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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

31
Mai17

Lugares sem nome

Rita PN

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

07
Mar17

Não há vagar

Rita PN

Não tenho vagar para te ler,
se teimares em aparecer
entre as letras do jornal.
Nem tenho vagar para ti,
se me vieres com parcas conversas
do dia em que eu te sorri
já com a vida às avessas.
Não tenho vagar para pensar
na tua amarga semântica,
tão pouco para me deixar levar
p’las leis da tua quântica.

Já te disse, não tenho vagar!
Não te atravesses pelo caminho.
A m’nha estrada eu faço-a sozinho
não te quero a acompanhar-me.
Não. Não tenho vagar
para te olhar ao espelho,
já dentro de mim.
Gritei-te: estou bem assim!
Abri a porta e pus-te a andar.
Porque é que voltas,
quando sabes que para ti não tenho vagar?
E aí ficas. À minha porta,
na ombreira de uma vida vã.
Na esperança destroçada
de quem espera sentada
pelo dia de amanhã. 

Hoje não tenho vagar
E amanhã também não o terei.
Sempre que estive contigo
Oh tristeza,
para mim foi tempo perdido,
uma história que eu mesmo findei

20
Fev17

Amantes no tempo

Rita PN

 

 

Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam.
Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.
 
- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - nem qual o destino que os espera. Toda a vida vivi intensamente, cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje - já calejado da vida - me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, o volume dos seios e a carne dos lábios, de olhos fechados.
 
Eurico rodou o banco, de lona verde escura, ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele - com a ponta do meu indicador - e lhe medisse a profundidade.
Quanto mais profunda, mais longa era.
 
- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir, para além de ti e de um vazio que nunca poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal, sempre que na demora da ausência, recordares uma mulher e - de olhos fechados - lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não amar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.
 
Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.
 
- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.
 
Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:
 
- Deve ser ali o lugar para onde vão, para o sítio onde o sol se põe. Com a pressa de chegar, nem reparam como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!
 



Há quem por ti passe tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.

Rita

29
Jan17

O livro do tempo

Rita PN

 

Do presente, não conhecia mais do que o momento exato. Nem uma hora para trás, nem cinco minutos adiante. Vivia entre o agarrar tremulamente o copo de água, o espaço que o separava dos lábios e entre a demora do vazio, desse mesmo copo, a ecoar novamente na bancada. 

Persistia nos vinte passos arrastados que o separavam do sofá onde o seu corpo, vago, caía e se deixava ficar. Diante dele, ocupando todo e qualquer espaço vazio, o presente.
A incapacidade de acompanhar o tempo, havia ao longo dos últimos anos, imposto uma longa distância entre Domingos e o filho, sentado um metro à sua esquerda.

«Ontem a tua mãe estava muito bonita. Mas hoje ainda não a vi. Que será dela?»

Madalena morrera durante o parto, quarenta anos antes; Duarte não chegara a conhecer a mãe.

«Ó pai, lá está você, a mãe já não se encontra entre nós.»

«Disparates. Só dizes disparates. Pensei eu que te fazias um homem, continuas igual. És tu e o Tó Zé do Edgar, ainda a semana passada lá estive na tasca, só disparates, um cachopo daqueles filho de boa gente. E tu vais pelo mesmo caminho.»

Tó Zé tinha agora 58 anos. E Domingos 83 a avaliar pelas muitas histórias contadas pelas rugas das suas mãos. Noutros tempos, era certo, quando a destreza era outra. Agora, já nem história tinha. Vivia a uma distância de 40 anos dos vinte passos arrastados que o separavam da realidade.
Estendeu lentamente o braço e concentrou-se na abertura dos dedos da mão. Agarrou no livro pousado na pequena mesa de apoio, à sua direita, e levou-o até si. Exatamente até si - escrito pelo filho Duarte, mal Domingos sabia que a história nele contada era também a sua.

«Gosta do livro pai?»

«Tem bom ar. Eu é que não tenho aqui os meus óculos, para ler qualquer coisinha.»

Aos olhos de Domingos, com ou sem a precisão das lentes, as letras nada mais eram do que aglomerados de linhas em páginas, todas elas iguais, sem sentido algum - assim lhe pesavam os dias. 

 

“E sem conhecer as histórias que o livro contava, voltou a esticar o braço, a concentrar-se na abertura dos dedos da mão e a pousá-lo na mesa de apoio, à sua direita.
Também o presente havia por ele sido deixado num qualquer recanto da sala, que julgo não saber precisar e que tão pouco voltará a viver." - Findos, o livro e mais um serão de domingo. 

 

11
Jan17

Era uma vez um homem que não tinha tempo para o amor e que tropeçou na rapariga que amava de mais

Rita PN

 

 

 

Era a primeira vez que Rute visitava uma cidade tão grande. Tão cheia de pessoas, de prédios, de carros, de pontes, de estradas, de fumo, de fábricas, de pressa, de horários, de correrias, de rostos apagados, de encontrões e de relógios. Ali tudo dependia de ponteiros. Horas. Minutos. Segundos. A correr. Nas esquinas, nos pulsos, nas paragens de transportes, nas paredes dos mais variados edifícios, nos milhares de telemóveis que, aos seus olhos, absorviam o pouco tempo para respirar daquelas gentes. Acabava de chegar e já duvidava se o tempo que teria para visitar os seus pontos de interesse seriam suficientes. Ali tudo corria, voava. Até a vida. Sem ninguém reparar. Sem ninguém respirar. Sem ninguém ter tempo de carregar na pausa e aproveitar um momento com os amigos, com os filhos, com a cara metade, tão pouco consigo mesmo. Seres solitários entre a multidão.

 

Assim era a vida de Jorge, empresário de sucesso, homem bem parecido, inteligente, cordial, respeitador e respeitado, mas só. Nada lhe faltava a não ser tempo e amor - faltava-lhe tudo. Vivia dependente de ponteiros e alarmes sempre focado na tela de um telemóvel, deixando que a vida lhe passasse ao lado. E foi exatamente sem olhar para o lado, que ao entrar no metro tropeçou em Rute, que saía:

 

- As minhas desculpas.

- Não tem importância, preste somente mais atenção ao mundo em seu redor. É lá que estão as pequenas coisas da vida.

 

Acabava de chegar e de uma coisa ela já tinha a certeza, era o lugar mais triste que havia conhecido.

 

Exausto, Jorge caiu na cama; silêncio habitual de quem sozinho está na vida e no mundo. Cama fria, vazia. Um corpo sem alma e um coração sem amor. Na cabeça uma voz: "Preste somente mais atenção ao mundo em seu redor, é lá que estão as pequenas coisas da vida". - olhou em volta, um enorme vazio. Procurou o seu telemóvel, e-mails, reuniões, horários, alarmes, lembretes... Contactos profissionais. E vida? Família? Amigos? Amor? E ela? Quem seria ela? - "Pequenas coisas da vida".

 

Acaso ou destino, voltaram a cruzar-se, desta vez à porta do escritório.

 

- É aqui que vive?

- Não, é aqui que trabalho.

- Foi o que eu disse.

- Desculpe?

- A sua vida é igual à de toda esta gente. Trabalho, relógios, ponteiros, alarmes, telemóveis. E tempo? E amor?

-Temo não lhe saber responder... Mas entre e tome um café, tenho dez minutos, fique...

- Cheguei mas não quero ficar. Não me peça que fique. Não aqui onde não existe nada para além do que vejo. Onde ninguém tem tempo nem para olhar para o lado, quanto mais para viver e apreciar o que realmente tem valor na vida. Nem o café o senhor aprecia tamnaha é a pressa com que o bebe. E de que me serve um café mudo sem uma boa conversa? Aqui não há tempo para nada, nem sabem o que é o amor. Sem ele serei apenas igual a si. Um cadáver vivo. Não se esqueça, olhe em redor e veja para além do que os olhos alcançam. Atente nas pequenas coisas que lhe têm passado ao lado.

-Como você? - perguntou.

- Como tudo o que existe dentro de mim e que o senhor jamais compreenderá. Ecomo muitas outras coisas que o mundo tem para descobrir, sentir e oferecer.
Desculpe, agora sou eu quem tem pressa - de chegar onde posso sorrir. Se um dia descobrir um lugar onde pode sorrir, fique. E aqui para nós, descubra também um coração para morar e abra a porta do seu.

 

Abriu a porta do escritório e deu início a mais um dia.




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