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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

A memória da paixão

 

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 War of feelings by Leonid Afremov

 

Nota: O texto que se segue contém linguagem susceptivel de ferir a sensibilidade das mentes mais resguardadas. 

 

 

Sinto-te quente entre as mãos e viajo-te nas curvas do corpo, enquanto subo e desço as colinas dos teus seios e tu abres as pernas levando-me ao vale do inferno. Trinco-te a carme dos lábios com fervor no ardor com que me queimas as entranhas e me abocanhas o pescoço. E ainda te sinto, em chagas acesas, a força do amor que me cravavas na pele. Teu rosto a pincel, gemendo o prazer encorpado com que o meu nome te ardia na língua. 
Já não sei com que força te agarrava crespos, os cabelos que me cortam hoje como lâminas, as memórias inflamadas da sombra ardida onde me condenei a amar-te. Embriagado e levado pelo desejo da vontade e da loucura, ao mesmo tempo que uma ereção de ternura me obrigava a entrar em ti. Sinto-te fugir entre os meus dedos tesos e queimados, ressacados e incapazes de se dobrarem e guardarem as orgásticas cinzas onde ardi. 
A memória das mãos nunca esquece a paixão.

Hei-de beber do amor

Hei-de beber da taça dos teus lábios
o amor, ao entardecer.
E hei-de o saber, anunciado
pelo ruído de curiosidade da vizinha
sem cuidado, ao ver-te descer
a rua a correr…
e cair-me nos braços,
por mil embaraços no coração.

Hei-de te ter,
visão dos meus olhos ao anoitecer,
estrelas de um céu onde sonho
e acordo, para continuar a beber
da taça do amor que os teus lábios
me servem, quando pela manhã
raiam os teus cabelos de sol
na minha almofada.

Hei-de escrever,
pelas ruas da saudade
sobre a calçada do eco dos teus passos
lassos, quando saíres amanhã
e eu abrir amarela, a vista da janela
do campo de girassóis
dos teus caracóis, na minha lembrança.

Hei-de fazer correr tinta
por versos imersos na ausência
dos teus dedos nos meus.
Porque será a distância,
a única coisa em que tocam
para além da elegância da caneta
que te fez.
Criação da minha mente.

Hei-de beber do amor...

Lugares sem nome

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

Vida

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Éramos, talvez crianças, sempre que as mãos se entrelaçavam e sorriam - as minhas - ao largo dos teus caracóis.
Éramos, talvez a esperança, quando o olhar se cruzava e os teus olhos me inundavam de verde mar.
Éramos, talvez rebuçados, sempre que os lábios se encontravam, na curva dos beijos roubados, ao sol poente.
Éramos, talvez a corrida, sempre que soava a partida e me acompanhavas o rosto à janela.
Éramos, talvez o amor, de mãos dadas a correr, em direção à loja das guloseimas.
Éramos, talvez a vida, que só é sentida quando damos as mãos.

A criança no meu peito

Andava nua pelo meu peito
a criança que brincava
e amava, a seu jeito
doce e terno, no fraterno
encanto dos seus caracóis
já extintos. Por entre as ervas do campo
e o cimento da cidade,
trazia a claridade no olhar;
e o verde que ao azul faltava
conjugar, com as ondas do mar
dos seus olhos.
Andava nua pelo meu peito
a criança que sonhava,
quando o sol despertava
e sempre que a lua a chamava
para voltar a dormir.
Andava nua pelo meu peito
a inocência da idade,
na vivacidade dos folhos
do vestido às flores, roubado
e embalado pelas melodias
do vento ao passar por mim.
Andava nua pelo meu peito
a ternura do abraço
que ainda guardo para ti…
Da menina que planta flores no jardim
da amargura, por não poder ser criança
fora de si.

(Queres ser criança comigo? - Perguntou-lhe, estendendo-lhe a mão.)

Atração fatal

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Há sempre um momento que nos separa. O momento em que tu morres e em que eu assisto, impávido, ao teu desaparecimento. À beira do abismo. Na fragilidade visceral a que me condenas, não pela tua ausência física, mas pela constante presença emocional com que me manipulas os dias.
O nosso amor foi sempre a minha melhor criação, alimentada pelos meus pensamentos doentes e pelos fugazes encontros a que cedemos. Uma obra cuja temporalidade e materialidade suspeitas, me fazem agora crer, na possibilidade da sua não existência, sempre que te vejo morrer para o amor. Para o nosso amor.
Sou confrontado com a necessidade que as coisas e os acontecimentos têm, de ser apagados. É por isso que te matas, não é? Diz-me. É por isso que te matas? Queres apagar-te de mim, mas as marcas invisíveis não te deixam sair-me da pele.
Contigo, vivo constantemente à beira do abismo. Há sempre um momento que nos separa. O momento em que o amor vaza, escorre e cai morto, depois da despedida do teu corpo inerte. Sempre precisaste de sangue para que o teu nome ficasse gravado no meu coração.
Diz-me. Diz-me com clareza. No amor, qual é a vantagem de ser ferido, quando é por medo que morremos?


(Um texto escrito para a página 7HINK, no facebook.)

Falácias do amor

Cheira o orvalho ao teu perfume
e a tua boca ao aroma do café da manhã
que me acorda, com ciúme
do cantar do rouxinol que no galho assume,
os contornos do canto do teu corpo de pagã.

Queria eu cantar-te assim 
e tocar-te, pauta de cinco sentidos
entre os lábios
com gestos sábios dos dedos molhados
que em ti deslizam, como proas de barcos
salgados no Tejo ao sol poente.
Como são fáceis de alcançar
os tectos da cidade que há em ti,
quando me inundas de estrelato
o palato da boca que crepuscula
nos teus seios
abrindo portas a noturnos devaneios
a que me entrego no teu jardim.
Entre lençóis de luar e cetim
num frenesim de corpos suados
e condenados no fim
às falácias do amor.

Foi já sem sabor, que ele lhe bebeu
nos lábios desnudos de rubor,
o esfriar do último café. 

Amor à Liberdade

 

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-Aqui, somos todos loucos!

Dizem eles armados; versos na mão
punhais cravados,
amores baleados
por sentimentos minados
de pura ilusão.
Ardem-lhes as dores e as sombras do passado
secaram os jardins, anteriormente atravessados
por beijos molhados e olhares cúmplices
de um crime que só um louco viria a cometer – AMAR!
Só o rasto de pólvora da paixão e a putrefação das memórias ficou.
Cheiram a amoníaco as rosas da face, agora murchas,
e sangram os espinhos
outrora macios, se mordidos nos lábios
por desejos sábios, doravante enjeitados
pela morbidez lânguida da pele.
- Aqui somos todos loucos!
Gritam eles de armas na mão.
Assassinatos, extermínios, massacres, campos de concentração
de versos conjugados, em mares antes navegados
por sentimentos aguçados (agora renegados) e exulceração.

A última vítima do amor pela liberdade foi encontrada hoje, irreconhecível...
...Tinha um poema cravado no coração.

 

Tentações

Olhei-a, sentado no meu terraço
impávido e sereno,
cigarro aceso e um copo de bagaço,
antevendo o melaço do regaço daquela mulher.
Em pé, ombro apoiado na parede
mini saia preta e blusa de rede,
uma taça tinta de vinho na mão
e a cumplicidade de um Marlboro na outra. 
Sem infração, contou-me em silêncio segredos,
expondo-me os medos 
que ouvi e bebi, como se fossem minhas 
as pétalas de fumo que lhe nasciam nos lábios.
Embriagado pela subtileza dos gestos sábios,
cedi.
E fumei-lhe a espera,
num salgado jogo sem pressa 
ao leme da tentação.
Em maresia sem promessa...
entregues à ondulação,
dois corpos famintos,
em goles de beijos tintos
salgados instintos de prazer carnal.
Devoção em alto mar
até a onda rebentar...
... e a jusante da maré
lhes permitir regressar.
 

Amantes citadinos num terraço ao pôr-do-sol,
nus.
- Só a liberdade é necessária para amar!

Quando os filhos não têm um super-herói, mas sim uma super-guerreira - Feliz dia do Pai, Mãe!

 

 

Elas são mães e pais, não necessariamente por esta ordem, mas sim em simultâneo. Super Guerreiras sempre com a espada numa mão e o coração como escudo na outra.

E esse é o seu papel principal. Embora se desdobrem em tantos outros papéis num curto espaço de 24 horas. Não têm tempo para ler o guião, por isso improvisam. A intuição de que são dotadas raramente as deixa ficar mal e quando se trata dos filhos, nem o cansaço as vence.

"Enquanto sou mãe e pai sou também cozinheira, lavadeira, faxineira, professora, educadora, amiga e companheira, conselheira, organizadora, trabalhadora num qualquer departamento ou negociante, sou filha, sou amiga, sou vizinha, sou enfermeira e médica sempre que necessário, motorista, jardineira, anjo da guarda ou polícia, por vezes até cientista, pago contas, estico dinheiro e invento tempo para ser um bocadinho eu. Tudo isto em pose de senhora, num corpo feminino que os aconchega no colo, que se molda às cabeças no ombro e lhes deu de mamar quando eram bebés. Um corpo e uma mente com a flexibilidade necessária para cada nova situação com que me deparo e a voz doce e meiga que os protege, com a necessidade pontual da autoridade que os alerta e coloca em sentido."

Super Guerreiras. Para elas não há dias de folga, não existe um "toma agora tu conta deles para eu descansar", ou mesmo acompanhar as amigas num final de dia. Tudo para não falar de privar consigo mesmas e privilegiar de uns momentos sozinhas.

São a presença feminina assídua, perante uma ausência constante da figura masculina. Paternal dizem vocês. Discordo. A paternal é, na maioria das vezes, assumida por alguém, que nessa mesma maioria se intitula Mãe.

Aos filhos preenchem silêncios, para que estes não falem tão alto. Ocupam-lhe os tempos livres para que eles não tenham tempo para sentir a falta de um pai ausente, mas também lhes ensinam que para quem realmente importa não existe ausência nem falta de tempo, que lembrar não é estar presente, que pai não é só um nome comum, nem um estatuto adquirido, mas sim um adjetivo caracterizador e complexo. Que os direitos são para quem assume os deveres e que uma pensão de alimentos não serve para uma mãe se governar, mas sim para ajudar a suprir as necessidades de um filho. Ensinam-lhes que o dinheiro compra bens materiais, brinquedos e objetos supérfluos, mas não compra amor, carinho, amizade e atenção. Ensinam-lhes que sempre que o telefone não toca, nem a campainha da porta se faz ouvir, existe uma outra porta na vida que, apesar de tudo, não se deve fechar. Mas que só a atravessa quem realmente quer, sem necessidade de ser convidado a fazê-lo.

Acima de tudo e de qualquer outra coisa, ensinam e demonstram todos os dias úteis, feriados e fins de semana, a tempo e horas ou fora delas, que um coração de mãe é infinito.

Amantes no tempo

 

 

Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam.
Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.
 
- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - nem qual o destino que os espera. Toda a vida vivi intensamente, cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje - já calejado da vida - me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, o volume dos seios e a carne dos lábios, de olhos fechados.
 
Eurico rodou o banco, de lona verde escura, ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele - com a ponta do meu indicador - e lhe medisse a profundidade.
Quanto mais profunda, mais longa era.
 
- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir, para além de ti e de um vazio que nunca poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal, sempre que na demora da ausência, recordares uma mulher e - de olhos fechados - lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não amar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.
 
Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.
 
- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.
 
Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:
 
- Deve ser ali o lugar para onde vão, para o sítio onde o sol se põe. Com a pressa de chegar, nem reparam como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!
 



Há quem por ti passe tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.

Rita

Meu amor

Morro-te. Não te cumpri.
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas,
me desviaram de ti.

Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento
que viste partir.

Morremos. Não nos cumprimos.
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar.
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

 

... Meu amor!

                       

Uma breve reflexão sobre Tudo o Que o Amor Não É

 

Usando como título o nome de um livro da autoria do psicólogo e professor Eduardo Sá:

Em dia de festejos de São Valentim e onde a palavra em foco é o Amor, considero importante parar e refletir um pouco sobre tudo o que afinal o Amor não é. Para assim nos consciencializarmos de qual é, afinal de contas, o seu exato papel nas nossas vidas.

O Amor é um sentimento alvo de investigações e definições diversas, desde a psicologia à ciência, sem nunca esquecer a arte que dele vive e sobrevive. Na literatura, com maior foco na poesia, encontram-se-lhe milhares de definições. Certo é, porém, que as investigações se estendem, também elas, à investigação criminal e judicial, tal como é uma realidade (mais próxima do que se imagina), a entrada diária do amor nos gabinetes de Apoio à Vítima.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Opressão, ciúme doentio, perseguição, desconfiança cega, ameaça, domínio do outro, controlo asfixiante da vida, dos passos, das roupas que se vestem, dos amigos, dos colegas, até da direção do olhar e das observações feitas, palavras ditas.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Ameaça e violência. Homicídio.
É doença. É distúrbio. De personalidade ou psicológico, mas nunca será Amor.

Medo. É tudo o que o Amor não é. E é preciso algum grau de consciencialização e de decisão interior para a vítima de uma relação que deveria ser de Amor, paixão e romantismo tomar a decisão de se deslocar a uma esquadra policial, a fim de apresentar queixa contra o namorado/marido ou ex-namorado/marido.

 

A agressão não é um ato de Amor, tal como o pedido de desculpas que se sucede não é Amor declarado. 
É comum desculpar-se uma vez, duas, três vezes. À quarta, as sequelas são efetivamente visíveis. Mas atenção, o verdadeiro Amor não deixa marcas na pele nem feridas na alma. O verdadeiro Amor não sangra.
A esperança ilusória de que o outro irá alterar o seu comportamento, de que o seu arrependimento é real e a ideia de que a fazê-lo, o parceiro o fará por Amor, são enganos que evidenciam a morte da primeira vítima: o Amor próprio. 
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

É necessária uma maior consciencialização humana, uma maior abordagem do tema, campanhas que cheguem mais próximas das vítimas, mãos e corações abertos, pessoas dispostas a ajudar. É necessário transparecer segurança, é necessária ajuda psiquiátrica, é necessário apoio, é necessário AMOR.

 

Dia 14 de Fevereiro, enquanto muitos comemoram o Amor (mesmo que só uma vez por ano nesta data), outros recebem-no, julgam eles/elas, violentamente. Um estalo embrulhado em papel com corações, um cestinho de ameaças, um ramo de opressões, um qualquer perfume com aroma a feridas abertas, marcas e hematomas.
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

O Amor não mata. Tragédias gregas querem-se em livros, fruto da imaginação dos seus autores. Nos dias que correm já ninguém morre de Amor, mas sim pela falta dele.
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

A quem realmente o vive, o partilha, o dá e o recebe genuinamente e pelo coração, ficam os meus votos sinceros de uma feliz São Valentim antecipado!

Levou-a o vento

 

 

 

Ao nascer dos primeiros raios de sol e na demora dos minutos iniciais após o toque do despertador, levantava suavemente a cabeça, levava o braço direito adiante, a mão firme contra o colchão – na necessidade de amortecer o peso do corpo, lateralmente posicionado – e observava-a, timidamente, enquanto dormia.

Repetidamente ao longo de vinte anos, desde o primeiro dia.
Lentamente, fletia as pernas que arrastava até à extremidade da cama, endireitando o corpo. Sentado, voltava a observá-la. Clara. Clara o seu nome, clara a sua pele num rosto delicadamente apetecível aos seus olhos castanhos, nela pousados, enamoradamente. Uma rosa nos lábios ou tão somente as suas pétalas. Um perfume muito próprio nascia logo abaixo do queixo, na linha prolongada entre o pescoço e o peito; viagens a perder de vista.
Assim também Clara a perdera – e que bonitos olhos tinha. Janelas abertas para o mar.
Clara e Tiago haviam-se conhecido vinte e três anos antes, entre as estantes de livros da biblioteca. Ela, equilibrada num só pé, tentava alcançar um romance meticulosamente arrumado na última prateleira da seção de clássicos. Ele trazia poesia nas mãos e tropelias no coração. Ao vê-la, prontificou-se a ajudar.
“ E o Vento Levou”, de Margaret Mitchell. Ficou a vê-la sentar-se, encantadoramente, fechando lenta e graciosamente o perfeito ângulo de noventa graus formado entre a união das suas pernas e o chão, ao fazer deslizar os sapatos ligeiramente para a esquerda. A mão pousada no colo subiu, abriu suavemente o livro e o olhar fluiu, linha a linha.
Tiago viajou com ela. E voltou novamente a viajar. Passando a viajar diariamente sempre que cruzava a estante dos clássicos na biblioteca.
Clara nunca levantava o olhar. Bebia cada página e deixava-se levar.
 
«Não é mulher, é poesia.» - O poema que jamais algum livro lhe permitiria ler.
«Nem todos os poemas moram em livros, nem todos os versos são escritos, tão pouco há estrofes para todas as mãos.»
«E sonetos? » – interpelou-o ela, sem no entanto o fitar.
«Sonetos são viagens ao coração.»
«E eu só com ele sei ver – respondeu. O que os meus olhos não vêem, as minhas mãos sentem e os outros sentidos pressentem. É assim que o meu coração vê.»
 
Um livro em braille.
 
Vinte anos se passaram e o ventou levou Clara, há três.

Ao nascer de cada dia, Tiago levanta suavemente a cabeça, leva o braço direito adiante, a mão firme contra o colchão – na necessidade de amortecer o peso do corpo, lateralmente posicionado – e observa-a, timidamente, enquanto ela ainda dorme ao seu lado naquela fotografia.

 

«Foste tu quem me ensinou a ver com o coração.»

A melhor arma contra o ódio é o meu amor por ti

                        Imagem real. Cessar-fogo em Allepo, Síria. 22 de Outro de 2016

 

 

 

Troco todos os disparos pelo bater do teu coração. Troco o caos pelo sossego do teu peito e qualquer uma das minhas missões por uma só missão: fazer-te feliz.
Troco a guerra pela nossa paz e os meus gritos por sussurros ao teu ouvido. Troco a minha força bruta pelo sabor do toque suave na tua pele e pelo teu toque delicado, na minha.
Troco o desespero de milhares de mulheres e crianças, pela oportunide de poder fazer uma só mulher feliz, a minha mulher.

Troco o cenário de morte entre inocentes, culpados e inimigos, pela emoção de poder vir a assistir ao nascimento de um filho.
As noites mal dormidas em que acordo em sobressalto, troco-as por noites mal dormidas a dois. Os pesadelos pelos sonhos. O cenário de guerra e destruição, pelo erguer de uma casa - a nossa casa - crianças a correr, um cão a ladrar e nós abraçados a sorrir, perante tudo aquilo que juntos construímos e ao mundo trouxemos.
Troco os bombardeamentos aéreos pela beleza de um céu estrelado e pelo sorriso da lua ao teu lado.

 

Que seque a sede de vingança, estou sedento de te amar!

 
A arma, troco-a por um anel, a minha farda pelo teu vestido branco, no cantil já nascem flores de esperança e no meu rosto, outrora sisudo, um sorriso rasgado. Só o coração continua acelarado. 
Troco o necessário por uma felicidade capaz de reerguer toda esta cidade em ruínas - capacidade e poder que só o amor encerra.

Também já eu assim me senti, em ruínas, durante o tempo em que aqui não estiveste e sempre que fui eu quem não esteve aí. Quando pensei que o melhor para nós seria a separação. O teu mundo e o meu não combinavam, ou assim pensei ser. O teu sempre me cativou de tão belo e simples, delicado mas forte, repleto de sonhos e objetivos concretos, de pequenas coisas que aprendi a amar. O meu... do meu nem falemos.
Mas tu ficaste. Viste algo mais para além de um soldado, de uma farda, de uma mente formatada para ver em cada esquina um inimigo e dúvidar até da própria sombra. Graças a isso, o meu mundo agora é o teu. O nosso mundo.

Abdico de tudo pelo privilégio de viver o resto da minha vida ao teu lado. E ter-te do meu.
Quero que saibas que se um dia te considerei o meu ponto fraco, hoje sei-te o meu ponto forte. O melhor de mim.

Anda, vem comigo, há um lugar fantástico que só agora descobri. Um lugar onde só tu me soubeste levar, um lugar onde só tu soubeste chegar e onde pretendo que fiques.
Anda, vem comigo. O meu coração é já aqui.

Na voz de uma mulher

 

Não precisas de esperar. Eu não me vou atrasar. Afinal fui eu quem sempre aqui esteve à hora certa e no momento devido. Hoje não seria diferente. Chego uma vez mais, a horas, para te dizer que não esperes por mim. Durante todo aquele tempo em que tu ias e voltavas, te perdias de ti e te reencontravas, eu esperei. Esperei e sempre estive do teu lado. Mesmo atrasado, ias chegando, ias sorrindo, ias ficando, até ao dia em que a tua ausência prolongada ditou o meu afastamento.

 

Nunca te pedi muito, e o que pedi foi tão simples. Aquele minuto de atenção que nos faz sentir especiais. O respeito, o carinho e a consideração de quem se importa para com quem é importante. Tudo isso chegou até ti sem atrasos. A mim, foram muitas as vezes em que tão pouco os recebi. Porque tu, egoísta, vivias os dias envolto nos teus pensamentos, na tua rotina, na tua falta de tempo e nos teus maus momentos. Tinhas-me como presença certa e já nada fazias para que eu ficasse. Recorrias a mim somente quando mais nenhuma palavra te fazia sentido, quando nenhum conselho era tão válido quanto o meu, quando mais ninguém te fazia sentir seguro de ti mesmo ou te estendia a mão e te dizia “estou aqui”, quando mais ninguém te fazia sentir tão vivo o coração ou te despertava emoções que há muito não sentias.

 

Se precisavas de sorrir sabias onde encontrar o meu sorriso, se precisavas de um abraço sabias onde encontrar o meu, se precisavas de uma palavra, sabias que a minha seria a certa. Mas era sempre pela tua necessidade, e nunca pela minha ou a pensar que eu também poderia precisar de ti.

 

Como disseste e bem, sou forte, mas não tão forte que me seja indispensável o carinho, o conforto e a presença de alguém nos momentos difíceis. E onde andavas tu nos meus momentos de aperto? Desculpa que te diga, mas sempre que não me olhaste nos olhos para fugires de ti, sempre que não me agarraste com medo de a seguir me perder, sempre que não me amaste por cobardia, sempre que não me sorriste, sempre que não tiveste tempo ou paciência para mim, sempre que não chegaste ou deixaste algo por dizer ou fazer, tu não te atrasaste. Adiantaste-me sim a partida.

E enquanto tu eras o teu próprio centro de atenções e vivias embrenhado nos teus medos, nos teus pensamentos, nas tuas incertezas e na tua falta de tempo, eu vi o mar sem ti, a lua e o por-do-sol. Também não deixei de viver momentos sozinha, que queria viver ao teu lado, porque se tu me faltavas a mim, eu a mim não me falto. Sempre que fugiste de mim para não pensares em ti, acabaste por me perder ainda mais. E não só me perdeste a mim, como te perdeste de ti e perdeste muitos dos melhores momentos que tinhas para viver. São escolhas.

 

Agora, não me peças desculpa por tudo o que não fizeste ou não fizemos juntos. Se me conheces, sabes que prefiro a verdade dos atos à facilidade das palavras. E se de facto estás arrependido demonstra-mo sem atrasos.

 

Desculpa, o meu tempo está a terminar, a vida não espera por mim, o meu relógio não pára e há um lugar para ser feliz. Eu quero lá chegar a horas, por isso não espero por ti. Tu chegas sempre atrasado e outras vezes nem chegas.



Era uma vez um homem que não tinha tempo para o amor e que tropeçou na rapariga que amava de mais

 

 

 

Era a primeira vez que Rute visitava uma cidade tão grande. Tão cheia de pessoas, de prédios, de carros, de pontes, de estradas, de fumo, de fábricas, de pressa, de horários, de correrias, de rostos apagados, de encontrões e de relógios. Ali tudo dependia de ponteiros. Horas. Minutos. Segundos. A correr. Nas esquinas, nos pulsos, nas paragens de transportes, nas paredes dos mais variados edifícios, nos milhares de telemóveis que, aos seus olhos, absorviam o pouco tempo para respirar daquelas gentes. Acabava de chegar e já duvidava se o tempo que teria para visitar os seus pontos de interesse seriam suficientes. Ali tudo corria, voava. Até a vida. Sem ninguém reparar. Sem ninguém respirar. Sem ninguém ter tempo de carregar na pausa e aproveitar um momento com os amigos, com os filhos, com a cara metade, tão pouco consigo mesmo. Seres solitários entre a multidão.

 

Assim era a vida de Jorge, empresário de sucesso, homem bem parecido, inteligente, cordial, respeitador e respeitado, mas só. Nada lhe faltava a não ser tempo e amor - faltava-lhe tudo. Vivia dependente de ponteiros e alarmes sempre focado na tela de um telemóvel, deixando que a vida lhe passasse ao lado. E foi exatamente sem olhar para o lado, que ao entrar no metro tropeçou em Rute, que saía:

 

- As minhas desculpas.

- Não tem importância, preste somente mais atenção ao mundo em seu redor. É lá que estão as pequenas coisas da vida.

 

Acabava de chegar e de uma coisa ela já tinha a certeza, era o lugar mais triste que havia conhecido.

 

Exausto, Jorge caiu na cama; silêncio habitual de quem sozinho está na vida e no mundo. Cama fria, vazia. Um corpo sem alma e um coração sem amor. Na cabeça uma voz: "Preste somente mais atenção ao mundo em seu redor, é lá que estão as pequenas coisas da vida". - olhou em volta, um enorme vazio. Procurou o seu telemóvel, e-mails, reuniões, horários, alarmes, lembretes... Contactos profissionais. E vida? Família? Amigos? Amor? E ela? Quem seria ela? - "Pequenas coisas da vida".

 

Acaso ou destino, voltaram a cruzar-se, desta vez à porta do escritório.

 

- É aqui que vive?

- Não, é aqui que trabalho.

- Foi o que eu disse.

- Desculpe?

- A sua vida é igual à de toda esta gente. Trabalho, relógios, ponteiros, alarmes, telemóveis. E tempo? E amor?

-Temo não lhe saber responder... Mas entre e tome um café, tenho dez minutos, fique...

- Cheguei mas não quero ficar. Não me peça que fique. Não aqui onde não existe nada para além do que vejo. Onde ninguém tem tempo nem para olhar para o lado, quanto mais para viver e apreciar o que realmente tem valor na vida. Nem o café o senhor aprecia tamnaha é a pressa com que o bebe. E de que me serve um café mudo sem uma boa conversa? Aqui não há tempo para nada, nem sabem o que é o amor. Sem ele serei apenas igual a si. Um cadáver vivo. Não se esqueça, olhe em redor e veja para além do que os olhos alcançam. Atente nas pequenas coisas que lhe têm passado ao lado.

-Como você? - perguntou.

- Como tudo o que existe dentro de mim e que o senhor jamais compreenderá. Ecomo muitas outras coisas que o mundo tem para descobrir, sentir e oferecer.
Desculpe, agora sou eu quem tem pressa - de chegar onde posso sorrir. Se um dia descobrir um lugar onde pode sorrir, fique. E aqui para nós, descubra também um coração para morar e abra a porta do seu.

 

Abriu a porta do escritório e deu início a mais um dia.




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