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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

(Im)Perfeitos

Escritos por nós e sobre nós próprios,
rascunhos de passos a lápis traçados
e limpos. Apagados que foram os rastos
das pontas perdidas
das vidas que se arrastam,
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão,
das pegadas errantes que deixamos.

Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado
p’la tinta da caneta com que tememos escrever,
o presente assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!

Que terrível seria aparecer
vestidos de folha de redação da primária,
de vermelho riscada e a transparecer
erros comuns.
A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém”.

Cordel D'Prata

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Nascida a 10 de Junho de 2017, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, a Cordel D’ Prata é uma editora especializada nos novos autores. 

Portadora de sonhos, projectos e montagens, a equipa procura os melhores talentos na área da escrita, num compromisso claro entre a diversidade literária e a inclusão de diferentes autores. A Cordel D'Prata assume-se fruto de uma geração independente que não olha ao género, à idade, ao estatuto social nem a qualquer outro contexto, procurando a emoção de tornar real o sonho de todos quantos nutrem paixão pela escrita: a publicação.

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Foi para mim uma honra marcar presença na inauguação, a convite do Luís Rodrigues, o fundador desta editora, assim como foi de coração cheio que vi lançado um ebook da minha autoria.
"Nas Letras dos Meus Sonhos" é uma compilação poética que retrata visões e reflexões sobre as nossas vivências diárias e internas, a par de um olhar atento sobre a sociedade que nos envolve, num claro contraste entre realidades e comportamentos tão distintos, quanto opostos.

Convido-vos desde já a conhecer este novo projecto editorial.

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Àquele lugar...

Quero querer, ou será que queria
um dia esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás
e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência
em que a distância é lugar onde habito.
 
Fechada no baú de recordações de tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo livre. Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim.
Nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria
um dia...
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo, quero!

Hei-de beber do amor

Hei-de beber da taça dos teus lábios
o amor, ao entardecer.
E hei-de o saber, anunciado
pelo ruído de curiosidade da vizinha
sem cuidado, ao ver-te descer
a rua a correr…
e cair-me nos braços,
por mil embaraços no coração.

Hei-de te ter,
visão dos meus olhos ao anoitecer,
estrelas de um céu onde sonho
e acordo, para continuar a beber
da taça do amor que os teus lábios
me servem, quando pela manhã
raiam os teus cabelos de sol
na minha almofada.

Hei-de escrever,
pelas ruas da saudade
sobre a calçada do eco dos teus passos
lassos, quando saíres amanhã
e eu abrir amarela, a vista da janela
do campo de girassóis
dos teus caracóis, na minha lembrança.

Hei-de fazer correr tinta
por versos imersos na ausência
dos teus dedos nos meus.
Porque será a distância,
a única coisa em que tocam
para além da elegância da caneta
que te fez.
Criação da minha mente.

Hei-de beber do amor...

Enamorados



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Porque hoje é dia Mundial da Criaça, convido-vos a vestir o coração de uma criança e a embarcar na doce viagem deste carrossel

 

Menina dos olhos de mel
e rosto a pincel desenhado
sorri ao passar por mim
no seu jeito envergonhado.
Tão pura de si, lá vai
descendo a rua de encantos
cabelos soltos ao vento
coração com seus recantos.
Atento à tez rosada
e aos lábios que guardam segredos
Imagino-a apaixonada
mãe dos nossos rebentos.
Menina dos olhos meus
de vestido à mão bordado
quem te assiste ao passar faz adeus,
sonhando-te eu acordado.


Menina dos olhos de mel
quero ser teu príncipe encantado
Chegar-te-ei no meu corcel,
nas voltas do carrossel
de um coração apaixonado.

Lugares sem nome

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

A entrega de prémios da 1ª Edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra

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Decorreu no dia 27 de Maio, em pleno Alentejo, na Herdade do Monte Novo e Figueirinha a entrega de prémios referentes à 1ª edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra.

Num evento improvável, resultante da parceria entre uma Editora, uma Imobiliária e uma Adega, que reuniu participantes oriundos de todo o país, celebrou-se à boa maneira alentejana a Palavra escrita, falada, cantada e bem regada.

Numa visita guiada à adega, falou-se sobre o processo para a elaboração de um bom vinho, tantas vezes o melhor aliado da inspiração literária. A mesa de tertúlia ficou a cargo do actor, humorista, escritor, cronista e dobrador Bruno Ferreira; do compositor, escritor e músico Luís Espinho e do reconhecido compositor, músico, escritor e desenhador  Paulo Abreu Lima. O Eduardo Espinho e a Sandra Martins (vencedora do programa Ídolos em 2010) brindaram os presentes com deliciosos momentos musicais, estando a música ambiente a cargo do DJ Goove (Pedro Palma Nascimento).

Os prémios foram entregues pela mão do Gonçalo Martins, CEO da Chiado Editora; da Maria Helena Palma, directora da agência imobiliária Hall Paxis e da Dra. Cristina Cameirinha, que representou a Adega em nome do proprietário Filipe Cameirinha Ramos.

No final, degustou-se o sabor do Alentejo, num casamento perfeito entre os vinhos da casa e os famosos petiscos da região.

A lista de premiados pode ser consultada aqui e o álbum de fotografias encontra-se disponível aqui.

O meu sincero obrigado a todos quantos participaram e tornaram possível a realização deste evento. Espero por vós em breve, aquando do lançamento da Antologia Do Mosto à Palavra, livro que irá reunir as quase 400 participações recebidas.



NOTA: Ao clicar sobre o nome dos intervenientes, é possível ler as entrevistas dadas no âmbito deste evento. 

A criança no meu peito

Andava nua pelo meu peito
a criança que brincava
e amava, a seu jeito
doce e terno, no fraterno
encanto dos seus caracóis
já extintos. Por entre as ervas do campo
e o cimento da cidade,
trazia a claridade no olhar;
e o verde que ao azul faltava
conjugar, com as ondas do mar
dos seus olhos.
Andava nua pelo meu peito
a criança que sonhava,
quando o sol despertava
e sempre que a lua a chamava
para voltar a dormir.
Andava nua pelo meu peito
a inocência da idade,
na vivacidade dos folhos
do vestido às flores, roubado
e embalado pelas melodias
do vento ao passar por mim.
Andava nua pelo meu peito
a ternura do abraço
que ainda guardo para ti…
Da menina que planta flores no jardim
da amargura, por não poder ser criança
fora de si.

(Queres ser criança comigo? - Perguntou-lhe, estendendo-lhe a mão.)

Nas letras dos meus sonhos

 Hoje levo-vos novamente ao baú. Recuemos aos meus 15 anos... Sonhar, sonhar, Sonhar!

Não sei porque escrevo,

porque sonho as letras,
porque canto as vírgulas,
ou porque ondulo nas frases
sem nunca chegar a um ponto.
Não sei porque vivo um texto,
nem porque desejo um conto
que nunca começa nos Às,
tão pouco termina nos Zês.
Não. Não quero parar!
Quero continuar a saltar
barreiras de capítulos;
escalar páginas sem cume,
remar ao sabor das sílabas
que ardem no meio do lume.
Quero partir das reticências,
sem nunca alcançar os dois pontos.
Trepar interrogações,
abraçar as exclamações…
e sem perder o ritmo,
escrever milhares de contos.

 

Quero casar com os nomes,
e ser íntima dos verbos,
quero namorar os pronomes
e fazer dos determinantes meus servos.
Quero ser chefe de imprensa
e quero, para sempre, sucumbir ao Poeta.
Quero uma prosa imensa,
não quero um ponto na meta!

 

Já li toda a Epopeia
e escreverei duas ou três,
sem perder a consciência
que no meu sonho de menina
era tudo "Uma Vez"!

Silêncios

Há nos meus lábios cansaços 
do parco significado das palavras
ditas a vermelho
em frente ao espelho,
já sem reflexo e vazio de mim.
Não me é o bastante, a cegueira.
É-me mais que precisa a surdez
e a total insensatez, para as tomar de vil maneira
que não me assalte a memória
o tom sangrento dos teus lençóis de cetim.
Foi neles que sucumbi
refreada pelo batom carmim
que degustavas, mas não sentias,
com que eu falava e tu não ouvias,
morrendo o sonho entalado
entre os lábios que mordias.

 

Desgastada, ganhei nos lábios cansaços 
enjoados do cheiro das palavras moribundas
que enterrei no teu jardim
prevendo o fim, de uma semente que não germinou
e se calou, rendida ao silêncio que se ajustou
e se moldou perfeitamente a cada quadrante de mim,
trazendo-me a liberdade para ser quem realmente sou.

(Só o silêncio se ajusta perfeitamente a cada coisa).

Falácias do amor

Cheira o orvalho ao teu perfume
e a tua boca ao aroma do café da manhã
que me acorda, com ciúme
do cantar do rouxinol que no galho assume,
os contornos do canto do teu corpo de pagã.

Queria eu cantar-te assim 
e tocar-te, pauta de cinco sentidos
entre os lábios
com gestos sábios dos dedos molhados
que em ti deslizam, como proas de barcos
salgados no Tejo ao sol poente.
Como são fáceis de alcançar
os tectos da cidade que há em ti,
quando me inundas de estrelato
o palato da boca que crepuscula
nos teus seios
abrindo portas a noturnos devaneios
a que me entrego no teu jardim.
Entre lençóis de luar e cetim
num frenesim de corpos suados
e condenados no fim
às falácias do amor.

Foi já sem sabor, que ele lhe bebeu
nos lábios desnudos de rubor,
o esfriar do último café. 

Sem mais, sem menos

 
 
 

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Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco que exista alguém que a mais se eleve
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida,
envolto no sopro de um cobertor de memórias
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa sem tecto e paredes de papel onde o coração dormita.

 

Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo o quanto por ela passa
por mais ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem se nãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita;
Aos contornos, frequentemente largo
o amargo cheiro das pregas vazias.
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadados os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.

 

Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
E os que muito sentem, escolheram o rés-do-céu para viver.
E sonhar no centésimo andar, a contar do vale dos mortos.
Não creio que tenhamos nós mais do que eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir
sem sentir, que todos nós temos alguma coisa
entre nascer e morrer. Espaço cronológico que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos.
Mas temos. E dar-lhe-emos valor?

 

… é amor do Criador, o oxigénio que a todos brinda, por igual.

Retrato de uma vida

Fui ao baú para vos deixar um poema escrito aos 14 anos de idade.

 

Na escuridão negra e profunda

dos dias longos que se vão arrastando,

por entre espinhos e aguçados caminhos

dos anos tristes que foram passando,

sempre existirão momentos iluminados,

pequenos diamantes no céu, luzindo

que num manto tão negro, tão escuro,

não passam de pirilampos fugindo.

 

Nas trevas da escuridão fechada,

há uma porta estreita, abrindo

caminho ao passar do cinzento

de um ano que ainda vem vindo.

Atravessam-na fantasmas,

homens de branco e distantes,

espreitam por ela soldados,

homens de verde e perturbantes.

Avançam sem permissão,

disparando, ferindo, amarrando…

Pensando que, pois então,

só assim conseguirão

a paz dentro do meu coração.

 

Enganados pelo instinto recuam

Com calma.

- DEIXEM DERRETER A DOR!

Sarar as feridas, as marcas das balas;

os vergões inchados do coração sem amor

que ainda é noite! 
E o mundo dorme. 
E dorme a alma.

E tudo dorme, até a vida,

Na agitação da noite calma

( shh, não acordes vivalma)

espera p'lo nascer verde do dia.

Rosas de sonhos do vento

Vestiu a capa negra da noite
que julgou, outrora ver esquecida
no jazigo das recordações inférteis
das intempéries d'outra idade vivida. 
Olhou-se ao espelho, 
reflexo baço, vazio e semblante sombrio
de quem afastou de si o sol.
Reconheceu-se a ela, mas não a mim;
(menina que roubava flores no jardim)
vestia farrapos de sonhos
e tinha o passar dos anos emaranhado nos cabelos. 
Sem nexo. 
Apenas enleio
numa história que releio 
e cujas páginas se desfolham, 
como rosas
a quem não deram prosas
nem versos d'amor, com o mesmo calor
da verde esperança
com que a mão do meu coração as roubou
esta manhã no jardim.

Dispostas agora diante de mim,
cinco rosáceas de sonhos
nítidos (no mesmo baço espelho vazio),
refletem assim, ainda tenras,
as pétalas rosadas da face miúda
de quem seduziu
a espera, fantasiando possibilidades
e probabilidades
e que por isso viu,
na mesa das agulhas de marear do navio,
o ponteiro girar aos sete ventos,
entre os cardeais pontos perdidos
… e parar a nordeste.

(Era uma vez uma menina que roubava rosas de sonhos ao vento).

Amor à Liberdade

 

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-Aqui, somos todos loucos!

Dizem eles armados; versos na mão
punhais cravados,
amores baleados
por sentimentos minados
de pura ilusão.
Ardem-lhes as dores e as sombras do passado
secaram os jardins, anteriormente atravessados
por beijos molhados e olhares cúmplices
de um crime que só um louco viria a cometer – AMAR!
Só o rasto de pólvora da paixão e a putrefação das memórias ficou.
Cheiram a amoníaco as rosas da face, agora murchas,
e sangram os espinhos
outrora macios, se mordidos nos lábios
por desejos sábios, doravante enjeitados
pela morbidez lânguida da pele.
- Aqui somos todos loucos!
Gritam eles de armas na mão.
Assassinatos, extermínios, massacres, campos de concentração
de versos conjugados, em mares antes navegados
por sentimentos aguçados (agora renegados) e exulceração.

A última vítima do amor pela liberdade foi encontrada hoje, irreconhecível...
...Tinha um poema cravado no coração.

 

Tentações

Olhei-a, sentado no meu terraço
impávido e sereno,
cigarro aceso e um copo de bagaço,
antevendo o melaço do regaço daquela mulher.
Em pé, ombro apoiado na parede
mini saia preta e blusa de rede,
uma taça tinta de vinho na mão
e a cumplicidade de um Marlboro na outra. 
Sem infração, contou-me em silêncio segredos,
expondo-me os medos 
que ouvi e bebi, como se fossem minhas 
as pétalas de fumo que lhe nasciam nos lábios.
Embriagado pela subtileza dos gestos sábios,
cedi.
E fumei-lhe a espera,
num salgado jogo sem pressa 
ao leme da tentação.
Em maresia sem promessa...
entregues à ondulação,
dois corpos famintos,
em goles de beijos tintos
salgados instintos de prazer carnal.
Devoção em alto mar
até a onda rebentar...
... e a jusante da maré
lhes permitir regressar.
 

Amantes citadinos num terraço ao pôr-do-sol,
nus.
- Só a liberdade é necessária para amar!

Espero por ti ao pé da ponte

Esperei por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos,
te visse vinte e oito passos apressada.

Chegavas-te a mim com três laranjas no regaço
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá (quem)barcar.

Aqui, deste lado da ponte, não há quem sou.
Mas acolá, onde os pássaros cantam,
onde as flores encantam
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim,
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
- enquanto te esperava do lado de cá -
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter.
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer.
Vem sentar-te nas minhas costas
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...

(não é desleixo) e lá em baixo,

no lazarento jardim dos meus sonhos,
será fértil tudo o quanto dele beber.

Vem, que por ti ainda espero ao pé da ponte.

Húmus

As minhas janelas não dão para lado nenhum.
Não há nada que se me mostre através delas,
as estradas e figuras que entrevejo,
não me levam a lugar algum…
perdeu-se o Homem e o ensejo
(lá no alto), pelo asfalto.

Há nos meus olhos cansaços vários
decorrentes do esforço exabundante
de sonhar desejos deficitários
p’la mão de Virgílio,
nas margens do Letes de Dante.

Constantemente me adio os escombros
inevitáveis, quando à meia, a noite cair
e o céu me esborrachar de vez a cabeça.
No inferno, todos se vão rir
e na terra, não há quem não me agradeça
a retirada.
Que maçada…
todos escolheram o domingo para morrer
e até nisso eu saí controversa.
Nem no princípio nem no fim. Exatamente a meio
onde a semana dispersa.
Avessa, pedi para assistir ao meu funeral,
enterraram-me, por isso, primeiro o caixão
(que dele quero morrer longe).
Queriam-me os sonhos em valas comuns?
Não.
Sequem as lágrimas choradas
e desacreditadas de religião.
A minha única fé é sonhar!
E quem sonha, nunca sonha em vão.

Alimentar-vos-á o húmus
da minha ressurreição
porque se morro, não morro toda de uma só vez
e o que por terra cai,
levantar-se-á outra vez
sem que vós me entendeis a mão.

Querem graça?
Peçam o óbulo à porta da igreja
que a vida não vai de bandeja
e eu 'inda estou no meu funeral.

 

As minhas janelas não dão para lugar nenhum.

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
(...)


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(...)

 

Álvaro de Campos, in "Poemas"

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