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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Estava morta e não sabia

Há, fora do tempo, 

outro tempo que nos fazia; 

no território das horas inatingíveis,

à boleia do navegar de um veleiro

p'lo tecido azul da tarde.

 

À proa da névoa, em manto branco envolto,

o alongar do deserto fez-se certo em meu peito.

E p'la sombra prolongada,

morria a lua dilacerada, à noite na baía.

Não podia, porém, saber que era meu o cadáver

que ali sorria,

com a memória da lembrança adiada,

dos sonhos que ainda trazia.

 

Hoje, trago a roupa cansada 

da solidão deste quarto.

E os sapatos, de sola ausente, gritam

elevando-se ao silêncio das letras 

que à meia-noite me confortam, 

sempre que me vem à boca a saudade dos beijos que já não dei...

no seu travo a licor amargo

de um amor que não se cumpriu.

 

Heresia ou eco de um destino breve,

que cedo e agreste,

a bordo de um veleiro anónimo partiu.

 

 

 

A possibilidade dos recomeços

Na vida existem - e sempre existirão - períodos de mudança e transformação. À semelhança da transição entre estações do ano, também as etapas do nosso caminho são varridas por tempestades de inverno, ou abençoadas pelo florescer da beleza tranquila da primavera. O vento leva o que já não não acresce ou não nos serve a partir daí, e a chuva lava e purifica o que fica, preparando-nos para o período fértil dos recomeços. Das sementes que à terra deitarmos, nascerão as flores que nos acompanharão no caminho. E os sonhos, alimentados pelos nossos pés, beberão da leveza e da certeza que é por ali a estrada.

 

Cada um de nós é uno, mas os ciclos da existência individual não são tão díspares quanto possamos imaginar. Só a postura perante os factos e a inteligência emocional diferem, determinando tempos e modos de atuação, naturalmente diferentes.

Adiar mudanças, por um ou outro motivo, é comum. Mas existem aquelas que são necessárias, que sabemos serem a base para a nossa estabilidade, felicidade, bem estar. Estas, quando adiadas, vão abrindo espaço ao vazio, à tristeza, à ausência de realização pessoal, conduzem a perdas diversas no caminho e vão-nos consumindo até deixarmos de ser quem somos... no limite.

 

Não é fraqueza. É a vida a obrigar-nos a mudar.

 

Frequentemente, ao longo de um período demasiado extenso, afirmamos que o lugar onde nos encontramos não é o nosso lugar. Ajustamos as velas, mas não alteramos a rota. Até ao dia em que o casco onde navegavamos - e que nos faz - não suporta a última tempestade e afunda. Naufragada a vida, ficamos nós e pouco que resta, à deriva, até que o mar nos devolva à terra.

Exaustos, paramos, pensamos e alguns agem.
É tempo de se ser criador de si mesmo. É tempo de efetivar mudanças. É tempo de retomar rotas anteriores e certas ou de iniciar novas estradas. É tempo de aceitar os lugares que onde somos felizes, mesmo que a quilómetros de distância. É tempo de procurar a leveza e o sorriso, abrir janelas ao sol e voltar a ser quem se é. Tudo o mais, o tempo e a verdade farão, garantidamente. Ficará tudo o quanto for leve, simples e verdadeiro (mesmo que apenas mais adiante, porque é sempre necessário reflorescer).

 

O lugar onde me encaixarei, não é de todo onde aquele onde presentemente me emcontro. Mas sei-o adiante. E é para lá que me dirijo.

 

Por vezes, abandonar tudo é o caminho certo.

 

 

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Quem Sou? Sou...

Gostava de saber quem sou!
Confesso, não me conheço.
Se ontem era real,
Hoje sou sonho onde adormeço.

 

Há dias, no meu deserto isolada,
Sem mim, sem nada, sem ninguém...
Noutros, percorro a calçada
Da enorme cidade apressada,
Caminhos que eu mesma criei.

 

Se penso demais, já lá estou!
Cheguei,
Antes do tempo que me há-de alcançar,
Nos dias em que sem vontade do mundo,
No meu silêncio me deixo ficar.
Se não penso,
Ai se não penso… como posso eu não pensar?
Se penso um pouco menos, não chego
Aí... tão longe;
Onde e quanto me propus a chegar.

Fizemos o mar...

Não tenho mais do que o sonho em que adormeço. E que me envolve, apertando seguro, o peito que aberto arde. Invariavelmente diferentes, os versos que me fazem, a ti os dei, como o mar oferece à Lua o seu reflexo.
Éramos só nós. Inconfundivelmente desenhados no cândido voo das gaivotas livres, manchando o céu, despertando a aurora do amor. Nos teus braços de poeta, rimou o meu coração com as histórias enamoradas onde nos encontrei. Nascíamos ao pôr-do-sol, ao ritmo das estrelas claras e adormecíamos no horizonte do amanhã, depois do breve, mas lento momento em que o céu e o mar se fundiam.
Navegadores ao largo, fizemos o mar.
De marés vivi, assolada pelas ondas marginais de um amor que me fez naufrago o peito. Faz frio. O vento corta e o coração arrefece, padece, falece…
Não tenho mais do que as memórias, nuvens e insónias de tudo o quanto de nós ficou. Nada nos deixa, tudo se transforma, na medida extacta das asas das gaivotas, agora em terra.
Abortados os voos, permaneço ao largo, na praia que existe em mim. Neste repetir do verso final que sou. De peito aberto e ferido…


Dói-me o amor.

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Pertença

Deixei que a paz me entardecesse.
Aqui. Queita.
Entre a melodia das coisas miúdas.

Da flauta pastorícia soluçam notas,
e eu sou fuga para a harpa do vento,
solta e incerta.
A  água corre entre as pedras
e som das raízes desperta
para o silêncio das cores.
Se fores,
deixo que o fim da tarde me suje de azul…

Noturnam-me claras, as águas;
e o fim do mar anoitece.
Padece a monocromia, no peito
que se acende à prata do céu.
Se fores,
deixo que a janela enluteça
e não mais amanheça a tela lírica dos pardais.

Não tenho terra
onde me pertença mais do que a ti.

A última a morrer

Chego-te, através do horizonte,
leve, ténue e casta brisa
profetisa,
envolta em névoa que solta,
te toca sem te tocar.
Em tudo me sentes.
Em nada me vês.
Mas crês que existo
e que de longe venho
contendo arte e engenho
(não olhas para trás).

 

Três passos mais perto
do fim do deserto
e miragem ainda sou...
Reflectindo uma imagem
de sonho e coragem
que contigo acordou.
Não páras.
Sempre adiante,
filha de um acreditar constante
(não há tempestade que te apague).

 

Ao longe, o horizonte
em ti, uma fonte
onde bebes de mim...
... crês-me, sem fim
e chamas-me Esperança!

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada,
respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas
(que te espreitam)
à janela do casaco que vesti.

 

- Não me queiras sem Inverno,
prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me,
aí fora
no meu tempo.
Chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.

 

Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

 

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

Tenho um baloiço de corda suspenso numa nuvem

Tenho um baloiço de corda suspenso uma nuvem.
É do alto do seu voo que te observo, docemente suspensa. Os sonhos parecem maiores quando vistos daqui. E tu, tão mais pequeno – como eu, quando dele desço e olho para cima. Reparo que também o fazes.
Irei trazer-te cá, para comigo sonhares mais alto. Prometo.
Mas hoje não. Estou com pressa para descer.

 

Aqui em baixo tenho uns sapatos de sato alto que uso quando quero ser mulher.
Comecei descalça, mas a visão rasteira não me permitia olhar além, para lá do horizonte comum – esse que todos os pares de olhos alcançam. Aprendi então, a equilibrar-me a seis centímetros do chão, travando guerras e batalhas com que a vida constantemente me desafia. Estender o campo de visão é outra das mais-valias destes sapatos - qual guerreiro a cavalo.
Hei-de mostrar-tos quando me cruzar contigo no final do dia. Altura em que saio de cena, tiro os sapatos e calço todos os segredos que há por revelar em mim. Não tentes, porém, descalçar-me. Prefiro levar-te ao baloiço.

É durante a subida que sinto mais do que quilo que quero, talvez menos do que seja capaz.

Sento-me contigo no meu baloiço, agarro as cordas da vida com força e dou balanço ao corpo, consciente de que cada recuo nos fará subir mais alto depois.

É daqui que se sonha e ainda não chegámos ao céu.

Vejo as tuas mãos agarrarem, ligeiramente acima das minhas, as mesmas cordas. E sinto o teu corpo balançar, agora, ao ritmo do meu. Entre avanços e recuos, subimos mais alto e tocamos o céu.

Caem-me dos pés os segredos, que te havia pedido para não descalçares. E tu reparas. E sorris ao interpelar-me: Não me mostraste os sapatos!

Preferi os sonhos. Os sapatos nunca nos trariam ao céu.

 

 

Morro-te

Morro-te. Não te cumpri. 
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas, 
me desviaram de ti.

 

Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento 
que viste partir.

 

Morremos. Não nos cumprimos. 
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar. 
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

... Meu amor!

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