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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Por baixo da pele

 

Por baixo da pele não há quem és.
És outro, que não tu, que não quem eu vejo
que não quem diz ser.
Por baixo da pele, a carne não cheira
a impunidade. A sensatez.
E a dignidade, que era robustez,
se desfez
deixando à vista os estilhaços.
Enchumaços d’hipocrisia
que te perfuram a pele e se mostram nus,
mas tu não os vês.
Sentem eles. Aqueles que ferras, sem te dar conta.
- À flor da pele -

 

Há no teu sangue crimes de guerra
que a sociedade enterra, para não ver.
- Será ela quem diz ser? -
Há nos teus ossos destroços
de vidas perdidas
que a sociedade ignora. Foram esquecidas,
para bem da superfície da pele.
Há nos teus órgãos delitos
e conflitos, por divergências
de pigmentação, orientação e religião.

Já me cheira a fel o teu hálito,
por tanto de nós devorado
desrespeitado, assaltado, derrubado e escravizado.
Por baixo da língua, diz-me, quantos em ti morreram?
Cemitério do povo
que engolido e ferido te desceu às entranhas
e te conheceu,
por baixo da pele...

 

Conto-te, nos olhos, o misseis
prontos a disparar, quando finges chorar
por aqueles que às tua lágrimas morreram.
Quando pensaram lavar-se do mal com que lhes tingias o corpo.
Há campos de concentração e de horror
por baixo da pele.
E é já irrespirável, no ar, o fedor
dos gases que expeles,
que sufocam crianças e adultos inocentes,
os deixa inconscientes e, por fim, os mata
à mão de interesses que tatuaste
à superfície da pele.

Sempre que o teu ódio rebenta,
levas contigo dezenas, até centenas.
Verdadeira tormenta para quem só quer paz.
E tu, farto de
bum, bum, bum…
pás, pás, pás…
pum, pum, pum…
Zás,
fazes uso do crânio
e lanças o urânio
que tens debaixo da pele.

Essa, já podre, que a todos nos serve de mortalha.

 

As Valas

 

017091180_30300.jpg

 

 Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da companhia que vinha ao nosso encontro, solicitava ajuda à aviação. Tinham caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo IN.

Foi o apelo mais dramático de que me recordo durante toda uma Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação para que bombardeasse tudo. Incluindo toda a companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável, o IN avançava sobre eles em número bastante superior.

 

Quis deus que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de outros tantos obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não deveria passar de uma miragem. 

Seguimos. Quem seguia nas viaturas saltou para o chão. A coluna avançava a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.

 

Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos, mortos e menos trinta e uma vidas, das nossas.

 À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos… gritos e mais gritos… mas estes de alegria. Disseram-me, porque eu já nem os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia. 

Ali, o sangue das nossas colónias cheirava a perecimento. E as lágrimas, mais pesadas que todo o nosso armamento, sabiam a luto, ódio e potrefação.

 

Com a noite, descemos às valas, que era onde se dormia em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem e quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.

 

Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

 

 
(Baseado em factos verídicos e em 3 testemunhos reais que me foram relatados na primeira pessoa.)

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