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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Sem mais, sem menos

 
 
 

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Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco que exista alguém que a mais se eleve
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida,
envolto no sopro de um cobertor de memórias
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa sem tecto e paredes de papel onde o coração dormita.

 

Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo o quanto por ela passa
por mais ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem se nãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita;
Aos contornos, frequentemente largo
o amargo cheiro das pregas vazias.
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadados os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.

 

Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
E os que muito sentem, escolheram o rés-do-céu para viver.
E sonhar no centésimo andar, a contar do vale dos mortos.
Não creio que tenhamos nós mais do que eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir
sem sentir, que todos nós temos alguma coisa
entre nascer e morrer. Espaço cronológico que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos.
Mas temos. E dar-lhe-emos valor?

 

… é amor do Criador, o oxigénio que a todos brinda, por igual.

Combóio fantasma

 

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Ao meu lado um lugar vazio. Existia sempre um lugar vago, frívolo, carente ou frustrado.
Um homem de fato fingido. Um rosto bem feito de saudade. Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado. Um olhar translúcido e hiato que me fitava disfarçadamente.

 

Uma carruagem lotada num comboio que parou. Uma avaria que fazia antever um atraso de vinte minutos, mas que o acelerou. Contraditório? Talvez. Consistente, porém, o contraste entre o elevar das vozes e os sofridos nós nas gargantas.
Respirava-se sofregamente, bufando palavras de desagrado, que se traduziam nas mais variadas frustrações diárias.
Uma revista caiu. Estendeu-se uma mão, que vi desaparecer entre as páginas despidas de vida. Um chapéu voou, na procura pela liberdade de pensamento. E aqueles óculos diante de mim, flutuando no ar, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, nervosamente inquietos? Procurariam olhos capazes de ver (através deles)? O choro de uma criança que percebi, não reconhecia o batom da mãe que, num vermelho escarlate, lhe gritava o atraso. E ao fundo à esquerda, ora de fronte para mim, ora enfrentando a realidade, uma gravata azul escura, bem apertada, que depressa entendi ser a forca de um farda desgastada.

 

Ouvi o barulho do meu silêncio ocupar a carruagem nos quinze minutos que se seguiram à observação atenta. Ainda me restava um quarto de hora e o mundo parado. Tempo individual e necessário à reflexão, do qual não abdicaria.

Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.

 

O revisor anunciou “Senhores passageiros, a avaria encontra-se reparada. Previsão de chegada ao destino às oito horas e cinquenta e oito minutos”.
O comboio avançava e cinquenta e oito era, também, o número exato de vidas que continuariam por consertar. Afinal, nem eu havia compreendido, até ao momento, que o lugar à noite vazio ao meu lado eras tu quem o ocupava.

Sobre um dia que não considero 'O Meu'

Sobre um dia que não considero 'O Meu', dada a existência de outros tantos 364, ainda por conquistar.
 
 

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Para contextualizar:

A ideia de se instituir o Dia Internacional da Mulher surgiu nos finais do século XIX e inícios do século XX nos Estados Unidos e na Europa, no âmbito das lutas e movimentos levados a cabo em prol dos direitos das mulheres. Como sejam a luta pela igualdade de direitos económicos, sociais, trabalhistas e políticos (onde saliento a luta pelo direito ao voto).
 
Movimentos que tiveram início a 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, com repetição a 8 de Março de 1908. Ambos violentamente reprimidos pela polícia.
Foi também nesta mesma cidade que, a 8 de Março de 1909, se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher.
 
Seguiram-se países como a Rússia, Suécia, Alemanha, Reino Unido, França e Japão.
A Nova Zelândia foi, em 1893, o primeiro país do mundo a conceder o direito de voto às mulheres. Conquista resultante da luta de Kate Sheppard, líder do movimento pelo direito de voto das mulheres neste mesmo país.
 
Só em 1951 foram estabelecidos, pela Organização Internacional do Trabalho, os princípios gerais com vista à igualdade de remuneração entre homens e mulheres, para o exercício da mesma função.
E vinte e seis anos depois, decorria o mês de Dezembro de 1977, foi a vez da ONU adoptar o Dia Internacional da Mulher, como chamada de atenção para as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres. Faz, portanto, quarenta anos!
 
Ora muito bem, tanta referência histórica porquê? Para fazer lembrar- exatamente - que muito já foi conquistado, mas que tanto ou mais está ainda por ser conseguido, no que à igualdade de género diz respeito.
 
Senão vejamos.
  • Estamos em pleno século XXI e a escravatura sexual continua a existir, o uso da burka continua a ser obrigatório em determinados países e a proibição da mulher sair à rua sem se fazer acompanhar pelo marido ainda se mantém.
  • Estamos em pleno século XXI e continuam a surgir notícias sobre abusos, levados a cabo pelos militares presentes nas zonas fronteiriças, sobre mulheres e crianças refugiadas.
  • Estamos em pleno século XXI e o número de denuncias à APAV (Associação de Apoio à Vítima) ascende. A igualdade salarial ainda é uma miragem, assim como a igualdade no desempenho de determinadas funções e cargos ocupados.
  • Estamos em pleno século XXI e vai longo o caminho que visa o equilíbrio entre os dois géneros, no que às tarefas domésticas e à educação dos filhos diz respeito. Estamos em pleno século XXI e ouvem-se barbaridades a respeito das mulheres, vindas da boca de gente desumana, detentora de altos cargos políticos, ou mais grave, de gente desumana no poder.
 
“Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso.” disse-o e bem E. Burke.
 
  • Estamos em 2017 e a mulher continua a ser vista como o sexo mais fraco, sendo repetitivamente interpelada com afirmações como “és mulher é diferente”, “isso não é tema para mulheres”, “és mulher, és mais fraca”, “já viste como estás vestida?”, “isso é tarefa de mulheres”, “as mulheres são um fardo quando engravidam”, entre tantas outras do vosso total conhecimento e consentimento.
 
[A respeito das sociedades desenvolvidas, o mais cego é aquele que não quer ver. Já no que às sociedades subdesenvolvidas diz respeito, o peso da responsabilidade ao mundo inteiro pertence. Mundo esse, que venda os olhos para não ver.]
 
Decorre o ano de 2017 e os patrões oferecerem, na presente data, uma flor às suas funcionárias como forma de as homenagear… por serem mulheres.
Mas digam-me, será necessária a celebração deste dia para tal acontecer? Será necessária uma data para fazer lembrar aos mais esquecidos o que é ser mulher e quais os seus direitos? Sim, não só os seus deveres, que por sinal são equiparáveis aos do sexo oposto.
Será porventura necessário, às próprias mulheres, festejar um dia como este com jantares, borgas e afins, contribuindo para que o verdadeiro mote para existência deste dia caia por terra, perdendo o seu significado original e adquirindo um propósito fútil de caracter festivo e comercial?
 
Ou será necessário às mulheres e à sociedade em geral, a sua luta contínua por uma afirmação ininterrupta, ao nível das mais diversas patentes sociais, pessoais, económicas e políticas, de forma igualitária e justa?
 
Sem querer ferir susceptibilidades e como mulher que sou, feliz serei quando não for celebrado este dia, mas sim todos os restantes. Feliz serei, sempre que não sentir que é obrigação, por parte de um homem, felicitar-me ou homenagear-me, a cada dia 8 de Março, por ter nascido mulher. Feliz serei, quando qualquer um dos restantes 364 dias for motivo para agradecer ao género feminino por todas as suas lutas, conquistas e mudanças na sociedade.
 
É este o meu propósito em ser mulher. Lutar. Vencer. Conquistar. Igualar. Equilibrar. Mudar.
 
Por tudo isto e muito mais, hoje não é o meu dia! O meu dia serão sim, os demais que o ano tem. (Talvez não pára já, mas estou certa de que, na devida altura, o virão a ser).
 

Bocas caladas. Mentes amarradas. Corações amordaçados.

 

Descia a avenida, quando ao longe avistei um enorme aglomerado de gente.
Uma multidão, termo comummente utilizado. Tão comum quanto aqueles que dela faziam parte.
Silenciosos. Estranhos entre eles – desconfio que estranhos a eles próprios também. Olhavam-se e entreolhavam-se, mas nada diziam – os que se olhavam. Já que a maioria baixava a cabeça naquele ato já banalizado de quem ignora os restantes. Olhavam para baixo. Para o umbigo, talvez. Na pior das hipóteses já haviam desistido da vida e, apenas existindo, olhavam para o chão.

Observava-os. Também eu calada, receando quebrar o silêncio daquela marcha muda de gente. Na verdade, nem sabia o que lhes poderia dizer. Pareciam alienados, cada um no seu mundo aparte dos restantes. Embora lado a lado.
Nada mais ouviam senão os seus próprios “Eu”. Pensamentos negativos, egos obesos, medos e problemas – vim a perceber mais tarde.
Ninguém ouvia sonhos, ambições, desejos, a força do querer, a voz da alegria e o nome da felicidade. Espantem-se agora, assim eu me espantei, ninguém conseguia ouvir o seu próprio bater do coração. Nas suas mentes ecoava somente o “eu”, “eu”, “eu”, de tal forma alto que ensurdeceram para o mundo.

No meio de tanta gente, aquele silêncio começava a tornar-se incómodo. Ninguém dizia nada a ninguém, no entanto mantinham-se juntos. Ninguém se afastava.
“Menina faça silêncio” – sussurrou-me alguém. “O seu coração bate muito alto, desconcentra-me.”

“Que raio de observação a sua... dizer que o meu coração bate muito alto. O seu é que sofre amordaçado. O meu coração bate ao volume necessário à vida e ao compasso que eu o fizer bater. Era o que mais faltava mandá-lo calar. E digo-lhe mais, se todos os corações tivessem a liberdade de se fazer ouvir, tal como eu permito ao meu que faça, imagine que bonita seria a melodia que se faria ouvir aqui! Mas vocês preferem o barulho ensurdecedor dos vossos egos e de tudo quanto há de negativo em vós. “

Segui adiante certa de que toda aquela gente, durante as suas vidas, haveria abafado a voz dos seus corações, com palavras mudas que nada mais teriam sido, senão a voz do medo de estarem sozinhas.
E ali estavam elas, juntas mas caladas, sendo o silêncio e o medo da solidão, o seu único elo de ligação.

Assim vai o mundo.

Bate coração, bate.

 

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