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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Quero

Quero querer, ou será que queria,
um dia...
esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência,
em que a distância é lugar onde habito,
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos
com que o coração se vestiu,
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo
quero-te!

 

Ela

Nunca precisarás da cor dos seus olhos, se a olhares para além deles. Nunca precisarás do contorno do seu rosto, mas sim do esboçar do seu sorriso. Não te sentirás sozinho se não ouvires a sua voz, mas sentir-te-ás sim, se não lhe sentires o coração.

 

Nunca te sentirás perdido mesmo que a percas de vista, se for nela que te encontras. Nem nunca caminharás só, porque a terás sempre ao teu lado.

 

Por vezes o vento sopra, é verdade, aproveita-o, vê como lhe remexe os cabelos e lhe toca suave a pele. Por vezes chove, mas repara como ela dança na chuva.

 

Nunca sentirás a sua falta, poderás sim, sentir a falta do seu coração, porque é lá que irás morar. Irás sentir muitas vezes que o silêncio fala e ouvirás nele a voz doce dos seus sonhos. Da menina que a dormir ou acordada fecha por momentos os olhos e torna tudo real. Mas nunca irás sentir a sua falta, poderás sim, sentir a falta de quem ela te fazia sentir.

 

E um dia vais olhar para trás, não conseguirás ver mais do que meia dúzia de pegadas, mas ela será capaz de retirar de todas a melhor imagem, do caminho os melhores momentos, conseguirá escrever a plenitude da história na estrelas e pedirá ao Sol que se ponha, apenas para a deixar a vossa história brilhar. Pedirá ao mar que cante para ti se a voz lhe falhar, à Lua que te sorria caso ela esteja a chorar e ao mundo que te proteja, se algum dia ela falhar.

 

E como tudo na vida tem um lado bom, é para esse que ela te ensinará a olhar. E será, desse mesmo lado, que ela permanecerá.

 

À proa


Nasço eu, p’los teus braços, amanhã.
Estratosférica e profunda,
breve e oriunda de sonhos crescentes
(como a lua, esta noite).
Fóssil de mim, ajusto os ossos,
(a mais dura parte de quem sou)
à saudade.
Baixa mar de um rio que rasgou as margens
da impossibilidade, ao nascer.
Para os lados da foz, vazante, não lhe conheço caminho
e a jusante de mim, só o teu desaguar
no lago do jardim que me dá de beber
ao coração.
Tu entraste antes de mim nas flores que ficarão
com as lembranças,
quando a névoa cerrar o caminho
e a tua mão deslizar sobre o pensamento,
colhendo o que de nós brotou:

 

Arte livre, inocente e múltipla,
na proa erguendo o amor.

 

Em Frente

Em frente, olha em frente para o caminho
dos lados, nada. Apenas uma mão
que se estende e te leva, calmamente e adiante
pelos buliçosos e cegos caminhos do coração.

Olha em frente para o destino,
para lá da curva da estrada, das intempéries idas
e do nevoeiro das manhãs outonais, que se esvai
tão depressa quanto a própria vida,
distraída, por aí…

Em frente!
Mesmo quando não vês
mais do que o ontem, talvez
possas abrir as cortinas
e pintar a aguarelas as memórias findas
e escrever degraus em verso,
aqueles de onde caíste, avesso
a tudo o quanto tinha que assim ser.
… e continuar a vencer
… e continuar a crescer
… e continuar a sorrir
… a amar e a sentir
que é em frente o caminho a seguir.

Olha de fronte para o sol,
mesmo que cego estejas
p’la escuridão onde viveste.
E respira devagar a Primavera
que te espera, para lá das minúsculas misérias
de uma Era de tragédias apressadas,
galgadas que foram as margens do valores
ancestrais e dos princípios boreais
da aurora da humanidade.

Em frente, olha em frente para o caminho.
Nunca nele estarás sozinho,
se souberes coser em abraços
os laços que jamais se irão desfazer.
Em frente, por onde a soma de dois é um
e o amor é o lugar comum
ao coração dos Homens
que em jejum, renunciaram à aceitação
do afeto.

Em frente.

Quando os filhos não têm um super-herói, mas sim uma super-guerreira - Feliz dia do Pai, Mãe!

 

 

Elas são mães e pais, não necessariamente por esta ordem, mas sim em simultâneo. Super Guerreiras sempre com a espada numa mão e o coração como escudo na outra.

E esse é o seu papel principal. Embora se desdobrem em tantos outros papéis num curto espaço de 24 horas. Não têm tempo para ler o guião, por isso improvisam. A intuição de que são dotadas raramente as deixa ficar mal e quando se trata dos filhos, nem o cansaço as vence.

"Enquanto sou mãe e pai sou também cozinheira, lavadeira, faxineira, professora, educadora, amiga e companheira, conselheira, organizadora, trabalhadora num qualquer departamento ou negociante, sou filha, sou amiga, sou vizinha, sou enfermeira e médica sempre que necessário, motorista, jardineira, anjo da guarda ou polícia, por vezes até cientista, pago contas, estico dinheiro e invento tempo para ser um bocadinho eu. Tudo isto em pose de senhora, num corpo feminino que os aconchega no colo, que se molda às cabeças no ombro e lhes deu de mamar quando eram bebés. Um corpo e uma mente com a flexibilidade necessária para cada nova situação com que me deparo e a voz doce e meiga que os protege, com a necessidade pontual da autoridade que os alerta e coloca em sentido."

Super Guerreiras. Para elas não há dias de folga, não existe um "toma agora tu conta deles para eu descansar", ou mesmo acompanhar as amigas num final de dia. Tudo para não falar de privar consigo mesmas e privilegiar de uns momentos sozinhas.

São a presença feminina assídua, perante uma ausência constante da figura masculina. Paternal dizem vocês. Discordo. A paternal é, na maioria das vezes, assumida por alguém, que nessa mesma maioria se intitula Mãe.

Aos filhos preenchem silêncios, para que estes não falem tão alto. Ocupam-lhe os tempos livres para que eles não tenham tempo para sentir a falta de um pai ausente, mas também lhes ensinam que para quem realmente importa não existe ausência nem falta de tempo, que lembrar não é estar presente, que pai não é só um nome comum, nem um estatuto adquirido, mas sim um adjetivo caracterizador e complexo. Que os direitos são para quem assume os deveres e que uma pensão de alimentos não serve para uma mãe se governar, mas sim para ajudar a suprir as necessidades de um filho. Ensinam-lhes que o dinheiro compra bens materiais, brinquedos e objetos supérfluos, mas não compra amor, carinho, amizade e atenção. Ensinam-lhes que sempre que o telefone não toca, nem a campainha da porta se faz ouvir, existe uma outra porta na vida que, apesar de tudo, não se deve fechar. Mas que só a atravessa quem realmente quer, sem necessidade de ser convidado a fazê-lo.

Acima de tudo e de qualquer outra coisa, ensinam e demonstram todos os dias úteis, feriados e fins de semana, a tempo e horas ou fora delas, que um coração de mãe é infinito.