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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Quando os filhos não têm um super-herói, mas sim uma super-guerreira

Elas são mães e pais, não necessariamente por esta ordem, mas em simultâneo. Super Guerreiras sempre com a espada numa mão e o coração como escudo na outra.

Esse é o seu papel principal, embora se desdobrem em tantos outros papéis num curto espaço de 24 horas. Não têm tempo para ler o guião, por isso improvisam. A intuição de que são dotadas raramente as deixa ficar mal e, quando se trata dos filhos, nem o cansaço as vence.

Enquanto são mãe e pai são também cozinheiras, lavadeiras, faxineiras, professoras, educadoras, amigas e companheiras, conselheiras, organizadoras, trabalhadoras num qualquer departamento, entidade, empresárias ou negociantes, são filhas, são amigas, vizinhas, enfermeiras particulares e médicas sempre que necessário, motoristas, jardineiras, anjos da guarda ou polícias, por vezes até cientistas, pagam contas, esticam dinheiro e inventam tempo para serem um bocadinho elas próprias, também.Tudo isto sem perder a pose de senhoras, num corpo feminino que aconchega os filhos no colo,  se moldam às cabeças no ombro, sem se esquecer que um dia já lhes deu de mamar.

São donas de um corpo e de uma mente com a flexibilidade necessária a cada nova situação e dsafio. A voz doce e meiga que os protege, com a necessidade pontual da autoridade que os alerta e coloca em sentido.

Super Guerreiras. Para elas não existem dias de folga, não existe um "toma agora tu conta deles para eu descansar", ou mesmo acompanhar as amigas num final de dia. Tudo para não falar de privar consigo mesmas e privilegiar de uns momentos sozinhas.

São a presença feminina assídua, perante uma ausência constante da figura masculina. Paternal dizem vocês. Discordo. A paternal é, na maioria das vezes, assumida por alguém que se intitula Mãe.

Aos filhos preenchem silêncios, para que estes não falem tão alto. Ocupam-lhe os momentos mortos para que eles não tenham tempo para sentir a falta de um pai ausente, mas também lhes ensinam que, para quem realmente importa, não existe ausência nem falta de tempo, que lembrar não é estar presente, que pai não é só um nome comum, nem um estatuto adquirido, mas sim um adjetivo caracterizador e complexo. Que os direitos são para quem assume os deveres e que uma pensão de alimentos não serve para uma mãe se governar, mas sim para ajudar a suprir as necessidades essênciais e educacionais de um filho. Ensinam-lhes que o dinheiro compra bens materiais, brinquedos e objetos supérfluos, mas não compra amor, carinho, amizade e atenção. Ensinam-lhes que sempre que o telefone não toca, nem a campainha da porta se faz ouvir, existe uma outra porta na vida que, apesar de tudo, não se deve fechar. Mas que só a atravessa quem realmente quer, sem necessidade de ser convidado a fazê-lo.

Acima de tudo e de qualquer outra coisa, ensinam e demonstram todos os dias úteis, feriados e fins de semana, a tempo e horas ou fora delas, que um coração de mãe é infinito.

A memória das mãos nunca esquece a paixão

 

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Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam. Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.

- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - tão pouco que destino os espera. Toda a vida vivi intensamente cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje, já calejado da vida, me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, a carne dos lábios, de olhos fechados.

Eurico rodou o banco de lona verde escura ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele, com a ponta do meu indicador, e lhe medisse a profundidade.

- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir... somente um vazio que não poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal sempre que, na demora da ausência, recordares uma mulher e, de olhos fechados, lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não cultivar, cuidar, amar e preservar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.

Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.

- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.

Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:

- Como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!


Espectro

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As rugas pareciam iluminar-se, a partir de dentro,
acompanhando o compasso provecto
de um coração muito antigo, 
albergado às portas da cidade deserta. 
Parado, o tempo, ostracizado pelas ruas de pranto, 
em enchorradas de encanto outrora navegadas
pela memória de travessias e seduções,
naufragadas no esquecimento
secreto de um velho palpitar. 
Pareciam iluminar-se, a partir de dentro, 
as memórias loiras das raparigas antigas...
e o olhar.
Pareciam iluminar-se, a partir de dentro, 
as janelas da casa do amor
... ao recordar.

Abandono

viúva persistente.jpg

 

Em terra de pouca sorte,
insípida p’las águas do pranto,
dizia o vento - que corria parado -
memórias cansadas,
ao entardecer da vida num banco
de praça, deserta e despida,
tricotando, incerta, a nudez
da memória de outrora, esquecida.

 

E à luz da janela improvável,
na cal já gasta esculpida,
vivia de língua amputada
o silêncio da despedida.

 

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