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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Não basta chorar as cinzas de um país ardido

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São já 61 as vítimas do incêndio que deflagrou ontem em Pedrógão Grande, um número que tende a aumentar à medida que é feito o reconhecimento de toda a área ardida. O número de feridos mantinha-se em 59, às 10:00 da manhã.
Segundo a Proteção Civil, foram mobilizados 692 bombeiros, apoiados por 215 viaturas e aguarda-se a chegada de meios aéreos espanhóis e franceses para ajudar no combate às chamas, que lavram em quatro frentes.

Num país anualmente devastado por incêndios, sejam eles consequência de causas naturais ou mão criminosa, continuamos a assistir a uma extrema dificuldade, por parte dos sucessivos governos, de tomar medidas efetivas que permitam prever, atuar e minimizar o número de catástrofes incendiárias anuais.

 

O ordenamento do território é um dossier que continua a ser descurado, não só no que à desertificação do interior diz respeito, mas também no que toca à má qualidade das acessibilidades, que tantas vezes condicionam o acesso rápido ao local. Também a distância entre as árvores e as estradas é hoje, por infelicidade daqueles que no IC8 circulavam à hora errada no local errado, um exemplo simples, mas mortífero da falta de planeamento e ordenamento do território adjacente às rodovias, sem qualquer faixa/área de segurança ou corta-fogo. Os projectos - de há anos - de limpeza e vigilância florestal continuam na gaveta e a criação de um plano cívico de mobilização para ajudar nessa tarefa também não é horizonte, até porque somos nós cidadãos, membros da sociedade civil, os primeiros a desresponsabilizarmo-nos perante essa actividade considerada serviço cívico.
Porém, pedimos continuamente que sejam apuradas responsabilidades e punidos os culpados. Culpas e responsabilidades essas, que todos os anos morrem solteiras, mas que também nos pertencem, em parte.

 

(Na verdade, em que é que cada um de nós contribuí para que esta realidade se altere?)

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Não basta lamentar, tão pouco criticar, quando a responsabilidade é todos. Não basta prestar apoio e solidariedade emocional, homenagear as vítimas e os Heróis Nacionais que corpo a corpo, na sua frágil figura humana, enfrentam o inferno das chamas nas florestas portuguesas e lutam contra elas, numa tentativa de salvamento de vidas (humanas, fauna e flora) e infraestruturas.
Não adianta chorar sobre as cinzas de um país ardido e destruído anualmente, ficar em choque e cair hoje na real, para amanhã esquecer. É preciso atuar e sermos Unos, em prol de um país que é o nosso, protegendo territórios naturais que têm tanto de nossos quanto as nossas próprias casas.
Porque bem vistas as coisas, a Natureza é tanto património quanto pulmão de todos os portugueses (não somente das gentes do norte, como também do centro e do sul).

 

Hoje eles, amanhã nós ou os nossos. Porque não, não acontece apenas aos outros e é preciso atuar.

Por atentados desta natureza, será caso para usar a tag #prayforportugal

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A guerra não cabe numa caixa de sapatos

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A guerra nunca foi restrita a quem nela combateu. Nunca foi uma realidade com tão pouco tamanho que se pudesse colocar numa caixa, fechar a tampa e arrumar. Como aos sapatos se faz. Aqueles que calças e te testemunham os passos. Os que pisam o chão já por outros pisado, ou por ti desbravado. Aqueles, cujo desgaste das solas é indissociável do desgaste da vida. 

Diz-me meu neto, quantos sapatos tens e quantos trilhos traçaste?
Não mo digas, acaso sejam mais os sapatos guardados do que os quilómetros de vida por ti percorridos.
Nunca o conforto dos pés – em caminhos que não são os nossos - deverá suplantar o conforto da vida. É no desgaste das solas que o Homem se vê.

Desde o começo que a guerra afetou toda a sociedade – mesmo que o sistema o negasse. Primeiro, com o sofrimento da despedida daqueles que, como eu, partiam para África. Depois, com as notícias das primeiras mortes e feridos, que foram uma constante durante os anos que se seguiram.
Na frente de combate não era frequente privarem-nos de ração – que combinava com a nossa nova face primária - armas, munições e fardamento. Contudo, na retaguarda, subia o número de feridos, que se amontoavam nos pequenos hospitais militares, inadaptados e incapazes de suprir as necessidades e os cuidados de que os feridos em combate careciam.
Nascia assim, aquilo a que no seio das Forças Armadas se chamou Exército de Deficientes, que eu suavizo e apelido de Cagulo Bolorento do Exército.

Na verdade, esta linha do exército não parou de aumentar, eram cada vez mais os jovens soldados que, na flor da idade, ficavam cegos, contraíam doenças graves – algumas incuráveis -viam os seus membros amputados, ou que desenvolviam distúrbios do fórum psicológico. Jovens, cuja flor nem tempo teve para murchar, tamanha foi a violência com que viram as suas pétalas arrancadas - Tu não sabes, não tens como saber o que é sofrer uma poda definitiva na vida. Mas esses, os que a sofreram, sabem-no. Neles, jamais a vida se renovou. Tão pouco com a chegada da primavera. 

Também o número de caixões transladados aumentava, privilégio daqueles cujas famílias podiam pagar, posto que os custos da morte não eram suportados nem pelo regime, nem pelas Forças Armadas Portuguesas. Os outros, ou eram enterrados nas zonas de combate, por falta de meios de transporte ou, com mais sorte, viam a sua última morada gravada numa chapa, nos cemitérios organizados pelas forças militares, junto às suas bases operacionais.

Sorte? Dizes tu. Sim, essa força sem propósito, imprevisível e incontornável que desencadeia acontecimentos mais ou menos favoráveis para o indivíduo. Entre morrer vivo e assim continuar - apenas existindo - até ao derradeiro fechar de olhos, e entre ser enterrado no mato, que se morra definitivamente - e de uma só vez - e se seja enterrado condignamente.


Os deficientes da guerra sempre constituíram a face mais visível e transparente dos confrontos, aquela que, ainda hoje, a sociedade mais dificuldade tem em encarar. 
Na época, considerados “inválidos”, estes homens foram um pesado fardo para as famílias que se viram obrigadas a esconde-los, como se de impostores se tratasse. Enquanto os hospitais militares foram o refúgio para tantos outros. Tudo porque, oficialmente, Portugal não se encontrava em guerra e a aparição em praça pública de corpos amputados, homens em cadeiras de rodas, cegos ou transparecendo distúrbios vários, poderiam levantar interrogações incómodas para o regime, a respeito do que que era, afinal, a realidade nas colónias de África. 

 

Um regime, cujos passos eram incontestáveis, mas que não mostrava as solas. Um regime, cujos sapatos, à medida que pisavam terreno pantanoso, eram de imediato substituídos. Um regime que fechava em caixas as vidas que pela pátria eram dadas. Muitas delas detonadas, por minas que se ativavam na sequência de um passo em frente – alguns dirão em falso - daqueles que em nome de Portugal combateram.

Pensa agora meu neto, quantos são os sapatos que tens e qual a sua história?

A Escolha do Editor

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Quando A ESCOLHA DO EDITOR recai sobre um artigo da nossa autoria, assalta-nos o espanto. Depois um sorriso que se alastra interior e exteriormente, exercendo sobre nós todo o seu poder, num misto de felicidade e concretização pessoal.

Quando esse mesmo artigo retrata um dos períodos mais traumáticos da Nossa História enquanto Nação, é despoletado dentro de mim um sentimento de dever cumprido que, aliado à satisfação de um bom trabalho de pesquisa, me incentiva e dá alento para continuar. Mesmo sendo alvo de alguma censura.

Um agradecimento especial a todos os Ex-combatentes que pela Lusa Pátria lutaram. Aos que regressaram e a todos aqueles cujas vidas - em nome de Portugal - foram deixadas em combate.Sem mais palavras - porque não as tenho - o reconhecimento que me foi dado, a vós se deve!

Um enorme Obrigado aos Heróis da Pátria 

Falo do artigo As Valas, já anteriormente publicado neste blog, aqui !

Um alfaiate não cose vidas

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Dormíamos a maior parte das vezes no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos o que mais parecido havia com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de algum animal durante o período de tempo que durava o destacamento.

Embarquei em Portugal em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete com trinta mil toneladas de peso e capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era, também, parte integrante do nosso equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número e o nome do soldado e o seu tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a aquela a quem chamávamos a Fiel Companheira de Mato, a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, uma arma de grande porte a quem os guerrilheiros ganharam um grande respeito.

Durante as patrulhas as principais funções eram de reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou em linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão. Podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse espaço de tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos por escassos minutos para comer qualquer coisa ou para aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha muitas vezes a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?
(Voltemos ao cais...) 
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

Aos Poetas, neste Dia Mundial da Poesia

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Poetas.

Seres que só sonham. Seres que só sentem. Essa sede que têm de amar a tudo e a todos. Até à vida.

Poetas.
Esses seres que vivem do avesso. Com o coração de fora. Que estranha forma de vida!
Os Poetas de nada sabem senão da vida. E tudo o que sabem já é demais.
Os Poetas usam-te. Usam-te os olhos, o nariz, os lábios, cada fio de cabelo, até a sola dos pés. Descrevem-te os contornos e embelezam-te a alma, mesmo quando negra.
Já os vi usar paisagens, cidades, edificios inteiros, recantos escondidos, a terra e o mar, o céu, a lua, o grito e o silêncio, o Mundo. A guerra e a paz, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o amor e o ódio.
Os Poetas são especialistas em sentir. Experimentam as suas mais diversas formas. São seres insaciados. Por isso tantas vezes morrem novos. Overdose de sentidos.

Poetas.
Estes seres obcecados com a musicalidade daquilo que dizem. De tudo o que vêm. Até do que escrevem.
A teimosia que encerram em querer pintar a vida. Acham-se donos das cores do arco-íris. E são.

Poetas.
Esses seres capazes de transformar o que dói num sorriso. O que fere em amor. O que mata em vida. A escuridão em luz.
Nunca vi ninguém venerar tanto um sentimento agreste como a saudade, quanto um poeta. Desconfio até que estes seres transformam qualquer presença em ausência, só para fruir de mais uns versos para escrever.
A verdade é que vivem com as entranhas de fora e mesmo assim, passam despercebidos. Não se fazem notar, nem sabem, eles próprios, se são bonitos ou feios. Repugnam o supérfulo, admiram o detalhe. Parecem alienados do mundo. Transmitem serenidade, mas se lhes abrires a cabeça protege-te do furacão de ideias e conhecimentos. Da inteligência.

Os Poetas estão-se nas tintas para o paleio e conversa fiada. Só querem escrever. Só querem sentir.
Alimentam-se sobretudo de amor e quando este lhes falta morrem devagarinho e gritam, gritam tanto que o silêncio ensurdece. E nascem poemas. Tristes. Mas que gostas de ler. (Excepto se deles fizeres parte. Aí repugnas a poesia).

Poetas. Poetas.
Ninguém se torna poeta. Ninguém almeja ser poeta. Alguns nascem poetas e só esses morrem poetas, porque foram poetas na vida.


E eu que não sou poeta (quanto muito poetisa), estou certa que no dia em que morrer alguns irão perguntar:
-Morreu? Morreu de quê?
E alguém lhes responderá:
-Coitada. Nasceu poeta.

Xeque-Mate

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Sem precisão temporal – a guerra roubou-lhe o significado do tempo, contou-me uma noite depois de dar por terminada a sua mais longa partida de xadrez. Não dormiu durante vinte e sete horas. Ciente da sua capacidade de superação e de resposta ao imprevisto, fez xeque-mate ao rei adversário. Não se deixava surpreender, jogava o seu jogo e o jogo do seu opositor, mantendo a concentração e alterando a sua estratégia sempre que o adversário julgava te-lo surpreendido. Venceu pela persistência. 


- Esta é uma lição que deverás levar para a vida João Pedro, não são as ondas quem desgasta as rochas, é a sua ação contínua sobre elas.

Dizia ele em mais um dos seus testemunhos:

Sem precisão temporal, durante uma acção de reconhecimento aéreo, foi localizada uma base do IN camuflada no interior do mato. Base essa, que as forças terrestres especializadas tomariam de assalto durante a madrugada seguinte. A aproximação dos homens requeria especial atenção e precaução, não só pelas condições do terreno demasiado acidentado, como pela existência de populações nas proximidades. Qualquer falha alertaria o IN e consequentemente, ditaria a sentença de morte para muitos de nós.

Depois de uma análise detalhada da missão, o comandante da companhia ordenou que se formassem quatro grupos. Um primeiro grupo, composto por vinte e cinco homens, saltaria de helicóptero sobre o alvo – a base do IN – enquanto o segundo e terceiro grupos montariam emboscadas nas zonas de acesso. Iria ser mantido como reserva um quarto grupo que atuaria como reforço, ou entreveria numa eventual perseguição às tropas do IN.
Já a noite caíra quando o segundo e terceiro grupos saíram em silêncio para uma marcha de seis horas – segundo constatou o alferes Morais, porque como te disse meu filho, a guerra roubou-me o significado do tempo. Hoje, ao olhar para trás e ao relembrar as histórias que te conto, não sei se elas duraram um minuto ou um ano. Na altura, sei-o, foram o que vivi de mais semelhante com a eternidade. Esse espaço intemporal e infinito que só se conhece após a morte. E não foi isso que eu vivi? A morte? Matei quem era para nascer quem me tornei naquele cenário de horror e carnificina. - O segundo grupo posicionou-se perto da base e o terceiro permaneceu na periferia do rio.

Não houve qualquer sinal de alerta por parte do IN nem das populações, mas era importante manter toda a descrição, atenção e concentração a fim de evitar qualquer contacto até os homens do primeiro grupo realizarem o assalto - Como numa partida de xadrez. É crucial certificares-te de que o teu oponente não te decifra antecipadamente. Qualquer palavra, gesto, trejeito ou olhar podem fornecer-lhe indicações a respeito do teu pensamento estratégico, ou deixar clara a movimentação na tua próxima jogada. Nunca se sabe de que capacidades estão os outros dotados. E quer no jogo, como na guerra, como na vida, a aptidão e prontidão para uma rápida resposta pode debilitar e surpreender o outro lado. A morte já não me surpreende, mas a surpresa poder-me-á levar à morte.

Os comandantes da companhia ordenaram aos camaradas que iriam constituir o anel de cerco que se dispusessem em posição de emboscada, em grupos organizados de cinco elementos. De rádios ligados e em escuta permanente. Aguardariam pelo início da operação em silêncio e imóveis. Eu estava entre eles.

Ao amanhecer cacimbava, o que dificultou a descolagem dos helicópteros.
Voavam a baixa altitude e assim que o alvo foi localizado na orla da mata, o capitão saltou. Os restantes vinte e quatro soldados seguiram-no, num salto contra o tempo. De imediato o grupo de vinte e cinco homens, já reunido em solo firme, levou a cabo o assalto.
Seguiram-se tiros, gritos e vultos a correr. Granadas e corpos caídos. Ordens, ordens e mais tiros, tiros, tiros e tiros. Sobraram os mortos, os nossos militares feridos e algumas das gentes que por ali viviam.
Ouvi novamente o barulho ensurdecedor das pás e das turbinas dos helicópteros sob escolta de um helicanhão. Evacuaram as tropas, recolheram os feridos e abandonaram o local.

Seguiu-se uma nova caminhada de seis horas de regresso à base – e essa foi a duração da eternidade para o alferes Morais que caiu sem vida a dez passos do nosso aquartelamento.

[ Baseado em factos históricos verídicos - Guerral Colonial 1961-1974]

Quando os filhos não têm um super-herói, mas sim uma super-guerreira - Feliz dia do Pai, Mãe!

 

 

Elas são mães e pais, não necessariamente por esta ordem, mas sim em simultâneo. Super Guerreiras sempre com a espada numa mão e o coração como escudo na outra.

E esse é o seu papel principal. Embora se desdobrem em tantos outros papéis num curto espaço de 24 horas. Não têm tempo para ler o guião, por isso improvisam. A intuição de que são dotadas raramente as deixa ficar mal e quando se trata dos filhos, nem o cansaço as vence.

"Enquanto sou mãe e pai sou também cozinheira, lavadeira, faxineira, professora, educadora, amiga e companheira, conselheira, organizadora, trabalhadora num qualquer departamento ou negociante, sou filha, sou amiga, sou vizinha, sou enfermeira e médica sempre que necessário, motorista, jardineira, anjo da guarda ou polícia, por vezes até cientista, pago contas, estico dinheiro e invento tempo para ser um bocadinho eu. Tudo isto em pose de senhora, num corpo feminino que os aconchega no colo, que se molda às cabeças no ombro e lhes deu de mamar quando eram bebés. Um corpo e uma mente com a flexibilidade necessária para cada nova situação com que me deparo e a voz doce e meiga que os protege, com a necessidade pontual da autoridade que os alerta e coloca em sentido."

Super Guerreiras. Para elas não há dias de folga, não existe um "toma agora tu conta deles para eu descansar", ou mesmo acompanhar as amigas num final de dia. Tudo para não falar de privar consigo mesmas e privilegiar de uns momentos sozinhas.

São a presença feminina assídua, perante uma ausência constante da figura masculina. Paternal dizem vocês. Discordo. A paternal é, na maioria das vezes, assumida por alguém, que nessa mesma maioria se intitula Mãe.

Aos filhos preenchem silêncios, para que estes não falem tão alto. Ocupam-lhe os tempos livres para que eles não tenham tempo para sentir a falta de um pai ausente, mas também lhes ensinam que para quem realmente importa não existe ausência nem falta de tempo, que lembrar não é estar presente, que pai não é só um nome comum, nem um estatuto adquirido, mas sim um adjetivo caracterizador e complexo. Que os direitos são para quem assume os deveres e que uma pensão de alimentos não serve para uma mãe se governar, mas sim para ajudar a suprir as necessidades de um filho. Ensinam-lhes que o dinheiro compra bens materiais, brinquedos e objetos supérfluos, mas não compra amor, carinho, amizade e atenção. Ensinam-lhes que sempre que o telefone não toca, nem a campainha da porta se faz ouvir, existe uma outra porta na vida que, apesar de tudo, não se deve fechar. Mas que só a atravessa quem realmente quer, sem necessidade de ser convidado a fazê-lo.

Acima de tudo e de qualquer outra coisa, ensinam e demonstram todos os dias úteis, feriados e fins de semana, a tempo e horas ou fora delas, que um coração de mãe é infinito.

Fomes

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Comia-se mal e passava-se fome. Muita fome. A desorganização que se vivia e a falta de meios aéreos, ditava que não fossemos abastecidos corretamente. Existia, porém, algum apoio logístico a nível alimentar, mas apenas quando nos encontrávamos junto às viaturas. Se tal não acontecia, a nossa alimentação era baseada em ração de combate. Duas latas de atum e sardinha e um pacote de bolachas de água e sal, já com bolor. À exceção de um ou outro cabrito roubado, abatido e assado por nós, ou de meia dúzia de papagaios que por ali se matavam. 

Houve alturas em que a escassez alimentar tomou proporções tais, que passámos a alimentar-nos de mandioca crua, do pouco que conseguíamos roubar nas povoações e daquilo que nos era dado a troco de favores que iam desde os curativos aos sexuais.

 

Nesta altura éramos já - e apenas só - animais do mato regidos por instintos, em busca da satisfação das necessidades mais básicas e primárias do homem.
Não me orgulho João Pedro, não me orgulho de perder a racionalidade e permitir que o desejo carnal se transformasse em algo tão básico como apenas fome de carne, que saciei em vários corpos diferentes.
Não sei quantos filhos deixei. Nem se os cheguei a fazer. Um homem quando age assim não é digno de procriar, tão pouco é meritório do milagre da vida.

Corpos. Eram apenas corpos. Tanto os que caiam em combate, jaziam e apodreciam ao nosso lado, como os outros. Os delas. As que nos serviam o pecado tição.
Exceção feita à delícia do beijo da poesia negra – Shaira.
Recordo os seus lábios carnudos a aproximarem-se dos meus num beijo que começava terno, calmo e molhado, mas que depressa me dominava e possuía. Entranhava-se em mim. Pedindo-me que me entranhasse nela. Que entrasse nela e me demorasse com ela.
Não teria mais do que os seus dezassete anos e as proporções exactas num corpo poeticamente desenhado, que me pedia para ser lido e sentido ali mesmo, no intervalo preciso entre a hora da morte e o exato segundo onde o meu coração começava.

As Valas

 

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 Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da companhia que vinha ao nosso encontro, solicitava ajuda à aviação. Tinham caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo IN.

Foi o apelo mais dramático de que me recordo durante toda uma Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação para que bombardeasse tudo. Incluindo toda a companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável, o IN avançava sobre eles em número bastante superior.

 

Quis deus que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de outros tantos obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não deveria passar de uma miragem. 

Seguimos. Quem seguia nas viaturas saltou para o chão. A coluna avançava a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.

 

Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos, mortos e menos trinta e uma vidas, das nossas.

 À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos… gritos e mais gritos… mas estes de alegria. Disseram-me, porque eu já nem os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia. 

Ali, o sangue das nossas colónias cheirava a perecimento. E as lágrimas, mais pesadas que todo o nosso armamento, sabiam a luto, ódio e potrefação.

 

Com a noite, descemos às valas, que era onde se dormia em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem e quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.

 

Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

 

 
(Baseado em factos verídicos e em 3 testemunhos reais que me foram relatados na primeira pessoa.)

Sobre um dia que não considero 'O Meu'

Sobre um dia que não considero 'O Meu', dada a existência de outros tantos 364, ainda por conquistar.
 
 

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Para contextualizar:

A ideia de se instituir o Dia Internacional da Mulher surgiu nos finais do século XIX e inícios do século XX nos Estados Unidos e na Europa, no âmbito das lutas e movimentos levados a cabo em prol dos direitos das mulheres. Como sejam a luta pela igualdade de direitos económicos, sociais, trabalhistas e políticos (onde saliento a luta pelo direito ao voto).
 
Movimentos que tiveram início a 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, com repetição a 8 de Março de 1908. Ambos violentamente reprimidos pela polícia.
Foi também nesta mesma cidade que, a 8 de Março de 1909, se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher.
 
Seguiram-se países como a Rússia, Suécia, Alemanha, Reino Unido, França e Japão.
A Nova Zelândia foi, em 1893, o primeiro país do mundo a conceder o direito de voto às mulheres. Conquista resultante da luta de Kate Sheppard, líder do movimento pelo direito de voto das mulheres neste mesmo país.
 
Só em 1951 foram estabelecidos, pela Organização Internacional do Trabalho, os princípios gerais com vista à igualdade de remuneração entre homens e mulheres, para o exercício da mesma função.
E vinte e seis anos depois, decorria o mês de Dezembro de 1977, foi a vez da ONU adoptar o Dia Internacional da Mulher, como chamada de atenção para as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres. Faz, portanto, quarenta anos!
 
Ora muito bem, tanta referência histórica porquê? Para fazer lembrar- exatamente - que muito já foi conquistado, mas que tanto ou mais está ainda por ser conseguido, no que à igualdade de género diz respeito.
 
Senão vejamos.
  • Estamos em pleno século XXI e a escravatura sexual continua a existir, o uso da burka continua a ser obrigatório em determinados países e a proibição da mulher sair à rua sem se fazer acompanhar pelo marido ainda se mantém.
  • Estamos em pleno século XXI e continuam a surgir notícias sobre abusos, levados a cabo pelos militares presentes nas zonas fronteiriças, sobre mulheres e crianças refugiadas.
  • Estamos em pleno século XXI e o número de denuncias à APAV (Associação de Apoio à Vítima) ascende. A igualdade salarial ainda é uma miragem, assim como a igualdade no desempenho de determinadas funções e cargos ocupados.
  • Estamos em pleno século XXI e vai longo o caminho que visa o equilíbrio entre os dois géneros, no que às tarefas domésticas e à educação dos filhos diz respeito. Estamos em pleno século XXI e ouvem-se barbaridades a respeito das mulheres, vindas da boca de gente desumana, detentora de altos cargos políticos, ou mais grave, de gente desumana no poder.
 
“Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso.” disse-o e bem E. Burke.
 
  • Estamos em 2017 e a mulher continua a ser vista como o sexo mais fraco, sendo repetitivamente interpelada com afirmações como “és mulher é diferente”, “isso não é tema para mulheres”, “és mulher, és mais fraca”, “já viste como estás vestida?”, “isso é tarefa de mulheres”, “as mulheres são um fardo quando engravidam”, entre tantas outras do vosso total conhecimento e consentimento.
 
[A respeito das sociedades desenvolvidas, o mais cego é aquele que não quer ver. Já no que às sociedades subdesenvolvidas diz respeito, o peso da responsabilidade ao mundo inteiro pertence. Mundo esse, que venda os olhos para não ver.]
 
Decorre o ano de 2017 e os patrões oferecerem, na presente data, uma flor às suas funcionárias como forma de as homenagear… por serem mulheres.
Mas digam-me, será necessária a celebração deste dia para tal acontecer? Será necessária uma data para fazer lembrar aos mais esquecidos o que é ser mulher e quais os seus direitos? Sim, não só os seus deveres, que por sinal são equiparáveis aos do sexo oposto.
Será porventura necessário, às próprias mulheres, festejar um dia como este com jantares, borgas e afins, contribuindo para que o verdadeiro mote para existência deste dia caia por terra, perdendo o seu significado original e adquirindo um propósito fútil de caracter festivo e comercial?
 
Ou será necessário às mulheres e à sociedade em geral, a sua luta contínua por uma afirmação ininterrupta, ao nível das mais diversas patentes sociais, pessoais, económicas e políticas, de forma igualitária e justa?
 
Sem querer ferir susceptibilidades e como mulher que sou, feliz serei quando não for celebrado este dia, mas sim todos os restantes. Feliz serei, sempre que não sentir que é obrigação, por parte de um homem, felicitar-me ou homenagear-me, a cada dia 8 de Março, por ter nascido mulher. Feliz serei, quando qualquer um dos restantes 364 dias for motivo para agradecer ao género feminino por todas as suas lutas, conquistas e mudanças na sociedade.
 
É este o meu propósito em ser mulher. Lutar. Vencer. Conquistar. Igualar. Equilibrar. Mudar.
 
Por tudo isto e muito mais, hoje não é o meu dia! O meu dia serão sim, os demais que o ano tem. (Talvez não pára já, mas estou certa de que, na devida altura, o virão a ser).
 

Uma breve reflexão sobre Tudo o Que o Amor Não É

 

Usando como título o nome de um livro da autoria do psicólogo e professor Eduardo Sá:

Em dia de festejos de São Valentim e onde a palavra em foco é o Amor, considero importante parar e refletir um pouco sobre tudo o que afinal o Amor não é. Para assim nos consciencializarmos de qual é, afinal de contas, o seu exato papel nas nossas vidas.

O Amor é um sentimento alvo de investigações e definições diversas, desde a psicologia à ciência, sem nunca esquecer a arte que dele vive e sobrevive. Na literatura, com maior foco na poesia, encontram-se-lhe milhares de definições. Certo é, porém, que as investigações se estendem, também elas, à investigação criminal e judicial, tal como é uma realidade (mais próxima do que se imagina), a entrada diária do amor nos gabinetes de Apoio à Vítima.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Opressão, ciúme doentio, perseguição, desconfiança cega, ameaça, domínio do outro, controlo asfixiante da vida, dos passos, das roupas que se vestem, dos amigos, dos colegas, até da direção do olhar e das observações feitas, palavras ditas.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Ameaça e violência. Homicídio.
É doença. É distúrbio. De personalidade ou psicológico, mas nunca será Amor.

Medo. É tudo o que o Amor não é. E é preciso algum grau de consciencialização e de decisão interior para a vítima de uma relação que deveria ser de Amor, paixão e romantismo tomar a decisão de se deslocar a uma esquadra policial, a fim de apresentar queixa contra o namorado/marido ou ex-namorado/marido.

 

A agressão não é um ato de Amor, tal como o pedido de desculpas que se sucede não é Amor declarado. 
É comum desculpar-se uma vez, duas, três vezes. À quarta, as sequelas são efetivamente visíveis. Mas atenção, o verdadeiro Amor não deixa marcas na pele nem feridas na alma. O verdadeiro Amor não sangra.
A esperança ilusória de que o outro irá alterar o seu comportamento, de que o seu arrependimento é real e a ideia de que a fazê-lo, o parceiro o fará por Amor, são enganos que evidenciam a morte da primeira vítima: o Amor próprio. 
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

É necessária uma maior consciencialização humana, uma maior abordagem do tema, campanhas que cheguem mais próximas das vítimas, mãos e corações abertos, pessoas dispostas a ajudar. É necessário transparecer segurança, é necessária ajuda psiquiátrica, é necessário apoio, é necessário AMOR.

 

Dia 14 de Fevereiro, enquanto muitos comemoram o Amor (mesmo que só uma vez por ano nesta data), outros recebem-no, julgam eles/elas, violentamente. Um estalo embrulhado em papel com corações, um cestinho de ameaças, um ramo de opressões, um qualquer perfume com aroma a feridas abertas, marcas e hematomas.
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

O Amor não mata. Tragédias gregas querem-se em livros, fruto da imaginação dos seus autores. Nos dias que correm já ninguém morre de Amor, mas sim pela falta dele.
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

A quem realmente o vive, o partilha, o dá e o recebe genuinamente e pelo coração, ficam os meus votos sinceros de uma feliz São Valentim antecipado!

A ti, Porto

Fotografia de Rita Palma Nascimento

    Fotografia de Rita Palma Nascimento

 

 

 

Enquanto não existe amanhã...
Percorro-te as ruas, cruzo-te as esquinas, absorvo cada rasgo de luz por entre ruas e ruelas, travessas escondidas.
Quando desço a avenida sou pequena. Tão pequena e tu tão imponente. Escultural, perfeito de ambos os lados, Aliados.
Alegre passeio p'lo Passeio Alegre, onde me levam os carris de histórias tantas, do Infante até à Foz, dando voz a tempos idos. Elétrico caminho, assim, devagarinho, para te apreciar mais um pouco.
Um olhar pintado a aguarela.
D'ouro são as tuas àguas, aquelas que D.Luís atravessa, unindo-te à outra margem de onde te volto a contemplar, como uma criança à janela. Nova tela a aguarela.
Aos Rabelos confias o teu sangue, que o mundo bebe e na outra margem descansa. Entre Calem, Sandman, Offley e tantos outros, o Porto bebe-se Tawny ou Ruby.
A Gaia tanto confias, mas o encanto volta a ser teu.
Sem palavras para a Ribeira, perco-me na tua beira e guardo-te no olhar.
Sei que já vos levei à Foz, só não vos falei do mar atróz e fascinante. Silêncio, só se ouve o teu canto, cem turistas num recanto chamado farol. Intimidados com tamanha rebeldia, tiram-te mais uma fotografia e tu agradeces, rebentando.
Tens a Música em Casa e na Lello as tuas histórias, tens em Serralves o pulmão, a arte no Rivoli e a frescura no Bolhão. Santa Catarina sobe e desce, até á hora em que adormece e se muda a direção.
E à luz do Sol ou da Lua, eu já me sinto tua e não me canso de ti.
Por ruas, ruelas e calçadas o teu encanto nunca se apaga, seja de dia ou adiante... e já é de madrugada.

Entrevista com Mariana Brito Lança

Hoje partilho convosco a primeira entrevista neste blog. 
Pedi à Mariana que nos contasse uma história, ela abriu-nos o seu mundo. 

Autora da página Ponto de Rebuçado https://www.facebook.com/Ponto-de-Rebu%C3%A7ado-953571698108049/?fref=ts  que, antecipadamente, vos convido a visitar, Mariana Brito Lança, terapeuta da fala de profissão, tem 27 anos e é natural de Beja. Mantém com as palavras uma relação de amizade - que adjetiva compulsiva - reconhecendo que a paixão que por elas nutre "assumiu proporções deliciosamente desastrosas".

 

[Rita] - Quando e como começou a tua relação com as palavras?

[Mariana] - O início da minha relação com as palavras não teve propriamente uma data. Não as encontrei como quem esbarra com o amor numa esquina. Sinto que, no fundo, elas sempre estiveram lá. Antes de mim, até. A minha avó é poetiza, o meu pai seguiu-lhe os passos e eu, desde pequenina, cresci sensível às palavras e às emoções que carregam.

 

[Rita] - De que forma as tuas vivências e o teu crescimento influenciam tanto o que lês quanto o que escreves? 

[Mariana] - Sempre ouvi dizer que para se escrever é preciso ler muito. Curiosamente, e apesar de gostar de ler, não me lembro de ser uma devoradora de livros. Lembro-me do prazer da leitura, da viagem da interpretação, lembro-me dos bancos da escola e como a professora de português espicaçava em mim a paixão da palavras. Contudo, foi com o “tornar-me adulta” que esta paixão assumiu proporções deliciosamente desastrosas. A escrita, em mim, começou a dar os primeiros passos como forma de catarse, como se precisasse dela, e só dela, para os momentos mais desafiantes da minha vida. A escrita começou por ser uma grande amiga, compulsiva. Leio por lazer, escrevo por necessidade e imenso prazer.

 

[Rita] - O que é que mais te atrai no teu processo criativo, o mundo sonhado e utopias, o mundo real ou ambos? 

[Mariana] - As minhas utopias abraçam sempre o real. Não sei fugir de mim, mesmo quando sonho ser o que vai para além do que me caracteriza. Aquilo que me fascina na escrita é isso mesmo: poder voar para fora do que sou, deixando em cada linha um travo da pessoa que trago dentro.

 

[Rita] - As personagens que crias são muitas vezes de carne e osso. Algumas são uma projeção de ti mesma e as restantes? 

[Mariana] - Ainda estou num processo de introdução à escritora que mora em mim. Fomos apresentadas há pouco tempo e ainda nos estamos a conhecer. Posso dizer, neste momento, que a MBL existe em cada uma das suas personagens. A sua rebeldia, neste aspeto, é incansável. As personagens que construo estão, maioritariamente, ligadas às minhas vivências internas e vestem a pele das pessoas que no dia-a-dia me tocam.

 

[Rita] - Dos muitos livros que certamente já leste, qual foi o que mais te marcou e porquê? 

[Mariana ] - Esta pergunta não se faz. Cada livro é uma viagem e eu ainda agora apanhei o comboio. Espontaneamente, aquilo que me vem à cabeça: Maleza. Maleza, a minha avó. Leio e releio as suas obras, e consigo viajar sempre um bocadinho mais longe.

 

[Rita] - Quais os escritores que são para ti uma referência? 

[Mariana] - Alberto Caeiro. Não há até à data pessoa que mexa mais comigo, que entre em mim de forma mais arrebatadora. Assumidamente apaixonada

 

[Rita] - Dá-me o teu parecer relativo ao atual panorama literário português.

[Mariana] - A escrita em português é das coisas mais bonitas e tocantes de se ler. A nossa língua dá ainda mais alma às palavras, talvez pelo choradinho do fado que embala esta poesia de ser português. Temos, no nosso baú literário, tesouros incríveis. E, nos tempos que correm, somos assaltados por génios de palavras que substituíram a pena pelo ecrã tátil. Eras diferentes, a  mesma alma: a portuguesa.

 

[Rita] - Consideras que os meios de divulgação digitais são um suporte importante para a divulgação do que muito se escreve em Portugal? 

[Mariana] - A era digital “rasgou” os livros com cheiro a biblioteca mas trouxe-nos a possibilidade de ter em casa a mesma imensidão literária, só que sem capa. Grandes e (mais) pequenos, todos temos lugar na biblioteca do mundo.

 

[Rita] - De que forma gostavas de ver o teu trabalho chegar ao público? Abordas sobretudo vivências. Qual é a tua principal preocupação ao transmitir a mensagem? Que sentimentos tencionas despertar no leitor? 

[Mariana] - A divulgação do meu trabalho surge a pedido do meu público. Algo que inicialmente era só meu começou a querer saltar cá para fora, motivado pelos ouvintes mais atentos das minhas palavras caladas, palavras essas que pelos vistos gritaram alto de mais. Que sentimentos tenciono despertar? Um turbilhão deles basta-me. Só exijo dos outros aquilo que também dou.

 

[Rita] - Tens aspirações maiores no que à escrita diz respeito? Pensas em editar ou em desenvolver projetos ligados à literatura e à escrita? 

[Mariana] - Para já, aspiro continuar apaixonada. Quem sabe se desta paixão, sem reticências ou pontos finais, não resulta um romance? Até lá, saboreio o momento.

 

Obrigada Mariana, foi um gosto ter-te aqui!

 

 

Por falar em amizade

 

 

Sete biliões de habitantes na terra e tu contas pelos dedos as pessoas que te cativaram realmente.

 

Muitas são as pessoas que passam pela nossa vida, poucas são aquelas que acabam por ficar. Muitas são aquelas que conheces, com quem até podes ir beber uns copos de vez em quando, mas poucas são aquelas a quem realmente chamas AMIGO.

 

São ainda mais aquelas com quem falas, mas são poucas aquelas com quem conversas. Muitas estão só de passagem, outras trazem as malas consigo e ficam. Dentro delas trazem tudo o que são, para além da aparência. Trazem a sua personalidade, as suas ideias e ideais, objetivos e visão do mundo, da vida e dos dias. São essas que te acrescentam alguma coisa, que têm qualquer coisa para dar, que te mostram um outro lado das coisas, que te fazem ver a vida de um outro ângulo, que te conseguem fazer pensar de forma diferente daquela a que estás habituado, que pegam num problema teu e o minimizam, mostrando-te o quanto mais o mundo tem para te oferecer, mostrando-te que basta um sorriso teu para mudar o dia - tudo tem um lado bom, ou menos mau.

 

São essas que te dão uma outra perspetiva daquilo que vês. São mais do que o ir beber um copo, mais do que uma conversa banal, mais do que um conhecimento, são pessoas que vale a pena conhecer. São as que não estão de passagem, mas que ficam sem qualquer obrigação. Aquelas em quem podes confiar, aquelas com quem te podes abrir, aquelas com quem podes contar realmente. Porque essas, dão-te aquilo que são, e muitas vezes o que são é um infinito. Mesmo que aches de mais. Já há tantas que são de menos.

 

E são estas que são capazes de te ensinar a remar quando não existe vento, que te puxam as orelhas quando és teimoso, que te obrigam a abrir os olhos quando vives com eles semicerrados, que te dão um abraço quando precisas, ou mesmo sem precisares. São as que estão porque querem estar. São aquelas que não te dizem o que queres ouvir, mas sim o que precisas de ouvir. São reais.

 

Uma pessoa é sempre mais do que a sua aparência, é aquilo que pensa, aquilo que vê e a maneira como vê, a forma como marca a diferença, a sua personalidade e postura, aquilo que tem para dar sem pensar em receber. Porque aos verdadeiros sempre bastou um sorriso nosso.

 

Muitos são aqueles que conheces. Poucos são aqueles que se importam e a quem podes chamar AMIGO.




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