Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Recomeço

Recomeço.
Não tenho outra estrada.
Lúgubre, a noite apressada
evoca-me o predestinado ofício.

 

Recomeço.
O lodo na pele,
sou estrume e fel.
sombra, penumbra, ataraxia;
bolor nos passos,
tropeços e compassos mudos...
Lua tardia.
Recomeço.

 

De horas ausente,
tarda o ponteiro
a norte.
Negligente, a sorte
que trago nas palavras vãs.
Recomeço.

 

Indolente e farto, o caminho
destino visinho
da podridão dos sonhos
que me arrasta...
desgasta...
devasta...
Recomeço.

 

R ...
eco
meço.

 

 

 

Fragmentos

Coalham, sílaba a sílaba
as palavras gastas,
como a sola dos pés que nos fez o caminho.
Na aldeia de onde vim,
o branco paz, outrora caiado,
estala agora no interior dos sonhos
que me sustentam as paredes.
Fendas abertas no pendulo do tempo.
Encostado à noite,
dorme o coração
ao relento,
no cume da montanha
onde, sem talento, arde a noite
gélida, frágil e só.

Do mar voam as cinzas,
uma a uma,
e só o silêncio navega
nas minhas entranhas ressequidas.
Já não luzem
as ondas matinais do meu cabelo
onde, para marear,
é preciso saber interpretar o sorriso das estrelas.


À deriva,
ainda por escrever,
ficaram prosas, versos e rosas
sem leito, esquecidas.
Quebradas as maravilhas,
no peito da Primavera semeadas,
nem a Alice nos salvou...
E como castelos de cartas desmoronadas
somos, senão mais,
e de volta ao início,
fragmentos do tempo
e dos lugares vazios onde sempre estivemos.

 

Terra Fértil

Veio o vento soprar-me ao ouvido de menina,
segredos de um país distante.
Cheirava a terra molhada
e a sonhos prometidos.
Não sei se era o futuro, ou a saudade
de tudo quanto ainda não vivi.
Se era uma ou outra,
qualquer coisa entre elas,
ou mais ou menos isso.

 

Estalava a madeira no prolongamento da madrugada,
como as cartilagens estalam aprisionadas no meu corpo.
Cheirava a despedida
e choviam passados lá fora.
Feitos de lágrimas, os Homens eram todos feitos de lágrimas.
Sem cheiro a terra molhada,
sem a candura poética
de quem sofre ou ama,
sofrega e desesperadamente,
ou de vagar, muito devagarinho, de mansinho
como passarinho em ninho de sonhos.
Nada. Nem uma coisa nem outra.
Tão pouco qualquer coisa entre elas.

 

Veio o vento soprar-me ao ouvido de menina,
a canção de um país distante.
Para lá da linha, para lá dos olhos,
para além da imaginação.
Se era o futuro ou a poesia, não sei.
Fusão de ambas, talvez.
És terra. Sou chuva.
Casa fértil, sonhada para lá do horizonte.
Nosso, o jardim de terra molhada, onde brotam sonhos
com cheiro d'amor.

 

Vieste tu soprar-me ao ouvido de menina,
a poesia do coração.
Demos as mãos...
... hoje, ainda cheira a terra molhada!

Travessia

Atravessar a humanidade deserta,
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela,
que pela janela 
- baixa-mar dos meus olhos - 
entra serena.
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram?
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada.
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina,
gritar como o silêncio
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão 
de um poema vivo.
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes,
o luar, o amor e o acreditar que
externa, do lado oposto do mundo,
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.

 

Bom Dia Primavera

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada,
respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas
(que te espreitam)
à janela do casaco que vesti.

 

- Não me queiras sem Inverno,
prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me,
aí fora
no meu tempo.
Chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.

 

Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

 

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

A Memória das Mãos Nunca Esquece a Paixão

Leonid+Afremov+%5BЛеонид+Афремов%5D+-

 

Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam.
Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos ao quilometro trinta e sete daquela estrada.

- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - nem qual o destino que os espera. Toda a vida vivi intensamente cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje, já calejado da vida, me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, o volume dos seios e a carne dos lábios, de olhos fechados.

Eurico rodou o banco de lona verde escura ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele, com a ponta do meu indicador, e lhe medisse a profundidade.
Quanto mais profunda, mais longa era.

- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir, para além de ti e de um vazio que nunca poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi, mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal, sempre que na demora da ausência, recordares uma mulher e, de olhos fechados, lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não amar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.

Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.

- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.

Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:

- Deve ser ali o lugar para onde vão, para o sítio onde o sol se põe. Com a pressa de chegar, nem reparam como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão, rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!

 

Ela

Nunca precisarás da cor dos seus olhos, se a olhares para além deles. Nunca precisarás do contorno do seu rosto, mas sim do esboçar do seu sorriso. Não te sentirás sozinho se não ouvires a sua voz, mas sentir-te-ás sim, se não lhe sentires o coração.

 

Nunca te sentirás perdido mesmo que a percas de vista, se for nela que te encontras. Nem nunca caminharás só, porque a terás sempre ao teu lado.

 

Por vezes o vento sopra, é verdade, aproveita-o, vê como lhe remexe os cabelos e lhe toca suave a pele. Por vezes chove, mas repara como ela dança na chuva.

 

Nunca sentirás a sua falta, poderás sim, sentir a falta do seu coração, porque é lá que irás morar. Irás sentir muitas vezes que o silêncio fala e ouvirás nele a voz doce dos seus sonhos. Da menina que a dormir ou acordada fecha por momentos os olhos e torna tudo real. Mas nunca irás sentir a sua falta, poderás sim, sentir a falta de quem ela te fazia sentir.

 

E um dia vais olhar para trás, não conseguirás ver mais do que meia dúzia de pegadas, mas ela será capaz de retirar de todas a melhor imagem, do caminho os melhores momentos, conseguirá escrever a plenitude da história na estrelas e pedirá ao Sol que se ponha, apenas para a deixar a vossa história brilhar. Pedirá ao mar que cante para ti se a voz lhe falhar, à Lua que te sorria caso ela esteja a chorar e ao mundo que te proteja, se algum dia ela falhar.

 

E como tudo na vida tem um lado bom, é para esse que ela te ensinará a olhar. E será, desse mesmo lado, que ela permanecerá.

 

Ser-se mais qualquer coisa

Primeiro esgotaram o tempo
sem parar e tirar o relógio.
Esses que vivem agora sem espaço
cronológico.
Seguem já sem propósito
não sonham, não sentem
não falam só mentem
a si próprios, devastados.
Seguem a corrente de gente
que se diz cansada
de ser quem é! 
Já sem querer ser mais qualquer coisa.

Sabem lá de si,
do tempo e do espaço onde ficaram
os sonhos que nem começaram
a sonhar. – Quanto mais a viver. 
Ouvem e repetem como se fossem suas
todas as queixas
todas as deixas
de alguém que as escreveu para se expressar.
Já não sabem sentir. 
Já não sabem pensar. 
Já não sabem falar por si. – Há que citar
quem ainda vive, ou viveu 
com tempo para ser mais alguma coisa.

22291135_10210055438039395_7127447898630062328_o.j

 

 

A última a morrer

Chego-te, através do horizonte,
leve, ténue e casta brisa
profetisa,
envolta em névoa que solta,
te toca sem te tocar.
Em tudo me sentes.
Em nada me vês.
Mas crês que existo
e que de longe venho
contendo arte e engenho
(não olhas para trás).

 

Três passos mais perto
do fim do deserto
e miragem, ainda sou...
Reflectindo uma imagem
de sonho e coragem
que contigo acordou.
Não páras.
Sempre adiante,
filha de um acreditar constante
(não há tempestade que te apague).

 

Ao longe, o horizonte
em ti, uma fonte
onde bebes de mim...
... crês-me, sem fim
e chamas-me Esperança

Em Frente

Em frente, olha em frente para o caminho
dos lados, nada. Apenas uma mão
que se estende e te leva, calmamente e adiante
pelos buliçosos e cegos caminhos do coração.

Olha em frente para o destino,
para lá da curva da estrada, das intempéries idas
e do nevoeiro das manhãs outonais, que se esvai
tão depressa quanto a própria vida,
distraída, por aí…

Em frente!
Mesmo quando não vês
mais do que o ontem, talvez
possas abrir as cortinas
e pintar a aguarelas as memórias findas
e escrever degraus em verso,
aqueles de onde caíste, avesso
a tudo o quanto tinha que assim ser.
… e continuar a vencer
… e continuar a crescer
… e continuar a sorrir
… a amar e a sentir
que é em frente o caminho a seguir.

Olha de fronte para o sol,
mesmo que cego estejas
p’la escuridão onde viveste.
E respira devagar a Primavera
que te espera, para lá das minúsculas misérias
de uma Era de tragédias apressadas,
galgadas que foram as margens do valores
ancestrais e dos princípios boreais
da aurora da humanidade.

Em frente, olha em frente para o caminho.
Nunca nele estarás sozinho,
se souberes coser em abraços
os laços que jamais se irão desfazer.
Em frente, por onde a soma de dois é um
e o amor é o lugar comum
ao coração dos Homens
que em jejum, renunciaram à aceitação
do afeto.

Em frente.