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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Tenho um baloiço de corda suspenso numa nuvem

Tenho um baloiço de corda suspenso uma nuvem.
É do alto do seu voo que te observo, docemente suspensa. Os sonhos parecem maiores quando vistos daqui. E tu, tão mais pequeno – como eu, quando dele desço e olho para cima. Reparo que também o fazes.
Irei trazer-te cá, para comigo sonhares mais alto. Prometo.
Mas hoje não. Estou com pressa para descer.

 

Aqui em baixo tenho uns sapatos de sato alto que uso quando quero ser mulher.
Comecei descalça, mas a visão rasteira não me permitia olhar além, para lá do horizonte comum – esse que todos os pares de olhos alcançam. Aprendi então, a equilibrar-me a seis centímetros do chão, travando guerras e batalhas com que a vida constantemente me desafia. Estender o campo de visão é outra das mais-valias destes sapatos - qual guerreiro a cavalo.
Hei-de mostrar-tos quando me cruzar contigo no final do dia. Altura em que saio de cena, tiro os sapatos e calço todos os segredos que há por revelar em mim. Não tentes, porém, descalçar-me. Prefiro levar-te ao baloiço.

É durante a subida que sinto mais do que quilo que quero, talvez menos do que seja capaz.

Sento-me contigo no meu baloiço, agarro as cordas da vida com força e dou balanço ao corpo, consciente de que cada recuo nos fará subir mais alto depois.

É daqui que se sonha e ainda não chegámos ao céu.

Vejo as tuas mãos agarrarem, ligeiramente acima das minhas, as mesmas cordas. E sinto o teu corpo balançar, agora, ao ritmo do meu. Entre avanços e recuos, subimos mais alto e tocamos o céu.

Caem-me dos pés os segredos, que te havia pedido para não descalçares. E tu reparas. E sorris ao interpelar-me: Não me mostraste os sapatos!

Preferi os sonhos. Os sapatos nunca nos trariam ao céu.

 

 

Abarcar

É preciso escrever com as mãos limpas
o eco da poesia que corre
entre as margens de erro da vida;
e emendar o céu... 
com o olhar simples
de quem apanha as estrelas distraídas
e voa, para que se abracem,
encurtando a distância
que, sob qualquer circunstância,
cabe inteira num poema.
Sem fragmentos, respiração suspensa
e uma história imóvel
entre os gracejos de um copo de vinho
que aviva veloz, a memória da tua voz
doce e calma a léguas de mim…
É preciso corrigir a lonjura sempre que chove
e o dilúvio da cidade solitária se abate sobre os nossos corações.
… escorrem as emoções, ao sul
desaguando no mar azul
que te tráz...
e só termina nos meus olhos.

Abarca-me.

Húmus

As minhas janelas não dão para lado nenhum.
Não há nada que se me mostre através delas,
as estradas e figuras que entrevejo,
não me levam a lugar algum…
perdeu-se o Homem e o ensejo
(lá no alto), pelo asfalto.

Há nos meus olhos cansaços vários
decorrentes do esforço exabundante
de sonhar desejos deficitários
p’la mão de Virgílio,
nas margens do Letes de Dante.

Constantemente me adio os escombros
inevitáveis, quando à meia, a noite cair
e o céu me esborrachar de vez a cabeça.
No inferno, todos se vão rir
e na terra, não há quem não me agradeça
a retirada.
Que maçada…
todos escolheram o domingo para morrer
e até nisso eu saí controversa.
Nem no princípio nem no fim. Exatamente a meio
onde a semana dispersa.
Avessa, pedi para assistir ao meu funeral,
enterraram-me, por isso, primeiro o caixão
(que dele quero morrer longe).
Queriam-me os sonhos em valas comuns?
Não.
Sequem as lágrimas choradas
e desacreditadas de religião.
A minha única fé é sonhar!
E quem sonha, nunca sonha em vão.

Alimentar-vos-á o húmus
da minha ressurreição
porque se morro, não morro toda de uma só vez
e o que por terra cai,
levantar-se-á outra vez
sem que vós me entendeis a mão.

Querem graça?
Peçam o óbulo à porta da igreja
que a vida não vai de bandeja
e eu 'inda estou no meu funeral.

 

As minhas janelas não dão para lugar nenhum.

Já não é tão alto o céu

Já não é tão alto o céu
Se na encosta da lua, sentado
Sonho o universo sem véu, 
nú e por desbravar.
Longe do negrume que assola a escuridão
da tua ambição
e de um caminho ainda réu
das margens do choro de um rio,
onde um barco vazio,
escoa perdido
por entre as pedras da calçada
onde te sentas
e lamentas:
- "Quão distante é o céu...”

Já não é tão longe a estrela
que me guia, lá no alto
quando à noite, sentado no asfalto
olho para trás e me sei capaz
de voar.
- Basta sonhar -
(E na lua já estive)
Porquê sabotar o descolar
do futuro
Se já não é tão alto o céu?

E tu, que parado ficas
a olhar para mim,
criticas-me as asas
"São contos de fadas"
dizes-me, já sem história.
E enquanto eu visto o universo nú
e acendo as estrelas da vitória
Tu cobres-te, gélido, com a mortalha
e dás por finda a batalha
da vida.

Respiras. Mas já não sonhas.

Inquietude

 

Cala-te. Por favor cala-te.
Que impere o silêncio!
Pára. Por favor pára.
Só a bonança
Desta dança
Que é viver.
Sossega...
Peço-te eu.
E tu sem me ouvir
Aceleras noite e dia
Nessa tão estranha euforia
De algo mais aprender
Conhecer
Criar
Ensinar
Fazer.

 

Abres-me as portas do mundo
As janelas dos sonhos
Os olhos da alma…
Desenfreada e insaciavelmente
Como quem depende de tão grande inquietude
Para me fazer ser - quem sou.
Mas hoje não. Imploro-te:
Não sejas tão perspicaz,
Não penses, não queiras, não cries, não sonhes, não sejas...
Mais do que paz.

 

(Essa que só o teu silêncio me traz.)

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