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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

O Arroz Doce da Vida

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Comi o amor e bebi a saudade, num prato de mar, em frente à vida... 
Comi o amor. 
Quente e intenso, como se quer o café da manhã. E único, como o teu coração quando, ao cheiro do pão, se derrete pelo queijo fundido da vida. 
Comi o amor e lambuzei-me. Voltei a comer e a lambuzar-me outra vez.
Doce e com canela, na medida certa, como o arroz da tua alegria.

 

Porque o amor, afinal, também é fazer pão com queijo e café, e servir, na dose certa em pequenas taças de alma aberta, o arroz doce da vida.

 

Recomeço

Recomeço.
Não tenho outra estrada.
Lúgubre, a noite apressada
evoca-me o predestinado ofício.

 

Recomeço.
O lodo na pele,
sou estrume e fel.
sombra, penumbra, ataraxia;
bolor nos passos,
tropeços e compassos mudos...
Lua tardia.
Recomeço.

 

De horas ausente,
tarda o ponteiro
a norte.
Negligente, a sorte
que trago nas palavras vãs.
Recomeço.

 

Indolente e farto, o caminho
destino visinho
da podridão dos sonhos
que me arrasta...
desgasta...
devasta...
Recomeço.

 

R ...
eco
meço.

 

 

 

O cansaço onde moro

O cansaço
onde tenho casa,
à beira do náufrago verão,
chegava com o fim do dia
a bordo do teu coração;
de doçura fatigado, bebia
o que de azul se reflectia nos espelhos
e partia...
sem me deixar.

 

Anoitecia.
E eu vinha de longe,
- Olhos de mar a sul -
para te dar
o que em mim de brilho havia
e iluminar
a hora errante.

 

O cansaço
onde fiz casa,
tem na morada o teu peito...
já sem leito para me sonhar.

 

Espera agora, a minha dor, por ser ave...
... e voar! 

 

 

Um excerto de Clarice Lispector - (em tom de desabafo)

"E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver."

 

 

Clarice Lispector LISPECTOR, C. Água Viva. Rio de Janeiro: Editora Rocco. 1973.

Pertença

Deixei que a paz me entardecesse.
Aqui. Queita.
Entre a melodia das coisas miúdas.

Da flauta pastorícia soluçam notas,
e eu sou fuga para a harpa do vento,
solta e incerta.
A  água corre entre as pedras
e som das raízes desperta
para o silêncio das cores.
Se fores,
deixo que o fim da tarde me suje de azul…

Noturnam-me claras, as águas;
e o fim do mar anoitece.
Padece a monocromia, no peito
que se acende à prata do céu.
Se fores,
deixo que a janela enluteça
e não mais amanheça a tela lírica dos pardais.

Não tenho terra
onde me pertença mais do que a ti.

Os Loucos Escrevem

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como os ombros, carregando os anos 
e a fome das respostas
que os romancistas prometeram,
e que não acontecem, tal como a vida.
Páginas cansadas de gente
que nelas está sem existir;
histórias contadas sem acontecer,
entre frases narradas e não proferidas,
escritas para agradar ao nascer, com prazer, 
ao mais solitário dos corações vagabundos
por aí...

De que adianta fazer perguntas a um estranho,
quando o mundo dos poetas não é palpável? 
Utopias cíclicas, encadeadas e indissociáveis 
do sistema solar onde lhes orbita a loucura.
Na verdade, nem a Via Láctea lhes chega! 
É-lhes mais que preciso o buraco negro
para onde se arrastam, 
sugados pela força centrífuga do devorador de sonhos; 
estes loucos que escrevem...

 

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como um romance, quando finda
e o coração descai
no verso de uma vida que termina
e se esvai... na leve pena de um poema.

130 Anos de Fernando Pessoa

Há 130 anos, a 13 de Junho de 1888, nascia um dos maiores nomes da literatura portuguesa, o icónico Fernando Pessoa. Um mestre, muito para além do seu tempo, alguém que tudo descobriu antes de nós.

 

 A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver. 
No baile de máscaras que vivemos, basta-nos o agrado do traje, que no baile é tudo. Somos servos das luzes e das cores, vamos na dança como na verdade, nem há para nós - salvo, se desertos, não dançamos - conhecimento do grande frio do alto da noite externa, do corpo mortal por baixo dos trapos que lhe sobrevivem, de tudo quanto, a sós julgamos que é essencialmente nós, mas afinal não é senão a paródia íntima da verdade do que nos supomos.

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

Reflectindo sobre (A)normalidade

Aquilo que mais receio no mundo é a normalidade. Dentro dela não existe progresso. Nada é mais perigoso do que a benevolência e anuência de uma sociedade, perante factos, comportamentos, acções e acontecimentos entidos e tidos como normais, num decurso transgressor e imoral da História (de um país, de um clube, de um partido, de uma instituição ou organização,...).
A normalidade não incomoda, sendo esse o motivo pelo qual a mesma se aceita e institui.

Poema a dois

Antigamente eu era eterno,
não cedia a este frio que me escalda os ossos
imperfeitos. O mundo ardia e eu fingia, que não via.
Saía, de manhã, e o dia estava sempre bonito 
como tu, à janela da verdade!
E eu sorria ao tempo nunca perdido e celebrava a virgindade de todas as coisas,
como brisa nas árvores... liberdade arrebatadora de uma alma exaltada.
Hoje, bebo whisky a goles sorvidos a compasso
por memórias salobras inscritas no meu peito sedento;
sei de cor os depois depois de todos os depois...
E os agora? Diz-me! O que é feito dos agora se depois...
se depois do agora me vou e findo?

 

Antigamente eu era eterno.


Rita Palma e Gonçalo Martins