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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

O cansaço onde moro

O cansaço
onde tenho casa,
à beira do náufrago verão,
chegava com o fim do dia
a bordo do teu coração;
de doçura fatigado, bebia
o que de azul se reflectia nos espelhos
e partia...
sem me deixar.

 

Anoitecia.
E eu vinha de longe,
- Olhos de mar a sul -
para te dar
o que em mim de brilho havia
e iluminar
a hora errante.

 

O cansaço
onde fiz casa,
tem na morada o teu peito...
já sem leito para me sonhar.

 

Espera agora, a minha dor, por ser ave...
... e voar! 

 

 

Antes Existir

Passos frios,
de pedra em pedra, calçada
desgastada pelas solas do silêncio
amargo e profundo, mel no olhar derramado,
lentamente, à passagem das mãos vazias
pelos dias.
Vai tudo dormir.
Ouve-se o reflexo da lua no mar
r e v o l t o. E o amor antigo 
que os cascos dos navios fazem 
com a tempestade.
Vai tudo dormir.
Os jardins descansam.
Cheira a melancolia.
Travo a estrelas cadentes,
nos bolsos guardado;
enjeitado sonho taciturno, 
passeio noturno
pelo calçadão da vida. 
Vai tudo dormir...
... quando um dia se abate
o lençol de pedra sem arte:
- Antes existir!

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Pintura: Crepuscular Homem Velho, 1918 por Salvador Dali

 

 

Combóio fantasma

 

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Ao meu lado um lugar vazio. Existia sempre um lugar vago, frívolo, carente ou frustrado.
Um homem de fato fingido. Um rosto bem feito de saudade. Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado. Um olhar translúcido e hiato que me fitava disfarçadamente.

 

Uma carruagem lotada num comboio que parou. Uma avaria que fazia antever um atraso de vinte minutos, mas que o acelerou. Contraditório? Talvez. Consistente, porém, o contraste entre o elevar das vozes e os sofridos nós nas gargantas.
Respirava-se sofregamente, bufando palavras de desagrado, que se traduziam nas mais variadas frustrações diárias.
Uma revista caiu. Estendeu-se uma mão, que vi desaparecer entre as páginas despidas de vida. Um chapéu voou, na procura pela liberdade de pensamento. E aqueles óculos diante de mim, flutuando no ar, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, nervosamente inquietos? Procurariam olhos capazes de ver (através deles)? O choro de uma criança que percebi, não reconhecia o batom da mãe que, num vermelho escarlate, lhe gritava o atraso. E ao fundo à esquerda, ora de fronte para mim, ora enfrentando a realidade, uma gravata azul escura, bem apertada, que depressa entendi ser a forca de um farda desgastada.

 

Ouvi o barulho do meu silêncio ocupar a carruagem nos quinze minutos que se seguiram à observação atenta. Ainda me restava um quarto de hora e o mundo parado. Tempo individual e necessário à reflexão, do qual não abdicaria.

Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.

 

O revisor anunciou “Senhores passageiros, a avaria encontra-se reparada. Previsão de chegada ao destino às oito horas e cinquenta e oito minutos”.
O comboio avançava e cinquenta e oito era, também, o número exato de vidas que continuariam por consertar. Afinal, nem eu havia compreendido, até ao momento, que o lugar à noite vazio ao meu lado eras tu quem o ocupava.

Espectro

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As rugas pareciam iluminar-se, a partir de dentro,
acompanhando o compasso provecto
de um coração muito antigo, 
albergado às portas da cidade deserta. 
Parado, o tempo, ostracizado pelas ruas de pranto, 
em enchorradas de encanto outrora navegadas
pela memória de travessias e seduções,
naufragadas no esquecimento
secreto de um velho palpitar. 
Pareciam iluminar-se, a partir de dentro, 
as memórias loiras das raparigas antigas...
e o olhar.
Pareciam iluminar-se, a partir de dentro, 
as janelas da casa do amor
... ao recordar.