Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Àquele lugar...

Quero querer, ou será que queria
um dia esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás
e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência
em que a distância é lugar onde habito.
 
Fechada no baú de recordações de tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo livre. Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim.
Nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria
um dia...
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo, quero!

Rosas de sonhos do vento

Vestiu a capa negra da noite
que julgou, outrora ver esquecida
no jazigo das recordações inférteis
das intempéries d'outra idade vivida. 
Olhou-se ao espelho, 
reflexo baço, vazio e semblante sombrio
de quem afastou de si o sol.
Reconheceu-se a ela, mas não a mim;
(menina que roubava flores no jardim)
vestia farrapos de sonhos
e tinha o passar dos anos emaranhado nos cabelos. 
Sem nexo. 
Apenas enleio
numa história que releio 
e cujas páginas se desfolham, 
como rosas
a quem não deram prosas
nem versos d'amor, com o mesmo calor
da verde esperança
com que a mão do meu coração as roubou
esta manhã no jardim.

Dispostas agora diante de mim,
cinco rosáceas de sonhos
nítidos (no mesmo baço espelho vazio),
refletem assim, ainda tenras,
as pétalas rosadas da face miúda
de quem seduziu
a espera, fantasiando possibilidades
e probabilidades
e que por isso viu,
na mesa das agulhas de marear do navio,
o ponteiro girar aos sete ventos,
entre os cardeais pontos perdidos
… e parar a nordeste.

(Era uma vez uma menina que roubava rosas de sonhos ao vento).

Sem sonhos somos apenas mendigos

Já não conheço ninguém
no entanto, a todos vejo e oiço a voz da indiferença,
quando passam. Passam todos por passar
sem olhar para quem fica,
para quem não foi,
para quem não seguiu
num passo cheio de falsa pressa
que sem entrega,
alcança lugar nenhum.
Passam todos por passar,
como as sombras com que lavaram o rosto de manhã
passaram-nas uma, duas, três vezes – ensaboadas -
na esperança vã de – destronadas - as nódoas da vida
ensanguentadas não lhes mancharem o amanhã.

 

Passam em linha reta, como se eu não estivesse aqui.
De mim, apenas os seus olhos se desviam;
estou roto, sujo e cansado - mesmo assim eles não viam.
Que ignorância trazem no olhar...
Luzisse eu e ofuscaria.
Mas não. Não quero que me conheçam pela luz.
Se me querem conhecer, mergulhem na mais profunda escuridão,
no lamaçal das incertezas, no pântano que me engoliu os sonhos,
no deserto onde fui abandonado e onde fuzilado,
o meu passado morreu.
Desçam à caverna e aprendam a ver no escuro.
Tropecem na lâmina afiada que vos corta e arranca – sem dó -
um bocado de carne.
(ó que imperfeito estou! A cicatriz que ficou não condiz com a beleza.)
Bem sei. São marcas de guerra.
- Mas a estética… é isso que vos causa dor? -
Cortem-se e chorem. Derramem lágrimas de dor. Sentida!
Conheçam o ardor de um peito que sufoca sem amor
e depois, renasçam.
Sentem-se aqui comigo nas escadas do metro
rotos e sujos, a descansar do peso dos sonhos que ainda carregam.
Ou será que não os trouxeram?
É isso que aqui estou a fazer, a descansar e a ver-vos passar
todos iguais uns aos outros. E vazios.

 

Desenganem-se. Não quero esmola.
Não sou mendigo, nem pedinte.
Sou ouvinte do amanhã.
Como me achais igual a vós?
Vós que o sois, pedintes. Precisais de sonhos, mortais!
Vinde! Sentai-vos aqui, é este o vosso o trono.
Ficai.
Eu vou fazer-me ao caminho.

Introspectiva

Silenciam-se os passos no barulho da mente.
Caminhas descalço em busca do teu presente
quando o tens à tua frente,
por vezes quieto e calado,
dás por ti a pensar nele, noites a fio acordado.
E silencias a mente, para nele não pensar,
embora vivendo-o, tens medo de o agarrar
e perdes os teus passos encontrando o pensamento
que te rouba a lucidez para viveres o teu momento.

 

E calas o que pensas, não nascendo o que sentes.
Fechas os teus olhos, porque é só a ti que mentes.
Finges que não te importas com o que a vida não te dá,
mas sabes que és tu quem o futuro mudará.

 

Noites em claro. Pensamentos a voar.
Lágrimas que caem. Continuas a chorar.
Aprende que a vida é uma e acaba!
Sorri e faz sorrir, porque um sorriso não mata.
Agarra o presente, deixa para trás o que passou,
vive o que tens e o que a vida te reservou.
Embora penses que o pensas não faz sentido,
escuta o coração se ele te falar ao ouvido.

 

Não cales o que pensas se for para nascer e sentir.
Abre os teus olhos, não podes ao presente mentir.
Não finjas que não te importas, se sabes que a vida te dá
motivos para sorrir; só de ti dependerá.

Saudades sei lá de quê

 

 

Anoitecia e no silêncio ouvia-te os passos. Chegavas tantas vezes depois do sol se pôr, quando já ia alta a lua no céu.
Chegavas e aqui ficavas de um lado para o outro, entrando e saindo de cada divisão, como se quisesses preencher toda a casa. E eu, muda, ouvia-te os passos sentindo-os em silêncio.
Atravessavas a noite e acordavas-me, por vezes, a meio de um sonho pedindo-me para nele entrar, quando na verdade, dele já nem saias mesmo depois de amanhecer.
Anoitecia, e em silêncio ouvi-te percorrer em passos mudos o soalho deste espaço. E aqui ficavas, apertando-me em surdina.
Hoje anoiteceu, janelas fechadas, coração trancado, por isso bateste-me à porta.
Abri e deixei-te novamente entrar. Sim a ti. O teu nome? Saudade... de tudo aquilo que ainda tenho por viver.

Um voo com destino ao Futuro

 

 

8h45 – SALA DE EMBARQUE

 

Um homem lê o jornal.
Uma mulher amamenta o filho.
Duas crianças brincam e saltam por cima dos bancos.
Um casal idoso dás as mãos.
Um casal jovem mexe no telemóvel. Ela tira fotos, ele passa os olhos no facebook.
Duas amigas conversam.
Dois amigos comentam.
Um homem de negócios reponde a e-mails.
Uma mulher de negócios retoca a maquilhagem.
3 turistas trocam impressões à roda de um mapa.
Um rapaz dorme.
Um militar parece ansioso.
Um pai brinca com o filho.
Um avô conta uma história.
Uma menina encosta-se ao vidro e, em silêncio, segue com o olhar os aviões que aterram e os que descolam.
Alice, a mãe, apenas observa.

 

Ouve-se: “Primeira chamada para o voo com destino a Lisboa.”

 

A menina que observava aviões dirige-se ao segurança da porta de embarque:
- O meu avião vai para Lisboa?
- Sim.
- E de onde vêm todos os outros?
- Do mundo inteiro.
- E eu não posso ir para o mundo inteiro?
- Quando fores grande.
- Mas todos estes senhores são grandes e só vão para Lisboa…

 

Alice levanta-se e prepara-se para o embarque:


- Clarinha não aborreças o senhor, vamos?
- Mas mãe, tu disseste que íamos para o futuro…
- E vamos.
- O futuro fica em Lisboa?
- Por agora sim, quando fores grande ficará onde tu quiseres.
- NO MUNDO INTEIRO!!!
Oh mãe, acho que estes senhores estão enganados. Eles também vão para o futuro?
- Não Clarinha, vão apenas para Lisboa.
- Hmmm… para irem para o futuro eles precisam de ser pequenos outra vez não é?
- Talvez. Ou talvez precisem apenas de sonhar tanto quanto tu.

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D