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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

A memória das mãos nunca esquece a paixão

 

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Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam. Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.

- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - tão pouco que destino os espera. Toda a vida vivi intensamente cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje, já calejado da vida, me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, a carne dos lábios, de olhos fechados.

Eurico rodou o banco de lona verde escura ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele, com a ponta do meu indicador, e lhe medisse a profundidade.

- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir... somente um vazio que não poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal sempre que, na demora da ausência, recordares uma mulher e, de olhos fechados, lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não cultivar, cuidar, amar e preservar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.

Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.

- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.

Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:

- Como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!


Remendar cadáveres com poemas

Vi, em vida, morrer o mundo
trespassado por balas perdidas;
vidas vencidas pelo cansaço a tombar na calçada rotineira
onde, rasos, os passos cediam ao vazio.
Vi, atear-se a fogueira na foz do rio sonhado,
navio de pólvora atacado por piratas de coração à deriva.
E numa tela, fogos de artifício à janela
de todos quantos por ali espreitam
e se enjeitam, sem ar
até ao lançar do infortúnio morteiro.
Sobrevivi, remendando um cadáver com poemas...
... e renasci
alinhavando mais dez. Cem. Mil.
Mas não chega, mundo senil!
Tragam-me o mar e a calma, é preciso cosê-los com alma
aos pedaços de céu, ao epicentro da vida!

 

Combóio fantasma

 

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Ao meu lado um lugar vazio. Existia sempre um lugar vago, frívolo, carente ou frustrado.
Um homem de fato fingido. Um rosto bem feito de saudade. Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado. Um olhar translúcido e hiato que me fitava disfarçadamente.

 

Uma carruagem lotada num comboio que parou. Uma avaria que fazia antever um atraso de vinte minutos, mas que o acelerou. Contraditório? Talvez. Consistente, porém, o contraste entre o elevar das vozes e os sofridos nós nas gargantas.
Respirava-se sofregamente, bufando palavras de desagrado, que se traduziam nas mais variadas frustrações diárias.
Uma revista caiu. Estendeu-se uma mão, que vi desaparecer entre as páginas despidas de vida. Um chapéu voou, na procura pela liberdade de pensamento. E aqueles óculos diante de mim, flutuando no ar, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, nervosamente inquietos? Procurariam olhos capazes de ver (através deles)? O choro de uma criança que percebi, não reconhecia o batom da mãe que, num vermelho escarlate, lhe gritava o atraso. E ao fundo à esquerda, ora de fronte para mim, ora enfrentando a realidade, uma gravata azul escura, bem apertada, que depressa entendi ser a forca de um farda desgastada.

 

Ouvi o barulho do meu silêncio ocupar a carruagem nos quinze minutos que se seguiram à observação atenta. Ainda me restava um quarto de hora e o mundo parado. Tempo individual e necessário à reflexão, do qual não abdicaria.

Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.

 

O revisor anunciou “Senhores passageiros, a avaria encontra-se reparada. Previsão de chegada ao destino às oito horas e cinquenta e oito minutos”.
O comboio avançava e cinquenta e oito era, também, o número exato de vidas que continuariam por consertar. Afinal, nem eu havia compreendido, até ao momento, que o lugar à noite vazio ao meu lado eras tu quem o ocupava.

Espectro

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As rugas pareciam iluminar-se, a partir de dentro,
acompanhando o compasso provecto
de um coração muito antigo, 
albergado às portas da cidade deserta. 
Parado, o tempo, ostracizado pelas ruas de pranto, 
em enchorradas de encanto outrora navegadas
pela memória de travessias e seduções,
naufragadas no esquecimento
secreto de um velho palpitar. 
Pareciam iluminar-se, a partir de dentro, 
as memórias loiras das raparigas antigas...
e o olhar.
Pareciam iluminar-se, a partir de dentro, 
as janelas da casa do amor
... ao recordar.

Colarinho branco

Incógnito pelas ruas,
refugiando as mãos nos bolsos,
segue, sob o olhar atento da gula,
visível nos olhos da noite corrupta.

Habilmente tricotada em torno do pescoço,
tráz enrolada, nas voltas da vida,
a cascavel adormecida
que aquece e incita a mordida
envenenada; picada da língua afiada
no eixo certeiro do passo contíguo
de quem, sem nó de gravata,
no caminho honestamente se atravessa.

Sobre a calçada endurecida,
já muitos tombaram heroicamente,
à luz do candeeiro por interesse atenuado,
cansado que estava o rigor do país.
Exarcebado, fez o povo garrote
na própria perna e seguiu...
pela via da verdade, que o viu,
denunciar, em contra-mão,
quem não caiu, em falso passo, na escuridão
da intérmina auto-estrada da corrupção.

 

Na voz de uma mulher

 

Não precisas de esperar. Eu não me vou atrasar. Afinal fui eu quem sempre aqui esteve à hora certa e no momento devido. Hoje não seria diferente. Chego uma vez mais, a horas, para te dizer que não esperes por mim. Durante todo aquele tempo em que tu ias e voltavas, te perdias de ti e te reencontravas, eu esperei. Esperei e sempre estive do teu lado. Mesmo atrasado, ias chegando, ias sorrindo, ias ficando, até ao dia em que a tua ausência prolongada ditou o meu afastamento.

 

Nunca te pedi muito, e o que pedi foi tão simples. Aquele minuto de atenção que nos faz sentir especiais. O respeito, o carinho e a consideração de quem se importa para com quem é importante. Tudo isso chegou até ti sem atrasos. A mim, foram muitas as vezes em que tão pouco os recebi. Porque tu, egoísta, vivias os dias envolto nos teus pensamentos, na tua rotina, na tua falta de tempo e nos teus maus momentos. Tinhas-me como presença certa e já nada fazias para que eu ficasse. Recorrias a mim somente quando mais nenhuma palavra te fazia sentido, quando nenhum conselho era tão válido quanto o meu, quando mais ninguém te fazia sentir seguro de ti mesmo ou te estendia a mão e te dizia “estou aqui”, quando mais ninguém te fazia sentir tão vivo o coração ou te despertava emoções que há muito não sentias.

 

Se precisavas de sorrir sabias onde encontrar o meu sorriso, se precisavas de um abraço sabias onde encontrar o meu, se precisavas de uma palavra, sabias que a minha seria a certa. Mas era sempre pela tua necessidade, e nunca pela minha ou a pensar que eu também poderia precisar de ti.

 

Como disseste e bem, sou forte, mas não tão forte que me seja indispensável o carinho, o conforto e a presença de alguém nos momentos difíceis. E onde andavas tu nos meus momentos de aperto? Desculpa que te diga, mas sempre que não me olhaste nos olhos para fugires de ti, sempre que não me agarraste com medo de a seguir me perder, sempre que não me amaste por cobardia, sempre que não me sorriste, sempre que não tiveste tempo ou paciência para mim, sempre que não chegaste ou deixaste algo por dizer ou fazer, tu não te atrasaste. Adiantaste-me sim a partida.

E enquanto tu eras o teu próprio centro de atenções e vivias embrenhado nos teus medos, nos teus pensamentos, nas tuas incertezas e na tua falta de tempo, eu vi o mar sem ti, a lua e o por-do-sol. Também não deixei de viver momentos sozinha, que queria viver ao teu lado, porque se tu me faltavas a mim, eu a mim não me falto. Sempre que fugiste de mim para não pensares em ti, acabaste por me perder ainda mais. E não só me perdeste a mim, como te perdeste de ti e perdeste muitos dos melhores momentos que tinhas para viver. São escolhas.

 

Agora, não me peças desculpa por tudo o que não fizeste ou não fizemos juntos. Se me conheces, sabes que prefiro a verdade dos atos à facilidade das palavras. E se de facto estás arrependido demonstra-mo sem atrasos.

 

Desculpa, o meu tempo está a terminar, a vida não espera por mim, o meu relógio não pára e há um lugar para ser feliz. Eu quero lá chegar a horas, por isso não espero por ti. Tu chegas sempre atrasado e outras vezes nem chegas.



Na voz de um homem

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Desculpa o atraso.
És sempre tão pontual e eu chego sempre atrasado, por vezes nem compareço. Desculpa o atraso mas estive sempre ocupado. O trabalho e os meus afazeres diários. A rotina. A falta de tempo.
Desculpa o atraso nos “bons dias" e todos aqueles dias em que nem tos dei. Os teus chegavam sempre a horas.

 

Desculpa o atraso nas respostas às tuas mensagens, à tua presença, à tua atenção. Desculpa por todas as vezes em que não foste prioridade, mesmo em plena consciência de que, na maioria das vezes, eu sempre fui a tua.
Desculpa por todas as vezes em que não retribui os teus sorrisos abertos, o conchego do teu abraço e a doçura contidada em cada beijo teu.

 

O trabalho e a falta de tempo, ou todo o tempo que deixei passar embrenhado nos meus pensamentos, à volta de mim mesmo e fugi. Não de ti, mas de mim, do meu subconsciente que me dizia que eras tu quem eu queria ao meu lado, que eras tu quem me trazia tudo aquilo que sempre desejei, que eras tu quem ali estava sem qualquer obrigação, sempre à hora certa - nunca foi o momento errado.

 

Por fraqueza fugi. Porque sou fraco e tu és forte. Mas não tão forte que te seja indispensável a presença e o carinho de alguém, o conforto e o apoio nos momentos difíceis. E eu sou fraco e fujo, por cobardia, ao pensar que não sei como apoiar uma mulher que é dona de uma força soberba e que tanto admiro. E apesar da muralha que construíste, ainda consegues ser doce, meiga, delicada e ter um dom comum a poucas, ser Mulher com letra grande.

 

Desculpa por todas as vezes em que não te olhei com medo de ver em ti o que sabia que iria encontrar. Por ver em ti os meus pontos fracos. Por te saber o meu ponto forte.
Desculpa o meu atraso sempre que precisaste de mim, e desculpa-me ainda mais as vezes em que nem cheguei.
Desculpa os momentos intensos que não vivemos, os passeios que não fizemos, as aventuras que não partilhámos, todas as noites em que não olhámos juntos para o céu nem adormecemos lado a lado.

 

Tu és a amiga, a amante e a mulher que sempre quis e eu só agora tive a certeza disso. E mais uma vez já venho atrasado.
Desculpa por não te ter levado a ver o mar, o por do sol e a lua, sei o quanto gostas. Mas ainda vamos a tempo. Prometo não me atrasar desta vez.

 

Desculpa por ser eu o meu próprio centro de atenções, e desatento, não interpretar os teus sinais.
Tu chegas sempre a horas para tudo e mais alguma coisa, antecipadamente até para algumas. Tu chegas lá e fazes. E eu, cobarde, deixei tanto por fazer e dizer.

 

Só agora percebi que nos teus olhos vejo os meus, que no teu sorriso encontro o motivo do meu, que em ti encontro o que sempre procurei. (E do qual andei a fugir todo este tempo).
Desculpa-me por me achar fraco, por todas as idas e vindas, por todos os meus atrasos e pelas vezes que nem cheguei. Desculpa por me ter sido necessário já aqui não estares, para que eu percebesse que só permaneço estável, íntegro e completo ao pé de ti.

 

Desculpa, mais uma vez cheguei atrasado para dizer que Te Amo.

 

Sei que já aqui não estás, mas espero ainda ter vindo a tempo. Mesmo que te atrases, hoje sou eu quem espera por ti.

 

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