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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Plenitude

Quero o silêncio.
Só.
A ausência plena de tudo:
do tempo e das demoras,
das angústias e das auroras,
das paredes de murmúrios pulsantes,
dos tropeços e começos,
dos encontros enviosantes
e desconcertantes memórias,
das alegorias de bandeja,
e da frívola sombra
que sobeja de mim.

 

Quero o silêncio
Só.
das palavras mudas,
da respiração suspensa,
da pulsação que não sinto
e do grito em que minto o meu nome.
Quero o silêncio.
Só.
O completo mutismo da quietação,
a ataraxia do coração
e a tua solidão por companhia.

 

Plenitude:
Para te amar, não preciso de nada além do silêncio.

 

Os Loucos Escrevem

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como os ombros, carregando os anos 
e a fome das respostas
que os romancistas prometeram,
e que não acontecem, tal como a vida.
Páginas cansadas de gente
que nelas está sem existir;
histórias contadas sem acontecer,
entre frases narradas e não proferidas,
escritas para agradar ao nascer, com prazer, 
ao mais solitário dos corações vagabundos
por aí...

De que adianta fazer perguntas a um estranho,
quando o mundo dos poetas não é palpável? 
Utopias cíclicas, encadeadas e indissociáveis 
do sistema solar onde lhes orbita a loucura.
Na verdade, nem a Via Láctea lhes chega! 
É-lhes mais que preciso o buraco negro
para onde se arrastam, 
sugados pela força centrífuga do devorador de sonhos; 
estes loucos que escrevem...

 

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como um romance, quando finda
e o coração descai
no verso de uma vida que termina
e se esvai... na leve pena de um poema.

130 Anos de Fernando Pessoa

Há 130 anos, a 13 de Junho de 1888, nascia um dos maiores nomes da literatura portuguesa, o icónico Fernando Pessoa. Um mestre, muito para além do seu tempo, alguém que tudo descobriu antes de nós.

 

 A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver. 
No baile de máscaras que vivemos, basta-nos o agrado do traje, que no baile é tudo. Somos servos das luzes e das cores, vamos na dança como na verdade, nem há para nós - salvo, se desertos, não dançamos - conhecimento do grande frio do alto da noite externa, do corpo mortal por baixo dos trapos que lhe sobrevivem, de tudo quanto, a sós julgamos que é essencialmente nós, mas afinal não é senão a paródia íntima da verdade do que nos supomos.

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

Reflectindo sobre (A)normalidade

Aquilo que mais receio no mundo é a normalidade. Dentro dela não existe progresso. Nada é mais perigoso do que a benevolência e anuência de uma sociedade, perante factos, comportamentos, acções e acontecimentos entidos e tidos como normais, num decurso transgressor e imoral da História (de um país, de um clube, de um partido, de uma instituição ou organização,...).
A normalidade não incomoda, sendo esse o motivo pelo qual a mesma se aceita e institui.

Poema a dois

Antigamente eu era eterno,
não cedia a este frio que me escalda os ossos
imperfeitos. O mundo ardia e eu fingia, que não via.
Saía, de manhã, e o dia estava sempre bonito 
como tu, à janela da verdade!
E eu sorria ao tempo nunca perdido e celebrava a virgindade de todas as coisas,
como brisa nas árvores... liberdade arrebatadora de uma alma exaltada.
Hoje, bebo whisky a goles sorvidos a compasso
por memórias salobras inscritas no meu peito sedento;
sei de cor os depois depois de todos os depois...
E os agora? Diz-me! O que é feito dos agora se depois...
se depois do agora me vou e findo?

 

Antigamente eu era eterno.


Rita Palma e Gonçalo Martins

Quando uma Guitarra se Cala

Porque hoje é, foi e sempre será o teu dia, avô! ♥

 

Quando eu era pequenina
e me sentava a ouvir-te tocar,
sonhava em ter as tuas mãos,
esse ágil dedilhar.

 

Acordes de uma vida,
notas tantas vezes tocadas...
melodias gastas, outras sentidas,
cordas com alma se p'los teus dedos pisadas.

 

Corria-te o Fado nas veias
e era tua a guitarra
que, por paixão, acompanhava
vozes ainda sem nome.
(Pudesses tu nesse tempo prever,
que por elas o Coliseu esgotava).

 

E enquanto essas vozes se elevam,
a tua guitarra nunca mais se ouviu.
Ficou a carcaça do Fado,
e a alma? Essa partiu.

 

A alegria de tantas notas,
os acordes com que cresci,
mais ninguém os sabe tocar
e eu nunca mais os ouvi...

 

As cordas envelheceram.
A guitarra já não toca.
O avô não está em casa.
E o Fado é só Saudade.
(Esse é o fado que trago).
Os anos passam
e eu já não sou pequena...
nem me sento a ouvir-te tocar.
Não porque grande esteja,
mas porque és tu quem já não está
para com o teu mágico dedilhar
me fazer sorrir e sonhar...

 

Não me seduzem os já velhos e hipnóticos cantares de sereia

Nunca a superfície do real me cativou. Ostentação, poder, riqueza, plateias, elites ou interesses de ordens diversas. Antes, sou atraída pelo que diáriamente construímos e alimentamos em nós, nos outros, mais dentro, em lugares mais profundos onde a vista não alcança. Laços. São eles que me atam ao que sou e me enlaçam ao que são (os demais, entenda-se). Lealdade, amor, fraternidade, confiança, amizade, solidariedade, tolerância, partilha e procura de tudo o que só esse caminho nos oferece.
Bem sei que a superfície nos chama. Mas ensurdeço para o mundo sempre que a realidade é rasa.
O silêncio, esse, profundamente me envolve e completa. E e lá que tudo o que profundamente se sente existe, realmente.


Não me seduzem os já velhos e hipnóticos cantares de sereia.

A Falsa Felicidade nas Redes Sociais

UM DESABAFO... 

 

 

“Vivemos numa espécie de toxicodepêndencia digital”, quem o diz é o Professor e Psicólogo Eduardo Sá.

 

Sucessivamente agarrados às redes sociais, o smartphone tornou-se para nós um refúgio, evitando o diálogo e permitindo o auto isolamento na presença de terceiros. Construímos relações que não dependem do contacto pessoal e directo, da aproximação física, da partilha em tempo real do mesmo espaço, conversa, emoções, realidade envolvente, mas sim de uma conexão virtual. Lógicamente, a possibilidade da criação destes vínculos online permite-nos estar em contacto com um sem número de pessoas, contudo, e para que tal seja possível, é –nos necessário o isolamento. Só dessa forma nos é possível estar presentes nas diversas redes sociais e ligarmo-nos aos demais. Este fenómeno de nova solidão social tem vindo a instituir no seio da sociedade uma clara dificuldade no exercício do diálogo frente a frente, assim como no desenvolvimento saudável das relações humanas, sejam elas familiares, sociais, emocionais ou profissionais.

 

Paradoxalmente, dispomos hoje em dia de um conjunto de ferramentas diversas que nos ajudam a comunicar, mas que nem sempre nos ensinam a ser mais comunicativos. Vivemos no seio da “sociedade da comunicação”, mas cada vez mais nos viramos para nós próprios.

 

Em linha, nos últimos anos, tornámo-nos especialistas em descrever a nossa existência através de imagens (os pés na areia ou à lareira, as bebidas à beira da piscina, as festas de sábado à noite, os jantares, os almoços, os pequenos-almoços, a roupa, as férias, as viagens…)
Sem nos darmos conta, o nosso quotidiano viu-se inundado de “falsas felicidades” sustentadas por fotografias, tantas vezes capturadas e pensadas para o efeito.

 

O “estar bem” deixou de ser um caminho pessoal para se tornar uma imposição social. Mostrá-la, à felicidade, é uma exigência que colocamos a nós próprios e que, por consequência, projectamos para os demais, apenas aceitando quem dela partilha. As fragilidades do ser humano deixaram de ter lugar, assim como a consciência de que somos falíveis, que erramos, que choramos, que sofremos, que passamos por dificuldades num ou noutro momento, que a tristeza é tão válida quanto a alegria, que não acordamos nem adormecemos perfeitos, tão pouco 100% realizados e sem quaisquer problemas na vida.
E é esta "falsa felicidade" que tantas vezes cria, em quem assiste, um sentimento de inadaptação ao meio, frustração por não conseguir atingir determinados patamares de plenitude, objectivos que parecem tão fáceis de serem alcançados, desânimo por não emanar uma luz que, na verdade, é produzida e não natura, desalento por não se ser tão bem sucedido quanto aqueles que nos são mostrados, um sentimento de culpa pela falta de realização pessoal e por falhar no caminho para a aceitação segundo parâmetros questionáveis.

Na verdade, as imagens que diariamente publicamos não operam, nem trabalham sozinhas a estrada da plenitude. Necessitam de nós. Da nossa validação. Dos nossos “likes”, aplausos, comentários e partilhas que, por educação, nos são retribuídos.

 

“Arrasando” ou “Divando” por aí, num mundo condicionado pela opinião de terceiros, escolhemos mostrar a forma como queremos ser vistos, numa auto-representação quantas vezes exagerada da felecidade que: será que é nossa?
No caso do Instagram, a rede social mais utilizada para a partilha e difusão da imagem, são os próprios quem escolhe a estratégia relacionada com a forma como querem ser. Eu diria parecer. (Creio, entre tanta solicitação que o presente nos estende, não sobrar espaço para reflectir sobre o que se pretende realmente comunicar sobre si próprio). Assim, não rotulemos as redes como produtores gratuitos da “falsa felicidade” quando, na verdade, elas são meros veículos condutores, ou se quisermos, grandes vitrines pensadas para a exibição de modelos diversos.

 

É um facto que existe uma clara necessidade de aparentar ou seguir um determinado estilo de vida, e estado de espírito, e é isso que nos torna produtores e disseminadores da nossa imagem, em locais que nos asseguram o conforto necessário para o podermos ser – as redes.
E quando não produzimos, seguimos.
(Hoje em dia, trabalha-se exaustivamente o exterior e a sua transformação, deixando o interior à mercê da erosão pelo tempo).

Talvez estejamos a viver uma Era da indústria do culto da felicidade, a avaliar pela constante associação de produtos (vários) às fotografias, mostrando-nos como seriamos bem mais felizes se praticássemos o seu consumo. Este é o papel dos influenciadores de tendências, que tantas vezes caem profundamente na necessidade da partilha diária e recorrente desta falsa felicidade, aliada a uma estratégia de imagem. O tal querer parecer.

 

A felicidade são momentos que só geram um determinado estado de plenitude quando vividos realisticamente e desprevenidamente. Nunca quando nos preparamos previamente para eles.

 

Lido por aí: “ A Felicidade não se explica, não é palpável, mas sente-se. Entra e sai, nunca fica. É feita de um material cósmico, uma mistura de pozinhos de perlimpimpim com bocadinhos de arco-íris. Talvez também tenha um pedaço da Lua. Mas não é eterna. Não é total. Não é absoluta.”

 

Em suma e poeticamente falando:

 

Há um lugar sem nome
onde moramos, reféns
de um cognome que substitui
lugares antigos e que dilui, em si
e no tempo, as cores e os sabores
de uma identidade vivida
em fotografias antigas,
agora esquecidas, entre o pó
de objectos sem cheiro de amor.
Por temor de recuar no tempo
e voltar a bater à nossa própria porta
… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome
a viver entre flashes
presos por um fio de redes
sociais e memórias instantâneas,
que depressa se esvai
p’lo buraco negro da solidão
que consome o sofá noturno.
Perdemos momentos,
ocultamos sentimentos,
desatentos à grandiosidade
do pequeno, à riqueza do detalhe
e à pureza do enamoramento da vida
que espreita à janela do coração.
Estendemos a mão,
rodamos a chave,
abrimos a porta,
mas não estamos lá…

Em nós, são tantas as ruas sem nome
que levam os outros a lugar nenhum!

 

Viagem Minha

Abro os braços na extensão da noite,
envolta no silêncio que de mim se inteira.
Ensurdece-me o rasgar de pensamentos
e cega-me, na escuridão, a nitidez de uma imagem

que me arrepia o corpo, ao recordar a viagem

vivida em ti, no suspiro de um momento.

 

Na passividade do céu
gritam em mim os teus contornos,
traços que a nudez da madrugada esculpiu;
E eu começo onde o toque não termina,
na submissão de um instante que culmina
no desejo com que a noite me despiu…
o coração!

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