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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

De amor se fez

Aproxima-te, de mansinho. 
Suave e devagarinho,
descontraidamente, como quem mente
ao silêncio que me consome
a alma nua. 
Desfolhada que a vida me fez...
rosada a tez, pétalas de saudade
que um dia vã se fez, na incerteza da hora.

 

Aproxima-te, de mansinho. 
Traz o dia, o sol e as manhãs risonhas. 
O chilrear das aves lá fora 

e o  som do mundo. 
A junção de todas as notas da vida a bater na vidraça. 
Aproxima-te, devagarinho
para que eu não te veja chegar 
e ocupar o lugar do silêncio 
que ainda dorme no meu leito
e me deixa ao acordar.

 

Suave e de mansinho.
Devagar, devagarinho...
Para que o soalho de sonhos não ranja
e constranja - sem querer - 
as notas soltas do choro da criança
que é o amor ao nascer.

Das frágeis gavetas do coração

A saudade pesa e arrasta-se, como quem carrega pedras nos bolsos do coração, pelos dias feridos e vazios. E a dor fura, sem piedade, o frágil tecido de que sou feita. As lembranças pintam as paredes com os traços do que deixou de ser e eu habito memórias que não existem, para lá da janela que se abre sobre o meu peito. (Onde te debruçavas ao amanhecer).
Visto os farrapos da história que por nós passou… sem me levar ou permitir ficar, lugar meu no teu peito. E sigo cega, pela noite cerrada onde os teus passos ainda me alcançam e abraçam, quando ao menino perdido o sonho retorna e aquece.
Da liberdade das asas dos sonhos, apenas restaram as penas desfeitas onde me deito e descanso, ouvindo a melancolia das flores azuis que me chamam lá fora. Foste tu quem as pintou para mim, entre gestos sábios e sorrisos nos lábios que já não vejo.
Queria regressar ao jardim onde fiquei antes de ti, e reencontrar-me na esquina do lago que me devolve a miragem do que agora sou.
As gaivotas ainda sobrevoam as palmeiras, o mar ainda espreita pela janela feliz, num abraço de lua. E de mim? Só a ausência nesse espaço onde te deixei, já nos abraços de outros braços noturnos…


A saudade passeia entre lágrimas e eu, de amor feita e desfeita, não sei arrumar as gavetas do meu coração.

São tão raras, as pessoas... (em jeito de desabafo)

Em determinados momentos da vida, é-nos fundamental estar aberto a ausências, e ter em consciência que o maior crescimento provém da solidão. Nessas alturas, é-nos necessário um tempo para o desenvolvimento interno, para que possamos habitar a nossa própria mente e, em parte, enlouquecer brevemente, por instantes. 
Não fujamos disso! Todas as mentes marcantes aportam o seu estádio de loucura. 


As pessoas distribuem-se, instantaneamente, pelos mais diversos lugares. Encontramo-las por toda a parte, nos locais mais comuns, mas continuam a ser tão raras quanto as estrelas claras da manhã! Raras para pessoas como eu, que no fim do dia, enquanto o mundo se agita nas suas rotinas e hábitos banais, me recolho na concha e me deixo ficar. Raras para pessoas como eu, que bivalve, me divido entre a sede do que ainda está por inventar e o desejo de me ocultar, confortavelmente, na segurança do infinito que abarco em mim. Raras...

Inusitada e espaçadamente no tempo, passa ligeiro e de perto alguém que me escuta, vê para além e sente comigo. Assim, levemente sem invasão de espaço, ou intensão de que a concha se abra e se mostre nua. Retraio-me, e permaneço em mim, porque são tão raras as pessoas que param e atentam.

(Cansaço de correr… )

Enraizar-me em determinado lugar, por algum tempo, possa esse lugar não ser mais de que um recanto meu, é uma estrada livre para o auto-conhecimento. E o conhecimento, esse, é-me proporcionado pelas formas mais diversas, encontrando-se sempre pronto a ser consumido.

É preciso saber que existem lugares bonitos em nós, onde podemos e devemos sempre parar e descansar. Porque as pessoas estão em qualquer lugar, a todo o momento, cruzando diariamente o nosso caminho e emitindo demasiado ruído...mas são tão raras em mim… e para mim.

É preciso estar aberto a ausências e saber sê-las.

 

 

(Em jeito de desabafo, porque os pensamentos são mais claros, leves, vagarosos e profundos pela manhã.)

Não Coube na Vida

(...)
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

 

Um alfaiate não cose vidas.

 

Meu amor pequenino


Sentindo como quem mente,
partiu ou morreu de repente
ainda antes de ser…
Meu amor pequenino,
semente no meu caminho,
que não chegou a nascer.

 

Tormentos foram, de te imaginar
perfeitinho e devagar,
na insegurança das horas claras…
nos meus olhos, e por meus braços
de afecto e eternos laços,
embalado ao teu choro primeiro.

 

Quis a vida que não viesses,
botão meu que não se fez flor;
Pardas estrelas que cedo tecem,
minhas dores que entardecem
no solstício do amor.

 

 

Hei-de Levar-te Lá

Tropeçar nas cores do arco-íris
e colher, no céu, pétalas de estrelas.
E das rosas, que são prosas
que habitam o jardim que sou,
beber-lhes as asas...
Com elas, visitaremos os astros
e pousaremos, amantes, na paixão da lua cheia.

 

Hei-de levar-te lá,
à tela branca e simples,
para que me pintes assim...
sempre que a janela se abrir, leve
sobre os recantos de mim.
Hei-de mostrar-te os barcos na bruma
e o amor que, sem pressa, navega
na ilusão breve das cores
das asas das borboletas.
Hei-de abraçar-te,
na rua onde te habitam os sonhos
e hei-de encontrar-te,
na esquina do acaso da ternura
sem urgência.
É lá, que ao tempo decai a premência
e os dias se abrem como camélias sem estação...
à medida do que somos:

 

Cartas de afeição que o vento leva...
sem resposta,
do meu ao teu coração.

 

A Minha Saudade

A minha saudade veste fato,
agitado por estro profundo.
Ávida do mundo, prende-me
como num livro de folhas impossíveis,
que se abre para dentro
sobre ideias complexas
e palavras desconexas
de um poeta… homem sozinho.

A minha saudade veste sonhos
e encantos tantos… de menino;
Calça outros quereres e ambições,
marca o compasso, faz o caminho.

A minha saudade inquieta,
à noite, de solidão trajada,
duramente e sem entrega,
por coração que não sossega,
trás a alma desolada.

A minha saudade tem rosto,
passos largos e o amanhã na voz.
Castanhos enredos, que por entre os dedos
me encontram e restituem à foz.

A minha saudade tem nome

que se bebe sábio, entre os lábios idos...
e trás poesia no bolso,
d'amor sentido, sem nele estar...
A minha saudade é desgosto
de um sonho vivido e por inventar.

Agora, Apodrecer


Agora, apodrecer.
Nas ruas, no suor das mãos amigas dos amigos, na pele dos espelhos...
desespero sorrido, carne de sonho público, montras enfeitadas de olhos...

 

...mas apodrecer.

 

Bolor a fingir de lua, árvores esquecidas do princípio do mundo...
"como estás, estás bem?", o telefone não toca! devorador de astros...

 

... mas apodrecer.

 

Sim, apodrecer
de pé e mecânico,
a rolar pelo mundo
nesta bola de vidro,
já sem olhos para aguçar peitos
e o sol a nascer todos os dias
no emprego burocrático de dar razão aos relògios,
cada vez mais necessários para as certidões da morte exata,

 

Sim, apodrecer ...

 

"...as mãos, a còlera, o frio, as pálpebras, o cabelo
a morte, as bandeiras, as lágrimas, a república, o sexo...

 

... mas apodrecer!

Sujar estrelas.

 

José Gomes Ferreira