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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Que nunca nos falte a coragem para sermos felizes

 

 

Que nunca nos falte a coragem de sorrir, a coragem de chorar de alegria, a coragem de lutar e a coragem de viver.
Que nunca nos faltemos a nós, nem àqueles que mais importam, que nunca faltemos aos nossos sonhos nem percamos de vista a estrada. Que nunca nos deixemos ficar na segurança de não arriscar, por mais que o risco nos faça tremer. Que o medo seja sempre superado pela certeza de querer alcançar, ou pelo menos querer tentar.
Que nunca nos faltem razões para sorrir, amigos com que partilhar, pessoas a quem amar, lugares onde possamos ser felizes.
Que nunca faltemos ao presente, nem deixemos de a ele nos entregar, por mais que o passado nos deixe na sombra o coração. Porque coração não nos falta, nós é que lhe faltamos demais.
Que nunca deixemos de abraçar, mas que o abraço também não nos falte, que nunca fechemos a porta depois de ter saído alguém. Mantenhamo-la entreaberta, alguém a saberá atravessar.
Que nunca percamos um beijo por ter medo de amar, um olhar por ter medo de gostar, um qualquer momento por ter medo de viver. Mas que nunca os tenhamos demais, por medo de estarmos sós, ou por querer preencher vazios.
Que não sejam apenas os momentos a fazer-nos felizes, mas que nos possamos assim sentir em todos eles. Que nunca deixemos de nos amar por aos outros tudo dar, que nunca deixemos de receber por nos querermos esconder, que nunca no passado nos deixemos ficar, se é no presente que tudo se pode mudar.
Que nunca percamos a coragem de gostar e de o dizer, de desculpar os outros, nos desculparmos a nós e de pedir desculpa. Que nunca guardemos palavras, sentimentos e emoções por medode chorar. Que mais nos assuste não sorrir do que qualquer lágrima que possa cair.
Que sejemos sempre fortes o suficiente, que acreditemos sempre em nós, que sejemos a nossa espada e a nossa armadura, o nosso mapa e o nosso tempo. Que sejemos o que somos, em tudo e para todos.
Sobretudo, que nunca sejemos nós os responsáveis por não nos erguer, nem de no mesmo sítio continuar.
Porque a vida é um nada tão curto. Sendo que o que hoje pode ser feito, amanhã poderá já não ser.
Então, tenhamos sempre presente:
Que nunca nos falte a coragem para sermos FELIZES!

Uma viagem ao mundo de Lara

 

 

 

Livros, cadernos, blocos de notas, frases soltas em post-it, poemas, canetas, postais, recortes de jornal, páginas de revistas e fotografias – tudo espalhado num círculo à sua volta. Para lá da linha fronteiriça, um vazio interminável. Tão cheio de nada que, tudo quanto pudesse chegar, não teria espaço para se fixar – o nada é um território demasiado denso, que ocupa um espaço excessivamente grande - assim sentia aquele lugar.

 

- Lara, que desarrumação vem a ser esta?
- É a minha mente, mãe. Inquietações minhas.

 

A extensão do cosmos era, aos olhos de Lara, tão metricamente exatata, quanto o seu distanciamento às mentes mais comuns. Imensurável.
O seu apetite por cultura, lugares, gentes, aprendizagens, conversas construtivas e observações atentas e detalhadas sobre comportamentos humanos e sociais, era voraz. Nunca um prato cheio lhe era suficiente.
Necessidade primária, em tudo idêntica à ingestão de um doce após um salgado. Surgindo, após o doce, um novo desejo salgado.Também assim acontecia no cardápio de Lara, onde certa era a presença de um qualquer ingredinte capaz de lhe aguçar, mais avidamente, a gula do saber.

Apressada, mas nem sempre desajeitada, percorria caminhos, por utopias anteriormente pisados. Neles, segundo ela, sempre que avançava dois passos, também o horizonte se distanciava dois passos, obrigando-a a nunca terminar a jornada. Gostava particularmente desses jogos, sem vencedores nem vencidos, onde todos se intitulavam piões aprendizes.

Por vezes, incompleta, detinha-se diante do espelho, atenta ao seu reflexo. Olhar para si, era como abrir a janela para um mundo diferente todos os dias. Novos espaços para conhecer, outros praticamente esquecidos, ruas cheias, outras vazias e um livro branco a um canto, com tanto por escrever…
Feita de frases simples, mas nem sempre de fácil interpretação, assim se sabia ela.
Aprendia mais consigo, do que com muitas das histórias – de formas humanas - com quem se cruzava. Mergulhada numa introspeção contínua, analisava capítulos de leitura imprecisa e sentia palavras, soberba e apaixonadamente, como jamais alguém a poderia vir a sentir a ela. 

- Já estás outra vez de roda do espelho?
- Um espelho reflete bem mais do que aquilo que nele vês– respondia.
 As pessoas só atentam na superficialidade da imagem refletida. Na cor, no tamanho, nos pormenores  externos. Não é por acaso que o espelho tem uma conotação física e narcisista, mãe. E o conteúdo da imagem? Também ele é refletido, embora nem todos estejam aptos a vê-lo. Talvez, porque nos seja  necessário mais do que apenas os olhos para ver, na sua pureza nua, a totalidade de uma imagem.

- Lá estás tu e as tuas divagações. Era melhor que fizesses pela vida, ao invés de perderes horas embrenhada  em filosofias que a lugar nenhum te levam.
- O melhor lugar onde posso chegar é ao coração das pessoas.

Uma breve reflexão sobre Tudo o Que o Amor Não É

 

Usando como título o nome de um livro da autoria do psicólogo e professor Eduardo Sá:

Em dia de festejos de São Valentim e onde a palavra em foco é o Amor, considero importante parar e refletir um pouco sobre tudo o que afinal o Amor não é. Para assim nos consciencializarmos de qual é, afinal de contas, o seu exato papel nas nossas vidas.

O Amor é um sentimento alvo de investigações e definições diversas, desde a psicologia à ciência, sem nunca esquecer a arte que dele vive e sobrevive. Na literatura, com maior foco na poesia, encontram-se-lhe milhares de definições. Certo é, porém, que as investigações se estendem, também elas, à investigação criminal e judicial, tal como é uma realidade (mais próxima do que se imagina), a entrada diária do amor nos gabinetes de Apoio à Vítima.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Opressão, ciúme doentio, perseguição, desconfiança cega, ameaça, domínio do outro, controlo asfixiante da vida, dos passos, das roupas que se vestem, dos amigos, dos colegas, até da direção do olhar e das observações feitas, palavras ditas.
Isto é tudo o que o Amor não é.

Ameaça e violência. Homicídio.
É doença. É distúrbio. De personalidade ou psicológico, mas nunca será Amor.

Medo. É tudo o que o Amor não é. E é preciso algum grau de consciencialização e de decisão interior para a vítima de uma relação que deveria ser de Amor, paixão e romantismo tomar a decisão de se deslocar a uma esquadra policial, a fim de apresentar queixa contra o namorado/marido ou ex-namorado/marido.

 

A agressão não é um ato de Amor, tal como o pedido de desculpas que se sucede não é Amor declarado. 
É comum desculpar-se uma vez, duas, três vezes. À quarta, as sequelas são efetivamente visíveis. Mas atenção, o verdadeiro Amor não deixa marcas na pele nem feridas na alma. O verdadeiro Amor não sangra.
A esperança ilusória de que o outro irá alterar o seu comportamento, de que o seu arrependimento é real e a ideia de que a fazê-lo, o parceiro o fará por Amor, são enganos que evidenciam a morte da primeira vítima: o Amor próprio. 
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

É necessária uma maior consciencialização humana, uma maior abordagem do tema, campanhas que cheguem mais próximas das vítimas, mãos e corações abertos, pessoas dispostas a ajudar. É necessário transparecer segurança, é necessária ajuda psiquiátrica, é necessário apoio, é necessário AMOR.

 

Dia 14 de Fevereiro, enquanto muitos comemoram o Amor (mesmo que só uma vez por ano nesta data), outros recebem-no, julgam eles/elas, violentamente. Um estalo embrulhado em papel com corações, um cestinho de ameaças, um ramo de opressões, um qualquer perfume com aroma a feridas abertas, marcas e hematomas.
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

O Amor não mata. Tragédias gregas querem-se em livros, fruto da imaginação dos seus autores. Nos dias que correm já ninguém morre de Amor, mas sim pela falta dele.
E isto é tudo o que o Amor não é.

 

A quem realmente o vive, o partilha, o dá e o recebe genuinamente e pelo coração, ficam os meus votos sinceros de uma feliz São Valentim antecipado!

Reflexões - 8

Sempre tive a sensação que só vivi, realmente, aquilo que senti ou me foi permitido sentir. Aquilo que em mim ficou gravado e se expressa, ou expressou, através de emoções. Tudo o mais, foi apenas um nada que por mim passou.

        Rita

 

E a vida é mesmo isso, um conjunto de acasos, situações e ocorrências, de momentos e experiências em nós expressos e impressos através de emoções. Tudo o mais, é nada. É apenas o tempo que passa. 

O regresso de um estranho

 

 

 

Para trás deixava metade de uma vida e de mãos a abanar e passo leve seguia adiante, pela estrada de terra batida.
O sol subia apressadamente à sua frente, iluminando-lhe o rosto gasto e cansado, sem cor de gente. Um Zé Ninguém - assim se autointitulava.
Num esforço desmedido, evitava olhar para trás. Não queria deixar memórias, tão pouco fazer-se acompanhar das mais recentes. Os antolhos mentais auxiliavam-no a limitar da visão lateral, forçando-o a olhar apenas em frente, sem correr o risco de se deixar levar por distrações ou tentações fáceis.

 Com sonhos no horizonte, seguia o Zé, noite e dia por caminho instável, umas vezes seco outras tantas lamacento, assim como os seus olhos. Mas sempre certo de que todo o esforço e sacrifício valeriam a pena no final.

"Afinal de contas, um caminho sem obstáculos nunca nos levou a lugar algum. E que outras funções existem num obstáculo, que não sejam fazer-nos parar de fronte ou levar-nos a querer ultrapassá-lo?"

 

Ninguém o vira partir, tal como ninguém o iria ver regressar sete anos mais tarde, àquele lugar. 
A mesma estrada de terra batida trazia Zé, agora Alguém, de visita. O mesmo passo leve, uma mão a abanar e uma criança pela outra.

“Benvindo às tuas origens.”

 

À entrada, o café do Adérito continuava igual. A garrafa de cerveja continuava em cima da segunda mesa a contar da direita, acompanhada do pires com meia dúzia de tremoços que as mãos do Chico da Parra, castanhas da terra, depenicavam.
Meia volta dada e à porta da igreja as mesmas vestes de domingo, aprumadas, os lenços a cobrir os cabelos presos em monhos das seis beatas à espera que o sino batesse as onze, para que se desse início à missa.
À esquina da rua, o senhor João ainda passeava o cão, o Esteves continuava sentado no banco a ler o jornal do dia anterior, a dona Deonilde estendia as meias do marido e a pequena Leonor rodava o seu vestido azul de folhos dançantes.

 

Zé, agora Alguém, com a criança pela mão, regressado fazia duas horas, continuava a percorrer a vila com os passos que a memória não desaprendera.
Pararam na tabacaria do Matias, ouviram parte do relato do jogo do clube da vila e Zé, agora Alguém, contou as mesmas 16 laranjas que pendiam da farta laranjeira do quintal da tia Maria. Tropeçou no mesmo degrau onde, durante a sua infância, tropeçava sempre que corria pelo pátio da escola. E desviando a cabeça lentamente para a esquerda, baixou o olhar na direção da criança que o acompanhava, verificando que também ela se havia ferido no joelho, tal como lhe era frequente acontecer a ele, em tempo idos.
Dirigiu-se a casa, mas não a encontrou. Seis ruas idênticas com casas de ambos os lados, todas elas iguais. Uma lágrima e as duas mãos a abanar. 

“Onde é que tu vais? Anda cá. Não saias de perto de mim.”
A criança dirigia-se à terceira rua, a correr, parando à porta do número 6. 

“A nossa casa é aqui.”
Imaginou o cheiro a café e o som do piano por ele próprio dedilhado. As túlipas ainda lá estavam, alguém as regara durante a sua ausência prolongada, pensou. E o baloiço também. Sentou-se com a criança no colo e balançou, como a vida. 

"Ainda fazes boas viagens, companheiro!"

Passou pelo largo central onde, outrora, se situava a sua livraria. A porta aberta prendeu-lhe a atenção e espreitou. O cheiro dos livros ainda permanecia intacto convidando-o a entrar. Sentou-se no chão diante da única estante que restava, com sonhos no horizonte. Ali se reencontrava. 

 

Porém, ninguém o reconhecera. Nem o Adérito, nem o Chico, tão pouco o senhor João ou o Esteves, a dona Deonilde, a pequena Leonor e o Matias. A tia Maria, coitada, já não via. E ele ali estava, de mão dada consigo próprio sete anos depois. Trouxera-se criança no regresso para melhor recordar a vila. Aos seus olhos nada mudara, excepto ele, o mesmo Zé, outrora Ninguém e agora Alguém, estranho para toda a gente.

 

Diante da estante de sonhos, retirou da segunda prateleira o quarto livro a contar da esquerda. Abriu-o e leu:

Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui.

Fernando Pessoa

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