Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Apatia

Incorro em pasmaceira de jumêncio
sempre que se abate o silêncio
para lá da chuva que cai.
Tudo padece,
nada apetece,
a apatia envaidece
e a tristeza agradece 
o trono
à alegria que se esvai.
Entrego ao sossego o meu corpo
e à elegância da chuva o quem em minh’alma vai.
Sentimento silvestre que em bailado agreste,
pinta áspera e rupestre,
a decadência que me trai.

 
Vestir-se-á somente de memórias

o frio que, em mim, a manhã sente?
Ou mente
o sol quando espreita, longínquo
e da doce e sumarenta polpa da vida
me faz crente?

Com o arco íris me enganas...

Abandono

viúva persistente.jpg

 

Em terra de pouca sorte,
insípida p’las águas do pranto,
dizia o vento - que corria parado -
memórias cansadas,
ao entardecer da vida num banco
de praça, deserta e despida,
tricotando, incerta, a nudez
da memória de outrora, esquecida.

 

E à luz da janela improvável,
na cal já gasta esculpida,
vivia de língua amputada
o silêncio da despedida.

 

Lugares sem nome

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

Bocas caladas. Mentes amarradas. Corações amordaçados.

 

Descia a avenida, quando ao longe avistei um enorme aglomerado de gente.
Uma multidão, termo comummente utilizado. Tão comum quanto aqueles que dela faziam parte.
Silenciosos. Estranhos entre eles – desconfio que estranhos a eles próprios também. Olhavam-se e entreolhavam-se, mas nada diziam – os que se olhavam. Já que a maioria baixava a cabeça naquele ato já banalizado de quem ignora os restantes. Olhavam para baixo. Para o umbigo, talvez. Na pior das hipóteses já haviam desistido da vida e, apenas existindo, olhavam para o chão.

Observava-os. Também eu calada, receando quebrar o silêncio daquela marcha muda de gente. Na verdade, nem sabia o que lhes poderia dizer. Pareciam alienados, cada um no seu mundo aparte dos restantes. Embora lado a lado.
Nada mais ouviam senão os seus próprios “Eu”. Pensamentos negativos, egos obesos, medos e problemas – vim a perceber mais tarde.
Ninguém ouvia sonhos, ambições, desejos, a força do querer, a voz da alegria e o nome da felicidade. Espantem-se agora, assim eu me espantei, ninguém conseguia ouvir o seu próprio bater do coração. Nas suas mentes ecoava somente o “eu”, “eu”, “eu”, de tal forma alto que ensurdeceram para o mundo.

No meio de tanta gente, aquele silêncio começava a tornar-se incómodo. Ninguém dizia nada a ninguém, no entanto mantinham-se juntos. Ninguém se afastava.
“Menina faça silêncio” – sussurrou-me alguém. “O seu coração bate muito alto, desconcentra-me.”

“Que raio de observação a sua... dizer que o meu coração bate muito alto. O seu é que sofre amordaçado. O meu coração bate ao volume necessário à vida e ao compasso que eu o fizer bater. Era o que mais faltava mandá-lo calar. E digo-lhe mais, se todos os corações tivessem a liberdade de se fazer ouvir, tal como eu permito ao meu que faça, imagine que bonita seria a melodia que se faria ouvir aqui! Mas vocês preferem o barulho ensurdecedor dos vossos egos e de tudo quanto há de negativo em vós. “

Segui adiante certa de que toda aquela gente, durante as suas vidas, haveria abafado a voz dos seus corações, com palavras mudas que nada mais teriam sido, senão a voz do medo de estarem sozinhas.
E ali estavam elas, juntas mas caladas, sendo o silêncio e o medo da solidão, o seu único elo de ligação.

Assim vai o mundo.

Bate coração, bate.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D