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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Amor Azul

Oiço-o bater, frenético. E ainda não são sete da manhã.
Sinto o acomodar da angústia no meu peito, travesseiro de sonhos que me levam. Ainda não são sete da manhã e já a vejo, a luz da angústia, atravessar a janela ferida.
Atrás dos meus olhos, crivadas, as palavras pouco claras e as memórias nítidas. Não há muito que possa fazer. Apenas deixa-las ficar.


A vida tem o rosto de um jogo macabro, como uma pedra que morre. E nós não somos mais que fuligem.

 

Semeia-me flores lá fora e pinta-as de azul, porque todas as restantes cores sangram antes do amanhecer.
Diz-me quem és.
E quando os sons dos risos dos sonhos ainda ecoarem em ti, volta a dizer-me quem eras.

 

Sucumbo como uma rosa a quem o amor espera do lado de fora do quarto. A vida não segue um curso claro. Onde estão os lugares e os rostos que me deveriam deixar pegadas na pele?
Ainda se o amor chegasse com o orvalho da manhã azul…
Semeia-me flores lá fora.
Passarei a olhar para elas antes mesmo de o dia nascer. Alimente-as a chuva da Primavera que, para a fazer chegar, eu uso as borboletas.

 

Do meu amor não sei...mas flui dentro de mim. Já passa das sete da manhã.

 

Cerca-te de Pessoas que Te Inspirem

 

Pessoas. Terás sempre pessoas ao teu redor. As certas e as erradas.

 

Serás obrigado a aprender a escolher entre quem te vai influenciar positivamente e entre aqueles que pouco, ou nada, te acrescentarão. Serás obrigado a perceber quem são as pessoas que te elevam e quem são os negativos que te enfraquecem.

Chegará o dia em que sentirás necessidade de te rodear de pessoas mais inteligentes do que tu. E de sentir - apenas - as energias mais positivas e gratificantes, capazes de te acrescentar valor à vida. Pessoas que elevam, que te desafiam e te estimulam o pensamento, aguçam a sede de conhecimento e são uma lufada de ar fresco quando falamos em mentalidade. Pessoas com a capacidade de te fazer olhar para o mundo de forma diferente e, cujo caráter, segue uma linha idónea, a par do teu. Pessoas cuja presença seja um contributo para que te possas tornar, a cada novo dia, alguém melhor.
Pessoas que sabem utilizar tão bem o cérebro, quanto o coração. E estão contigo (e por ti) sem qualquer obrigação.

 

Estas são as tuas pessoas. Fundamentais para o teu crescimento e desenvolvimento pessoal. Para que a tua inquietude seja uma característica construtiva e jamais te impeça de respirar fundo e enfrentar os desafios naturais da vida.

São, também, quem te fará aprender que aquilo que recebes não será mais do que apenas o eco daquilo que emites. E que os locais que frequentas e o teu ciclo de influências interferem directamente com
o teu astral.

 

Quem queres ser? Quais são os teus sonhos e metas?
Quem são os que contribuem - sempre - para lá chegares e quem são aqueles que te desviam do caminho? Ou se ausentam nos momentos mais críticos?

Cabe-te a ti escolher as pessoas com quem te relacionas e saber atribuir-lhe o grau certo de importância e influência na tua vida.

 

Cabe-te a ti saber escutar o coração, mas é também teu dever saber ouvir as vozes certas. (As que te dizem o que precisas de ouvir e não aquilo que gostavas que te dissessem).

 

 

Há quem por ti passe tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.

 

O cansaço onde moro

O cansaço
onde tenho casa,
à beira do náufrago verão,
chegava com o fim do dia
a bordo do teu coração;
de doçura fatigado, bebia
o que de azul se reflectia nos espelhos
e partia...
sem me deixar.

 

Anoitecia.
E eu vinha de longe,
- Olhos de mar a sul -
para te dar
o que em mim de brilho havia
e iluminar
a hora errante.

 

O cansaço
onde fiz casa,
tem na morada o teu peito...
já sem leito para me sonhar.

 

Espera agora, a minha dor, por ser ave...
... e voar! 

 

 

Viagem Minha

Abro os braços na extensão da noite,
envolta no silêncio que de mim se inteira.
Ensurdece-me o rasgar de pensamentos
e cega-me, na escuridão, a nitidez de uma imagem

que me arrepia o corpo, ao recordar a viagem

vivida em ti, no suspiro de um momento.

 

Na passividade do céu
gritam em mim os teus contornos,
traços que a nudez da madrugada esculpiu;
E eu começo onde o toque não termina,
na submissão de um instante que culmina
no desejo com que a noite me despiu…
o coração!

Enlaces

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Éramos, talvez crianças, sempre que as mãos se entrelaçavam e sorriam - as tuas - ao largo dos meus caracóis.
Éramos, talvez a esperança, quando o olhar se cruzava e os meus olhos me inundavam de verde mar.
Éramos, talvez rebuçados, sempre que os lábios se encontravam, na curva dos beijos roubados, ao sol poente.
Éramos, talvez a corrida, sempre que soava a partida e me acompanhavas o rosto à janela.
Éramos, talvez o amor, de mãos dadas a correr em direção à loja das guloseimas.
Éramos, talvez a vida, que só é sentida quando damos as mãos.

Fizemos o mar...

Não tenho mais do que o sonho em que adormeço. E que me envolve, apertando seguro, o peito que aberto arde. Invariavelmente diferentes, os versos que me fazem, a ti os dei, como o mar oferece à Lua o seu reflexo.
Éramos só nós. Inconfundivelmente desenhados no cândido voo das gaivotas livres, manchando o céu, despertando a aurora do amor. Nos teus braços de poeta, rimou o meu coração com as histórias enamoradas onde nos deitei. Nascíamos ao pôr-do-sol, ao ritmo das estrelas claras e adormecíamos no horizonte do amanhã, depois do breve, mas lento momento em que o céu e o mar se fundiam.
Navegadores ao largo, fizemos o mar.
De marés vivi, assolada pelas ondas marginais de um amor que me fez naufrago o peito. Faz frio. O vento corta e coração arrefece, padece, falece…
Não tenho mais do que as memórias, nuvens e insónias de tudo o quanto de nós ficou. Nada nos deixa, tudo se transforma, na medida extacta das asas das gaivotas, agora em terra.
Abortados os voos, permaneço ao largo, na praia que existe em mim. Neste repetir do verso final que sou. De peito aberto e ferido…


Dói-me o amor.

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Fragmentos

Coalham, sílaba a sílaba
as palavras gastas,
como a sola dos pés que nos fez o caminho.
Na aldeia de onde vim,
o branco paz, outrora caiado,
estala agora no interior dos sonhos
que me sustentam as paredes.
Fendas abertas no pendulo do tempo.
Encostado à noite,
dorme o coração
ao relento,
no cume da montanha
onde, sem talento, arde a noite
gélida, frágil e só.

Do mar voam as cinzas,
uma a uma,
e só o silêncio navega
nas minhas entranhas ressequidas.
Já não luzem
as ondas matinais do meu cabelo
onde, para marear,
é preciso saber interpretar o sorriso das estrelas.


À deriva,
ainda por escrever,
ficaram prosas, versos e rosas
sem leito, esquecidas.
Quebradas as maravilhas,
no peito da Primavera semeadas,
nem a Alice nos salvou...
E como castelos de cartas desmoronadas
somos, senão mais,
e de volta ao início,
fragmentos do tempo
e dos lugares vazios onde sempre estivemos.

 

Um combóio, três malas, vinte e nove degraus e eu

Fechei com cuidado a última mala, lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias, por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço recentemente desguarnecido, sem qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Vinte e nove degraus descendentes e um comboio para apanhar.
Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém deixara aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem.

 

«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»

 

Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela porta. Pousei no chão as malas, mais leves do que eu me sentia e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.

 

«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»

 

Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, os amores que morriam, as almas que definhavam, as crianças que sorriam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas seguirem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo comboio.

 

Também os comboios são uma constante da vida.

 

Um comboio, três malas e eu, após vinte e nove degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.

 

«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»

 

Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, vinte e nove degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos e corações, por aí...

 

Solidão

"Fomos longe demais, para voltar aos canteiros onde há Rosas." - Pedro Homem de Mello

 

Vestia um casaco longo e pesado, como os anos que contava. Frias, as mãos expostas, ainda acenavam às crianças que brincavam.
De poucas palavras e feições ausentes, raras seriam as ocasiões em que a presença lhe era notada, nos diversos lugares onde efetivamente se encontrava. Um casaco longo e pesado e um par de mãos frias e expostas eram, indubitavelmente, naquelas tardes de Primavera, um lugar comum, onde diversas Rosas habitavam.
Dona Rosa, seu nome, doava com frequência o que de si restava no coração. De braços imóveis, estendidos, caídos e longos como o casaco que vestia, acenava, por vezes com o olhar, e procurava nas mãos quentes de quem com ela se cruzava, ternura.

Esperança e um gesto de mãos, um carinho directo ao coração, retribuído.

De ombros curvados, acompanhando o peso da solidão vazia que vestia, confundia o seu próprio nome com as flores frágeis, desfolhadas depois de mortas, dos ramos delicados que se ofereciam. Sem espinhos nem rosas permanecia, Dona Rosa, de mãos expostas e alma vazia.

 

Dona Rosa, um entre tantos outros nomes de que a solidão se veste, muitos conhecem. Mora até em nossas casas, sob o peso de um casaco comprido que curva o coração e lhe expõe, frias, as mãos da Primavera.

 

 

 

 

Quero

Quero querer, ou será que queria,
um dia...
esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência,
em que a distância é lugar onde habito,
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos
com que o coração se vestiu,
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo
quero-te!