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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

31
Mai17

Lugares sem nome

Rita PN

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

23
Mai17

A criança no meu peito

Rita PN

Andava nua pelo meu peito
a criança que brincava
e amava, a seu jeito
doce e terno, no fraterno
encanto dos seus caracóis
já extintos. Por entre as ervas do campo
e o cimento da cidade,
trazia a claridade no olhar;
e o verde que ao azul faltava
conjugar, com as ondas do mar
dos seus olhos.
Andava nua pelo meu peito
a criança que sonhava,
quando o sol despertava
e sempre que a lua a chamava
para voltar a dormir.
Andava nua pelo meu peito
a inocência da idade,
na vivacidade dos folhos
do vestido às flores, roubado
e embalado pelas melodias
do vento ao passar por mim.
Andava nua pelo meu peito
a ternura do abraço
que ainda guardo para ti…
Da menina que planta flores no jardim
da amargura, por não poder ser criança
fora de si.

(Queres ser criança comigo? - Perguntou-lhe, estendendo-lhe a mão.)

13
Fev17

O regresso de um estranho

Rita PN

 

 

 

Para trás deixava metade de uma vida e - de mãos a abanar e passo leve - seguia adiante pela estrada de terra batida.
O sol subia apressadamente à sua frente, iluminando-lhe o rosto gasto e cansado, sem cor de gente. Um Zé Ninguém - assim se autointitulava.
Num esforço desmedido, evitava olhar para trás. Não queria deixar memórias, tão pouco fazer-se acompanhar das mais recentes. Os antolhos mentais auxiliavam-no a limitar da visão lateral, forçando-o a olhar apenas em frente, sem correr o risco de se deixar levar por distrações ou tentações fáceis.

 

Com sonhos no horizonte, seguia o Zé, noite e dia por caminho instável, umas vezes seco outras tantas lamacento, assim como os seus olhos. Mas sempre certo de que todo o esforço e sacrifício valeriam a pena no final.
"Afinal de contas, um caminho sem obstáculos nunca nos levou a lugar algum. E que outras funções existem num obstáculo, que não sejam fazer-nos parar de fronte ou levar-nos a querer ultrapassá-lo?"

 

Ninguém o vira partir, tal como ninguém o iria ver regressar sete anos mais tarde, àquele lugar. 
A mesma estrada de terra batida trazia Zé - agora Alguém - de visita. O mesmo passo leve, uma mão a abanar e uma criança pela outra.

“Benvindo às tuas origens.”

 

À entrada, o café do Adérito continuava igual. A garrafa de cerveja continuava em cima da segunda mesa a contar da direita, acompanhada do pires com meia dúzia de tremoços que as mãos do Chico da Parra - castanhas da terra – depenicavam.
Meia volta dada e à porta da igreja as mesmas vestes de domingo, aprumadas, os lenços a cobrir os cabelos presos em monhos e 6 beatas à espera que o sino batesse as onze para que se desse início à missa.
À esquina da rua, o senhor João ainda passeava o cão, o Esteves continuava sentado no banco a ler o jornal do dia anterior, a dona Deonilde estendia as meias do marido e a pequena Leonor rodava o seu vestido azul de folhos dançantes.

 

Zé - agora Alguém - com a criança pela mão, regressado fazia duas horas, continuava a percorrer a vila com os passos que a memória não desaprendera.
Pararam na tabacaria do Matias, ouviram parte do relato do jogo do clube da vila e Zé - agora Alguém - contou as mesmas 16 laranjas que pendiam da farta laranjeira do quintal da tia Maria. Tropeçou no mesmo degrau onde, durante a sua infância, tropeçava sempre que corria pelo pátio da escola. E desviando a cabeça lentamente para a esquerda, baixou o olhar na direção da criança que o acompanhava, verificando que também ela se havia ferido no joelho - tal como lhe era frequente acontecer a ele, em tempo idos.
Dirigiu-se a casa, mas não a encontrou. Seis ruas todas idênticas com casas de ambos os lados, todas elas iguais. Uma lágrima e as duas mãos a abanar. 

“Onde é que tu vais? Anda cá. Não saias de perto de mim.”
A criança dirigia-se à terceira rua - a correr - parando à porta do número 6. 

“A nossa casa é aqui.”
Imaginou o cheiro a café e o som do piano por ele próprio dedilhado. As túlipas ainda lá estavam - alguém as regava durante a sua ausência prolongada, pensou - e o baloiço também. Sentou-se com a criança no colo e deu balanço. Demorou-se nele cerca de meia hora, que nem deu por passar.

"Ainda fazes boas viagens, companheiro!"

 

Passou pelo largo central onde, outrora, se situava a sua livraria. A porta aberta prendeu-lhe a atenção e espreitou. O cheiro dos livros ainda permanecia intacto convidando-os a entrar. Sentaram-se no chão diante da única estante que restava. Com sonhos no horizonte, ela ali continuava e ele - ainda Zé Ninguém - também  naquele espaço se encontrava.

 

Porém, ninguém o reconhecera. Nem o Adérito, nem o Chico, tão pouco o senhor João ou o Esteves, a dona Deonilde, a pequena Leonor e o Matias. A tia Maria, coitada, já não via. E ele ali estava, de mão dada consigo próprio sete anos depois. Trouxera-se criança no regresso para melhor recordar a vila. Aos seus olhos nada mudara, excepto ele, o mesmo Zé - outrora Ninguém e agora Alguém - estranho para toda a gente.

 

Diante da estante de sonhos, retirou da segunda prateleira o quarto livro a contar da esquerda. Abriu-o na página vinte e oito e leu:

Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui.

Fernando Pessoa

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