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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Amor Azul

Oiço-o bater, frenético. E ainda não são sete da manhã. 
Sinto o acomodar da angústia no meu peito, travesseiro de sonhos que me levam. Ainda não são sete da manhã e já a vejo, a luz da angústia, atravessar a janela ferida. 
Atrás dos meus olhos, crivadas, as palavras pouco claras e as memórias nítidas. Não há muito que possa fazer. Apenas deixa-las ficar.


A vida tem o rosto de um jogo macabro, como uma pedra que morre. E nós não somos mais que fuligem.

 

Semeia-me flores lá fora e pinta-as de azul, porque todas as restantes cores sangram antes do amanhecer.
Diz-me quem és. 
E quando os sons dos risos dos sonhos ainda ecoarem em ti, volta a dizer-me quem eras.

 

Sucumbo como uma rosa a quem o amor espera do lado de fora do quarto. A vida não segue um curso claro. Onde estão os lugares e os rostos que me deveriam deixar pegadas na pele? 
Ainda se o amor chegasse com o orvalho da manhã azul…
Semeia-me flores lá fora.
Passarei a olhar para elas antes mesmo de o dia nascer. Alimente-as a chuva da Primavera que, para a fazer chegar, eu uso as borboletas.

 

Do meu amor não sei...mas flui dentro de mim. Já passa das sete da manhã.

Um combóio, três malas, vinte e nove degraus e eu

Fechei com cuidado a última mala, lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias, por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço recentemente desguarnecido, sem qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Vinte e nove degraus descendentes e um comboio para apanhar.
Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém deixara aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem.

 

«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»

 

Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela porta. Pousei no chão as malas, mais leves do que eu me sentia e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.

 

«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»

 

Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, os amores que morriam, as almas que definhavam, as crianças que sorriam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas seguirem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo comboio.

 

Também os comboios são uma constante da vida.

 

Um comboio, três malas e eu, após vinte e nove degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.

 

«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»

 

Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, vinte e nove degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos e corações, por aí...

 

Remendar cadáveres com poemas

Vi, em vida, morrer o mundo
trespassado por balas perdidas;
vidas vencidas pelo cansaço a tombar na calçada rotineira
onde, rasos, os passos cediam ao vazio.
Vi, atear-se a fogueira na foz do rio sonhado,
navio de pólvora atacado por piratas de coração à deriva.
E numa tela, fogos de artifício à janela
de todos quantos por ali espreitam
e se enjeitam, sem ar
até ao lançar do infortúnio morteiro.
Sobrevivi, remendando um cadáver com poemas...
... e renasci
alinhavando mais dez. Cem. Mil.
Mas não chega, mundo senil!
Tragam-me o mar e a calma, é preciso cosê-los com alma
aos pedaços de céu, ao epicentro da vida!

 

O regresso de um estranho

 

 

 

Para trás deixava metade de uma vida e de mãos a abanar e passo leve seguia adiante, pela estrada de terra batida.
O sol subia apressadamente à sua frente, iluminando-lhe o rosto gasto e cansado, sem cor de gente. Um Zé Ninguém - assim se autointitulava.
Num esforço desmedido, evitava olhar para trás. Não queria deixar memórias, tão pouco fazer-se acompanhar das mais recentes. Os antolhos mentais auxiliavam-no a limitar da visão lateral, forçando-o a olhar apenas em frente, sem correr o risco de se deixar levar por distrações ou tentações fáceis.

 Com sonhos no horizonte, seguia o Zé, noite e dia por caminho instável, umas vezes seco outras tantas lamacento, assim como os seus olhos. Mas sempre certo de que todo o esforço e sacrifício valeriam a pena no final.

"Afinal de contas, um caminho sem obstáculos nunca nos levou a lugar algum. E que outras funções existem num obstáculo, que não sejam fazer-nos parar de fronte ou levar-nos a querer ultrapassá-lo?"

 

Ninguém o vira partir, tal como ninguém o iria ver regressar sete anos mais tarde, àquele lugar. 
A mesma estrada de terra batida trazia Zé, agora Alguém, de visita. O mesmo passo leve, uma mão a abanar e uma criança pela outra.

“Benvindo às tuas origens.”

 

À entrada, o café do Adérito continuava igual. A garrafa de cerveja continuava em cima da segunda mesa a contar da direita, acompanhada do pires com meia dúzia de tremoços que as mãos do Chico da Parra, castanhas da terra, depenicavam.
Meia volta dada e à porta da igreja as mesmas vestes de domingo, aprumadas, os lenços a cobrir os cabelos presos em monhos das seis beatas à espera que o sino batesse as onze, para que se desse início à missa.
À esquina da rua, o senhor João ainda passeava o cão, o Esteves continuava sentado no banco a ler o jornal do dia anterior, a dona Deonilde estendia as meias do marido e a pequena Leonor rodava o seu vestido azul de folhos dançantes.

 

Zé, agora Alguém, com a criança pela mão, regressado fazia duas horas, continuava a percorrer a vila com os passos que a memória não desaprendera.
Pararam na tabacaria do Matias, ouviram parte do relato do jogo do clube da vila e Zé, agora Alguém, contou as mesmas 16 laranjas que pendiam da farta laranjeira do quintal da tia Maria. Tropeçou no mesmo degrau onde, durante a sua infância, tropeçava sempre que corria pelo pátio da escola. E desviando a cabeça lentamente para a esquerda, baixou o olhar na direção da criança que o acompanhava, verificando que também ela se havia ferido no joelho, tal como lhe era frequente acontecer a ele, em tempo idos.
Dirigiu-se a casa, mas não a encontrou. Seis ruas idênticas com casas de ambos os lados, todas elas iguais. Uma lágrima e as duas mãos a abanar. 

“Onde é que tu vais? Anda cá. Não saias de perto de mim.”
A criança dirigia-se à terceira rua, a correr, parando à porta do número 6. 

“A nossa casa é aqui.”
Imaginou o cheiro a café e o som do piano por ele próprio dedilhado. As túlipas ainda lá estavam, alguém as regara durante a sua ausência prolongada, pensou. E o baloiço também. Sentou-se com a criança no colo e balançou, como a vida. 

"Ainda fazes boas viagens, companheiro!"

Passou pelo largo central onde, outrora, se situava a sua livraria. A porta aberta prendeu-lhe a atenção e espreitou. O cheiro dos livros ainda permanecia intacto convidando-o a entrar. Sentou-se no chão diante da única estante que restava, com sonhos no horizonte. Ali se reencontrava. 

 

Porém, ninguém o reconhecera. Nem o Adérito, nem o Chico, tão pouco o senhor João ou o Esteves, a dona Deonilde, a pequena Leonor e o Matias. A tia Maria, coitada, já não via. E ele ali estava, de mão dada consigo próprio sete anos depois. Trouxera-se criança no regresso para melhor recordar a vila. Aos seus olhos nada mudara, excepto ele, o mesmo Zé, outrora Ninguém e agora Alguém, estranho para toda a gente.

 

Diante da estante de sonhos, retirou da segunda prateleira o quarto livro a contar da esquerda. Abriu-o e leu:

Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui.

Fernando Pessoa

Desencontros

 

 

 

Todos os dias se cruzavam. 

Carlos desenvolvera o hábito de o observar atentamente. As suas aparições diárias eram já inquestionáveis. Sabê-lo no autocarro das 07h15, era como saber-se a si, no mesmo autocarro, sentado de perna largamente cruzada, olhar pensativo, duas rugas de expressão vincadas a meio de um palmo de testa sisuda, a rigidez da sua face a denunciar algumas semanas de sorriso ausente e as mãos, inquietas, a transparecer o bulício interior.

Desciam, de segunda a sexta-feira, três paragens adiante à Grande Avenida, numa transversal à Rua do Passo. E de passo apressado percorriam a calçada, ainda escorregadia, sob o orvalho frio da manhã. Sem demora, o elevador abria as suas portas, na chegada ao terceiro piso de um edifício composto por linhas modernamente descontentes. Altura em que os dois homens se separavam.

Carlos fora recentemente eleito diretor de informação da revista para a qual trabalhava havia vários anos. Profissional dedicado e competente, dono de uma visão generalista, espírito lato e ímpar nas suas abordagens e desenvolvimento de novos projetos. Desde então, passara a despender demasiado tempo sentado àquela secretária. Os seus olhos, outrora abertos para o mundo, alternavam agora entre uma pilha de papéis à esquerda, a tela do computador ao centro, seguida do ressoar constante do telemóvel, da agenda que percorria de trás para diante e de uma nova pilha de papéis à sua direita.
Chegava ao nascer do sol e saía com a lua já alta no céu.

Todas as noites se cruzavam e Carlos desenvolvera o hábito de o observar atentamente - excepto naquela noite fria e chuvosa. Envolto pela névoa que se abatia sobre as ruas e sobre o seu semblante fechado, sentiu a falta de um rosto familiar, cuja presença, assumira ser já uma constante nos seus dias. Retirou, demoradamente, a mão esquerda do bolso do sobretudo para verificar o relógio. Não conduzia fazia três meses. Pediu um táxi. Meia noite e quarenta e cinco; um corpo cansado no banco traseiro, um rosto vago, tão vazio quanto as ruas àquela hora. 


Rodou a chave na fechadura, a porta deslizou e os seus pés seguiram-na de imediato. Trancou-a e percorreu o corredor em passos mudos, na direção do quarto; pousou a pasta, sentou-se na cama e descalçou os sapatos. Ao seu lado um rosto, a quem, por se sentir observado, devolveu a atenção.
Era Carlos quem no espelho se olhava sem se reconhecer. Do lado oposto, uns olhos familiares. Aqueles com quem se cruzava todos os dias. Os mesmos que via refletidos no vidro do autocarro, nas montras das lojas, nas portas dos prédios e no interior de um elevador espelhado. O seu rosto, agora diante de si. 

 

Desencontrados.