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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

19
Jun17

Não basta chorar as cinzas de um país ardido

Rita PN

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São já 61 as vítimas do incêndio que deflagrou ontem em Pedrógão Grande, um número que tende a aumentar à medida que é feito o reconhecimento de toda a área ardida. O número de feridos mantinha-se em 59, às 10:00 da manhã.
Segundo a Proteção Civil, foram mobilizados 692 bombeiros, apoiados por 215 viaturas e aguarda-se a chegada de meios aéreos espanhóis e franceses para ajudar no combate às chamas, que lavram em quatro frentes.

Num país anualmente devastado por incêndios, sejam eles consequência de causas naturais ou mão criminosa, continuamos a assistir a uma extrema dificuldade, por parte dos sucessivos governos, de tomar medidas efetivas que permitam prever, atuar e minimizar o número de catástrofes incendiárias anuais.

 

O ordenamento do território é um dossier que continua a ser descurado, não só no que à desertificação do interior diz respeito, mas também no que toca à má qualidade das acessibilidades, que tantas vezes condicionam o acesso rápido ao local. Também a distância entre as árvores e as estradas é hoje, por infelicidade daqueles que no IC8 circulavam à hora errada no local errado, um exemplo simples, mas mortífero da falta de planeamento e ordenamento do território adjacente às rodovias, sem qualquer faixa/área de segurança ou corta-fogo. Os projectos - de há anos - de limpeza e vigilância florestal continuam na gaveta e a criação de um plano cívico de mobilização para ajudar nessa tarefa também não é horizonte, até porque somos nós cidadãos, membros da sociedade civil, os primeiros a desresponsabilizarmo-nos perante essa actividade considerada serviço cívico.
Porém, pedimos continuamente que sejam apuradas responsabilidades e punidos os culpados. Culpas e responsabilidades essas, que todos os anos morrem solteiras, mas que também nos pertencem, em parte.

 

(Na verdade, em que é que cada um de nós contribuí para que esta realidade se altere?)

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Não basta lamentar, tão pouco criticar, quando a responsabilidade é todos. Não basta prestar apoio e solidariedade emocional, homenagear as vítimas e os Heróis Nacionais que corpo a corpo, na sua frágil figura humana, enfrentam o inferno das chamas nas florestas portuguesas e lutam contra elas, numa tentativa de salvamento de vidas (humanas, fauna e flora) e infraestruturas.
Não adianta chorar sobre as cinzas de um país ardido e destruído anualmente, ficar em choque e cair hoje na real, para amanhã esquecer. É preciso atuar e sermos Unos, em prol de um país que é o nosso, protegendo territórios naturais que têm tanto de nossos quanto as nossas próprias casas.
Porque bem vistas as coisas, a Natureza é tanto património quanto pulmão de todos os portugueses (não somente das gentes do norte, como também do centro e do sul).

 

Hoje eles, amanhã nós ou os nossos. Porque não, não acontece apenas aos outros e é preciso atuar.

Por atentados desta natureza, será caso para usar a tag #prayforportugal

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16
Jun17

Um comboio, três malas, eu e vinte e oito degraus descendentes

Rita PN

Fechei com cuidado a última mala, lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias, por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço recentemente desguarnecido de qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Vinte e oito degraus descendentes e um comboio para apanhar.
Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém deixara aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem, pensei.

«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»


Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela mesma porta. Pousei no chão as malas, mais leves do que eu me sentia e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.


«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»


Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas nos levarem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo comboio.


«Também os comboios são uma constante da vida.»


Um comboio, três malas e eu, após vinte e oito degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.


«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»


Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, vinte e oito degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos.

14
Jun17

(Im)Perfeitos

Rita PN

Escritos por nós e sobre nós próprios,
rascunhos de passos a lápis traçados
e limpos. Apagados que foram os rastos
das pontas perdidas
das vidas que se arrastam,
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão,
das pegadas errantes que deixamos.

Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado
p’la tinta da caneta com que tememos escrever,
o presente assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!

Que terrível seria aparecer
vestidos de folha de redação da primária,
de vermelho riscada e a transparecer
erros comuns.
A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém”.

08
Jun17

Àquele lugar...

Rita PN
Quero querer, ou será que queria
um dia esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás
e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência
em que a distância é lugar onde habito.
 
Fechada no baú de recordações de tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo livre. Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim.
Nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria
um dia...
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo, quero!
06
Jun17

Para lá da Primavera

Rita PN

Rodou lentamente a chave, deu três voltas e soltou o trinco da porta que abria passagem à sala das lembranças. No chão, a carpete cobria-se de pó com a exata tonalidade do beije rosado que, ao amanhecer, ela passava delicadamente a pincel pelo rosto. No tecto, o candelabro ainda a iluminava, suspensa pelo pescoço de um prego de luto vestido, dentro da moldura de um quadro de memórias, cuja tinta escorria já pelas paredes.
Às voltas pela sala e a caminhar para dentro, com o peso dos anos a rasgarem-lhe os bolsos, sentia-se como se a dor furasse, sem piedade, o tecido frágil de que era feito, para mais facilmente escapar, deixando aberto um buraco por onde a própria existência se esvaia.
Julgara-se de aço. Por toda a sua vida. Julgara-se de aço enquanto as lágrimas não lhe oxidaram o rosto e a fragilidade das rugas das papoilas breves não a levaram, no seu ameno vestido vermelho, para lá da Primavera.

 

05
Jun17

A memória da paixão

Rita PN

 

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 War of feelings by Leonid Afremov

 

Nota: O texto que se segue contém linguagem susceptivel de ferir a sensibilidade das mentes mais resguardadas. 

 

 

Sinto-te quente entre as mãos e viajo-te nas curvas do corpo, enquanto subo e desço as colinas dos teus seios e tu abres as pernas levando-me ao vale do inferno. Trinco-te a carme dos lábios com fervor no ardor com que me queimas as entranhas e me abocanhas o pescoço. E ainda te sinto, em chagas acesas, a força do amor que me cravavas na pele. Teu rosto a pincel, gemendo o prazer encorpado com que o meu nome te ardia na língua. 
Já não sei com que força te agarrava crespos, os cabelos que me cortam hoje como lâminas, as memórias inflamadas da sombra ardida onde me condenei a amar-te. Embriagado e levado pelo desejo da vontade e da loucura, ao mesmo tempo que uma ereção de ternura me obrigava a entrar em ti. Sinto-te fugir entre os meus dedos tesos e queimados, ressacados e incapazes de se dobrarem e guardarem as orgásticas cinzas onde ardi. 
A memória das mãos nunca esquece a paixão.

02
Jun17

Hei-de beber do amor

Rita PN

Hei-de beber da taça dos teus lábios
o amor, ao entardecer.
E hei-de o saber, anunciado
pelo ruído de curiosidade da vizinha
sem cuidado, ao ver-te descer
a rua a correr…
e cair-me nos braços,
por mil embaraços no coração.

Hei-de te ter,
visão dos meus olhos ao anoitecer,
estrelas de um céu onde sonho
e acordo, para continuar a beber
da taça do amor que os teus lábios
me servem, quando pela manhã
raiam os teus cabelos de sol
na minha almofada.

Hei-de escrever,
pelas ruas da saudade
sobre a calçada do eco dos teus passos
lassos, quando saíres amanhã
e eu abrir amarela, a vista da janela
do campo de girassóis
dos teus caracóis, na minha lembrança.

Hei-de fazer correr tinta
por versos imersos na ausência
dos teus dedos nos meus.
Porque será a distância,
a única coisa em que tocam
para além da elegância da caneta
que te fez.
Criação da minha mente.

Hei-de beber do amor...

01
Jun17

Enamorados

Rita PN



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Porque hoje é dia Mundial da Criaça, convido-vos a vestir o coração de uma criança e a embarcar na doce viagem deste carrossel

 

Menina dos olhos de mel
e rosto a pincel desenhado
sorri ao passar por mim
no seu jeito envergonhado.
Tão pura de si, lá vai
descendo a rua de encantos
cabelos soltos ao vento
coração com seus recantos.
Atento à tez rosada
e aos lábios que guardam segredos
Imagino-a apaixonada
mãe dos nossos rebentos.
Menina dos olhos meus
de vestido à mão bordado
quem te assiste ao passar faz adeus,
sonhando-te eu acordado.


Menina dos olhos de mel
quero ser teu príncipe encantado
Chegar-te-ei no meu corcel,
nas voltas do carrossel
de um coração apaixonado.

31
Mai17

Lugares sem nome

Rita PN

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

30
Mai17

A entrega de prémios da 1ª Edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra

Rita PN

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Decorreu no dia 27 de Maio, em pleno Alentejo, na Herdade do Monte Novo e Figueirinha a entrega de prémios referentes à 1ª edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra.

Num evento improvável, resultante da parceria entre uma Editora, uma Imobiliária e uma Adega, que reuniu participantes oriundos de todo o país, celebrou-se à boa maneira alentejana a Palavra escrita, falada, cantada e bem regada.

Numa visita guiada à adega, falou-se sobre o processo para a elaboração de um bom vinho, tantas vezes o melhor aliado da inspiração literária. A mesa de tertúlia ficou a cargo do actor, humorista, escritor, cronista e dobrador Bruno Ferreira; do compositor, escritor e músico Luís Espinho e do reconhecido compositor, músico, escritor e desenhador  Paulo Abreu Lima. O Eduardo Espinho e a Sandra Martins (vencedora do programa Ídolos em 2010) brindaram os presentes com deliciosos momentos musicais, estando a música ambiente a cargo do DJ Goove (Pedro Palma Nascimento).

Os prémios foram entregues pela mão do Gonçalo Martins, CEO da Chiado Editora; da Maria Helena Palma, directora da agência imobiliária Hall Paxis e da Dra. Cristina Cameirinha, que representou a Adega em nome do proprietário Filipe Cameirinha Ramos.

No final, degustou-se o sabor do Alentejo, num casamento perfeito entre os vinhos da casa e os famosos petiscos da região.

A lista de premiados pode ser consultada aqui e o álbum de fotografias encontra-se disponível aqui.

O meu sincero obrigado a todos quantos participaram e tornaram possível a realização deste evento. Espero por vós em breve, aquando do lançamento da Antologia Do Mosto à Palavra, livro que irá reunir as quase 400 participações recebidas.



NOTA: Ao clicar sobre o nome dos intervenientes, é possível ler as entrevistas dadas no âmbito deste evento. 

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