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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

22
Jun17

Dá-me tua mão

Rita PN

Agora, difícil é expulsar o frio do inverno que parece ter atravessado o calendário, para além do seu tempo, instalando-se nas almas de quem ficou e viu partir, em cinzas, as suas primaveras.

 

MAUS TEMPOS

Agora nos calamos
E já não mais cantamos.
Nosso passo é pesado.
É a noite, o seu tempo é chegado.

Dá-me a tua mão,
Talvez que seja longo este caminho ainda.
E a neve cai, a neve!
O inverno em terra estranha nunca finda.

Onde está o tempo
em que uma luz, um lar por nós ardia?
Dá-me a tua mão.
Talvez seja longo este caminho ainda.

Herman Hess

12
Mar17

No lume

Rita PN

chess.jpg

 

 

O hall abria-se para as restantes divisões. E ele estava em todas elas.
À esquerda, no escritório, lia Hemingway de perna cruzada e recostado na velha poltrona de braços largos, estufada em couro castanho dourado com acabamentos de madeira de jacarandá, estilo Dona Maria e ao gosto do avô inglês. 
À direita, era comum assistir-se à erudição das partidas de xadrez que travava contra o Professor Wesley e à frialdade com que, três ex-combatentes, debatiam temáticas como as antigas colónias, o marfim, os diamantes, os anos em que haviam integrado os teatros de operações da Guerra de África que, inevitavelmente, culminavam nas mais acesas críticas ao atual regime. No ar, os pensamentos enevoados de três charutos cubanos e nos lábios, o sabor de um Midleton irlandês que ardentemente descia e lhes aquecia as entranhas. O velho Stephen, filho de mãe inglesa e de um antigo Major português, costumava compará-lo ao sabor de uma africana que amara uma dezena e meia de vezes nas margens do rio Níger, durante a sua estadia em Bamako, capital do Mali, em 1952.

 

-Primeiro mordia-me e molhava-me os lábios com fervor, assaltando-me a boca com a sua língua encorpada, qual golada de verão num copo de Midleton sem gelo. A loucura do calor que em mim se entranhava queimava-me as vísceras. 
Ardemos durante várias noites, nas margens do rio Níger. Eu lume. Ela carvão.

 

Seguindo em frente pelo hall, envolvia-nos o cheiro a linguiça assada que se cruzava, já no interior da cozinha, com o do arroz de cabidela. O seu prato de eleição. Ouvia-se o roscar do saca-rolhas e o grito do vácuo ao saltar da rolha, seguindo-se a suave melodia com que o aveludado tinto alentejano tocava as paredes do copo. A faca de serrilha no pão, o arrastar da cadeira, dois talheres em trabalho e o mastigar com gosto.

 

Espreitei ao alpendre. O jornal do dia em cima da mesa. O avô não andaria longe.
Cheirava os coentros e a salsa. Desbastava a era que, fazendo jus aos seus dotes de boa trepadeira, cobria já a totalidade da parede de uma vida e do portão do casão, ao fundo do quintal.
Voltei ao interior e o avô não tardou em reaparecer, fazendo-se acompanhar por quatro grandes laranjas sumarentas que espremeu, dando-me a beber.

 

Sensivelmente a meio do corredor, ao virar do aparador em madeira de cerejeira antiga - peça de mobiliário datada de 1903 - entrava-se no seu quarto. E ali estava ele. Na moldura, na poesia de Eugénio de Andrade, no par de peúgas esquecido aos pés da cama e no smoking que levara ao meu casamento, impecavelmente pendurado no seu guarda-fato.
Ali estava ele também, em todas as suas memórias escritas e nunca partilhadas, por mim encontradas debaixo do pesado colchão que carregou durante anos o peso da vida que agora esmagava.

Ali estava ele. Em tudo e em nada. Ali estava ele, entre os espaços vazios. Ali estava ele, sempre que a luz se apagava e que comigo saía de mão dada, deixando para trás umas casa cheia, mas tão vazia de si.

 

Ali estava ele, o meu avô Stephen, outrora lume. E ela carvão.

Ali estava ele, o meu avô Stephen, muitas vezes pólvora e outras tantas munições.

Ali estava ele, o meu avô Stephen, agora em cinzas.

 

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