Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

02
Nov17

À proa

Rita PN


Nasço eu, p’los teus braços, amanhã.
Estratosférica e profunda,
breve e oriunda de sonhos crescentes
(como a lua, esta noite).
Fóssil de mim, ajusto os ossos,
(a mais dura parte de quem sou)
à saudade.
Baixa mar de um rio que rasgou as margens
da impossibilidade, ao nascer.
Para os lados da foz, vazante, não lhe conheço caminho
e a jusante de mim, só o teu desaguar
no lago do jardim que me dá de beber
ao coração.
Tu entraste antes de mim nas flores que ficarão
com as lembranças,
quando a névoa cerrar o caminho
e a tua mão deslizar sobre o pensamento,
colhendo o que de nós brotou:

 

Arte livre, inocente e múltipla,
na proa erguendo o amor.

 

16
Out17

Morro-te

Rita PN

Morro-te. Não te cumpri.
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas,
me desviaram de ti.

 

Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento
que viste partir.

 

Morremos. Não nos cumprimos.
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar.
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

... Meu amor!

23
Set17

Um alfaiate não cose vidas

Rita PN

2-marioferreiradasilva32_lisboa-07-07-1972.jpg

 


Dormíamos a maior parte das vezes no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos o que mais parecido havia com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de algum animal durante o período de tempo que durava o destacamento.

Embarquei em Portugal em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete com trinta mil toneladas de peso e capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era, também, parte integrante do nosso equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número e o nome do soldado e o seu tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a aquela a quem chamávamos a Fiel Companheira de Mato, a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, uma arma de grande porte a quem os guerrilheiros ganharam um grande respeito.

Durante as patrulhas as principais funções eram de reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou em linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão. Podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse espaço de tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos por escassos minutos para comer qualquer coisa ou para aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha muitas vezes a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?
(Voltemos ao cais...) 
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

19
Set17

De amor se fez

Rita PN

Aproxima-te, de mansinho.
Suave e devagarinho.
Descontraidamente, como quem mente
ao silêncio que me consome
a alma nua.
Desfolhada que a vida me fez...
rosada a tez (pétalas de saudade),
que um dia vã se fez, na incerteza da hora.

 

Aproxima-te, de mansinho.
Traz o dia. E o sol. E as manhãs risonhas.
E o chilrear das aves lá fora. E o som do mundo.
A junção de todas as notas da vida a bater na vidraça.
Aproxima-te, devagarinho
para que eu não te veja chegar
e ocupar o lugar do silêncio
que ainda dorme no meu leito
e me deixa ao acordar.

 

Suave e de mansinho.
Devagar, devagarinho...
Para que o soalho de sonhos não ranja
e constranja - sem querer -
as notas soltas do choro da criança
que é o amor ao nascer.

 

31
Mai17

Lugares sem nome

Rita PN

Há um lugar sem nome

onde moramos, reféns

de um cognome que substitui

lugares antigos e que dilui, em si

e no tempo, as cores e os sabores

de uma identidade vivida

em fotografias antigas,

agora esquecidas, entre o pó

de objectos sem cheiro de amor.

Por temor de recuar no tempo

e voltar a bater à nossa própria porta

… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome

a viver entre flashes

presos por um fio de redes

sociais e memórias instantâneas,

que depressa se esvai

p’lo buraco negro da solidão

que consome o sofá noturno.

Perdemos momentos,

ocultamos sentimentos,

desatentos à grandiosidade

do pequeno, à riqueza do detalhe

e à pureza do enamoramento da vida

que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,

rodamos a chave,

abrimos a porta,

mas não estamos lá…

 

Em nós, são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

24
Mai17

Vida

Rita PN

18527439_10208941900481652_6382551353028420641_o.j

 


Éramos, talvez crianças, sempre que as mãos se entrelaçavam e sorriam - as minhas - ao largo dos teus caracóis.
Éramos, talvez a esperança, quando o olhar se cruzava e os teus olhos me inundavam de verde mar.
Éramos, talvez rebuçados, sempre que os lábios se encontravam, na curva dos beijos roubados, ao sol poente.
Éramos, talvez a corrida, sempre que soava a partida e me acompanhavas o rosto à janela.
Éramos, talvez o amor, de mãos dadas a correr, em direção à loja das guloseimas.
Éramos, talvez a vida, que só é sentida quando damos as mãos.

12
Mai17

Nas letras dos meus sonhos

Rita PN

 Hoje levo-vos novamente ao baú. Recuemos aos meus 15 anos... Sonhar, sonhar, Sonhar!

Não sei porque escrevo,

porque sonho as letras,
porque canto as vírgulas,
ou porque ondulo nas frases
sem nunca chegar a um ponto.
Não sei porque vivo um texto,
nem porque desejo um conto
que nunca começa nos Às,
tão pouco termina nos Zês.
Não. Não quero parar!
Quero continuar a saltar
barreiras de capítulos;
escalar páginas sem cume,
remar ao sabor das sílabas
que ardem no meio do lume.
Quero partir das reticências,
sem nunca alcançar os dois pontos.
Trepar interrogações,
abraçar as exclamações…
e sem perder o ritmo,
escrever milhares de contos.

 

Quero casar com os nomes,
e ser íntima dos verbos,
quero namorar os pronomes
e fazer dos determinantes meus servos.
Quero ser chefe de imprensa
e quero, para sempre, sucumbir ao Poeta.
Quero uma prosa imensa,
não quero um ponto na meta!

 

Já li toda a Epopeia
e escreverei duas ou três,
sem perder a consciência
que no meu sonho de menina
era tudo "Uma Vez"!

02
Mai17

Bonecas de corda

Rita PN

 

 

1-8.jpg

 

Naquela manhã todos se pareciam com bonecas de corda. Bem vestidos, cara lavada, cabelo escovado e alinhado, focados e rodopiando sem desvios, em torno das suas vidas. E nós aplaudíamos, levados pela melodia das histórias feitas, ensaiadas e tão poucas vezes dançadas ao ar livre.
Vinte minutos era o espaço de tempo decorrido entre o puxar da corda e a vénia final. Na verdade, cada um dos oradores presentes resumia-se isso, vinte minutos. E o que é um orador de histórias contratadas senão apenas o tempo que demora a passar? Não nasceu antes, nem morrerá depois. Foi ali criado, aliciado pela moda de debitar palavras emotivas. Sinceramente não as entendo. Às palavras. Não aos oradores, que esses são de corda como as bonecas, vestem a dança e morrem no instante em que corda finda. Nem antes, nem depois. Exatamente ali.
No meu tempo enforcavam-se, com palavras é certo. Não sei se será a mesma coisa - corda por corda - mas julgo que sim.

Voltando às palavras, dizia eu que não as entendo. Deram em emotivas? Essas modas que agora seguem. Ali estão enquanto servem, usadas e abusadas por quem escreve e lê e por quem fala e ouve. Depois, cai a moda e abrem-se valas comuns, onde se enterram as ditas, já desgastadas. Mas tal como é costume nas boas modas, logo estarão outras de volta, aquelas que já anteriormente haviam sido usadas e que mais adiante voltarão novamente sê-lo.

 

Das modas e das palavras já sabe que vão e vêm.

 

Fazem-me lembrar os namoros de hoje em dia. Já eu o disse à minha neta. Correm, correm, correm que se farta. Estão sempre cheios de pressa. Para chegar aonde é que eu ainda não percebi. Todos se parecem perder pelo caminho. Quando voltam, já trazem outro pelo braço. Ainda a semana passada lhe perguntei se era ruim o piso do caminho de agora. Tão coxos que os vejo do coração. É no que dão as pressas.
Namorados e oradores são todos bonecas de corda. Bem ensaiadas. Em vinte minutos. Que é o tempo que eu tenho até morrer.

 

Derramem-me o castanho da capa de um livro por cima, deixem-no inundar a manta com que à noite me tapo e permitam-me cheirar a terra fértil molhada, mas não me fechem já o caixão! Ainda não, que ainda quero a última dança. O meu palco final é castanho e a vida só dura vinte minutos.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Direitos de Autor

© Todos os Direito de Autor e Direitos Conexos (CDADC), reservados nos termos da Lei nº 63/85, de 14 de Março, com as alterações introduzidas pelas Leis n.ºs 45/85, de 17 de Setembro, 114/91 de 3 de Setembro, pelos Decretos-Leis nºs. 332/97 e 334/97, ambos de 27 de Novembro, e pelas Leis nºs 50/2004, de 24 de Agosto, 24/2006, de 30 de Junho e 16/2008, de 1 de Abril. Por querer ver respeitada e protegida a sua criação intelctual neste espaço, a autora solicita que não seja feita utilização indevida do contúdo do blog sem a sua autorização prévia. Por consequência, sempre que exista partilha de texto(s) e/ou excertos do(s) mesmo(s), deverá ser mantido o seu formato original e ser, obrigatoriamente, mencionada a autoria do(s) mesmo(s). Disfrutem.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D