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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

12
Abr17

Combóio fantasma

Rita PN

 

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Ao meu lado um lugar vazio. Existia sempre um lugar vago, frívolo, carente ou frustrado.
Um homem de fato fingido. Um rosto bem feito de saudade. Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado. Um olhar translúcido e hiato que me fitava disfarçadamente.

 

Uma carruagem lotada num comboio que parou. Uma avaria que fazia antever um atraso de vinte minutos, mas que o acelerou. Contraditório? Talvez. Consistente, porém, o contraste entre o elevar das vozes e os sofridos nós nas gargantas.
Respirava-se sofregamente, bufando palavras de desagrado, que se traduziam nas mais variadas frustrações diárias.
Uma revista caiu. Estendeu-se uma mão, que vi desaparecer entre as páginas despidas de vida. Um chapéu voou, na procura pela liberdade de pensamento. E aqueles óculos diante de mim, flutuando no ar, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, nervosamente inquietos? Procurariam olhos capazes de ver (através deles)? O choro de uma criança que percebi, não reconhecia o batom da mãe que, num vermelho escarlate, lhe gritava o atraso. E ao fundo à esquerda, ora de fronte para mim, ora enfrentando a realidade, uma gravata azul escura, bem apertada, que depressa entendi ser a forca de um farda desgastada.

 

Ouvi o barulho do meu silêncio ocupar a carruagem nos quinze minutos que se seguiram à observação atenta. Ainda me restava um quarto de hora e o mundo parado. Tempo individual e necessário à reflexão, do qual não abdicaria.

Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.

 

O revisor anunciou “Senhores passageiros, a avaria encontra-se reparada. Previsão de chegada ao destino às oito horas e cinquenta e oito minutos”.
O comboio avançava e cinquenta e oito era, também, o número exato de vidas que continuariam por consertar. Afinal, nem eu havia compreendido, até ao momento, que o lugar à noite vazio ao meu lado eras tu quem o ocupava.

15
Fev17

Uma viagem ao mundo de Lara

Rita PN

 

 

 

Livros, cadernos, blocos de notas, frases soltas em post-it, poemas, canetas, postais, recortes de jornal, páginas de revistas e fotografias – tudo espalhado num círculo à sua volta. Para lá da linha fronteiriça, um vazio interminável. Tão cheio de nada que, tudo quanto pudesse chegar, não teria espaço para se fixar – o nada é um território demasiado denso, que ocupa um espaço excessivamente grande - assim sentia aquele lugar.

 

- Lara, que desarrumação vem a ser esta?
- É a minha mente, mãe. Inquietações minhas.

 

A extensão do cosmos era, aos olhos de Lara, tão metricamente exatata, quanto o seu distanciamento às mentes mais comuns. Imensurável.
O seu apetite por cultura, lugares, gentes, aprendizagens, conversas construtivas e observações atentas e detalhadas sobre comportamentos humanos e sociais, era voraz. Nunca um prato cheio lhe era suficiente.
Necessidade primária, em tudo idêntica à ingestão de um doce após um salgado. Surgindo, após o doce, um novo desejo salgado.Também assim acontecia no cardápio de Lara, onde certa era a presença de um qualquer ingredinte capaz de lhe aguçar, mais avidamente, a gula do saber.

Apressada, mas nem sempre desajeitada, percorria caminhos, por utopias anteriormente pisados. Neles, segundo ela, sempre que avançava dois passos, também o horizonte se distanciava dois passos, obrigando-a a nunca terminar a jornada. Gostava particularmente desses jogos, sem vencedores nem vencidos, onde todos se intitulavam piões aprendizes.

Por vezes, incompleta, detinha-se diante do espelho, atenta ao seu reflexo. Olhar para si, era como abrir a janela para um mundo diferente todos os dias. Novos espaços para conhecer, outros praticamente esquecidos, ruas cheias, outras vazias e um livro branco a um canto, com tanto por escrever…
Feita de frases simples, mas nem sempre de fácil interpretação, assim se sabia ela.
Aprendia mais consigo, do que com muitas das histórias – de formas humanas - com quem se cruzava. Mergulhada numa introspeção contínua, analisava capítulos de leitura imprecisa e sentia palavras, soberba e apaixonadamente, como jamais alguém a poderia vir a sentir a ela. 

- Já estás outra vez de roda do espelho?
- Um espelho reflete bem mais do que aquilo que nele vês– respondia.
 As pessoas só atentam na superficialidade da imagem refletida. Na cor, no tamanho, nos pormenores  externos. Não é por acaso que o espelho tem uma conotação física e narcisista, mãe. E o conteúdo da imagem? Também ele é refletido, embora nem todos estejam aptos a vê-lo. Talvez, porque nos seja  necessário mais do que apenas os olhos para ver, na sua pureza nua, a totalidade de uma imagem.

- Lá estás tu e as tuas divagações. Era melhor que fizesses pela vida, ao invés de perderes horas embrenhada  em filosofias que a lugar nenhum te levam.
- O melhor lugar onde posso chegar é ao coração das pessoas.

01
Fev17

Levou-a o vento

Rita PN

 

 

 

Ao nascer dos primeiros raios de sol, e na demora dos minutos iniciais após o toque do despertador, levantava suavemente a cabeça, levava o braço direito adiante, a mão firme contra o colchão – na necessidade de amortecer o peso do corpo, lateralmente posicionado – e observava-a, timidamente, enquanto dormia.

Repetidamente ao longo de vinte anos, desde o primeiro dia.
Lentamente, fletia as pernas que arrastava até à extremidade da cama. Sentado, voltava a observá-la. Clara. Clara o seu nome, clara a sua pele num rosto delicadamente apetecível aos olhos castanhos, nela pousados, enamoradamente. Uma rosa nos lábios ou tão somente as suas pétalas. Um perfume muito próprio nascia logo abaixo do queixo, na linha prolongada entre o pescoço e o peito; viagens a perder de vista.
(Vista, também a Clara a perdera – e que bonitos olhos tinha. Janelas abertas para o mar).

Clara e Tiago haviam-se conhecido vinte e três anos antes, entre as estantes de livros da biblioteca. Ela, equilibrada num só pé, tentava alcançar um romance meticulosamente arrumado na última prateleira da seção de clássicos. Ele trazia poesia nas mãos e tropelias no coração. Ao vê-la, prontificou-se a ajudar. “E o Vento Levou”, de Margaret Mitchell.
Ficou a vê-la sentar-se, encantadoramente, fechando lenta e graciosamente o perfeito ângulo de noventa graus formado entre a união das suas pernas e o chão. Arrastou ligeiramente os sapatos para a esquerda e a mão pousada no colo subiu, abrindo suavemente o livro. O indicador flutuou linha a linha, levando Tiago a viajar também. 
Na verdade, daí em diante, viajou diariamente sempre que cruzava a estante dos clássicos na biblioteca.
Clara nunca levantava o olhar. Bebia cada página e deixava-se levar.
 
«Não é mulher, é poesia.» - O poema que jamais algum livro lhe permitiria ler.
«Nem todos os poemas moram em livros, nem todos os versos são escritos, tão pouco há estrofes para todas as mãos.»
«E sonetos? » – interpelou-o ela, sem no entanto o fitar.
«Sonetos são viagens ao coração.»
«E eu só com ele sei ver – respondeu. O que os meus olhos não vêem, as minhas mãos sentem e os outros sentidos pressentem. É assim que o meu coração vê.»
 
Um livro em braille.
 
Vinte anos se passaram e o ventou levou Clara, há três.

Ao nascer de cada dia, Tiago levanta suavemente a cabeça, leva o braço direito adiante, a mão firme contra o colchão – na necessidade de amortecer o peso do corpo, lateralmente posicionado – e observa-a, timidamente, enquanto ela ainda dorme ao seu lado naquela fotografia.

 

«Foste tu quem me ensinou a ver com o coração.»

13
Jan17

Na voz de uma mulher

Rita PN

 

Não precisas de esperar. Eu não me vou atrasar. Afinal fui eu quem sempre aqui esteve à hora certa e no momento devido. Hoje não seria diferente. Chego uma vez mais, a horas, para te dizer que não esperes por mim. Durante todo aquele tempo em que tu ias e voltavas, te perdias de ti e te reencontravas, eu esperei. Esperei e sempre estive do teu lado. Mesmo atrasado, ias chegando, ias sorrindo, ias ficando, até ao dia em que a tua ausência prolongada ditou o meu afastamento.

 

Nunca te pedi muito, e o que pedi foi tão simples. Aquele minuto de atenção que nos faz sentir especiais. O respeito, o carinho e a consideração de quem se importa para com quem é importante. Tudo isso chegou até ti sem atrasos. A mim, foram muitas as vezes em que tão pouco os recebi. Porque tu, egoísta, vivias os dias envolto nos teus pensamentos, na tua rotina, na tua falta de tempo e nos teus maus momentos. Tinhas-me como presença certa e já nada fazias para que eu ficasse. Recorrias a mim somente quando mais nenhuma palavra te fazia sentido, quando nenhum conselho era tão válido quanto o meu, quando mais ninguém te fazia sentir seguro de ti mesmo ou te estendia a mão e te dizia “estou aqui”, quando mais ninguém te fazia sentir tão vivo o coração ou te despertava emoções que há muito não sentias.

 

Se precisavas de sorrir sabias onde encontrar o meu sorriso, se precisavas de um abraço sabias onde encontrar o meu, se precisavas de uma palavra, sabias que a minha seria a certa. Mas era sempre pela tua necessidade, e nunca pela minha ou a pensar que eu também poderia precisar de ti.

 

Como disseste e bem, sou forte, mas não tão forte que me seja indispensável o carinho, o conforto e a presença de alguém nos momentos difíceis. E onde andavas tu nos meus momentos de aperto? Desculpa que te diga, mas sempre que não me olhaste nos olhos para fugires de ti, sempre que não me agarraste com medo de a seguir me perder, sempre que não me amaste por cobardia, sempre que não me sorriste, sempre que não tiveste tempo ou paciência para mim, sempre que não chegaste ou deixaste algo por dizer ou fazer, tu não te atrasaste. Adiantaste-me sim a partida.

E enquanto tu eras o teu próprio centro de atenções e vivias embrenhado nos teus medos, nos teus pensamentos, nas tuas incertezas e na tua falta de tempo, eu vi o mar sem ti, a lua e o por-do-sol. Também não deixei de viver momentos sozinha, que queria viver ao teu lado, porque se tu me faltavas a mim, eu a mim não me falto. Sempre que fugiste de mim para não pensares em ti, acabaste por me perder ainda mais. E não só me perdeste a mim, como te perdeste de ti e perdeste muitos dos melhores momentos que tinhas para viver. São escolhas.

 

Agora, não me peças desculpa por tudo o que não fizeste ou não fizemos juntos. Se me conheces, sabes que prefiro a verdade dos atos à facilidade das palavras. E se de facto estás arrependido demonstra-mo sem atrasos.

 

Desculpa, o meu tempo está a terminar, a vida não espera por mim, o meu relógio não pára e há um lugar para ser feliz. Eu quero lá chegar a horas, por isso não espero por ti. Tu chegas sempre atrasado e outras vezes nem chegas.



21
Dez16

Ela disse sim!

Rita PN

 

Disse-me que sim. Que queria. 

Que queria muito.

Uma fração de segundo foi o necessário para o proferir - Sim.
O tempo parou. A inércia tomou conta de mim, dos ponteiros do relógio e do mundo em redor.
Estático, eu e tudo à minha volta. Tudo o quanto até ali, naquele tão curto espaço que separava o meu corpo do dela, havia ganho vida. Os abraços, as ruas, os beijos e os bancos de jardim, as carícias e os lençóis, a voz dela, as canções da rádio, as mãos dadas e o ruído do motor do carro, o silêncio, o pôr-do-sol, as gargalhadas, as memórias e os dias... Até o passar dos dias, das horas, das folhas do calendário.
Depois do "sim" nada mais se moveu. Apenas a força da gravidade reagiu, tombando-me os braços, obrigando-me a baixar a cabeça e a fixar os olhos no chão - eu soube, não haveria depois.

Sim - bastou uma fração de segundo - primeiro caiu o céu, depois os sonhos, pelo caminho despedaçou-se o antes, o agora e o depois. Olhei-os uma última vez, estilhaçados no chão entre fendas abertas.

Ela disse-me sim. Que queria. Que queria muito ir.
E foi...

E eu, sempre atrasado, cheguei à hora certa ao local exato e fui pontual na hora de a ver partir.
Sim. Depois do sim, ela foi e eu fiquei.

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