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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

24
Ago17

Cativar...

Rita PN

«XXI

Foi então que apareceu a raposa.
– Olá, bom dia! – disse a raposa.
– Olá, bom dia! – respondeu educadamente o principezinho, que se virou para trás mas não viu ninguém.
– Estou aqui, debaixo da macieira – disse a voz.
– Quem és tu? – perguntou o principezinho – És bem bonita…
– Sou uma raposa – disse a raposa.
– Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho. – Estou triste…
– Não posso ir brincar contigo – disse a raposa. – Ainda ninguém me cativou…
– Ah! Então, desculpa! – disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar.
– “Cativar” quer dizer o quê?
– Vê-se logo que não és de cá – disse a raposa. – De que andas tu à procura?
– Ando à procura dos homens – disse o principezinho. – “Cativar” quer dizer o quê?
– Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar – disse a raposa. – É um grande inconveniente! E também fazem criação de galinhas. Aliás, na minha opinião, é o único interesse deles. Andas à procura de galinhas?
– Não – disse o principezinho. – Ando à procura de amigos. “Cativar” quer dizer o quê?
– É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços”…
– Criar laços?
-Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…
– Parece-me que estou a perceber – disse o principezinho. – Sabes, há uma certa flor… tenho a impressão que ela me cativou…
– É bem possível – disse a raposa. – Vê-se cada coisa cá na Terra…
– Oh! Mas não é na Terra! – disse o principezinho.
A raposa pareceu muito intrigada.
– Então, é noutro planeta?
– É.
– E nesse planeta há caçadores?
– Não.
– Começo a achar-lhe alguma graça… E galinhas?
– Não.
– Não há beleza sem senão… – suspirou a raposa.


Mas voltou a insistir na mesma ideia:
– Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…


A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo…
– Se fazes favor… Cativa-me! – acabou finalmente por pedir.
– Eu bem gostava – respondeu o principezinho, – mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e um bocado de coisas para conhecer…
– Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa. – Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
– E tenho que fazer o quê? – disse o principezinho.
– Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas podes-te sentar cada dia um bocadinho mais perto…

 

O principezinho voltou no dia seguinte.

– Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. – Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… Precisamos de rituais.
– O que é um ritual? – disse o principezinho.
– Também é uma coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas. Por exemplo, os meus caçadores têm um ritual. À quinta-feira, vão dançar com as raparigas da aldeia. Por isso, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear às vinhas. Se os caçadores fossem dançar num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora da despedida:
– Ai! – suspirou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
– A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar…
– Pois pedi – disse a raposa.
– Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
– Pois vou – disse a raposa.
– Então não ganhaste nada com isso!
– Ai ganhei, sim, senhor! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…
E acrescentou:
– Anda, vai ver as rosas outras vez. Vais entender que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

 

O principezinho foi ver as rosas outras vez.
– Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada – disse-lhes ele. – Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como a minha raposa era, uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e ela passou a ser única no mundo.
E as rosas ficaram bastante arreliadas.
– Vocês são bonitas, mas vazias – insistiu o principezinho. – Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas, sozinha é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.

 

Depois voltou para o pé da raposa e despediu-se:
– Adeus…
– Adeus – despediu-se a raposa. – Agora vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos…
– O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Os homens já não se lembram desta verdade – disse a raposa. – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa…
– Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.»


O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry (Tradução de Joana Morais Varela, Ed. Presença, pp. 66-74)

21
Ago17

Sem mais, sem menos

Rita PN
 
 
 

homem-ignorando-mendigo.jpg

 

 

Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco que exista alguém que a mais se eleve
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida,
envolto no sopro de um cobertor de memórias
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa sem tecto e paredes de papel onde o coração dormita.

 

Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo o quanto por ela passa
por mais ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem se nãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita;
Aos contornos, frequentemente largo
o amargo cheiro das pregas vazias.
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadados os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.

 

Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
E os que muito sentem, escolheram o rés-do-céu para viver.
E sonhar no centésimo andar, a contar do vale dos mortos.
Não creio que tenhamos nós mais do que eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir
sem sentir, que todos nós temos alguma coisa
entre nascer e morrer. Espaço cronológico que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos.
Mas temos. E dar-lhe-emos valor?

 

… é amor do Criador, o oxigénio que a todos brinda, por igual.

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