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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

06
Mar17

Depois do sonho

Rita PN

 

 

Caminhava curvada. Postura adquirida durante o arrastar dos anos em que teimara segurar o peso da vida nas suas mãos vazias.
Não se desfizera do sentimento de culpa, assim como não havia sido capaz de por fim ao luto que dentro de si aprisionava e que, de negro carregadas, as suas vestes transpareciam ao mundo.
Tinha-o morto numa manhã nublada de outono, fazia 30 anos. 

 

-Tropecei e escorregou-me das mãos. Caiu violentamente no chão, esvaindo-me eu em lágrimas, nele a vida e em ambos a esperança. (Lamentava).

 

Antes verdes e viçosas nas árvores, também as folhas haviam dado lugar ao vazio e ao silêncio dos ramos nus. E no chão, um manto de vidas secas cobria o caminho trilhado por outras já mortas. Só o vento mantinha a sua força. E capaz de aproveitar os espaços vazios, seguia adiante enfrentando obstáculos, desbravando imperitos caminhos e varrendo para longe, à sua passagem, tudo o quanto nenhuma falta lhe fazia. 

- Tivesse eu a tua força e soprava toda a poeira que me cobre. Este peso que me sufoca o peito e me empurra contra o chão. Ai se vento eu fosse…– murmurava – Agora estou velha e cansada, demasiado fastidiosa para voar. Para aqui me fiquei, a ver nascer a certeza de que nada mais há depois do sonho. A noite não termina, o inverno não finda e a luz? O que me importa a mim se há luz, quando o meu coração já não vê. O que me importa a mim tudo o que os meus olhos alcançam, se nada mais há para além do que vejo. Só o peso das minhas mãos vazias e da minha alma vergada. Cada dia mais baixa, a cada hora mais perto do chão. Fui eu quem o matou e toda a minha vida pagarei por isso. Ai se vento eu fosse… eu que já nem espaço tenho para o deixar correr.

Dobrou em quatro partes o que restava do seu presente enrugado, abriu a gaveta da cómoda e fechou-o lá dentro. Deu duas voltas à chave e virou-lhe as costas. 

Não voltou a viver.



Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
Fernando Pessoa

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