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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

05
Out17

(Im)Perfeitos

Rita PN

Escritos por nós e sobre nós próprios, os
rascunhos dos passos a lápis traçados
e limpos. Apagados que foram os rastos
das pontas das vidas perdidas,
que se arrastam,
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão
das pegadas errantes que deixamos.


Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado
p’la tinta da caneta com que tememos escrever
o presente, assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!
Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária;
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.

- A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém."

21
Dez16

Bocas caladas. Mentes amarradas. Corações amordaçados.

Rita PN

 

Descia a avenida, quando ao longe avistei um enorme aglomerado de gente.
Uma multidão, termo comummente utilizado. Tão comum quanto aqueles que dela faziam parte.
Silenciosos. Estranhos entre eles – desconfio que estranhos a eles próprios também. Olhavam-se e entreolhavam-se, mas nada diziam – os que se olhavam. Já que a maioria baixava a cabeça naquele ato já banalizado de quem ignora os restantes. Olhavam para baixo. Para o umbigo, talvez. Na pior das hipóteses já haviam desistido da vida e, apenas existindo, olhavam para o chão.

Observava-os. Também eu calada, receando quebrar o silêncio daquela marcha muda de gente. Na verdade, nem sabia o que lhes poderia dizer. Pareciam alienados, cada um no seu mundo aparte dos restantes. Embora lado a lado.
Nada mais ouviam senão os seus próprios “Eu”. Pensamentos negativos, egos obesos, medos e problemas – vim a perceber mais tarde.
Ninguém ouvia sonhos, ambições, desejos, a força do querer, a voz da alegria e o nome da felicidade. Espantem-se agora, assim eu me espantei, ninguém conseguia ouvir o seu próprio bater do coração. Nas suas mentes ecoava somente o “eu”, “eu”, “eu”, de tal forma alto que ensurdeceram para o mundo.

No meio de tanta gente, aquele silêncio começava a tornar-se incómodo. Ninguém dizia nada a ninguém, no entanto mantinham-se juntos. Ninguém se afastava.
“Menina faça silêncio” – sussurrou-me alguém. “O seu coração bate muito alto, desconcentra-me.”

“Que raio de observação a sua... dizer que o meu coração bate muito alto. O seu é que sofre amordaçado. O meu coração bate ao volume necessário à vida e ao compasso que eu o fizer bater. Era o que mais faltava mandá-lo calar. E digo-lhe mais, se todos os corações tivessem a liberdade de se fazer ouvir, tal como eu permito ao meu que faça, imagine que bonita seria a melodia que se faria ouvir aqui! Mas vocês preferem o barulho ensurdecedor dos vossos egos e de tudo quanto há de negativo em vós. “

Segui adiante certa de que toda aquela gente, durante as suas vidas, haveria abafado a voz dos seus corações, com palavras mudas que nada mais teriam sido, senão a voz do medo de estarem sozinhas.
E ali estavam elas, juntas mas caladas, sendo o silêncio e o medo da solidão, o seu único elo de ligação.

Assim vai o mundo.

Bate coração, bate.

 

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