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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

08
Jun17

Àquele lugar...

Rita PN
Quero querer, ou será que queria
um dia esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás
e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência
em que a distância é lugar onde habito.
 
Fechada no baú de recordações de tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo livre. Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim.
Nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria
um dia...
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo, quero!
06
Jun17

Para lá da Primavera

Rita PN

Rodou lentamente a chave, deu três voltas e soltou o trinco da porta que abria passagem à sala das lembranças. No chão, a carpete cobria-se de pó com a exata tonalidade daquele que, ao amanhecer, ela passava delicadamente a pincel pelo rosto. No tecto, o candelabro ainda a iluminava, suspensa pelo pescoço de um prego vestido de luto e guardada pela moldura de um quadro de memórias, cuja tinta escorria já pelas paredes.
Às voltas pela sala e a caminhar para dentro, com o peso dos anos a rasgarem-lhe os bolsos, sentia-se como se a dor furasse, sem piedade, o tecido frágil de que era feito, para mais facilmente escapar, abrindo um buraco por onde a própria existência se esvaia. 
Julgara-se de aço. Por toda a sua vida. Julgara-se de aço enquanto as lágrimas não lhe oxidaram o rosto e a fragilidade das rugas das papoilas breves não a levaram, a ela, no seu ameno vestido vermelho, para lá da Primavera.

31
Mai17

Lugares sem nome

Rita PN

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

12
Mar17

No lume

Rita PN

chess.jpg

 

 

O hall abria-se para as restantes divisões. E ele estava em todas elas.
À esquerda, no escritório, lia Hemingway de perna cruzada e recostado na velha poltrona de braços largos, estufada em couro castanho dourado com acabamentos de madeira de jacarandá, estilo Dona Maria e ao gosto do avô inglês. 
À direita, era comum assistir-se à erudição das partidas de xadrez que travava contra o Professor Wesley e à frialdade com que, três ex-combatentes, debatiam temáticas como as antigas colónias, o marfim, os diamantes, os anos em que haviam integrado os teatros de operações da Guerra de África que, inevitavelmente, culminavam nas mais acesas críticas ao atual regime. No ar, os pensamentos enevoados de três charutos cubanos e nos lábios, o sabor de um Midleton irlandês que ardentemente descia e lhes aquecia as entranhas. O velho Stephen, filho de mãe inglesa e de um antigo Major português, costumava compará-lo ao sabor de uma africana que amara uma dezena e meia de vezes nas margens do rio Níger, durante a sua estadia em Bamako, capital do Mali, em 1952.

 

-Primeiro mordia-me e molhava-me os lábios com fervor, assaltando-me a boca com a sua língua encorpada, qual golada de verão num copo de Midleton sem gelo. A loucura do calor que em mim se entranhava queimava-me as vísceras. 
Ardemos durante várias noites, nas margens do rio Níger. Eu lume. Ela carvão.

 

Seguindo em frente pelo hall, envolvia-nos o cheiro a linguiça assada que se cruzava, já no interior da cozinha, com o do arroz de cabidela. O seu prato de eleição. Ouvia-se o roscar do saca-rolhas e o grito do vácuo ao saltar da rolha, seguindo-se a suave melodia com que o aveludado tinto alentejano tocava as paredes do copo. A faca de serrilha no pão, o arrastar da cadeira, dois talheres em trabalho e o mastigar com gosto.

 

Espreitei ao alpendre. O jornal do dia em cima da mesa. O avô não andaria longe.
Cheirava os coentros e a salsa. Desbastava a era que, fazendo jus aos seus dotes de boa trepadeira, cobria já a totalidade da parede de uma vida e do portão do casão, ao fundo do quintal.
Voltei ao interior e o avô não tardou em reaparecer, fazendo-se acompanhar por quatro grandes laranjas sumarentas que espremeu, dando-me a beber.

 

Sensivelmente a meio do corredor, ao virar do aparador em madeira de cerejeira antiga - peça de mobiliário datada de 1903 - entrava-se no seu quarto. E ali estava ele. Na moldura, na poesia de Eugénio de Andrade, no par de peúgas esquecido aos pés da cama e no smoking que levara ao meu casamento, impecavelmente pendurado no seu guarda-fato.
Ali estava ele também, em todas as suas memórias escritas e nunca partilhadas, por mim encontradas debaixo do pesado colchão que carregou durante anos o peso da vida que agora esmagava.

Ali estava ele. Em tudo e em nada. Ali estava ele, entre os espaços vazios. Ali estava ele, sempre que a luz se apagava e que comigo saía de mão dada, deixando para trás umas casa cheia, mas tão vazia de si.

 

Ali estava ele, o meu avô Stephen, outrora lume. E ela carvão.

Ali estava ele, o meu avô Stephen, muitas vezes pólvora e outras tantas munições.

Ali estava ele, o meu avô Stephen, agora em cinzas.

 

13
Fev17

O regresso de um estranho

Rita PN

 

 

 

Para trás deixava metade de uma vida e - de mãos a abanar e passo leve - seguia adiante pela estrada de terra batida.
O sol subia apressadamente à sua frente, iluminando-lhe o rosto gasto e cansado, sem cor de gente. Um Zé Ninguém - assim se autointitulava.
Num esforço desmedido, evitava olhar para trás. Não queria deixar memórias, tão pouco fazer-se acompanhar das mais recentes. Os antolhos mentais auxiliavam-no a limitar da visão lateral, forçando-o a olhar apenas em frente, sem correr o risco de se deixar levar por distrações ou tentações fáceis.

 

Com sonhos no horizonte, seguia o Zé, noite e dia por caminho instável, umas vezes seco outras tantas lamacento, assim como os seus olhos. Mas sempre certo de que todo o esforço e sacrifício valeriam a pena no final.
"Afinal de contas, um caminho sem obstáculos nunca nos levou a lugar algum. E que outras funções existem num obstáculo, que não sejam fazer-nos parar de fronte ou levar-nos a querer ultrapassá-lo?"

 

Ninguém o vira partir, tal como ninguém o iria ver regressar sete anos mais tarde, àquele lugar. 
A mesma estrada de terra batida trazia Zé - agora Alguém - de visita. O mesmo passo leve, uma mão a abanar e uma criança pela outra.

“Benvindo às tuas origens.”

 

À entrada, o café do Adérito continuava igual. A garrafa de cerveja continuava em cima da segunda mesa a contar da direita, acompanhada do pires com meia dúzia de tremoços que as mãos do Chico da Parra - castanhas da terra – depenicavam.
Meia volta dada e à porta da igreja as mesmas vestes de domingo, aprumadas, os lenços a cobrir os cabelos presos em monhos e 6 beatas à espera que o sino batesse as onze para que se desse início à missa.
À esquina da rua, o senhor João ainda passeava o cão, o Esteves continuava sentado no banco a ler o jornal do dia anterior, a dona Deonilde estendia as meias do marido e a pequena Leonor rodava o seu vestido azul de folhos dançantes.

 

Zé - agora Alguém - com a criança pela mão, regressado fazia duas horas, continuava a percorrer a vila com os passos que a memória não desaprendera.
Pararam na tabacaria do Matias, ouviram parte do relato do jogo do clube da vila e Zé - agora Alguém - contou as mesmas 16 laranjas que pendiam da farta laranjeira do quintal da tia Maria. Tropeçou no mesmo degrau onde, durante a sua infância, tropeçava sempre que corria pelo pátio da escola. E desviando a cabeça lentamente para a esquerda, baixou o olhar na direção da criança que o acompanhava, verificando que também ela se havia ferido no joelho - tal como lhe era frequente acontecer a ele, em tempo idos.
Dirigiu-se a casa, mas não a encontrou. Seis ruas todas idênticas com casas de ambos os lados, todas elas iguais. Uma lágrima e as duas mãos a abanar. 

“Onde é que tu vais? Anda cá. Não saias de perto de mim.”
A criança dirigia-se à terceira rua - a correr - parando à porta do número 6. 

“A nossa casa é aqui.”
Imaginou o cheiro a café e o som do piano por ele próprio dedilhado. As túlipas ainda lá estavam - alguém as regava durante a sua ausência prolongada, pensou - e o baloiço também. Sentou-se com a criança no colo e deu balanço. Demorou-se nele cerca de meia hora, que nem deu por passar.

"Ainda fazes boas viagens, companheiro!"

 

Passou pelo largo central onde, outrora, se situava a sua livraria. A porta aberta prendeu-lhe a atenção e espreitou. O cheiro dos livros ainda permanecia intacto convidando-os a entrar. Sentaram-se no chão diante da única estante que restava. Com sonhos no horizonte, ela ali continuava e ele - ainda Zé Ninguém - também  naquele espaço se encontrava.

 

Porém, ninguém o reconhecera. Nem o Adérito, nem o Chico, tão pouco o senhor João ou o Esteves, a dona Deonilde, a pequena Leonor e o Matias. A tia Maria, coitada, já não via. E ele ali estava, de mão dada consigo próprio sete anos depois. Trouxera-se criança no regresso para melhor recordar a vila. Aos seus olhos nada mudara, excepto ele, o mesmo Zé - outrora Ninguém e agora Alguém - estranho para toda a gente.

 

Diante da estante de sonhos, retirou da segunda prateleira o quarto livro a contar da esquerda. Abriu-o na página vinte e oito e leu:

Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui.

Fernando Pessoa

01
Fev17

Levou-a o vento

Rita PN

 

 

 

Ao nascer dos primeiros raios de sol, e na demora dos minutos iniciais após o toque do despertador, levantava suavemente a cabeça, levava o braço direito adiante, a mão firme contra o colchão – na necessidade de amortecer o peso do corpo, lateralmente posicionado – e observava-a, timidamente, enquanto dormia.

Repetidamente ao longo de vinte anos, desde o primeiro dia.
Lentamente, fletia as pernas que arrastava até à extremidade da cama. Sentado, voltava a observá-la. Clara. Clara o seu nome, clara a sua pele num rosto delicadamente apetecível aos olhos castanhos, nela pousados, enamoradamente. Uma rosa nos lábios ou tão somente as suas pétalas. Um perfume muito próprio nascia logo abaixo do queixo, na linha prolongada entre o pescoço e o peito; viagens a perder de vista.
(Vista, também a Clara a perdera – e que bonitos olhos tinha. Janelas abertas para o mar).

Clara e Tiago haviam-se conhecido vinte e três anos antes, entre as estantes de livros da biblioteca. Ela, equilibrada num só pé, tentava alcançar um romance meticulosamente arrumado na última prateleira da seção de clássicos. Ele trazia poesia nas mãos e tropelias no coração. Ao vê-la, prontificou-se a ajudar. “E o Vento Levou”, de Margaret Mitchell.
Ficou a vê-la sentar-se, encantadoramente, fechando lenta e graciosamente o perfeito ângulo de noventa graus formado entre a união das suas pernas e o chão. Arrastou ligeiramente os sapatos para a esquerda e a mão pousada no colo subiu, abrindo suavemente o livro. O indicador flutuou linha a linha, levando Tiago a viajar também. 
Na verdade, daí em diante, viajou diariamente sempre que cruzava a estante dos clássicos na biblioteca.
Clara nunca levantava o olhar. Bebia cada página e deixava-se levar.
 
«Não é mulher, é poesia.» - O poema que jamais algum livro lhe permitiria ler.
«Nem todos os poemas moram em livros, nem todos os versos são escritos, tão pouco há estrofes para todas as mãos.»
«E sonetos? » – interpelou-o ela, sem no entanto o fitar.
«Sonetos são viagens ao coração.»
«E eu só com ele sei ver – respondeu. O que os meus olhos não vêem, as minhas mãos sentem e os outros sentidos pressentem. É assim que o meu coração vê.»
 
Um livro em braille.
 
Vinte anos se passaram e o ventou levou Clara, há três.

Ao nascer de cada dia, Tiago levanta suavemente a cabeça, leva o braço direito adiante, a mão firme contra o colchão – na necessidade de amortecer o peso do corpo, lateralmente posicionado – e observa-a, timidamente, enquanto ela ainda dorme ao seu lado naquela fotografia.

 

«Foste tu quem me ensinou a ver com o coração.»

28
Jan17

Três malas e eu, trinta e cinco degraus descendentes e um combóio

Rita PN

 

 

 

 

Fechei com cuidado a última mala - lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço, recentemente desguarnecido de qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Trinta e cinco degraus descendentes e um combóio para apanhar.

Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém havia deixado aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem, pensei.
«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»

Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela porta, para o interior. Pousei no chão as três malas, mais leves do que eu me sentia, e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.
«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»

Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas nos levarem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo combóio.
«Também os combóios são uma constante da vida.»

Um combóio, três malas e eu. Após trinta e cinco degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.
«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»

Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, 35 degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos.

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