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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

O Teu Sol

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O sol ainda nasce e se deita no mesmo horizonte, nos braços do mar. E ainda guarda a cor da vista daquela janela, que os meus olhos abriam para os teus.
Eras tu e o fim da tarde. Ganhavas tu, sempre que os dias se despediam num clarão de sol, que do teu sorriso se soltava.
O piar das gaivotas, a respiração salgada das gotas que o corpo da minha lembrança embala. Faltam-me as asas. Falta-me o céu como passaporte para rasgar o vento e pousar levemente no beiral noturno da tua janela. Anseio por voltar a casa, espaço meu no teu peito.
Do tempo do amor sem pressa, não ficou nada para além de nós, para além da vista de uma janela que nunca é a mesma quando o peito se abre. Diz-me, para quê fugir se não temos abrigo?
A campainha do apartamento que fomos permanece avariada, as chaves dos sonhos pousadas, o elevador da vida por concertar. E pelas escadas inacabadas, descalços, chegamos ao céu?
Não voltámos à janela, nem arrumámos a desorganização do espaço que o nosso amor ocupa. O caos, assim como o mar, não depende dos olhos de quem o vê, mas da extensão do amor que nos invade quando uma janela se abre.
O sol ainda nasce e se deita no mesmo leito, iluminando os magestosos jardins dos nossos planos.
... Onde estamos?

 

Um combóio, três malas, vinte e nove degraus e eu

Fechei com cuidado a última mala, lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias, por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço recentemente desguarnecido, sem qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Vinte e nove degraus descendentes e um comboio para apanhar.
Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém deixara aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem.

 

«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»

 

Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela porta. Pousei no chão as malas, mais leves do que eu me sentia e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.

 

«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»

 

Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, os amores que morriam, as almas que definhavam, as crianças que sorriam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas seguirem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo comboio.

 

Também os comboios são uma constante da vida.

 

Um comboio, três malas e eu, após vinte e nove degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.

 

«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»

 

Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, vinte e nove degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos e corações, por aí...