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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Antes Existir

Passos frios,
de pedra em pedra, calçada
desgastada pelas solas do silêncio
amargo e profundo, mel no olhar derramado,
lentamente, à passagem das mãos vazias
pelos dias.
Vai tudo dormir.
Ouve-se o reflexo da lua no mar
r e v o l t o. E o amor antigo 
que os cascos dos navios fazem 
com a tempestade.
Vai tudo dormir.
Os jardins descansam.
Cheira a melancolia.
Travo a estrelas cadentes,
nos bolsos guardado;
enjeitado sonho taciturno, 
passeio noturno
pelo calçadão da vida. 
Vai tudo dormir...
... quando, um dia, se abate
o lençol de pedra sem arte.
Antes existir!

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Pintura: Crepuscular Homem Velho, 1918 por Salvador Dali

 

 

À proa


Nasço eu, p’los teus braços, amanhã.
Estratosférica e profunda,
breve e oriunda de sonhos crescentes
(como a lua, esta noite).
Fóssil de mim, ajusto os ossos,
(a mais dura parte de quem sou)
à saudade.
Baixa mar de um rio que rasgou as margens
da impossibilidade, ao nascer.
Para os lados da foz, vazante, não lhe conheço caminho
e a jusante de mim, só o teu desaguar
no lago do jardim que me dá de beber
ao coração.
Tu entraste antes de mim nas flores que ficarão
com as lembranças,
quando a névoa cerrar o caminho
e a tua mão deslizar sobre o pensamento,
colhendo o que de nós brotou:

 

Arte livre, inocente e múltipla,
na proa erguendo o amor.

 

O artesão de poemas

 

O meu avô Alberto era artesão. E poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Utilizava, por isso, matéria bruta e retirava da vida a inspiração necessária para cada nova criação.

Era eu ainda criança quando o vi, pela primeira vez, abraçar um tronco de madeira, trazido pelo lenhador lá da aldeia, o senhor Carvalho – coincidência ou presságio à nascença, visto não lhe serem conhecidos antepassados com o mesmo desígnio.

«Alberto, este é íntegro o suficiente para ti. Não merece a morte pelas cinzas. Dá-lhe vida, ancião.»

E o meu avô segurou cuidadosamente nos braços aquilo que, para mim, não era mais do que um pedaço de madeira grande e pesado. Os seus olhos fixaram-no, ternurentos, como quando olhavam para mim. Tive a sensação de que embalava uma criança. C’os diabos, que imaginação a minha, aquilo era só um tronco morto e sem vida.

«Entenderás a seu tempo a poesia da vida, meu rapaz.»

Pousou o tronco e afagou-lhe o dorso, suavemente, como quem desperta os sonhos das mãos.

«Não te sinto o coração velho madeiro. Mas dar-te-ei o meu.»

E foi assim que vi nascer o que na altura não entendia - A poesia, esculpida pelas mãos do meu avô.

«Clarice. Clarice, a tua avó meu rapaz.»

O meu avô Alberto era artesão. E poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Esculpiu os mais bonitos poemas, entre os quais a minha avó, que nunca cheguei a conhecer.
O meu avô Alberto não sabia ler, mas sentia. E sentir foi o que fez dele o maior poeta da nossa aldeia e o maior mestre artesão da história daquele lugarejo.

«A poesia não são palavras que rimam meu rapaz. São palavras que se sentem. Eu e a tua avó fomos poesia e os nossos nomes não rimavam.»

 

Desenganem-se aqueles que no papel, esculpem versos pomposos sem os sentir realmente por dentro.

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