Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

19
Jul17

Diz-me, o que é que te diferencia?

Rita PN

Vivemos, boa parte do tempo, julgando-nos - a nós e aos outros - sob parâmetros errados e pré-estabelecidos de ideais de sucesso e aptidões pessoais. 
Da mesma forma, são poucos os que não seguem o rebanho e param para refletir sobre qual é, afinal de contas, a sua genealidade. Essa característica inata, pautada por habilidades e talentos intrínsecos, capazes de tornar únicos os seus detentores. 

Ambicionar ser bom em tudo, sempre foi meio caminho para não se ser óptimo em nada. Aí reside a importância de nos questionarmos e apostarmos naquilo que nos pode, efetivamente, distinguir e fazer sobressair social e profissionalmente entre os demais: os nossos talentos inatos. A genealidade de cada um.

Diz-me, o que é que te diferencia?

20106634_10209460607649007_7144868594992724117_n.j

 

19
Jun17

Não basta chorar as cinzas de um país ardido

Rita PN

19149082_10209161234084855_4624464119727325063_n.j

 

São já 61 as vítimas do incêndio que deflagrou ontem em Pedrógão Grande, um número que tende a aumentar à medida que é feito o reconhecimento de toda a área ardida. O número de feridos mantinha-se em 59, às 10:00 da manhã.
Segundo a Proteção Civil, foram mobilizados 692 bombeiros, apoiados por 215 viaturas e aguarda-se a chegada de meios aéreos espanhóis e franceses para ajudar no combate às chamas, que lavram em quatro frentes.

Num país anualmente devastado por incêndios, sejam eles consequência de causas naturais ou mão criminosa, continuamos a assistir a uma extrema dificuldade, por parte dos sucessivos governos, de tomar medidas efetivas que permitam prever, atuar e minimizar o número de catástrofes incendiárias anuais.

 

O ordenamento do território é um dossier que continua a ser descurado, não só no que à desertificação do interior diz respeito, mas também no que toca à má qualidade das acessibilidades, que tantas vezes condicionam o acesso rápido ao local. Também a distância entre as árvores e as estradas é hoje, por infelicidade daqueles que no IC8 circulavam à hora errada no local errado, um exemplo simples, mas mortífero da falta de planeamento e ordenamento do território adjacente às rodovias, sem qualquer faixa/área de segurança ou corta-fogo. Os projectos - de há anos - de limpeza e vigilância florestal continuam na gaveta e a criação de um plano cívico de mobilização para ajudar nessa tarefa também não é horizonte, até porque somos nós cidadãos, membros da sociedade civil, os primeiros a desresponsabilizarmo-nos perante essa actividade considerada serviço cívico.
Porém, pedimos continuamente que sejam apuradas responsabilidades e punidos os culpados. Culpas e responsabilidades essas, que todos os anos morrem solteiras, mas que também nos pertencem, em parte.

 

(Na verdade, em que é que cada um de nós contribuí para que esta realidade se altere?)

19149149_10209161234404863_1689568665290314420_n.j

 

Não basta lamentar, tão pouco criticar, quando a responsabilidade é todos. Não basta prestar apoio e solidariedade emocional, homenagear as vítimas e os Heróis Nacionais que corpo a corpo, na sua frágil figura humana, enfrentam o inferno das chamas nas florestas portuguesas e lutam contra elas, numa tentativa de salvamento de vidas (humanas, fauna e flora) e infraestruturas.
Não adianta chorar sobre as cinzas de um país ardido e destruído anualmente, ficar em choque e cair hoje na real, para amanhã esquecer. É preciso atuar e sermos Unos, em prol de um país que é o nosso, protegendo territórios naturais que têm tanto de nossos quanto as nossas próprias casas.
Porque bem vistas as coisas, a Natureza é tanto património quanto pulmão de todos os portugueses (não somente das gentes do norte, como também do centro e do sul).

 

Hoje eles, amanhã nós ou os nossos. Porque não, não acontece apenas aos outros e é preciso atuar.

Por atentados desta natureza, será caso para usar a tag #prayforportugal

19224809_10209162346992677_5739912000812864281_n.j

 

 

 

01
Mai17

Beja Merece!

Rita PN

 

 

18157752_1742964582397459_3906848448832868986_n.jp

 

Fomos centenas, os cidadãos que silenciosa, ordeira e respeitosamente, acolhemos o Sr. Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, na sua visita oficial à trigésima quarta Ovibeja.
Unidos por uma causa comum, em prol do desenvolvimento da cidade e respectiva região.

+Acessibilidades
+Desenvolvimento
+Aeroporto
+Comboio
+Saúde

Obrigada a todos os que se mobilizaram, porque #BEJAMERECE+


De seguida, deixo-vos as causas e os fundamentos que, ao longo dos anos, têm desencadeado as nossas mais diversas reivindicações. 

  • Comboios e eletrificação da linha férrea:

    O comboio chegou a Beja no ano de 1864, desde aí e até ao ano de 2004, a ligação a Lisboa era feita de forma indireta. A linha terminava no Barreiro, onde era feito o transbordo de barco até à capital.
    A partir desse ano e após a entrada em funcionamento da linha ferroviária na Ponte 25 de Abril, tiveram início as ligações diretas ente Beja e Lisboa, confortavelmente a bordo dos comboios intercidades. Uma viagem rápida e agradável, sem o constrangimento e a demora do transbordo. Esta nova ligação não só beneficiava os habitantes da capital do Baixo Alentejo, como também dos concelhos vizinhos, caso de Cuba, Alvito e Viana do Alentejo.

    Estudava em Lisboa nessa altura e recordo a lotação do comboio tantas vezes esgotada. Meio de transporte de eleição para jovens estudantes, empresários, famílias, doentes a carecer de cuidados de saúde apenas existentes na capital ou para um simples passeio.

    Julgámos que o progresso havia finalmente chegado, não fosse esta mesma ligação ter sido suspensa no decorrer de maio de 2010, para não mais ser reativada.
    Desde essa data até ao presente, sete são os anos em que a deslocação se faz a bordo do desconforto (e constantes avarias) de uma automotora com mais de 50 anos, até Casa Branca, onde é feito o transbordo para o intercidades da linha de Évora.
    Mas o desinteresse e desvalorização da linha férrea do sul não se restringe às ligações à capital, também o ramal de Moura, que servia tanto os habitantes deste concelho, como os do concelho de Serpa, foi desactivado no final do ano de 1989. Seguiu-se, em 2011, a ligação entre Beja e a Funcheira, que pôs fim à ligação férrea ao Algarve. Ligação esta que servia diversas localidades do sul do distrito.
    É necessário avançar com a eletrificação da linha e retomar as ligações diretas a Lisboa, porque #BEJAMERECE+


    DSCF0334.JPG

     

    Flickr_-_nmorao_-_Regional_6707,_Estação_de_Casa

     

     





  • A26 e outras acessibilidades rodoviárias:

    A A26 é outra das causas pelas quais o movimento #BejaMerece+ se debate. Uma autoestrada que deveria ligar Beja e Sines e que viu as obras paradas durante vários anos, depois das expropriações, das terraplanagens, dos viadutos e dos quilómetros já concluídos, tendo sido retomadas, de há alguns meses a esta parte, com 12 (doze) quilómetros de um troço não em autoestrada, mas em via rápida de quatro faixas sem portagens.
    Segundo António Ramalho, antigo presidente das Infraestruturas de Portugal, em 2015 justificava-se a suspensão das obras, uma vez que o tráfego seria inferior a “dez mil carros por dia”.
    É oportuno colocar a questão: “que tráfego justificou a construção de autoestradas como a A10, a A17 ou até mesmo a A13? E, comparativamente com 1 (um) quilómetro do Túnel do Marão, quanto custarão estes 40 (quarenta) quilómetros, em terreno claramente favorável a uma obra deste tipo?” - palavras de José Filipe Murteira, cidadão bejense e uma da vozes que integra o movimento #BEJAMERECE+ .

    A degradação do IP8 que liga Beja, Ferreira do Alentejo e a A2 é notória a quem por lá circula. O número acidentes de viação aumenta, assim como tem vindo a aumentar o número de mortes neste troço.
    Porque é necessário e temos direito a uma infraestrutura rodoviária segura e eficiente, é crucial concluir os 40 (quarenta) quilómetros da A26, que farão a ligação entre Beja e a A2.


    2012 Agosto Sta. Maria do Sado ponte.jpg

     


    IC27
    Ainda segundo José Filipe Murteira, “em 2005 foi concluído o plano de impacto ambiental da ligação do IC 27 entre Alcoutim e o IP2, próximo da Trindade, documento que custou mais de 400 mil euros. São cerca de 60 (sessenta) quilómetros que faltam concluir, ligando assim os concelhos de Beja e Mértola a Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António e melhorando também as ligações entre Évora e todo o interior a essa zona do Algarve.
    De acordo com o plano, o objectivo principal para a conclusão dessa via é o «aumento das condições de segurança e a diminuição do grau de sinistralidade», tendo em conta as caraterísticas da actual ligação, a EN 122.
    Os anos passaram e a obra não avançou, até que, em junho de 2012, uma fonte do governo de então, anunciou a sua suspensão definitiva, dado que o troço que falta ao IC27 se encontra «assegurado pela EN 122 e que, face à reduzida procura, essa estrada responde às necessidades existentes».
    Os vários acidentes, os mortos e feridos provam que afinal, isto não é verdade e que é necessário concluir o IC 27.”

 

ng8015181.jpg

300px-IC27_Algarve_2.jpg

 

 

  • A população jovem no Concelho e Distrito de Beja

    No seguimento de um apelo ao jovens, feito através do meu perfil de facebook, tomei a liberdade de recorrer às estatisticas dos Census 2011 e divulgar os dados que considero de extrema importância:

    Em 1900 (há 117 anos) eram 4982 (quatro mil novecentos e oitenta e dois) os jovens com idade superior a 15 anos a residir no Concelho de Beja, sendo 30945 (trinta mil novecentos e quarenta e cinco) em todo o distrito.

    Em 1950 o número tinha duplicado e eram já 8454 (oito mil quatrocentos e cinquenta e quatro) no concelho e 53810 (cinquenta e três mil oitocentos e dez) no distrito. 

    Segundo este estudo, em 2011 o número de jovens a residir no Concelho de Beja caiu drasticamente para 3571 (três mil quinhentos e setenta e um) e para 15086 (quinze mil e oitenta e seis) no distrito.

    Decorrido um século, a população jovem no concelho regista mínimos nunca antes vistos o que, para mim, é deveras preocupante. Muito se deve à emigração, à procura de melhores condições de vida, à falta de emprego, à reduzida oferta educativa, à pouca estabilidade para que aqui nos fixemos e possamos construir uma vida mais digna, que nos permita realizações pessoais e profissionais e futuros mais promissores.

 

  • Aeroporto

    Sobre este tema já muito se falou. Não me vou alongar, deixo-vos um pouco da minha visão, aqui.

    240620130131-117-DSC_1144.jpg

     

07
Abr17

Por baixo da pele

Rita PN

 

Por baixo da pele não há quem és.
És outro, que não tu, que não quem eu vejo
que não quem diz ser.
Por baixo da pele, a carne não cheira
a impunidade. A sensatez.
E a dignidade, que era robustez,
se desfez
deixando à vista os estilhaços.
Enchumaços d’hipocrisia
que te perfuram a pele e se mostram nus,
mas tu não os vês.
Sentem eles. Aqueles que ferras, sem te dar conta.
- À flor da pele -

 

Há no teu sangue crimes de guerra
que a sociedade enterra, para não ver.
- Será ela quem diz ser? -
Há nos teus ossos destroços
de vidas perdidas
que a sociedade ignora. Foram esquecidas,
para bem da superfície da pele.
Há nos teus órgãos delitos
e conflitos, por divergências
de pigmentação, orientação e religião.

Já me cheira a fel o teu hálito,
por tanto de nós devorado
desrespeitado, assaltado, derrubado e escravizado.
Por baixo da língua, diz-me, quantos em ti morreram?
Cemitério do povo
que engolido e ferido te desceu às entranhas
e te conheceu,
por baixo da pele...

 

Conto-te, nos olhos, o misseis
prontos a disparar, quando finges chorar
por aqueles que às tua lágrimas morreram.
Quando pensaram lavar-se do mal com que lhes tingias o corpo.
Há campos de concentração e de horror
por baixo da pele.
E é já irrespirável, no ar, o fedor
dos gases que expeles,
que sufocam crianças e adultos inocentes,
os deixa inconscientes e, por fim, os mata
à mão de interesses que tatuaste
à superfície da pele.

Sempre que o teu ódio rebenta,
levas contigo dezenas, até centenas.
Verdadeira tormenta para quem só quer paz.
E tu, farto de
bum, bum, bum…
pás, pás, pás…
pum, pum, pum…
Zás,
fazes uso do crânio
e lanças o urânio
que tens debaixo da pele.

Essa, já podre, que a todos nos serve de mortalha.

 

05
Abr17

A guerra não cabe numa caixa de sapatos

Rita PN

002.JPG

 

A guerra nunca foi restrita a quem nela combateu. Nunca foi uma realidade com tão pouco tamanho que se pudesse colocar numa caixa, fechar a tampa e arrumar. Como aos sapatos se faz. Aqueles que calças e te testemunham os passos. Os que pisam o chão já por outros pisado, ou por ti desbravado. Aqueles, cujo desgaste das solas é indissociável do desgaste da vida. 

Diz-me meu neto, quantos sapatos tens e quantos trilhos traçaste?
Não mo digas, acaso sejam mais os sapatos guardados do que os quilómetros de vida por ti percorridos.
Nunca o conforto dos pés – em caminhos que não são os nossos - deverá suplantar o conforto da vida. É no desgaste das solas que o Homem se vê.

Desde o começo que a guerra afetou toda a sociedade – mesmo que o sistema o negasse. Primeiro, com o sofrimento da despedida daqueles que, como eu, partiam para África. Depois, com as notícias das primeiras mortes e feridos, que foram uma constante durante os anos que se seguiram.
Na frente de combate não era frequente privarem-nos de ração – que combinava com a nossa nova face primária - armas, munições e fardamento. Contudo, na retaguarda, subia o número de feridos, que se amontoavam nos pequenos hospitais militares, inadaptados e incapazes de suprir as necessidades e os cuidados de que os feridos em combate careciam.
Nascia assim, aquilo a que no seio das Forças Armadas se chamou Exército de Deficientes, que eu suavizo e apelido de Cagulo Bolorento do Exército.

Na verdade, esta linha do exército não parou de aumentar, eram cada vez mais os jovens soldados que, na flor da idade, ficavam cegos, contraíam doenças graves – algumas incuráveis -viam os seus membros amputados, ou que desenvolviam distúrbios do fórum psicológico. Jovens, cuja flor nem tempo teve para murchar, tamanha foi a violência com que viram as suas pétalas arrancadas - Tu não sabes, não tens como saber o que é sofrer uma poda definitiva na vida. Mas esses, os que a sofreram, sabem-no. Neles, jamais a vida se renovou. Tão pouco com a chegada da primavera. 

Também o número de caixões transladados aumentava, privilégio daqueles cujas famílias podiam pagar, posto que os custos da morte não eram suportados nem pelo regime, nem pelas Forças Armadas Portuguesas. Os outros, ou eram enterrados nas zonas de combate, por falta de meios de transporte ou, com mais sorte, viam a sua última morada gravada numa chapa, nos cemitérios organizados pelas forças militares, junto às suas bases operacionais.

Sorte? Dizes tu. Sim, essa força sem propósito, imprevisível e incontornável que desencadeia acontecimentos mais ou menos favoráveis para o indivíduo. Entre morrer vivo e assim continuar - apenas existindo - até ao derradeiro fechar de olhos, e entre ser enterrado no mato, que se morra definitivamente - e de uma só vez - e se seja enterrado condignamente.


Os deficientes da guerra sempre constituíram a face mais visível e transparente dos confrontos, aquela que, ainda hoje, a sociedade mais dificuldade tem em encarar. 
Na época, considerados “inválidos”, estes homens foram um pesado fardo para as famílias que se viram obrigadas a esconde-los, como se de impostores se tratasse. Enquanto os hospitais militares foram o refúgio para tantos outros. Tudo porque, oficialmente, Portugal não se encontrava em guerra e a aparição em praça pública de corpos amputados, homens em cadeiras de rodas, cegos ou transparecendo distúrbios vários, poderiam levantar interrogações incómodas para o regime, a respeito do que que era, afinal, a realidade nas colónias de África. 

 

Um regime, cujos passos eram incontestáveis, mas que não mostrava as solas. Um regime, cujos sapatos, à medida que pisavam terreno pantanoso, eram de imediato substituídos. Um regime que fechava em caixas as vidas que pela pátria eram dadas. Muitas delas detonadas, por minas que se ativavam na sequência de um passo em frente – alguns dirão em falso - daqueles que em nome de Portugal combateram.

Pensa agora meu neto, quantos são os sapatos que tens e qual a sua história?

17
Mar17

Fomes

Rita PN

guerra_colonial_2.jpg

 

Comia-se mal e passava-se fome. Muita fome. A desorganização que se vivia e a falta de meios aéreos, ditava que não fossemos abastecidos corretamente. Existia, porém, algum apoio logístico a nível alimentar, mas apenas quando nos encontrávamos junto às viaturas. Se tal não acontecia, a nossa alimentação era baseada em ração de combate. Duas latas de atum e sardinha e um pacote de bolachas de água e sal, já com bolor. À exceção de um ou outro cabrito roubado, abatido e assado por nós, ou de meia dúzia de papagaios que por ali se matavam. 

Houve alturas em que a escassez alimentar tomou proporções tais, que passámos a alimentar-nos de mandioca crua, do pouco que conseguíamos roubar nas povoações e daquilo que nos era dado a troco de favores que iam desde os curativos aos sexuais.

 

Nesta altura éramos já - e apenas só - animais do mato regidos por instintos, em busca da satisfação das necessidades mais básicas e primárias do homem.
Não me orgulho João Pedro, não me orgulho de perder a racionalidade e permitir que o desejo carnal se transformasse em algo tão básico como apenas fome de carne, que saciei em vários corpos diferentes.
Não sei quantos filhos deixei. Nem se os cheguei a fazer. Um homem quando age assim não é digno de procriar, tão pouco é meritório do milagre da vida.

Corpos. Eram apenas corpos. Tanto os que caiam em combate, jaziam e apodreciam ao nosso lado, como os outros. Os delas. As que nos serviam o pecado tição.
Exceção feita à delícia do beijo da poesia negra – Shaira.
Recordo os seus lábios carnudos a aproximarem-se dos meus num beijo que começava terno, calmo e molhado, mas que depressa me dominava e possuía. Entranhava-se em mim. Pedindo-me que me entranhasse nela. Que entrasse nela e me demorasse com ela.
Não teria mais do que os seus dezassete anos e as proporções exactas num corpo poeticamente desenhado, que me pedia para ser lido e sentido ali mesmo, no intervalo preciso entre a hora da morte e o exato segundo onde o meu coração começava.

13
Mar17

As Valas

Rita PN

 

017091180_30300.jpg

 

 Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da companhia que vinha ao nosso encontro, solicitava ajuda à aviação. Tinham caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo IN.

Foi o apelo mais dramático de que me recordo durante toda uma Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação para que bombardeasse tudo. Incluindo toda a companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável, o IN avançava sobre eles em número bastante superior.

 

Quis deus que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de outros tantos obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não deveria passar de uma miragem. 

Seguimos. Quem seguia nas viaturas saltou para o chão. A coluna avançava a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.

 

Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos, mortos e menos trinta e uma vidas, das nossas.

 À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos… gritos e mais gritos… mas estes de alegria. Disseram-me, porque eu já nem os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia. 

Ali, o sangue das nossas colónias cheirava a perecimento. E as lágrimas, mais pesadas que todo o nosso armamento, sabiam a luto, ódio e potrefação.

 

Com a noite, descemos às valas, que era onde se dormia em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem e quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.

 

Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

 

 
(Baseado em factos verídicos e em 3 testemunhos reais que me foram relatados na primeira pessoa.)

Mais sobre mim

foto do autor

Direitos de Autor

© Todos os Direito de Autor e Direitos Conexos (CDADC), reservados nos termos da Lei nº 63/85, de 14 de Março, com as alterações introduzidas pelas Leis n.ºs 45/85, de 17 de Setembro, 114/91 de 3 de Setembro, pelos Decretos-Leis nºs. 332/97 e 334/97, ambos de 27 de Novembro, e pelas Leis nºs 50/2004, de 24 de Agosto, 24/2006, de 30 de Junho e 16/2008, de 1 de Abril. Por querer ver respeitada e protegida a sua criação intelctual neste espaço, a autora solicita que não seja feita utilização indevida do contúdo do blog sem a sua autorização prévia. Por consequência, sempre que exista partilha de texto(s) e/ou excertos do(s) mesmo(s), deverá ser mantido o seu formato original e ser, obrigatoriamente, mencionada a autoria do(s) mesmo(s). Disfrutem.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D