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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Todas as folhas de Outono são histórias de amor

Tudo são histórias de amor
amarelas e caducas, 
leves e secas, dançando nos braços do vento
ao som da cidade agitada. 
Hão-de guiar-me...
na inflexão da história dos nossos passos,
pelas ruas que existem em ti;
nas horas paradas das tardes de outono
para me agasalhar no teu peito.
Doce jeito de me consertar…
(folha seca caída, no chão estendida e pronta a estalar).

Todas as folhas amarelas e caducas
que renascem
... são histórias de amor que perfazem.

O arroz doce da vida

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Comi o amor e bebi a saudade, num prato de mar, em frente à vida...
Comi o amor.
Quente e intenso, como se quer o café da manhã. E único, como o teu coração quando, ao cheiro do pão, se derrete pelo queijo fundido da vida.
Comi o amor e lambuzei-me. Voltei a comer e a lambuzar-me outra vez.
Doce e com canela, na medida certa, como o arroz da tua alegria.

Porque o amor, afinal, também é fazer pão com queijo e café, e servir, na dose certa em pequenas taças de alma aberta, o arroz doce da vida.

 

Quero

Quero querer, ou será que queria, um dia, esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência,
em que a distância é lugar onde habito,
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos com que o coração se vestiu,
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo
quero-te!

 

Tenho um baloiço de corda suspenso numa nuvem

Tenho um baloiço de corda suspenso uma nuvem.
É do alto do seu voo que te observo, docemente suspensa. Os sonhos parecem maiores quando vistos daqui. E tu, tão mais pequeno – como eu, quando dele desço e olho para cima. Reparo que também o fazes.
Irei trazer-te cá, para comigo sonhares mais alto. Prometo.
Mas hoje não. Estou com pressa para descer.

 

Aqui em baixo tenho uns sapatos de sato alto que uso quando quero ser mulher.
Comecei descalça, mas a visão rasteira não me permitia olhar além, para lá do horizonte comum – esse que todos os pares de olhos alcançam. Aprendi então, a equilibrar-me a seis centímetros do chão, travando guerras e batalhas com que a vida constantemente me desafia. Estender o campo de visão é outra das mais-valias destes sapatos - qual guerreiro a cavalo.
Hei-de mostrar-tos quando me cruzar contigo no final do dia. Altura em que saio de cena, tiro os sapatos e calço todos os segredos que há por revelar em mim. Não tentes, porém, descalçar-me. Prefiro levar-te ao baloiço.

É durante a subida que sinto mais do que quilo que quero, talvez menos do que seja capaz.

Sento-me contigo no meu baloiço, agarro as cordas da vida com força e dou balanço ao corpo, consciente de que cada recuo nos fará subir mais alto depois.

É daqui que se sonha e ainda não chegámos ao céu.

Vejo as tuas mãos agarrarem, ligeiramente acima das minhas, as mesmas cordas. E sinto o teu corpo balançar, agora, ao ritmo do meu. Entre avanços e recuos, subimos mais alto e tocamos o céu.

Caem-me dos pés os segredos, que te havia pedido para não descalçares. E tu reparas. E sorris ao interpelar-me: Não me mostraste os sapatos!

Preferi os sonhos. Os sapatos nunca nos trariam ao céu.

 

 

Ela

Nunca precisarás da cor dos seus olhos, se a olhares para além deles. Nunca precisarás do contorno do seu rosto, mas sim do esboçar do seu sorriso. Não te sentirás sozinho se não ouvires a sua voz, mas sentir-te-ás sim, se não lhe sentires o coração.

 

Nunca te sentirás perdido mesmo que a percas de vista, se for nela que te encontras. Nem nunca caminharás só, porque a terás sempre ao teu lado.

 

Por vezes o vento sopra, é verdade, aproveita-o, vê como lhe remexe os cabelos e lhe toca suave a pele. Por vezes chove, mas repara como ela dança na chuva.

 

Nunca sentirás a sua falta, poderás sim, sentir a falta do seu coração, porque é lá que irás morar. Irás sentir muitas vezes que o silêncio fala e ouvirás nele a voz doce dos seus sonhos. Da menina que a dormir ou acordada fecha por momentos os olhos e torna tudo real. Mas nunca irás sentir a sua falta, poderás sim, sentir a falta de quem ela te fazia sentir.

 

E um dia vais olhar para trás, não conseguirás ver mais do que meia dúzia de pegadas, mas ela será capaz de retirar de todas a melhor imagem, do caminho os melhores momentos, conseguirá escrever a plenitude da história na estrelas e pedirá ao Sol que se ponha, apenas para a deixar a vossa história brilhar. Pedirá ao mar que cante para ti se a voz lhe falhar, à Lua que te sorria caso ela esteja a chorar e ao mundo que te proteja, se algum dia ela falhar.

 

E como tudo na vida tem um lado bom, é para esse que ela te ensinará a olhar. E será, desse mesmo lado, que ela permanecerá.

 

Poeira d'amor

Pudesse eu ser grão de poeira infinita
e caber, inteira, nos intervalos curtos
do tempo lotado que nos roubou a vida...

Pudesse eu ser partícula de estrelas
e preencher o manto negro derramado
sobre o já cansado e inabitado
espaço livre do teu céu...

Pudesse eu caber inteira
no vácuo da pressa do relógio
que se esgota sem nos levar
à plenitude da calma,
p'las asas da alma,
ao refúgio do amor. 

Pudesse eu ser grão de poeira infinita
e caber, inteira, em ti...

Morro-te

Morro-te. Não te cumpri. 
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas, 
me desviaram de ti.

 

Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento 
que viste partir.

 

Morremos. Não nos cumprimos. 
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar. 
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

... Meu amor!

Fim da linha

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar,
como os ombros, carregando os anos
e a fome das respostas
que os romancistas prometeram,
mas que não acontecem, tal como a vida.
Páginas de gente que está, sem existir,
em histórias contadas sem acontecer,
onde frases narradas e não proferidas
são escritas para agradar ao nascer, com prazer,
ao mais solitário dos corações vagabundos
por aí...
De que adianta fazer perguntas a um estranho,
quando o mundo dos poetas não é palpável?
Utopias cíclicas, encadeadas e indissociáveis
do sistema solar onde lhes orbita a loucura.
Na verdade, nem a via láctea lhes chega!
É-lhes mais que preciso o buraco negro,
para onde me arrasto,
sugado pela força centrífuga do devorador de sonhos
dos loucos que escrevem...

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar,
como um romance, quando finda
e o coração descai...
no verso de uma vida que termina
E se esvai... na leve pena de um poema.

 

A memória das mãos nunca esquece a paixão

 

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Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam. Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.

- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - tão pouco que destino os espera. Toda a vida vivi intensamente cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje, já calejado da vida, me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, a carne dos lábios, de olhos fechados.

Eurico rodou o banco de lona verde escura ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele, com a ponta do meu indicador, e lhe medisse a profundidade.

- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir... somente um vazio que não poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal sempre que, na demora da ausência, recordares uma mulher e, de olhos fechados, lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não cultivar, cuidar, amar e preservar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.

Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.

- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.

Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:

- Como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!


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