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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Não me seduzem os já velhos e hipnóticos cantares de sereia

Nunca a superfície do real me cativou. Ostentação, poder, riqueza, plateias, elites ou interesses de ordens diversas. Antes, sou atraída pelo que diáriamente construímos e alimentamos em nós, nos outros, mais dentro, em lugares mais profundos onde a vista não alcança. Laços. São eles que me atam ao que sou e me enlaçam ao que são (os demais, entenda-se). Lealdade, amor, fraternidade, confiança, amizade, solidariedade, tolerância, partilha e procura de tudo o que só esse caminho nos oferece.
Bem sei que a superfície nos chama. Mas ensurdeço para o mundo sempre que a realidade é rasa.
O silêncio, esse, profundamente me envolve e completa. E e lá que tudo o que profundamente se sente existe, realmente.


Não me seduzem os já velhos e hipnóticos cantares de sereia.

A Falsa Felicidade nas Redes Sociais

UM DESABAFO... 

 

 

“Vivemos numa espécie de toxicodepêndencia digital”, quem o diz é o Professor e Psicólogo Eduardo Sá.

 

Sucessivamente agarrados às redes sociais, o smartphone tornou-se para nós um refúgio, evitando o diálogo e permitindo o auto isolamento na presença de terceiros. Construímos relações que não dependem do contacto pessoal e directo, da aproximação física, da partilha em tempo real do mesmo espaço, conversa, emoções, realidade envolvente, mas sim de uma conexão virtual. Lógicamente, a possibilidade da criação destes vínculos online permite-nos estar em contacto com um sem número de pessoas, contudo, e para que tal seja possível, é –nos necessário o isolamento. Só dessa forma nos é possível estar presentes nas diversas redes sociais e ligarmo-nos aos demais. Este fenómeno de nova solidão social tem vindo a instituir no seio da sociedade uma clara dificuldade no exercício do diálogo frente a frente, assim como no desenvolvimento saudável das relações humanas, sejam elas familiares, sociais, emocionais ou profissionais.

 

Paradoxalmente, dispomos hoje em dia de um conjunto de ferramentas diversas que nos ajudam a comunicar, mas que nem sempre nos ensinam a ser mais comunicativos. Vivemos no seio da “sociedade da comunicação”, mas cada vez mais nos viramos para nós próprios.

 

Em linha, nos últimos anos, tornámo-nos especialistas em descrever a nossa existência através de imagens (os pés na areia ou à lareira, as bebidas à beira da piscina, as festas de sábado à noite, os jantares, os almoços, os pequenos-almoços, a roupa, as férias, as viagens…)
Sem nos darmos conta, o nosso quotidiano viu-se inundado de “falsas felicidades” sustentadas por fotografias, tantas vezes capturadas e pensadas para o efeito.

 

O “estar bem” deixou de ser um caminho pessoal para se tornar uma imposição social. Mostrá-la, à felicidade, é uma exigência que colocamos a nós próprios e que, por consequência, projectamos para os demais, apenas aceitando quem dela partilha. As fragilidades do ser humano deixaram de ter lugar, assim como a consciência de que somos falíveis, que erramos, que choramos, que sofremos, que passamos por dificuldades num ou noutro momento, que a tristeza é tão válida quanto a alegria, que não acordamos nem adormecemos perfeitos, tão pouco 100% realizados e sem quaisquer problemas na vida.
E é esta "falsa felicidade" que tantas vezes cria, em quem assiste, um sentimento de inadaptação ao meio, frustração por não conseguir atingir determinados patamares de plenitude, objectivos que parecem tão fáceis de serem alcançados, desânimo por não emanar uma luz que, na verdade, é produzida e não natura, desalento por não se ser tão bem sucedido quanto aqueles que nos são mostrados, um sentimento de culpa pela falta de realização pessoal e por falhar no caminho para a aceitação segundo parâmetros questionáveis.

Na verdade, as imagens que diariamente publicamos não operam, nem trabalham sozinhas a estrada da plenitude. Necessitam de nós. Da nossa validação. Dos nossos “likes”, aplausos, comentários e partilhas que, por educação, nos são retribuídos.

 

“Arrasando” ou “Divando” por aí, num mundo condicionado pela opinião de terceiros, escolhemos mostrar a forma como queremos ser vistos, numa auto-representação quantas vezes exagerada da felecidade que: será que é nossa?
No caso do Instagram, a rede social mais utilizada para a partilha e difusão da imagem, são os próprios quem escolhe a estratégia relacionada com a forma como querem ser. Eu diria parecer. (Creio, entre tanta solicitação que o presente nos estende, não sobrar espaço para reflectir sobre o que se pretende realmente comunicar sobre si próprio). Assim, não rotulemos as redes como produtores gratuitos da “falsa felicidade” quando, na verdade, elas são meros veículos condutores, ou se quisermos, grandes vitrines pensadas para a exibição de modelos diversos.

 

É um facto que existe uma clara necessidade de aparentar ou seguir um determinado estilo de vida, e estado de espírito, e é isso que nos torna produtores e disseminadores da nossa imagem, em locais que nos asseguram o conforto necessário para o podermos ser – as redes.
E quando não produzimos, seguimos.
(Hoje em dia, trabalha-se exaustivamente o exterior e a sua transformação, deixando o interior à mercê da erosão pelo tempo).

Talvez estejamos a viver uma Era da indústria do culto da felicidade, a avaliar pela constante associação de produtos (vários) às fotografias, mostrando-nos como seriamos bem mais felizes se praticássemos o seu consumo. Este é o papel dos influenciadores de tendências, que tantas vezes caem profundamente na necessidade da partilha diária e recorrente desta falsa felicidade, aliada a uma estratégia de imagem. O tal querer parecer.

 

A felicidade são momentos que só geram um determinado estado de plenitude quando vividos realisticamente e desprevenidamente. Nunca quando nos preparamos previamente para eles.

 

Lido por aí: “ A Felicidade não se explica, não é palpável, mas sente-se. Entra e sai, nunca fica. É feita de um material cósmico, uma mistura de pozinhos de perlimpimpim com bocadinhos de arco-íris. Talvez também tenha um pedaço da Lua. Mas não é eterna. Não é total. Não é absoluta.”

 

Em suma e poeticamente falando:

 

Há um lugar sem nome
onde moramos, reféns
de um cognome que substitui
lugares antigos e que dilui, em si
e no tempo, as cores e os sabores
de uma identidade vivida
em fotografias antigas,
agora esquecidas, entre o pó
de objectos sem cheiro de amor.
Por temor de recuar no tempo
e voltar a bater à nossa própria porta
… sem ninguém para a abrir.

 

Somos lugares sem nome
a viver entre flashes
presos por um fio de redes
sociais e memórias instantâneas,
que depressa se esvai
p’lo buraco negro da solidão
que consome o sofá noturno.
Perdemos momentos,
ocultamos sentimentos,
desatentos à grandiosidade
do pequeno, à riqueza do detalhe
e à pureza do enamoramento da vida
que espreita à janela do coração.
Estendemos a mão,
rodamos a chave,
abrimos a porta,
mas não estamos lá…

Em nós, são tantas as ruas sem nome
que levam os outros a lugar nenhum!

 

Viagem Minha

Abro os braços na extensão da noite,
envolta no silêncio que de mim se inteira.
Ensurdece-me o rasgar de pensamentos
e cega-me, na escuridão, a nitidez de uma imagem

que me arrepia o corpo, ao recordar a viagem

vivida em ti, no suspiro de um momento.

 

Na passividade do céu
gritam em mim os teus contornos,
traços que a nudez da madrugada esculpiu;
E eu começo onde o toque não termina,
na submissão de um instante que culmina
no desejo com que a noite me despiu…
o coração!

O Teu Sol

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O sol ainda nasce e se deita no mesmo horizonte, nos braços do mar. E ainda guarda a cor da vista daquela janela, que os meus olhos abriam para os teus.
Eras tu e o fim da tarde. Ganhavas tu, sempre que os dias se despediam num clarão de sol, que do teu sorriso se soltava.
O piar das gaivotas, a respiração salgada das gotas que o corpo da minha lembrança embala. Faltam-me as asas. Falta-me o céu como passaporte para rasgar o vento e pousar levemente no beiral noturno da tua janela. Anseio por voltar a casa, espaço meu no teu peito.
Do tempo do amor sem pressa, não ficou nada para além de nós, para além da vista de uma janela que nunca é a mesma quando o peito se abre. Diz-me, para quê fugir se não temos abrigo?
A campainha do apartamento que fomos permanece avariada, as chaves dos sonhos pousadas, o elevador da vida por concertar. E pelas escadas inacabadas, descalços, chegamos ao céu?
Não voltámos à janela, nem arrumámos a desorganização do espaço que o nosso amor ocupa. O caos, assim como o mar, não depende dos olhos de quem o vê, mas da extensão do amor que nos invade quando uma janela se abre.
O sol ainda nasce e se deita no mesmo leito, iluminando os magestosos jardins dos nossos planos.
... Onde estamos?

 

Enlaces

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Éramos, talvez crianças, sempre que as mãos se entrelaçavam e sorriam - as tuas - ao largo dos meus caracóis.
Éramos, talvez a esperança, quando o olhar se cruzava e os meus olhos me inundavam de verde mar.
Éramos, talvez rebuçados, sempre que os lábios se encontravam, na curva dos beijos roubados, ao sol poente.
Éramos, talvez a corrida, sempre que soava a partida e me acompanhavas o rosto à janela.
Éramos, talvez o amor, de mãos dadas a correr em direção à loja das guloseimas.
Éramos, talvez a vida, que só é sentida quando damos as mãos.

Canção de um Domingo

Não pedi ao domingo que chorasse, do lado de lá do que sou, como me chora por dentro.  
Desgastado, trouxe-me sépia, à tela em branco que visto. Dispo. Resisto. Rabisco.    Para te poder aninhar. 
Não pedi ao domingo que chorasse para lá de mim, a melodia que trago por dentro. Pauta de cinco sentidos com que o teu coração me compôs. 
Voltada para dentro, encontro-te no silêncio. E guardo-te, onde a deliquência longa de outros domingos não te possa decompor.
São coisas compridas, isto dos domingos. Tão longas quanto as cordas da harpa das memórias que estendeste até mim. Ao domingo, também tu te demoras na sua lonjura... sem chegar. 
Não pedi ao domingo que te chorasse, como te choro, por temor que não mais pare de chover.

Na dor do amor, talvez seja sempre domingo. 
De quantos domingos nos fizeram?

Regresso sempre a ti, como a um um domingo infindável.

 

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Amanhecer-te

Hoje acordei contigo. Com a ternura que deixaste e preservo no meu peito. Acordei e lá estavas tu, enérgico, como a trovoada que se bate sobre mim. Presente na memória dos objectos e das fotografias, abraçaste-me a delicadeza com que preparei o café. Servi-to, na quantidade extacta com que me inundas de lágrimas o peito. Longe, a baía dos teus braços, que me envolvia em marés de amor.
Hoje acordei contigo, na dor da minha almofada, junto à candura dos sonhos que ficaram por viver. Abri as janelas, que anteriormente tinham vista para os teus olhos, e demorei-me na contemplação da saudade.
Hoje acordei contigo e debrucei-me, para lá do que pode a razão, sobre o horizonte eterno e fugaz onde o amor se deita, e vi-nos cair, sem estrelas que nos amparassem, do céu onde te quis todas as auroras.
Hoje acordei contigo, sem que ontem te tenhas vindo deitar ao meu lado.
Hoje acordei contigo e nem eu estava lá...

Esta noite, vou procurar no mar que me fez marinheira, a luz do teu sorriso, antes que a eternidade escureça e a melodia que somos, e que ainda oiço, pelo buraco negro da dor se finde.

 

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Fragmentos

Coalham, sílaba a sílaba
as palavras gastas,
como a sola dos pés que nos fez o caminho.
Na aldeia de onde vim,
o branco paz, outrora caiado,
estala agora no interior dos sonhos
que me sustentam as paredes.
Fendas abertas no pendulo do tempo.
Encostado à noite,
dorme o coração
ao relento,
no cume da montanha
onde, sem talento, arde a noite
gélida, frágil e só.

Do mar voam as cinzas,
uma a uma,
e só o silêncio navega
nas minhas entranhas ressequidas.
Já não luzem
as ondas matinais do meu cabelo
onde, para marear,
é preciso saber interpretar o sorriso das estrelas.


À deriva,
ainda por escrever,
ficaram prosas, versos e rosas
sem leito, esquecidas.
Quebradas as maravilhas,
no peito da Primavera semeadas,
nem a Alice nos salvou...
E como castelos de cartas desmoronadas
somos, senão mais,
e de volta ao início,
fragmentos do tempo
e dos lugares vazios onde sempre estivemos.

 

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