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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Desencontros

 

 

 

Todos os dias se cruzavam. 

Carlos desenvolvera o hábito de o observar atentamente. As suas aparições diárias eram já inquestionáveis. Sabê-lo no autocarro das 07h15, era como saber-se a si, no mesmo autocarro, sentado de perna largamente cruzada, olhar pensativo, duas rugas de expressão vincadas a meio de um palmo de testa sisuda, a rigidez da sua face a denunciar algumas semanas de sorriso ausente e as mãos, inquietas, a transparecer o bulício interior.

Desciam, de segunda a sexta-feira, três paragens adiante à Grande Avenida, numa transversal à Rua do Passo. E de passo apressado percorriam a calçada, ainda escorregadia, sob o orvalho frio da manhã. Sem demora, o elevador abria as suas portas, na chegada ao terceiro piso de um edifício composto por linhas modernamente descontentes. Altura em que os dois homens se separavam.

Carlos fora recentemente eleito diretor de informação da revista para a qual trabalhava havia vários anos. Profissional dedicado e competente, dono de uma visão generalista, espírito lato e ímpar nas suas abordagens e desenvolvimento de novos projetos. Desde então, passara a despender demasiado tempo sentado àquela secretária. Os seus olhos, outrora abertos para o mundo, alternavam agora entre uma pilha de papéis à esquerda, a tela do computador ao centro, seguida do ressoar constante do telemóvel, da agenda que percorria de trás para diante e de uma nova pilha de papéis à sua direita.
Chegava ao nascer do sol e saía com a lua já alta no céu.

Todas as noites se cruzavam e Carlos desenvolvera o hábito de o observar atentamente - excepto naquela noite fria e chuvosa. Envolto pela névoa que se abatia sobre as ruas e sobre o seu semblante fechado, sentiu a falta de um rosto familiar, cuja presença, assumira ser já uma constante nos seus dias. Retirou, demoradamente, a mão esquerda do bolso do sobretudo para verificar o relógio. Não conduzia fazia três meses. Pediu um táxi. Meia noite e quarenta e cinco; um corpo cansado no banco traseiro, um rosto vago, tão vazio quanto as ruas àquela hora. 


Rodou a chave na fechadura, a porta deslizou e os seus pés seguiram-na de imediato. Trancou-a e percorreu o corredor em passos mudos, na direção do quarto; pousou a pasta, sentou-se na cama e descalçou os sapatos. Ao seu lado um rosto, a quem, por se sentir observado, devolveu a atenção.
Era Carlos quem no espelho se olhava sem se reconhecer. Do lado oposto, uns olhos familiares. Aqueles com quem se cruzava todos os dias. Os mesmos que via refletidos no vidro do autocarro, nas montras das lojas, nas portas dos prédios e no interior de um elevador espelhado. O seu rosto, agora diante de si. 

 

Desencontrados.

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