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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

05
Out17

(Im)Perfeitos

Rita PN

Escritos por nós e sobre nós próprios, os
rascunhos dos passos a lápis traçados
e limpos. Apagados que foram os rastos
das pontas das vidas perdidas,
que se arrastam,
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão
das pegadas errantes que deixamos.


Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado
p’la tinta da caneta com que tememos escrever
o presente, assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!
Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária;
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.

- A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém."

08
Jun17

Àquele lugar...

Rita PN
Quero querer, ou será que queria
um dia esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás
e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência
em que a distância é lugar onde habito.
 
Fechada no baú de recordações de tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo livre. Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim.
Nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria
um dia...
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo, quero!
31
Mai17

Lugares sem nome

Rita PN

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

28
Abr17

Rosas de sonhos do vento

Rita PN

Vestiu a capa negra da noite
que julgou, outrora ver esquecida
no jazigo das recordações inférteis
das intempéries d'outra idade vivida. 
Olhou-se ao espelho, 
reflexo baço, vazio e semblante sombrio
de quem afastou de si o sol.
Reconheceu-se a ela, mas não a mim;
(menina que roubava flores no jardim)
vestia farrapos de sonhos
e tinha o passar dos anos emaranhado nos cabelos. 
Sem nexo. 
Apenas enleio
numa história que releio 
e cujas páginas se desfolham, 
como rosas
a quem não deram prosas
nem versos d'amor, com o mesmo calor
da verde esperança
com que a mão do meu coração as roubou
esta manhã no jardim.

Dispostas agora diante de mim,
cinco rosáceas de sonhos
nítidos (no mesmo baço espelho vazio),
refletem assim, ainda tenras,
as pétalas rosadas da face miúda
de quem seduziu
a espera, fantasiando possibilidades
e probabilidades
e que por isso viu,
na mesa das agulhas de marear do navio,
o ponteiro girar aos sete ventos,
entre os cardeais pontos perdidos
… e parar a nordeste.

(Era uma vez uma menina que roubava rosas de sonhos ao vento).

15
Mar17

Introspectiva

Rita PN

Silenciam-se os passos no barulho da mente.
Caminhas descalço em busca do teu presente
quando o tens à tua frente,
por vezes quieto e calado,
dás por ti a pensar nele, noites a fio acordado.
E silencias a mente, para nele não pensar,
embora vivendo-o, tens medo de o agarrar
e perdes os teus passos encontrando o pensamento
que te rouba a lucidez para viveres o teu momento.

 

E calas o que pensas, não nascendo o que sentes.
Fechas os teus olhos, porque é só a ti que mentes.
Finges que não te importas com o que a vida não te dá,
mas sabes que és tu quem o futuro mudará.

 

Noites em claro. Pensamentos a voar.
Lágrimas que caem. Continuas a chorar.
Aprende que a vida é uma e acaba!
Sorri e faz sorrir, porque um sorriso não mata.
Agarra o presente, deixa para trás o que passou,
vive o que tens e o que a vida te reservou.
Embora penses que o pensas não faz sentido,
escuta o coração se ele te falar ao ouvido.

 

Não cales o que pensas se for para nascer e sentir.
Abre os teus olhos, não podes ao presente mentir.
Não finjas que não te importas, se sabes que a vida te dá
motivos para sorrir; só de ti dependerá.

06
Mar17

Depois do sonho

Rita PN

 

 

Caminhava curvada. Postura adquirida durante o arrastar dos anos em que teimara segurar o peso da vida nas suas mãos vazias.
Não se desfizera do sentimento de culpa, assim como não havia sido capaz de por fim ao luto que dentro de si aprisionava e que, de negro carregadas, as suas vestes transpareciam ao mundo.
Tinha-o morto numa manhã nublada de outono, fazia 30 anos. 

 

-Tropecei e escorregou-me das mãos. Caiu violentamente no chão, esvaindo-me eu em lágrimas, nele a vida e em ambos a esperança. (Lamentava).

 

Antes verdes e viçosas nas árvores, também as folhas haviam dado lugar ao vazio e ao silêncio dos ramos nus. E no chão, um manto de vidas secas cobria o caminho trilhado por outras já mortas. Só o vento mantinha a sua força. E capaz de aproveitar os espaços vazios, seguia adiante enfrentando obstáculos, desbravando imperitos caminhos e varrendo para longe, à sua passagem, tudo o quanto nenhuma falta lhe fazia. 

- Tivesse eu a tua força e soprava toda a poeira que me cobre. Este peso que me sufoca o peito e me empurra contra o chão. Ai se vento eu fosse…– murmurava – Agora estou velha e cansada, demasiado fastidiosa para voar. Para aqui me fiquei, a ver nascer a certeza de que nada mais há depois do sonho. A noite não termina, o inverno não finda e a luz? O que me importa a mim se há luz, quando o meu coração já não vê. O que me importa a mim tudo o que os meus olhos alcançam, se nada mais há para além do que vejo. Só o peso das minhas mãos vazias e da minha alma vergada. Cada dia mais baixa, a cada hora mais perto do chão. Fui eu quem o matou e toda a minha vida pagarei por isso. Ai se vento eu fosse… eu que já nem espaço tenho para o deixar correr.

Dobrou em quatro partes o que restava do seu presente enrugado, abriu a gaveta da cómoda e fechou-o lá dentro. Deu duas voltas à chave e virou-lhe as costas. 

Não voltou a viver.



Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
Fernando Pessoa

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