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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Àquele lugar...

Quero querer, ou será que queria
um dia esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás
e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência
em que a distância é lugar onde habito.
 
Fechada no baú de recordações de tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo livre. Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim.
Nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria
um dia...
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo, quero!

Para lá da Primavera

Rodou lentamente a chave, deu três voltas e soltou o trinco da porta que abria passagem à sala das lembranças. No chão, a carpete cobria-se de pó com a exata tonalidade do beije rosado que, ao amanhecer, ela passava delicadamente a pincel pelo rosto. No tecto, o candelabro ainda a iluminava, suspensa pelo pescoço de um prego de luto vestido, dentro da moldura de um quadro de memórias, cuja tinta escorria já pelas paredes.
Às voltas pela sala e a caminhar para dentro, com o peso dos anos a rasgarem-lhe os bolsos, sentia-se como se a dor furasse, sem piedade, o tecido frágil de que era feito, para mais facilmente escapar, deixando aberto um buraco por onde a própria existência se esvaia.
Julgara-se de aço. Por toda a sua vida. Julgara-se de aço enquanto as lágrimas não lhe oxidaram o rosto e a fragilidade das rugas das papoilas breves não a levaram, no seu ameno vestido vermelho, para lá da Primavera.

 

Levou-a o vento

 

 

 

Ao nascer dos primeiros raios de sol e na demora dos minutos iniciais após o toque do despertador, levantava suavemente a cabeça, levava o braço direito adiante, a mão firme contra o colchão – na necessidade de amortecer o peso do corpo, lateralmente posicionado – e observava-a, timidamente, enquanto dormia.

Repetidamente ao longo de vinte anos, desde o primeiro dia.
Lentamente, fletia as pernas que arrastava até à extremidade da cama, endireitando o corpo. Sentado, voltava a observá-la. Clara. Clara o seu nome, clara a sua pele num rosto delicadamente apetecível aos seus olhos castanhos, nela pousados, enamoradamente. Uma rosa nos lábios ou tão somente as suas pétalas. Um perfume muito próprio nascia logo abaixo do queixo, na linha prolongada entre o pescoço e o peito; viagens a perder de vista.
Assim também Clara a perdera – e que bonitos olhos tinha. Janelas abertas para o mar.
Clara e Tiago haviam-se conhecido vinte e três anos antes, entre as estantes de livros da biblioteca. Ela, equilibrada num só pé, tentava alcançar um romance meticulosamente arrumado na última prateleira da seção de clássicos. Ele trazia poesia nas mãos e tropelias no coração. Ao vê-la, prontificou-se a ajudar.
“ E o Vento Levou”, de Margaret Mitchell. Ficou a vê-la sentar-se, encantadoramente, fechando lenta e graciosamente o perfeito ângulo de noventa graus formado entre a união das suas pernas e o chão, ao fazer deslizar os sapatos ligeiramente para a esquerda. A mão pousada no colo subiu, abriu suavemente o livro e o olhar fluiu, linha a linha.
Tiago viajou com ela. E voltou novamente a viajar. Passando a viajar diariamente sempre que cruzava a estante dos clássicos na biblioteca.
Clara nunca levantava o olhar. Bebia cada página e deixava-se levar.
 
«Não é mulher, é poesia.» - O poema que jamais algum livro lhe permitiria ler.
«Nem todos os poemas moram em livros, nem todos os versos são escritos, tão pouco há estrofes para todas as mãos.»
«E sonetos? » – interpelou-o ela, sem no entanto o fitar.
«Sonetos são viagens ao coração.»
«E eu só com ele sei ver – respondeu. O que os meus olhos não vêem, as minhas mãos sentem e os outros sentidos pressentem. É assim que o meu coração vê.»
 
Um livro em braille.
 
Vinte anos se passaram e o ventou levou Clara, há três.

Ao nascer de cada dia, Tiago levanta suavemente a cabeça, leva o braço direito adiante, a mão firme contra o colchão – na necessidade de amortecer o peso do corpo, lateralmente posicionado – e observa-a, timidamente, enquanto ela ainda dorme ao seu lado naquela fotografia.

 

«Foste tu quem me ensinou a ver com o coração.»

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