e privilegiar de uns momentos sozinhas.

São a presença feminina assídua, perante uma ausência constante da figura masculina. Paternal dizem vocês. Discordo. A paternal é, na maioria das vezes, assumida por alguém, que nessa mesma maioria se intitula Mãe.

Aos filhos preenchem silêncios, para que estes não falem tão alto. Ocupam-lhe os tempos livres para que eles não tenham tempo para sentir a falta de um pai ausente, mas também lhes ensinam que para quem realmente importa não existe ausência nem falta de tempo, que lembrar não é estar presente, que pai não é só um nome comum, nem um estatuto adquirido, mas sim um adjetivo caracterizador e complexo. Que os direitos são para quem assume os deveres e que uma pensão de alimentos não serve para uma mãe se governar, mas sim para ajudar a suprir as necessidades de um filho. Ensinam-lhes que o dinheiro compra bens materiais, brinquedos e objetos supérfluos, mas não compra amor, carinho, amizade e atenção. Ensinam-lhes que sempre que o telefone não toca, nem a campainha da porta se faz ouvir, existe uma outra porta na vida que, apesar de tudo, não se deve fechar. Mas que só a atravessa quem realmente quer, sem necessidade de ser convidado a fazê-lo.

Acima de tudo e de qualquer outra coisa, ensinam e demonstram todos os dias úteis, feriados e fins de semana, a tempo e horas ou fora delas, que um coração de mãe é infinito.

Fomes

guerra_colonial_2.jpg

 

Comia-se mal e passava-se fome. Muita fome. A desorganização que se vivia e a falta de meios aéreos, ditava que não fossemos abastecidos corretamente. Existia, porém, algum apoio logístico a nível alimentar, mas apenas quando nos encontrávamos junto às viaturas. Se tal não acontecia, a nossa alimentação era baseada em ração de combate. Duas latas de atum e sardinha e um pacote de bolachas de água e sal, já com bolor. À exceção de um ou outro cabrito roubado, abatido e assado por nós, ou de meia dúzia de papagaios que por ali se matavam. 

Houve alturas em que a escassez alimentar tomou proporções tais, que passámos a alimentar-nos de mandioca crua, do pouco que conseguíamos roubar nas povoações e daquilo que nos era dado a troco de favores que iam desde os curativos aos sexuais.

 

Nesta altura éramos já - e apenas só - animais do mato regidos por instintos, em busca da satisfação das necessidades mais básicas e primárias do homem.
Não me orgulho João Pedro, não me orgulho de perder a racionalidade e permitir que o desejo carnal se transformasse em algo tão básico como apenas fome de carne, que saciei em vários corpos diferentes.
Não sei quantos filhos deixei. Nem se os cheguei a fazer. Um homem quando age assim não é digno de procriar, tão pouco é meritório do milagre da vida.

Corpos. Eram apenas corpos. Tanto os que caiam em combate, jaziam e apodreciam ao nosso lado, como os outros. Os delas. As que nos serviam o pecado tição.
Exceção feita à delícia do beijo da poesia negra – Shaira.
Recordo os seus lábios carnudos a aproximarem-se dos meus num beijo que começava terno, calmo e molhado, mas que depressa me dominava e possuía. Entranhava-se em mim. Pedindo-me que me entranhasse nela. Que entrasse nela e me demorasse com ela.
Não teria mais do que os seus dezassete anos e as proporções exactas num corpo poeticamente desenhado, que me pedia para ser lido e sentido ali mesmo, no intervalo preciso entre a hora da morte e o exato segundo onde o meu coração começava.

Introspectiva

Silenciam-se os passos no barulho da mente.
Caminhas descalço em busca do teu presente
quando o tens à tua frente,
por vezes quieto e calado,
dás por ti a pensar nele, noites a fio acordado.
E silencias a mente, para nele não pensar,
embora vivendo-o, tens medo de o agarrar
e perdes os teus passos encontrando o pensamento
que te rouba a lucidez para viveres o teu momento.

 

E calas o que pensas, não nascendo o que sentes.
Fechas os teus olhos, porque é só a ti que mentes.
Finges que não te importas com o que a vida não te dá,
mas sabes que és tu quem o futuro mudará.

 

Noites em claro. Pensamentos a voar.
Lágrimas que caem. Continuas a chorar.
Aprende que a vida é uma e acaba!
Sorri e faz sorrir, porque um sorriso não mata.
Agarra o presente, deixa para trás o que passou,
vive o que tens e o que a vida te reservou.
Embora penses que o pensas não faz sentido,
escuta o coração se ele te falar ao ouvido.

 

Não cales o que pensas se for para nascer e sentir.
Abre os teus olhos, não podes ao presente mentir.
Não finjas que não te importas, se sabes que a vida te dá
motivos para sorrir; só de ti dependerá.

As Valas

 

017091180_30300.jpg

 

 Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da companhia que vinha ao nosso encontro, solicitava ajuda à aviação. Tinham caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo IN.

Foi o apelo mais dramático de que me recordo durante toda uma Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação para que bombardeasse tudo. Incluindo toda a companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável, o IN avançava sobre eles em número bastante superior.

 

Quis deus que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de outros tantos obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não deveria passar de uma miragem. 

Seguimos. Quem seguia nas viaturas saltou para o chão. A coluna avançava a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.

 

Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos, mortos e menos trinta e uma vidas, das nossas.

 À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos… gritos e mais gritos… mas estes de alegria. Disseram-me, porque eu já nem os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia. 

Ali, o sangue das nossas colónias cheirava a perecimento. E as lágrimas, mais pesadas que todo o nosso armamento, sabiam a luto, ódio e potrefação.

 

Com a noite, descemos às valas, que era onde se dormia em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem e quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.

 

Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

 

 
(Baseado em factos verídicos e em 3 testemunhos reais que me foram relatados na primeira pessoa.)

No lume

chess.jpg

 

 

O hall abria-se para as restantes divisões. E ele estava em todas elas.
À esquerda, no escritório, lia Hemingway de perna cruzada e recostado na velha poltrona de braços largos, estufada em couro castanho dourado com acabamentos de madeira de jacarandá, estilo Dona Maria e ao gosto do avô inglês. 
À direita, era comum assistir-se à erudição das partidas de xadrez que travava contra o Professor Wesley e à frialdade com que, três ex-combatentes, debatiam temáticas como as antigas colónias, o marfim, os diamantes, os anos em que haviam integrado os teatros de operações da Guerra de África que, inevitavelmente, culminavam nas mais acesas críticas ao atual regime. No ar, os pensamentos enevoados de três charutos cubanos e nos lábios, o sabor de um Midleton irlandês que ardentemente descia e lhes aquecia as entranhas. O velho Stephen, filho de mãe inglesa e de um antigo Major português, costumava compará-lo ao sabor de uma africana que amara uma dezena e meia de vezes nas margens do rio Níger, durante a sua estadia em Bamako, capital do Mali, em 1952.

 

-Primeiro mordia-me e molhava-me os lábios com fervor, assaltando-me a boca com a sua língua encorpada, qual golada de verão num copo de Midleton sem gelo. A loucura do calor que em mim se entranhava queimava-me as vísceras. 
Ardemos durante várias noites, nas margens do rio Níger. Eu lume. Ela carvão.

 

Seguindo em frente pelo hall, envolvia-nos o cheiro a linguiça assada que se cruzava, já no interior da cozinha, com o do arroz de cabidela. O seu prato de eleição. Ouvia-se o roscar do saca-rolhas e o grito do vácuo ao saltar da rolha, seguindo-se a suave melodia com que o aveludado tinto alentejano tocava as paredes do copo. A faca de serrilha no pão, o arrastar da cadeira, dois talheres em trabalho e o mastigar com gosto.

 

Espreitei ao alpendre. O jornal do dia em cima da mesa. O avô não andaria longe.
Cheirava os coentros e a salsa. Desbastava a era que, fazendo jus aos seus dotes de boa trepadeira, cobria já a totalidade da parede de uma vida e do portão do casão, ao fundo do quintal.
Voltei ao interior e o avô não tardou em reaparecer, fazendo-se acompanhar por quatro grandes laranjas sumarentas que espremeu, dando-me a beber.

 

Sensivelmente a meio do corredor, ao virar do aparador em madeira de cerejeira antiga - peça de mobiliário datada de 1903 - entrava-se no seu quarto. E ali estava ele. Na moldura, na poesia de Eugénio de Andrade, no par de peúgas esquecido aos pés da cama e no smoking que levara ao meu casamento, impecavelmente pendurado no seu guarda-fato.
Ali estava ele também, em todas as suas memórias escritas e nunca partilhadas, por mim encontradas debaixo do pesado colchão que carregou durante anos o peso da vida que agora esmagava.

Ali estava ele. Em tudo e em nada. Ali estava ele, entre os espaços vazios. Ali estava ele, sempre que a luz se apagava e que comigo saía de mão dada, deixando para trás umas casa cheia, mas tão vazia de si.

 

Ali estava ele, o meu avô Stephen, outrora lume. E ela carvão.

Ali estava ele, o meu avô Stephen, muitas vezes pólvora e outras tantas munições.

Ali estava ele, o meu avô Stephen, agora em cinzas.

 

Sobre um dia que não considero 'O Meu'

Sobre um dia que não considero 'O Meu', dada a existência de outros tantos 364, ainda por conquistar.
 
 

0c226efa-1bd8-4d66-8423-7a83e59e62fe.jpg

 

Para contextualizar:

A ideia de se instituir o Dia Internacional da Mulher surgiu nos finais do século XIX e inícios do século XX nos Estados Unidos e na Europa, no âmbito das lutas e movimentos levados a cabo em prol dos direitos das mulheres. Como sejam a luta pela igualdade de direitos económicos, sociais, trabalhistas e políticos (onde saliento a luta pelo direito ao voto).
 
Movimentos que tiveram início a 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, com repetição a 8 de Março de 1908. Ambos violentamente reprimidos pela polícia.
Foi também nesta mesma cidade que, a 8 de Março de 1909, se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher.
 
Seguiram-se países como a Rússia, Suécia, Alemanha, Reino Unido, França e Japão.
A Nova Zelândia foi, em 1893, o primeiro país do mundo a conceder o direito de voto às mulheres. Conquista resultante da luta de Kate Sheppard, líder do movimento pelo direito de voto das mulheres neste mesmo país.
 
Só em 1951 foram estabelecidos, pela Organização Internacional do Trabalho, os princípios gerais com vista à igualdade de remuneração entre homens e mulheres, para o exercício da mesma função.
E vinte e seis anos depois, decorria o mês de Dezembro de 1977, foi a vez da ONU adoptar o Dia Internacional da Mulher, como chamada de atenção para as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres. Faz, portanto, quarenta anos!
 
Ora muito bem, tanta referência histórica porquê? Para fazer lembrar- exatamente - que muito já foi conquistado, mas que tanto ou mais está ainda por ser conseguido, no que à igualdade de género diz respeito.
 
Senão vejamos.
  • Estamos em pleno século XXI e a escravatura sexual continua a existir, o uso da burka continua a ser obrigatório em determinados países e a proibição da mulher sair à rua sem se fazer acompanhar pelo marido ainda se mantém.
  • Estamos em pleno século XXI e continuam a surgir notícias sobre abusos, levados a cabo pelos militares presentes nas zonas fronteiriças, sobre mulheres e crianças refugiadas.
  • Estamos em pleno século XXI e o número de denuncias à APAV (Associação de Apoio à Vítima) ascende. A igualdade salarial ainda é uma miragem, assim como a igualdade no desempenho de determinadas funções e cargos ocupados.
  • Estamos em pleno século XXI e vai longo o caminho que visa o equilíbrio entre os dois géneros, no que às tarefas domésticas e à educação dos filhos diz respeito. Estamos em pleno século XXI e ouvem-se barbaridades a respeito das mulheres, vindas da boca de gente desumana, detentora de altos cargos políticos, ou mais grave, de gente desumana no poder.
 
“Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso.” disse-o e bem E. Burke.
 
  • Estamos em 2017 e a mulher continua a ser vista como o sexo mais fraco, sendo repetitivamente interpelada com afirmações como “és mulher é diferente”, “isso não é tema para mulheres”, “és mulher, és mais fraca”, “já viste como estás vestida?”, “isso é tarefa de mulheres”, “as mulheres são um fardo quando engravidam”, entre tantas outras do vosso total conhecimento e consentimento.
 
[A respeito das sociedades desenvolvidas, o mais cego é aquele que não quer ver. Já no que às sociedades subdesenvolvidas diz respeito, o peso da responsabilidade ao mundo inteiro pertence. Mundo esse, que venda os olhos para não ver.]
 
Decorre o ano de 2017 e os patrões oferecerem, na presente data, uma flor às suas funcionárias como forma de as homenagear… por serem mulheres.
Mas digam-me, será necessária a celebração deste dia para tal acontecer? Será necessária uma data para fazer lembrar aos mais esquecidos o que é ser mulher e quais os seus direitos? Sim, não só os seus deveres, que por sinal são equiparáveis aos do sexo oposto.
Será porventura necessário, às próprias mulheres, festejar um dia como este com jantares, borgas e afins, contribuindo para que o verdadeiro mote para existência deste dia caia por terra, perdendo o seu significado original e adquirindo um propósito fútil de caracter festivo e comercial?
 
Ou será necessário às mulheres e à sociedade em geral, a sua luta contínua por uma afirmação ininterrupta, ao nível das mais diversas patentes sociais, pessoais, económicas e políticas, de forma igualitária e justa?
 
Sem querer ferir susceptibilidades e como mulher que sou, feliz serei quando não for celebrado este dia, mas sim todos os restantes. Feliz serei, sempre que não sentir que é obrigação, por parte de um homem, felicitar-me ou homenagear-me, a cada dia 8 de Março, por ter nascido mulher. Feliz serei, quando qualquer um dos restantes 364 dias for motivo para agradecer ao género feminino por todas as suas lutas, conquistas e mudanças na sociedade.
 
É este o meu propósito em ser mulher. Lutar. Vencer. Conquistar. Igualar. Equilibrar. Mudar.
 
Por tudo isto e muito mais, hoje não é o meu dia! O meu dia serão sim, os demais que o ano tem. (Talvez não pára já, mas estou certa de que, na devida altura, o virão a ser).
 

Não há vagar

Não tenho vagar para te ler,
se teimares em aparecer
entre as letras do jornal.
Nem tenho vagar para ti,
se me vieres com parcas conversas
do dia em que eu te sorri
já com a vida às avessas.
Não tenho vagar para pensar
na tua amarga semântica,
tão pouco para me deixar levar
p’las leis da tua quântica.

Já te disse, não tenho vagar!
Não te atravesses pelo caminho.
A m’nha estrada eu faço-a sozinho
não te quero a acompanhar-me.
Não. Não tenho vagar
para te olhar ao espelho,
já dentro de mim.
Gritei-te: estou bem assim!
Abri a porta e pus-te a andar.
Porque é que voltas,
quando sabes que para ti não tenho vagar?
E aí ficas. À minha porta,
na ombreira de uma vida vã.
Na esperança destroçada
de quem espera sentada
pelo dia de amanhã. 

Hoje não tenho vagar
E amanhã também não o terei.
Sempre que estive contigo
Oh tristeza,
para mim foi tempo perdido,
uma história que eu mesmo findei

Depois do sonho

 

 

Caminhava curvada. Postura adquirida durante o arrastar dos anos em que teimara segurar o peso da vida nas suas mãos vazias.
Não se desfizera do sentimento de culpa, assim como não havia sido capaz de por fim ao luto que dentro de si aprisionava e que, de negro carregadas, as suas vestes transpareciam ao mundo.
Tinha-o morto numa manhã nublada de outono, fazia 30 anos. 

 

-Tropecei e escorregou-me das mãos. Caiu violentamente no chão, esvaindo-me eu em lágrimas, nele a vida e em ambos a esperança. (Lamentava).

 

Antes verdes e viçosas nas árvores, também as folhas haviam dado lugar ao vazio e ao silêncio dos ramos nus. E no chão, um manto de vidas secas cobria o caminho trilhado por outras já mortas. Só o vento mantinha a sua força. E capaz de aproveitar os espaços vazios, seguia adiante enfrentando obstáculos, desbravando imperitos caminhos e varrendo para longe, à sua passagem, tudo o quanto nenhuma falta lhe fazia. 

- Tivesse eu a tua força e soprava toda a poeira que me cobre. Este peso que me sufoca o peito e me empurra contra o chão. Ai se vento eu fosse…– murmurava – Agora estou velha e cansada, demasiado fastidiosa para voar. Para aqui me fiquei, a ver nascer a certeza de que nada mais há depois do sonho. A noite não termina, o inverno não finda e a luz? O que me importa a mim se há luz, quando o meu coração já não vê. O que me importa a mim tudo o que os meus olhos alcançam, se nada mais há para além do que vejo. Só o peso das minhas mãos vazias e da minha alma vergada. Cada dia mais baixa, a cada hora mais perto do chão. Fui eu quem o matou e toda a minha vida pagarei por isso. Ai se vento eu fosse… eu que já nem espaço tenho para o deixar correr.

Dobrou em quatro partes o que restava do seu presente enrugado, abriu a gaveta da cómoda e fechou-o lá dentro. Deu duas voltas à chave e virou-lhe as costas. 

Não voltou a viver.



Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
Fernando Pessoa

Florescer

Fui, sem jeito de ser
antes do meu tempo, indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada,
respondi
atenta aos botões
de camélias apressadas
(que te espreitam)
à janela do casaco que vesti.

 

- Não me queiras sem Inverno,
prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me,
aí fora
no meu tempo.
Chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.

 

Nada temas,
nem homens, nem máquinas nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

 

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D