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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

18
Jul17

Abarcar

Rita PN

É preciso escrever com as mãos limpas
o eco da poesia que corre
entre as margens de erro da vida;
e emendar o céu... 
com o olhar simples
de quem apanha as estrelas distraídas
e voa, para que se abracem,
encurtando a distância
que, sob qualquer circunstância,
cabe inteira num poema.
Sem fragmentos, respiração suspensa
e uma história imóvel
entre os gracejos de um copo de vinho
que aviva veloz, a memória da tua voz
doce e calma a léguas de mim…
É preciso corrigir a lonjura sempre que chove
e o dilúvio da cidade solitária se abate sobre os nossos corações.
… escorrem as emoções, ao sul
desaguando no mar azul
que te tráz...
e só termina nos meus olhos.

Abarca-me.

06
Jun17

Para lá da Primavera

Rita PN

Rodou lentamente a chave, deu três voltas e soltou o trinco da porta que abria passagem à sala das lembranças. No chão, a carpete cobria-se de pó com a exata tonalidade daquele que, ao amanhecer, ela passava delicadamente a pincel pelo rosto. No tecto, o candelabro ainda a iluminava, suspensa pelo pescoço de um prego vestido de luto e guardada pela moldura de um quadro de memórias, cuja tinta escorria já pelas paredes.
Às voltas pela sala e a caminhar para dentro, com o peso dos anos a rasgarem-lhe os bolsos, sentia-se como se a dor furasse, sem piedade, o tecido frágil de que era feito, para mais facilmente escapar, abrindo um buraco por onde a própria existência se esvaia. 
Julgara-se de aço. Por toda a sua vida. Julgara-se de aço enquanto as lágrimas não lhe oxidaram o rosto e a fragilidade das rugas das papoilas breves não a levaram, a ela, no seu ameno vestido vermelho, para lá da Primavera.

15
Fev17

Uma viagem ao mundo de Lara

Rita PN

 

 

 

Livros, cadernos, blocos de notas, frases soltas em post-it, poemas, canetas, postais, recortes de jornal, páginas de revistas e fotografias – tudo espalhado num círculo à sua volta. Para lá da linha fronteiriça, um vazio interminável. Tão cheio de nada que, tudo quanto pudesse chegar, não teria espaço para se fixar – o nada é um território demasiado denso, que ocupa um espaço excessivamente grande - assim sentia aquele lugar.

 

- Lara, que desarrumação vem a ser esta?
- É a minha mente, mãe. Inquietações minhas.

 

A extensão do cosmos era, aos olhos de Lara, tão metricamente exatata, quanto o seu distanciamento às mentes mais comuns. Imensurável.
O seu apetite por cultura, lugares, gentes, aprendizagens, conversas construtivas e observações atentas e detalhadas sobre comportamentos humanos e sociais, era voraz. Nunca um prato cheio lhe era suficiente.
Necessidade primária, em tudo idêntica à ingestão de um doce após um salgado. Surgindo, após o doce, um novo desejo salgado.Também assim acontecia no cardápio de Lara, onde certa era a presença de um qualquer ingredinte capaz de lhe aguçar, mais avidamente, a gula do saber.

Apressada, mas nem sempre desajeitada, percorria caminhos, por utopias anteriormente pisados. Neles, segundo ela, sempre que avançava dois passos, também o horizonte se distanciava dois passos, obrigando-a a nunca terminar a jornada. Gostava particularmente desses jogos, sem vencedores nem vencidos, onde todos se intitulavam piões aprendizes.

Por vezes, incompleta, detinha-se diante do espelho, atenta ao seu reflexo. Olhar para si, era como abrir a janela para um mundo diferente todos os dias. Novos espaços para conhecer, outros praticamente esquecidos, ruas cheias, outras vazias e um livro branco a um canto, com tanto por escrever…
Feita de frases simples, mas nem sempre de fácil interpretação, assim se sabia ela.
Aprendia mais consigo, do que com muitas das histórias – de formas humanas - com quem se cruzava. Mergulhada numa introspeção contínua, analisava capítulos de leitura imprecisa e sentia palavras, soberba e apaixonadamente, como jamais alguém a poderia vir a sentir a ela. 

- Já estás outra vez de roda do espelho?
- Um espelho reflete bem mais do que aquilo que nele vês– respondia.
 As pessoas só atentam na superficialidade da imagem refletida. Na cor, no tamanho, nos pormenores  externos. Não é por acaso que o espelho tem uma conotação física e narcisista, mãe. E o conteúdo da imagem? Também ele é refletido, embora nem todos estejam aptos a vê-lo. Talvez, porque nos seja  necessário mais do que apenas os olhos para ver, na sua pureza nua, a totalidade de uma imagem.

- Lá estás tu e as tuas divagações. Era melhor que fizesses pela vida, ao invés de perderes horas embrenhada  em filosofias que a lugar nenhum te levam.
- O melhor lugar onde posso chegar é ao coração das pessoas.

13
Fev17

Reflexões - 8

Rita PN

Sempre tive a sensação que só vivi, realmente, aquilo que senti ou me foi permitido sentir. Aquilo que em mim ficou gravado e se expressa, ou expressou, através de emoções. Tudo o mais, foi apenas um nada que por mim passou.

        Rita

 

E a vida é mesmo isso, um conjunto de acasos, situações e ocorrências, de momentos e experiências em nós expressos e impressos através de emoções. Tudo o mais, é nada. É apenas o tempo que passa. 

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