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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Amor Azul

Oiço-o bater, frenético. E ainda não são sete da manhã. 
Sinto o acomodar da angústia no meu peito, travesseiro de sonhos que me levam. Ainda não são sete da manhã e já a vejo, a luz da angústia, atravessar a janela ferida. 
Atrás dos meus olhos, crivadas, as palavras pouco claras e as memórias nítidas. Não há muito que possa fazer. Apenas deixa-las ficar.


A vida tem o rosto de um jogo macabro, como uma pedra que morre. E nós não somos mais que fuligem.

 

Semeia-me flores lá fora e pinta-as de azul, porque todas as restantes cores sangram antes do amanhecer.
Diz-me quem és. 
E quando os sons dos risos dos sonhos ainda ecoarem em ti, volta a dizer-me quem eras.

 

Sucumbo como uma rosa a quem o amor espera do lado de fora do quarto. A vida não segue um curso claro. Onde estão os lugares e os rostos que me deveriam deixar pegadas na pele? 
Ainda se o amor chegasse com o orvalho da manhã azul…
Semeia-me flores lá fora.
Passarei a olhar para elas antes mesmo de o dia nascer. Alimente-as a chuva da Primavera que, para a fazer chegar, eu uso as borboletas.

 

Do meu amor não sei...mas flui dentro de mim. Já passa das sete da manhã.

Deixem-me Chorar

 

Deixem-me chorar as notas, as letras e as cores das memórias onde me deito.
Deixem-me chorar a dor, o vestido azul, o abraço e a ternura do lençol onde naufrago.
Deixem-me chorar o tempo e o sofrimento decidido. Deixem-me ficar latente, a definhar na almofada dos sonhos desfeitos.
É, por vezes, preciso soluçar o rio da angústia para a poder suportar.
Sigo em noctívagos prantos, tateando e tropeçando no que foi. Ainda não sei andar por aqui... por vielas estreitas e caminhos sozinhos onde os meus olhos, consumidos pelo grito da lágrima quente, perderam a luz.

 

Ah…! Deixem-me chorar o que não foi e tudo o que ficou por ser. O mais que viria, tudo quanto sabia que tinha raízes para se erguer. Deixem-me chorar o amor.
Deixem-me aqui, chorando de mim e comigo. Deixem que me doa. Que me rasgue. Que me mate. Que me consuma o rastilho e me dinamite o coração. Deixem-me estar só.

 

Sem murmúrios. Só o silêncio, eu e a dor.

 

Retrato de uma vida

Fui ao baú para vos deixar um poema escrito aos 14 anos de idade.

 

Na escuridão negra e profunda

dos dias longos que se vão arrastando,

por entre espinhos e aguçados caminhos

dos anos tristes que foram passando,

sempre existirão momentos iluminados,

pequenos diamantes no céu, luzindo

que num manto tão negro, tão escuro,

não passam de pirilampos fugindo.

 

Nas trevas da escuridão fechada,

há uma porta estreita, abrindo

caminho ao passar do cinzento

de um ano que ainda vem vindo.

Atravessam-na fantasmas,

homens de branco e distantes,

espreitam por ela soldados,

homens de verde e perturbantes.

Avançam sem permissão,

disparando, ferindo, amarrando…

Pensando que, pois então,

só assim conseguirão

a paz dentro do meu coração.

 

Enganados pelo instinto recuam

Com calma.

- DEIXEM DERRETER A DOR!

Sarar as feridas, as marcas das balas;

os vergões inchados do coração sem amor

que ainda é noite! 
E o mundo dorme. 
E dorme a alma.

E tudo dorme, até a vida,

Na agitação da noite calma

( shh, não acordes vivalma)

espera p'lo nascer verde do dia.