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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Travessia

Atravessar a humanidade deserta,
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela,
que pela janela 
- baixa-mar dos meus olhos - 
entra serena.
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram?
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada.
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina,
gritar como o silêncio
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão 
de um poema vivo.
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes,
o luar, o amor e o acreditar que
externa, do lado oposto do mundo,
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.

 

Quimeras

Quimeras!
Das janelas abertas,
telas brancas anoiteciam
e monocromáticas, figuras se erguiam
passando-me ao lado...
Alado bailado, só. Completamente só.

 

A noite descia rasa e descalça
para me sonhar na sombra inquieta e livre;
mas encalça a surdina das flores macabras
que me viviam no (para)peito
e desfeito, rolou o silêncio do vaso,
as cigarras e o acaso verde-azul
que ali nascia
Rua a baixo corria...
Rua a baixo sentia
as mãos ladras da noite vadia
devorarem-me, só. Completamente só.

 

Escorriam das paredes das esquinas Renacentistas
"Maldições Sobre Filósofos",
enquanto Descartes dormia
E a "Utopia" de Thomas More adormecia,
a par da noite que negra possuía
todas as cores da tela de Michelangelo,
"O Juízo Final" acontecia!

 

Sucedia que, por vezes,
traças vorazes lhe comiam negras
as vestes de cerimónia,
como punhais luzindo.
Rendilhado estrelado manto, sorrindo.
Ladainhas de estrelas, e delas fugindo,
as mártires sombras da madrugada caindo,
dizimadas pela luz das telas brancas
Janelas abertas
Quimeras!

 

Quero ir até à mais forte luz,
tocar-lhe e chegar além.
Cegar-me da escuridão
E quero findar-me no grau superlativo absoluto...
...
...
Quero reencontrar-me! Só.

 

É preciso (re)ensinar os pássaros a cantar nos beirais.
É necessária a melodia do dia ao nascer.

Morro-te

Morro-te. Não te cumpri.
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas,
me desviaram de ti.

 

Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento
que viste partir.

 

Morremos. Não nos cumprimos.
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar.
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

... Meu amor!

De amor se fez

Aproxima-te, de mansinho.
Suave e devagarinho.
Descontraidamente, como quem mente
ao silêncio que me consome
a alma nua.
Desfolhada que a vida me fez...
rosada a tez (pétalas de saudade),
que um dia vã se fez, na incerteza da hora.

 

Aproxima-te, de mansinho.
Traz o dia. E o sol. E as manhãs risonhas.
E o chilrear das aves lá fora. E o som do mundo.
A junção de todas as notas da vida a bater na vidraça.
Aproxima-te, devagarinho
para que eu não te veja chegar
e ocupar o lugar do silêncio
que ainda dorme no meu leito
e me deixa ao acordar.

 

Suave e de mansinho.
Devagar, devagarinho...
Para que o soalho de sonhos não ranja
e constranja - sem querer -
as notas soltas do choro da criança
que é o amor ao nascer.

 

A última a morrer

Chego-te, através do horizonte,
leve, ténue e casta brisa
profetisa,
envolta em névoa que solta,
te toca sem te tocar.
Em tudo me sentes.
Em nada me vês.
Mas crês que existo
e que de longe venho
contendo arte e engenho
(não olhas para trás).

 

Três passos mais perto
do fim do deserto
e miragem, ainda sou...
Reflectindo uma imagem
de sonho e coragem
que contigo acordou.
Não páras.
Sempre adiante,
filha de um acreditar constante
(não há tempestade que te apague).

 

Ao longe, o horizonte
em ti, uma fonte
onde bebes de mim...
... crês-me, sem fim
e chamas-me Esperança

A criança no meu peito

Andava nua pelo meu peito
a criança que brincava
e amava, a seu jeito
doce e terno, no fraterno
encanto dos seus caracóis
já extintos. Por entre as ervas do campo
e o cimento da cidade,
trazia a claridade no olhar;
e o verde que ao azul faltava
conjugar, com as ondas do mar
dos seus olhos.
Andava nua pelo meu peito
a criança que sonhava,
quando o sol despertava
e sempre que a lua a chamava
para voltar a dormir.
Andava nua pelo meu peito
a inocência da idade,
na vivacidade dos folhos
do vestido às flores, roubado
e embalado pelas melodias
do vento ao passar por mim.
Andava nua pelo meu peito
a ternura do abraço
que ainda guardo para ti…
Da menina que planta flores no jardim
da amargura, por não poder ser criança
fora de si.

(Queres ser criança comigo? - Perguntou-lhe, estendendo-lhe a mão.)

Rosas de sonhos do vento

Vestiu a capa negra da noite
que julgou, outrora ver esquecida
no jazigo das recordações inférteis
das intempéries d'outra idade vivida. 
Olhou-se ao espelho, 
reflexo baço, vazio e semblante sombrio
de quem afastou de si o sol.
Reconheceu-se a ela, mas não a mim;
(menina que roubava flores no jardim)
vestia farrapos de sonhos
e tinha o passar dos anos emaranhado nos cabelos. 
Sem nexo. 
Apenas enleio
numa história que releio 
e cujas páginas se desfolham, 
como rosas
a quem não deram prosas
nem versos d'amor, com o mesmo calor
da verde esperança
com que a mão do meu coração as roubou
esta manhã no jardim.

Dispostas agora diante de mim,
cinco rosáceas de sonhos
nítidos (no mesmo baço espelho vazio),
refletem assim, ainda tenras,
as pétalas rosadas da face miúda
de quem seduziu
a espera, fantasiando possibilidades
e probabilidades
e que por isso viu,
na mesa das agulhas de marear do navio,
o ponteiro girar aos sete ventos,
entre os cardeais pontos perdidos
… e parar a nordeste.

(Era uma vez uma menina que roubava rosas de sonhos ao vento).

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