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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Lugares sem nome

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

Vida

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Éramos, talvez crianças, sempre que as mãos se entrelaçavam e sorriam - as minhas - ao largo dos teus caracóis.
Éramos, talvez a esperança, quando o olhar se cruzava e os teus olhos me inundavam de verde mar.
Éramos, talvez rebuçados, sempre que os lábios se encontravam, na curva dos beijos roubados, ao sol poente.
Éramos, talvez a corrida, sempre que soava a partida e me acompanhavas o rosto à janela.
Éramos, talvez o amor, de mãos dadas a correr, em direção à loja das guloseimas.
Éramos, talvez a vida, que só é sentida quando damos as mãos.

Nas letras dos meus sonhos

 Hoje levo-vos novamente ao baú. Recuemos aos meus 15 anos... Sonhar, sonhar, Sonhar!

Não sei porque escrevo,

porque sonho as letras,
porque canto as vírgulas,
ou porque ondulo nas frases
sem nunca chegar a um ponto.
Não sei porque vivo um texto,
nem porque desejo um conto
que nunca começa nos Às,
tão pouco termina nos Zês.
Não. Não quero parar!
Quero continuar a saltar
barreiras de capítulos;
escalar páginas sem cume,
remar ao sabor das sílabas
que ardem no meio do lume.
Quero partir das reticências,
sem nunca alcançar os dois pontos.
Trepar interrogações,
abraçar as exclamações…
e sem perder o ritmo,
escrever milhares de contos.

 

Quero casar com os nomes,
e ser íntima dos verbos,
quero namorar os pronomes
e fazer dos determinantes meus servos.
Quero ser chefe de imprensa
e quero, para sempre, sucumbir ao Poeta.
Quero uma prosa imensa,
não quero um ponto na meta!

 

Já li toda a Epopeia
e escreverei duas ou três,
sem perder a consciência
que no meu sonho de menina
era tudo "Uma Vez"!

Reflexão - 14

O final é apenas isso, a ausência de sentidos.
Já não se vê, já não se ouve, já não se toca nem se sente o sabor, já não cheira... ao que foi. Já não é.
O esquecimento é simples. E ocupa tão pouco espaço. Cabe no intervalo entre deixar de sentir para não voltar a lembrar.
Se temo que me esqueçam? Não. Temo que não me saibam sentir.

Rita

Bonecas de corda

 

 

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Naquela manhã todos se pareciam com bonecas de corda. Bem vestidos, cara lavada, cabelo escovado e alinhado, focados e rodopiando sem desvios, em torno das suas vidas. E nós aplaudíamos, levados pela melodia das histórias feitas, ensaiadas e tão poucas vezes dançadas ao ar livre.
Vinte minutos era o espaço de tempo decorrido entre o puxar da corda e a vénia final. Na verdade, cada um dos oradores presentes resumia-se isso, vinte minutos. E o que é um orador de histórias contratadas senão apenas o tempo que demora a passar? Não nasceu antes, nem morrerá depois. Foi ali criado, aliciado pela moda de debitar palavras emotivas. Sinceramente não as entendo. Às palavras. Não aos oradores, que esses são de corda como as bonecas, vestem a dança e morrem no instante em que corda finda. Nem antes, nem depois. Exatamente ali.
No meu tempo enforcavam-se, com palavras é certo. Não sei se será a mesma coisa - corda por corda - mas julgo que sim.

Voltando às palavras, dizia eu que não as entendo. Deram em emotivas? Essas modas que agora seguem. Ali estão enquanto servem, usadas e abusadas por quem escreve e lê e por quem fala e ouve. Depois, cai a moda e abrem-se valas comuns, onde se enterram as ditas, já desgastadas. Mas tal como é costume nas boas modas, logo estarão outras de volta, aquelas que já anteriormente haviam sido usadas e que mais adiante voltarão novamente sê-lo.

 

Das modas e das palavras já sabe que vão e vêm.

 

Fazem-me lembrar os namoros de hoje em dia. Já eu o disse à minha neta. Correm, correm, correm que se farta. Estão sempre cheios de pressa. Para chegar aonde é que eu ainda não percebi. Todos se parecem perder pelo caminho. Quando voltam, já trazem outro pelo braço. Ainda a semana passada lhe perguntei se era ruim o piso do caminho de agora. Tão coxos que os vejo do coração. É no que dão as pressas.
Namorados e oradores são todos bonecas de corda. Bem ensaiadas. Em vinte minutos. Que é o tempo que eu tenho até morrer.

 

Derramem-me o castanho da capa de um livro por cima, deixem-no inundar a manta com que à noite me tapo e permitam-me cheirar a terra fértil molhada, mas não me fechem já o caixão! Ainda não, que ainda quero a última dança. O meu palco final é castanho e a vida só dura vinte minutos.

 

Um alfaiate não cose vidas

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Dormíamos a maior parte das vezes no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos o que mais parecido havia com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de algum animal durante o período de tempo que durava o destacamento.

Embarquei em Portugal em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete com trinta mil toneladas de peso e capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era, também, parte integrante do nosso equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número e o nome do soldado e o seu tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a aquela a quem chamávamos a Fiel Companheira de Mato, a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, uma arma de grande porte a quem os guerrilheiros ganharam um grande respeito.

Durante as patrulhas as principais funções eram de reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou em linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão. Podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse espaço de tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos por escassos minutos para comer qualquer coisa ou para aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha muitas vezes a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?
(Voltemos ao cais...) 
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

Aos Poetas, neste Dia Mundial da Poesia

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Poetas.

Seres que só sonham. Seres que só sentem. Essa sede que têm de amar a tudo e a todos. Até à vida.

Poetas.
Esses seres que vivem do avesso. Com o coração de fora. Que estranha forma de vida!
Os Poetas de nada sabem senão da vida. E tudo o que sabem já é demais.
Os Poetas usam-te. Usam-te os olhos, o nariz, os lábios, cada fio de cabelo, até a sola dos pés. Descrevem-te os contornos e embelezam-te a alma, mesmo quando negra.
Já os vi usar paisagens, cidades, edificios inteiros, recantos escondidos, a terra e o mar, o céu, a lua, o grito e o silêncio, o Mundo. A guerra e a paz, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o amor e o ódio.
Os Poetas são especialistas em sentir. Experimentam as suas mais diversas formas. São seres insaciados. Por isso tantas vezes morrem novos. Overdose de sentidos.

Poetas.
Estes seres obcecados com a musicalidade daquilo que dizem. De tudo o que vêm. Até do que escrevem.
A teimosia que encerram em querer pintar a vida. Acham-se donos das cores do arco-íris. E são.

Poetas.
Esses seres capazes de transformar o que dói num sorriso. O que fere em amor. O que mata em vida. A escuridão em luz.
Nunca vi ninguém venerar tanto um sentimento agreste como a saudade, quanto um poeta. Desconfio até que estes seres transformam qualquer presença em ausência, só para fruir de mais uns versos para escrever.
A verdade é que vivem com as entranhas de fora e mesmo assim, passam despercebidos. Não se fazem notar, nem sabem, eles próprios, se são bonitos ou feios. Repugnam o supérfulo, admiram o detalhe. Parecem alienados do mundo. Transmitem serenidade, mas se lhes abrires a cabeça protege-te do furacão de ideias e conhecimentos. Da inteligência.

Os Poetas estão-se nas tintas para o paleio e conversa fiada. Só querem escrever. Só querem sentir.
Alimentam-se sobretudo de amor e quando este lhes falta morrem devagarinho e gritam, gritam tanto que o silêncio ensurdece. E nascem poemas. Tristes. Mas que gostas de ler. (Excepto se deles fizeres parte. Aí repugnas a poesia).

Poetas. Poetas.
Ninguém se torna poeta. Ninguém almeja ser poeta. Alguns nascem poetas e só esses morrem poetas, porque foram poetas na vida.


E eu que não sou poeta (quanto muito poetisa), estou certa que no dia em que morrer alguns irão perguntar:
-Morreu? Morreu de quê?
E alguém lhes responderá:
-Coitada. Nasceu poeta.

Xeque-Mate

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Sem precisão temporal – a guerra roubou-lhe o significado do tempo, contou-me uma noite depois de dar por terminada a sua mais longa partida de xadrez. Não dormiu durante vinte e sete horas. Ciente da sua capacidade de superação e de resposta ao imprevisto, fez xeque-mate ao rei adversário. Não se deixava surpreender, jogava o seu jogo e o jogo do seu opositor, mantendo a concentração e alterando a sua estratégia sempre que o adversário julgava te-lo surpreendido. Venceu pela persistência. 


- Esta é uma lição que deverás levar para a vida João Pedro, não são as ondas quem desgasta as rochas, é a sua ação contínua sobre elas.

Dizia ele em mais um dos seus testemunhos:

Sem precisão temporal, durante uma acção de reconhecimento aéreo, foi localizada uma base do IN camuflada no interior do mato. Base essa, que as forças terrestres especializadas tomariam de assalto durante a madrugada seguinte. A aproximação dos homens requeria especial atenção e precaução, não só pelas condições do terreno demasiado acidentado, como pela existência de populações nas proximidades. Qualquer falha alertaria o IN e consequentemente, ditaria a sentença de morte para muitos de nós.

Depois de uma análise detalhada da missão, o comandante da companhia ordenou que se formassem quatro grupos. Um primeiro grupo, composto por vinte e cinco homens, saltaria de helicóptero sobre o alvo – a base do IN – enquanto o segundo e terceiro grupos montariam emboscadas nas zonas de acesso. Iria ser mantido como reserva um quarto grupo que atuaria como reforço, ou entreveria numa eventual perseguição às tropas do IN.
Já a noite caíra quando o segundo e terceiro grupos saíram em silêncio para uma marcha de seis horas – segundo constatou o alferes Morais, porque como te disse meu filho, a guerra roubou-me o significado do tempo. Hoje, ao olhar para trás e ao relembrar as histórias que te conto, não sei se elas duraram um minuto ou um ano. Na altura, sei-o, foram o que vivi de mais semelhante com a eternidade. Esse espaço intemporal e infinito que só se conhece após a morte. E não foi isso que eu vivi? A morte? Matei quem era para nascer quem me tornei naquele cenário de horror e carnificina. - O segundo grupo posicionou-se perto da base e o terceiro permaneceu na periferia do rio.

Não houve qualquer sinal de alerta por parte do IN nem das populações, mas era importante manter toda a descrição, atenção e concentração a fim de evitar qualquer contacto até os homens do primeiro grupo realizarem o assalto - Como numa partida de xadrez. É crucial certificares-te de que o teu oponente não te decifra antecipadamente. Qualquer palavra, gesto, trejeito ou olhar podem fornecer-lhe indicações a respeito do teu pensamento estratégico, ou deixar clara a movimentação na tua próxima jogada. Nunca se sabe de que capacidades estão os outros dotados. E quer no jogo, como na guerra, como na vida, a aptidão e prontidão para uma rápida resposta pode debilitar e surpreender o outro lado. A morte já não me surpreende, mas a surpresa poder-me-á levar à morte.

Os comandantes da companhia ordenaram aos camaradas que iriam constituir o anel de cerco que se dispusessem em posição de emboscada, em grupos organizados de cinco elementos. De rádios ligados e em escuta permanente. Aguardariam pelo início da operação em silêncio e imóveis. Eu estava entre eles.

Ao amanhecer cacimbava, o que dificultou a descolagem dos helicópteros.
Voavam a baixa altitude e assim que o alvo foi localizado na orla da mata, o capitão saltou. Os restantes vinte e quatro soldados seguiram-no, num salto contra o tempo. De imediato o grupo de vinte e cinco homens, já reunido em solo firme, levou a cabo o assalto.
Seguiram-se tiros, gritos e vultos a correr. Granadas e corpos caídos. Ordens, ordens e mais tiros, tiros, tiros e tiros. Sobraram os mortos, os nossos militares feridos e algumas das gentes que por ali viviam.
Ouvi novamente o barulho ensurdecedor das pás e das turbinas dos helicópteros sob escolta de um helicanhão. Evacuaram as tropas, recolheram os feridos e abandonaram o local.

Seguiu-se uma nova caminhada de seis horas de regresso à base – e essa foi a duração da eternidade para o alferes Morais que caiu sem vida a dez passos do nosso aquartelamento.

[ Baseado em factos históricos verídicos - Guerral Colonial 1961-1974]

Não há vagar

Não tenho vagar para te ler,
se teimares em aparecer
entre as letras do jornal.
Nem tenho vagar para ti,
se me vieres com parcas conversas
do dia em que eu te sorri
já com a vida às avessas.
Não tenho vagar para pensar
na tua amarga semântica,
tão pouco para me deixar levar
p’las leis da tua quântica.

Já te disse, não tenho vagar!
Não te atravesses pelo caminho.
A m’nha estrada eu faço-a sozinho
não te quero a acompanhar-me.
Não. Não tenho vagar
para te olhar ao espelho,
já dentro de mim.
Gritei-te: estou bem assim!
Abri a porta e pus-te a andar.
Porque é que voltas,
quando sabes que para ti não tenho vagar?
E aí ficas. À minha porta,
na ombreira de uma vida vã.
Na esperança destroçada
de quem espera sentada
pelo dia de amanhã. 

Hoje não tenho vagar
E amanhã também não o terei.
Sempre que estive contigo
Oh tristeza,
para mim foi tempo perdido,
uma história que eu mesmo findei

Depois do sonho

 

 

Caminhava curvada. Postura adquirida durante o arrastar dos anos em que teimara segurar o peso da vida nas suas mãos vazias.
Não se desfizera do sentimento de culpa, assim como não havia sido capaz de por fim ao luto que dentro de si aprisionava e que, de negro carregadas, as suas vestes transpareciam ao mundo.
Tinha-o morto numa manhã nublada de outono, fazia 30 anos. 

 

-Tropecei e escorregou-me das mãos. Caiu violentamente no chão, esvaindo-me eu em lágrimas, nele a vida e em ambos a esperança. (Lamentava).

 

Antes verdes e viçosas nas árvores, também as folhas haviam dado lugar ao vazio e ao silêncio dos ramos nus. E no chão, um manto de vidas secas cobria o caminho trilhado por outras já mortas. Só o vento mantinha a sua força. E capaz de aproveitar os espaços vazios, seguia adiante enfrentando obstáculos, desbravando imperitos caminhos e varrendo para longe, à sua passagem, tudo o quanto nenhuma falta lhe fazia. 

- Tivesse eu a tua força e soprava toda a poeira que me cobre. Este peso que me sufoca o peito e me empurra contra o chão. Ai se vento eu fosse…– murmurava – Agora estou velha e cansada, demasiado fastidiosa para voar. Para aqui me fiquei, a ver nascer a certeza de que nada mais há depois do sonho. A noite não termina, o inverno não finda e a luz? O que me importa a mim se há luz, quando o meu coração já não vê. O que me importa a mim tudo o que os meus olhos alcançam, se nada mais há para além do que vejo. Só o peso das minhas mãos vazias e da minha alma vergada. Cada dia mais baixa, a cada hora mais perto do chão. Fui eu quem o matou e toda a minha vida pagarei por isso. Ai se vento eu fosse… eu que já nem espaço tenho para o deixar correr.

Dobrou em quatro partes o que restava do seu presente enrugado, abriu a gaveta da cómoda e fechou-o lá dentro. Deu duas voltas à chave e virou-lhe as costas. 

Não voltou a viver.



Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
Fernando Pessoa

A última a morrer


Chego-te, através do horizonte



leve, ténue e casta brisa



profetisa,



envolta em névoa que solta,



te toca sem te tocar.



Em tudo me sentes.



Em nada me vês.



Mas crês que existo



e que de longe venho



contendo arte e engenho



(não olhas para trás).



Três passos mais perto



do fim do deserto



e miragem, ainda sou...



Reflectindo uma imagem



de sonho e coragem



que contigo acordou.


 


Não páras.



Sempre adiante,



filha de um acreditar constante



(não há tempestade que te apague).



Ao longe, o horizonte



em ti, uma fonte



onde bebes de mim...


 


... crês-me, sem fim



e chamas-me Esperança.

Amantes no tempo

 

 

Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam.
Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.
 
- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - nem qual o destino que os espera. Toda a vida vivi intensamente, cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje - já calejado da vida - me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, o volume dos seios e a carne dos lábios, de olhos fechados.
 
Eurico rodou o banco, de lona verde escura, ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele - com a ponta do meu indicador - e lhe medisse a profundidade.
Quanto mais profunda, mais longa era.
 
- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir, para além de ti e de um vazio que nunca poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal, sempre que na demora da ausência, recordares uma mulher e - de olhos fechados - lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não amar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.
 
Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.
 
- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.
 
Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:
 
- Deve ser ali o lugar para onde vão, para o sítio onde o sol se põe. Com a pressa de chegar, nem reparam como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!
 



Há quem por ti passe tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.

Rita

Que nunca nos falte a coragem para sermos felizes

 

 

Que nunca nos falte a coragem de sorrir, a coragem de chorar de alegria, a coragem de lutar e a coragem de viver.
Que nunca nos faltemos a nós, nem àqueles que mais importam, que nunca faltemos aos nossos sonhos nem percamos de vista a estrada. Que nunca nos deixemos ficar na segurança de não arriscar, por mais que o risco nos faça tremer. Que o medo seja sempre superado pela certeza de querer alcançar, ou pelo menos querer tentar.
Que nunca nos faltem razões para sorrir, amigos com que partilhar, pessoas a quem amar, lugares onde possamos ser felizes.
Que nunca faltemos ao presente, nem deixemos de a ele nos entregar, por mais que o passado nos deixe na sombra o coração. Porque coração não nos falta, nós é que lhe faltamos demais.
Que nunca deixemos de abraçar, mas que o abraço também não nos falte, que nunca fechemos a porta depois de ter saído alguém. Mantenhamo-la entreaberta, alguém a saberá atravessar.
Que nunca percamos um beijo por ter medo de amar, um olhar por ter medo de gostar, um qualquer momento por ter medo de viver. Mas que nunca os tenhamos demais, por medo de estarmos sós, ou por querer preencher vazios.
Que não sejam apenas os momentos a fazer-nos felizes, mas que nos possamos assim sentir em todos eles. Que nunca deixemos de nos amar por aos outros tudo dar, que nunca deixemos de receber por nos querermos esconder, que nunca no passado nos deixemos ficar, se é no presente que tudo se pode mudar.
Que nunca percamos a coragem de gostar e de o dizer, de desculpar os outros, nos desculparmos a nós e de pedir desculpa. Que nunca guardemos palavras, sentimentos e emoções por medode chorar. Que mais nos assuste não sorrir do que qualquer lágrima que possa cair.
Que sejemos sempre fortes o suficiente, que acreditemos sempre em nós, que sejemos a nossa espada e a nossa armadura, o nosso mapa e o nosso tempo. Que sejemos o que somos, em tudo e para todos.
Sobretudo, que nunca sejemos nós os responsáveis por não nos erguer, nem de no mesmo sítio continuar.
Porque a vida é um nada tão curto. Sendo que o que hoje pode ser feito, amanhã poderá já não ser.
Então, tenhamos sempre presente:
Que nunca nos falte a coragem para sermos FELIZES!

Uma viagem ao mundo de Lara

 

 

 

Livros, cadernos, blocos de notas, frases soltas em post-it, poemas, canetas, postais, recortes de jornal, páginas de revistas e fotografias – tudo espalhado num círculo à sua volta. Para lá da linha fronteiriça, um vazio interminável. Tão cheio de nada que, tudo quanto pudesse chegar, não teria espaço para se fixar – o nada é um território demasiado denso, que ocupa um espaço excessivamente grande - assim sentia aquele lugar.

 

- Lara, que desarrumação vem a ser esta?
- É a minha mente, mãe. Inquietações minhas.

 

A extensão do cosmos era, aos olhos de Lara, tão metricamente exatata, quanto o seu distanciamento às mentes mais comuns. Imensurável.
O seu apetite por cultura, lugares, gentes, aprendizagens, conversas construtivas e observações atentas e detalhadas sobre comportamentos humanos e sociais, era voraz. Nunca um prato cheio lhe era suficiente.
Necessidade primária, em tudo idêntica à ingestão de um doce após um salgado. Surgindo, após o doce, um novo desejo salgado.Também assim acontecia no cardápio de Lara, onde certa era a presença de um qualquer ingredinte capaz de lhe aguçar, mais avidamente, a gula do saber.

Apressada, mas nem sempre desajeitada, percorria caminhos, por utopias anteriormente pisados. Neles, segundo ela, sempre que avançava dois passos, também o horizonte se distanciava dois passos, obrigando-a a nunca terminar a jornada. Gostava particularmente desses jogos, sem vencedores nem vencidos, onde todos se intitulavam piões aprendizes.

Por vezes, incompleta, detinha-se diante do espelho, atenta ao seu reflexo. Olhar para si, era como abrir a janela para um mundo diferente todos os dias. Novos espaços para conhecer, outros praticamente esquecidos, ruas cheias, outras vazias e um livro branco a um canto, com tanto por escrever…
Feita de frases simples, mas nem sempre de fácil interpretação, assim se sabia ela.
Aprendia mais consigo, do que com muitas das histórias – de formas humanas - com quem se cruzava. Mergulhada numa introspeção contínua, analisava capítulos de leitura imprecisa e sentia palavras, soberba e apaixonadamente, como jamais alguém a poderia vir a sentir a ela. 

- Já estás outra vez de roda do espelho?
- Um espelho reflete bem mais do que aquilo que nele vês– respondia.
 As pessoas só atentam na superficialidade da imagem refletida. Na cor, no tamanho, nos pormenores  externos. Não é por acaso que o espelho tem uma conotação física e narcisista, mãe. E o conteúdo da imagem? Também ele é refletido, embora nem todos estejam aptos a vê-lo. Talvez, porque nos seja  necessário mais do que apenas os olhos para ver, na sua pureza nua, a totalidade de uma imagem.

- Lá estás tu e as tuas divagações. Era melhor que fizesses pela vida, ao invés de perderes horas embrenhada  em filosofias que a lugar nenhum te levam.
- O melhor lugar onde posso chegar é ao coração das pessoas.

Reflexões - 8

Sempre tive a sensação que só vivi, realmente, aquilo que senti ou me foi permitido sentir. Aquilo que em mim ficou gravado e se expressa, ou expressou, através de emoções. Tudo o mais, foi apenas um nada que por mim passou.

        Rita

 

E a vida é mesmo isso, um conjunto de acasos, situações e ocorrências, de momentos e experiências em nós expressos e impressos através de emoções. Tudo o mais, é nada. É apenas o tempo que passa. 

O regresso de um estranho

 

 

 

Para trás deixava metade de uma vida e - de mãos a abanar e passo leve - seguia adiante pela estrada de terra batida.
O sol subia apressadamente à sua frente, iluminando-lhe o rosto gasto e cansado, sem cor de gente. Um Zé Ninguém - assim se autointitulava.
Num esforço desmedido, evitava olhar para trás. Não queria deixar memórias, tão pouco fazer-se acompanhar das mais recentes. Os antolhos mentais auxiliavam-no a limitar da visão lateral, forçando-o a olhar apenas em frente, sem correr o risco de se deixar levar por distrações ou tentações fáceis.

 

Com sonhos no horizonte, seguia o Zé, noite e dia por caminho instável, umas vezes seco outras tantas lamacento, assim como os seus olhos. Mas sempre certo de que todo o esforço e sacrifício valeriam a pena no final.
"Afinal de contas, um caminho sem obstáculos nunca nos levou a lugar algum. E que outras funções existem num obstáculo, que não sejam fazer-nos parar de fronte ou levar-nos a querer ultrapassá-lo?"

 

Ninguém o vira partir, tal como ninguém o iria ver regressar sete anos mais tarde, àquele lugar. 
A mesma estrada de terra batida trazia Zé - agora Alguém - de visita. O mesmo passo leve, uma mão a abanar e uma criança pela outra.

“Benvindo às tuas origens.”

 

À entrada, o café do Adérito continuava igual. A garrafa de cerveja continuava em cima da segunda mesa a contar da direita, acompanhada do pires com meia dúzia de tremoços que as mãos do Chico da Parra - castanhas da terra – depenicavam.
Meia volta dada e à porta da igreja as mesmas vestes de domingo, aprumadas, os lenços a cobrir os cabelos presos em monhos e 6 beatas à espera que o sino batesse as onze para que se desse início à missa.
À esquina da rua, o senhor João ainda passeava o cão, o Esteves continuava sentado no banco a ler o jornal do dia anterior, a dona Deonilde estendia as meias do marido e a pequena Leonor rodava o seu vestido azul de folhos dançantes.

 

Zé - agora Alguém - com a criança pela mão, regressado fazia duas horas, continuava a percorrer a vila com os passos que a memória não desaprendera.
Pararam na tabacaria do Matias, ouviram parte do relato do jogo do clube da vila e Zé - agora Alguém - contou as mesmas 16 laranjas que pendiam da farta laranjeira do quintal da tia Maria. Tropeçou no mesmo degrau onde, durante a sua infância, tropeçava sempre que corria pelo pátio da escola. E desviando a cabeça lentamente para a esquerda, baixou o olhar na direção da criança que o acompanhava, verificando que também ela se havia ferido no joelho - tal como lhe era frequente acontecer a ele, em tempo idos.
Dirigiu-se a casa, mas não a encontrou. Seis ruas todas idênticas com casas de ambos os lados, todas elas iguais. Uma lágrima e as duas mãos a abanar. 

“Onde é que tu vais? Anda cá. Não saias de perto de mim.”
A criança dirigia-se à terceira rua - a correr - parando à porta do número 6. 

“A nossa casa é aqui.”
Imaginou o cheiro a café e o som do piano por ele próprio dedilhado. As túlipas ainda lá estavam - alguém as regava durante a sua ausência prolongada, pensou - e o baloiço também. Sentou-se com a criança no colo e deu balanço. Demorou-se nele cerca de meia hora, que nem deu por passar.

"Ainda fazes boas viagens, companheiro!"

 

Passou pelo largo central onde, outrora, se situava a sua livraria. A porta aberta prendeu-lhe a atenção e espreitou. O cheiro dos livros ainda permanecia intacto convidando-os a entrar. Sentaram-se no chão diante da única estante que restava. Com sonhos no horizonte, ela ali continuava e ele - ainda Zé Ninguém - também  naquele espaço se encontrava.

 

Porém, ninguém o reconhecera. Nem o Adérito, nem o Chico, tão pouco o senhor João ou o Esteves, a dona Deonilde, a pequena Leonor e o Matias. A tia Maria, coitada, já não via. E ele ali estava, de mão dada consigo próprio sete anos depois. Trouxera-se criança no regresso para melhor recordar a vila. Aos seus olhos nada mudara, excepto ele, o mesmo Zé - outrora Ninguém e agora Alguém - estranho para toda a gente.

 

Diante da estante de sonhos, retirou da segunda prateleira o quarto livro a contar da esquerda. Abriu-o na página vinte e oito e leu:

Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui.

Fernando Pessoa

Saudades sei lá de quê

 

 

Anoitecia e no silêncio ouvia-te os passos. Chegavas tantas vezes depois do sol se pôr, quando já ia alta a lua no céu.
Chegavas e aqui ficavas de um lado para o outro, entrando e saindo de cada divisão, como se quisesses preencher toda a casa. E eu, muda, ouvia-te os passos sentindo-os em silêncio.
Atravessavas a noite e acordavas-me, por vezes, a meio de um sonho pedindo-me para nele entrar, quando na verdade, dele já nem saias mesmo depois de amanhecer.
Anoitecia, e em silêncio ouvi-te percorrer em passos mudos o soalho deste espaço. E aqui ficavas, apertando-me em surdina.
Hoje anoiteceu, janelas fechadas, coração trancado, por isso bateste-me à porta.
Abri e deixei-te novamente entrar. Sim a ti. O teu nome? Saudade... de tudo aquilo que ainda tenho por viver.

O livro do tempo

 

Do presente, não conhecia mais do que o momento exato. Nem uma hora para trás, nem cinco minutos adiante. Vivia entre o agarrar tremulamente o copo de água, o espaço que o separava dos lábios e entre a demora do vazio, desse mesmo copo, a ecoar novamente na bancada. 

Persistia nos vinte passos arrastados que o separavam do sofá onde o seu corpo, vago, caía e se deixava ficar. Diante dele, ocupando todo e qualquer espaço vazio, o presente.
A incapacidade de acompanhar o tempo, havia ao longo dos últimos anos, imposto uma longa distância entre Domingos e o filho, sentado um metro à sua esquerda.

«Ontem a tua mãe estava muito bonita. Mas hoje ainda não a vi. Que será dela?»

Madalena morrera durante o parto, quarenta anos antes; Duarte não chegara a conhecer a mãe.

«Ó pai, lá está você, a mãe já não se encontra entre nós.»

«Disparates. Só dizes disparates. Pensei eu que te fazias um homem, continuas igual. És tu e o Tó Zé do Edgar, ainda a semana passada lá estive na tasca, só disparates, um cachopo daqueles filho de boa gente. E tu vais pelo mesmo caminho.»

Tó Zé tinha agora 58 anos. E Domingos 83 a avaliar pelas muitas histórias contadas pelas rugas das suas mãos. Noutros tempos, era certo, quando a destreza era outra. Agora, já nem história tinha. Vivia a uma distância de 40 anos dos vinte passos arrastados que o separavam da realidade.
Estendeu lentamente o braço e concentrou-se na abertura dos dedos da mão. Agarrou no livro pousado na pequena mesa de apoio, à sua direita, e levou-o até si. Exatamente até si - escrito pelo filho Duarte, mal Domingos sabia que a história nele contada era também a sua.

«Gosta do livro pai?»

«Tem bom ar. Eu é que não tenho aqui os meus óculos, para ler qualquer coisinha.»

Aos olhos de Domingos, com ou sem a precisão das lentes, as letras nada mais eram do que aglomerados de linhas em páginas, todas elas iguais, sem sentido algum - assim lhe pesavam os dias. 

 

“E sem conhecer as histórias que o livro contava, voltou a esticar o braço, a concentrar-se na abertura dos dedos da mão e a pousá-lo na mesa de apoio, à sua direita.
Também o presente havia por ele sido deixado num qualquer recanto da sala, que julgo não saber precisar e que tão pouco voltará a viver." - Findos, o livro e mais um serão de domingo. 

 

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