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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Era uma vez um homem que não tinha tempo para o amor e que tropeçou na rapariga que amava de mais

 

 

 

Era a primeira vez que Rute visitava uma cidade tão grande. Tão cheia de pessoas, de prédios, de carros, de pontes, de estradas, de fumo, de fábricas, de pressa, de horários, de correrias, de rostos apagados, de encontrões e de relógios. Ali tudo dependia de ponteiros. Horas. Minutos. Segundos. A correr. Nas esquinas, nos pulsos, nas paragens de transportes, nas paredes dos mais variados edifícios, nos milhares de telemóveis que, aos seus olhos, absorviam o pouco tempo para respirar daquelas gentes. Acabava de chegar e já duvidava se o tempo que teria para visitar os seus pontos de interesse seriam suficientes. Ali tudo corria, voava. Até a vida. Sem ninguém reparar. Sem ninguém respirar. Sem ninguém ter tempo de carregar na pausa e aproveitar um momento com os amigos, com os filhos, com a cara metade, tão pouco consigo mesmo. Seres solitários entre a multidão.

 

Assim era a vida de Jorge, empresário de sucesso, homem bem parecido, inteligente, cordial, respeitador e respeitado, mas só. Nada lhe faltava a não ser tempo e amor - faltava-lhe tudo. Vivia dependente de ponteiros e alarmes sempre focado na tela de um telemóvel, deixando que a vida lhe passasse ao lado. E foi exatamente sem olhar para o lado, que ao entrar no metro tropeçou em Rute, que saía:

 

- As minhas desculpas.

- Não tem importância, preste somente mais atenção ao mundo em seu redor. É lá que estão as pequenas coisas da vida.

 

Acabava de chegar e de uma coisa ela já tinha a certeza, era o lugar mais triste que havia conhecido.

 

Exausto, Jorge caiu na cama; silêncio habitual de quem sozinho está na vida e no mundo. Cama fria, vazia. Um corpo sem alma e um coração sem amor. Na cabeça uma voz: "Preste somente mais atenção ao mundo em seu redor, é lá que estão as pequenas coisas da vida". - olhou em volta, um enorme vazio. Procurou o seu telemóvel, e-mails, reuniões, horários, alarmes, lembretes... Contactos profissionais. E vida? Família? Amigos? Amor? E ela? Quem seria ela? - "Pequenas coisas da vida".

 

Acaso ou destino, voltaram a cruzar-se, desta vez à porta do escritório.

 

- É aqui que vive?

- Não, é aqui que trabalho.

- Foi o que eu disse.

- Desculpe?

- A sua vida é igual à de toda esta gente. Trabalho, relógios, ponteiros, alarmes, telemóveis. E tempo? E amor?

-Temo não lhe saber responder... Mas entre e tome um café, tenho dez minutos, fique...

- Cheguei mas não quero ficar. Não me peça que fique. Não aqui onde não existe nada para além do que vejo. Onde ninguém tem tempo nem para olhar para o lado, quanto mais para viver e apreciar o que realmente tem valor na vida. Nem o café o senhor aprecia tamnaha é a pressa com que o bebe. E de que me serve um café mudo sem uma boa conversa? Aqui não há tempo para nada, nem sabem o que é o amor. Sem ele serei apenas igual a si. Um cadáver vivo. Não se esqueça, olhe em redor e veja para além do que os olhos alcançam. Atente nas pequenas coisas que lhe têm passado ao lado.

-Como você? - perguntou.

- Como tudo o que existe dentro de mim e que o senhor jamais compreenderá. Ecomo muitas outras coisas que o mundo tem para descobrir, sentir e oferecer.
Desculpe, agora sou eu quem tem pressa - de chegar onde posso sorrir. Se um dia descobrir um lugar onde pode sorrir, fique. E aqui para nós, descubra também um coração para morar e abra a porta do seu.

 

Abriu a porta do escritório e deu início a mais um dia.




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