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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Um combóio, três malas, vinte e nove degraus e eu

Fechei com cuidado a última mala, lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias, por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço recentemente desguarnecido, sem qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Vinte e nove degraus descendentes e um comboio para apanhar.
Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém deixara aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem.

 

«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»

 

Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela porta. Pousei no chão as malas, mais leves do que eu me sentia e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.

 

«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»

 

Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, os amores que morriam, as almas que definhavam, as crianças que sorriam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas seguirem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo comboio.

 

Também os comboios são uma constante da vida.

 

Um comboio, três malas e eu, após vinte e nove degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.

 

«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»

 

Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, vinte e nove degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos e corações, por aí...

 

Ser ou não ser... Eis a questão!

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Lewis Carroll, in Alice no País das Maravilhas

 

 

 

 

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.


- Fernando Pessoa -

 

 

Nasci uma, duas, três, quatro ou cinco vezes. Talvez mais, em vinte e nove anos de existência.
Descobri-me a mim e ao mundo, a cada um dos meus nascimentos. Reaprendi-me e reaprendi outros, tantos quantos na minha vida ainda hoje presentes estão, ou passaram...
Fiz-lhes, também a eles, o luto em diversas ocasiões, assim como assisti aos seus posteriores nascimentos (de alguns, de outros limitei-me a funerais).
Quem nos diz que somos os mesmos ao longo das experiências e vivências, pelas quais aqui, ao mundo, viemos?
Eu fui quem no presente já não sou. E sou, quem no passado não teria bagagem para poder ser. Sou um acumular de experiências e acontecimentos, de pessoas, realidades e aprendizagens. Constantemente mudo e me transformo, tangente a tudo o que me molda e envolve, me vive, me sente e me faz.
Tive uma dezena de mães, e irmãos foram tantos quantas as Ritas que com eles nasceram. Cá em casa, já não vivem os mesmos. Ainda ontem nos sentámos à mesa, os atuais, não os de outrora, voltando à descoberta uns dos outros.
De amores, também com eles nasci e morri. Sendo que, relativamente a mim, de igual forma assim lhes sucedeu.
As amizades, as que o tempo não esborratou, como borrões de tinta aos quais já só recordamos a cor, também sofreram metamorfoses. Umas vezes lagartas, outras borboletas de asas vivas.
Já exorcizei, já matei e já enterrei em valas comuns pedaços de mim. Através de palavras, é certo. Não às armas! Sim ao amor e à poesia de cada momento.

Partilhar a vida, conosco e com os demais, implica e sempre implicará ajustes, cedências, momentos de individualidade, outros de partilha, flexibilidade, mudança e aprendizagem. Erros, acertos, despedidas, chegadas, finais e novos começos.

Não somos os mesmos: filhos, mães, pais, irmãos, netos ou avós. Maridos, mulheres, namorados ou companheiros. Amigos, vizinhos ou colegas. Não somos nós, os mesmos que fomos ou viremos a ser. Também não o são, aqueles que ao nosso lado ou em redor, se encontram.
Nada é permanente. Sendo nós o resultado de Tudo.

 

 

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

 

- Álvaro de Campos 

 

Nas letras dos meus sonhos

 Hoje levo-vos novamente ao baú. Recuemos aos meus 15 anos... Sonhar, sonhar, Sonhar!

Não sei porque escrevo,

porque sonho as letras,
porque canto as vírgulas,
ou porque ondulo nas frases
sem nunca chegar a um ponto.
Não sei porque vivo um texto,
nem porque desejo um conto
que nunca começa nos Às,
tão pouco termina nos Zês.
Não. Não quero parar!
Quero continuar a saltar
barreiras de capítulos;
escalar páginas sem cume,
remar ao sabor das sílabas
que ardem no meio do lume.
Quero partir das reticências,
sem nunca alcançar os dois pontos.
Trepar interrogações,
abraçar as exclamações…
e sem perder o ritmo,
escrever milhares de contos.

 

Quero casar com os nomes,
e ser íntima dos verbos,
quero namorar os pronomes
e fazer dos determinantes meus servos.
Quero ser chefe de imprensa
e quero, para sempre, sucumbir ao Poeta.
Quero uma prosa imensa,
não quero um ponto na meta!

 

Já li toda a Epopeia
e escreverei duas ou três,
sem perder a consciência
que no meu sonho de menina
era tudo "Uma Vez"!