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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Fim de Linha

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como os ombros, carregando os anos
e a fome das respostas
que os romancistas prometeram,
mas que não acontecem, tal como a vida.
Páginas de gente que está, sem existir,
em histórias contadas sem acontecer.
Onde as frases narradas e não proferidas
são escritas para agradar ao nascer, com prazer,
ao mais solitário dos corações vagabundos
por aí...
De que adianta fazer perguntas a um estranho,
quando o mundo dos poetas não é palpável?
Utopias cíclicas, encadeadas e indissociáveis
do sistema solar onde lhes orbita a loucura.
Na verdade, nem a Via Láctea lhes chega!
É-lhes mais que preciso o buraco negro
para onde me arrasto,
sugada pela força centrífuga do devorador de sonhos
dos loucos que escrevem...

 

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como um romance, quando finda
e o coração descai
no verso de uma vida que termina
e se esvai... na leve pena de um poema.

Sobre um dia que não considero 'O Meu'

Sobre um dia que não considero 'O Meu', dada a existência de outros 364 dias ainda por conquistar.
 
 

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Para contextualizar:

A ideia de se instituir o Dia Internacional da Mulher surgiu nos finais do século XIX e inícios do século XX nos Estados Unidos e na Europa, no âmbito das lutas e movimentos levados a cabo em prol dos direitos das mulheres. Como sejam a luta pela igualdade de direitos económicos, sociais, trabalhistas e políticos (onde saliento a luta pelo direito ao voto).
 
Movimentos que tiveram início a 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, com repetição a 8 de Março de 1908. Ambos violentamente reprimidos pela polícia.
Foi também nesta mesma cidade que, a 8 de Março de 1909, se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher.
 
Seguiram-se países como a Rússia, Suécia, Alemanha, Reino Unido, França e Japão.
A Nova Zelândia foi, em 1893, o primeiro país do mundo a conceder o direito de voto às mulheres. Conquista resultante da luta de Kate Sheppard, líder do movimento pelo direito de voto das mulheres neste mesmo país.
 
Só em 1951 foram estabelecidos, pela Organização Internacional do Trabalho, os princípios gerais com vista à igualdade de remuneração entre homens e mulheres, para o exercício da mesma função.
E vinte e seis anos depois, decorria o mês de Dezembro de 1977, foi a vez da ONU adoptar o Dia Internacional da Mulher, como chamada de atenção para as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres. Faz, portanto, quarenta e um anos!
 
Ora muito bem, tanta referência histórica porquê? Para fazer lembrar, exatamente, que muito já foi conquistado, mas que tanto (ou mais) está ainda para o ser, no que à igualdade de género diz respeito.
 
Senão vejamos.
  • Estamos em pleno século XXI e a escravatura sexual continua a existir, o uso da burka continua a ser obrigatório em determinados países e a proibição da mulher sair à rua sem se fazer acompanhar pelo marido ainda se mantém.
  • Estamos em pleno século XXI e continuam a surgir notícias sobre abusos, levados a cabo pelos militares presentes nas zonas fronteiriças, sobre mulheres e crianças refugiadas.
  • Estamos em pleno século XXI e o número de denuncias à APAV (Associação de Apoio à Vítima) ascende. A igualdade salarial ainda é uma miragem, assim como a igualdade no desempenho de determinadas funções e cargos ocupados.
  • Estamos em pleno século XXI e vai longo o caminho que visa o equilíbrio entre os dois géneros, no que às tarefas domésticas e à educação dos filhos diz respeito. Estamos em pleno século XXI e ouvem-se barbaridades a respeito das mulheres, vindas da boca de gente desumana, detentora de altos cargos políticos, ou mais grave, de gente desumana no poder.
 
“Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso.” disse-o e bem E. Burke.
 
  • Estamos em 2018 e a mulher continua a ser vista como o sexo mais fraco, sendo repetitivamente interpelada com afirmações machistas, de assédio ou passando à exclusão, nos mais variados temas, através de afirmações como “és mulher é diferente”, “isso não é tema para mulheres”, “és mulher, és mais fraca”, “já viste como estás vestida?”, “isso é tarefa de mulheres”, “as mulheres são um fardo quando engravidam”, entre tantas outras do vosso total conhecimento e consentimento.
 
[A respeito das sociedades desenvolvidas, o mais cego é aquele que não quer ver. Já no que às sociedades subdesenvolvidas diz respeito, o peso da responsabilidade, ao mundo inteiro pertence. Mundo esse que, de olhos vendados,  não quer ver.]
 
Decorre o ano de 2018 e os patrões oferecerem, na presente data, uma flor às suas funcionárias como forma de as homenagear… (por serem mulheres?).
Mas digam-me, será necessária a celebração deste dia para tal acontecer? Será necessária uma data para fazer lembrar aos mais esquecidos o que é ser mulher e quais os seus direitos? Sim, não falemos somente em deveres, que por sinal são equiparáveis aos do sexo oposto.
Será, porventura, necessário às próprias mulheres festejar um dia como este com jantares, festas e afins, contribuindo para que o verdadeiro mote destinado à existência deste dia caia por terra, perdendo o seu significado original e adquirindo um propósito fútil de caracter festivo e comercial?
 
Ou será necessário às mulheres e à sociedade em geral, a sua luta contínua por uma afirmação ininterrupta, ao nível das mais diversas patentes sociais, pessoais, económicas e políticas, de forma igualitária e justa?
 
Sem querer ferir susceptibilidades, e como mulher que sou, feliz serei quando não for celebrado este dia, mas sim todos os restantes, sem aparato. Feliz serei, sempre que não sentir ser obrigação, por parte de um homem, felicitar-me ou homenagear-me, a cada dia 8 de Março, por ter nascido mulher. Feliz serei, quando qualquer um dos restantes 364 dias for motivo para agradecer ao género feminino todas as suas lutas, conquistas e mudanças na sociedade.
 
É este o meu propósito em ser mulher. Lutar. Vencer. Conquistar. Igualar. Equilibrar. Mudar.
 
Por tudo isto e muito mais, hoje não é o meu dia! O meu dia serão sim, os demais que o ano tem. (Talvez não pára já, mas estou certa de que, na devida altura, tal acontecerá).
 
(Texto escrito a 9 de Março de 2017, hoje actualizado e republicado).
 

Monte Tradicional Alentejano - Um pouco de história e tradição

 

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Quando se fala em Monte Alentejano, somos inevitavelmente remetidos para uma sensação de tranquilidade, sossego, descanso, harmonia mas, também, de isolamento. Na verdade, foi extamente esse o príncipio que deu origem à estrutura conceptual do Monte Alentejano, tal como o conhecemos hoje.

 

A sua história remonta ao séc VII a. C. e à presença dos Fenícios que, por terem na Península Ibérica uma base importante e estratégica na sua rota de comércio, exerciam sobre este território uma forte influência.
À época, o conceito de Estado não existia – note-se que o conceito de Estado se refere a qualquer entidade com estrutura própria, politicamente organizada e com poder soberano para governar um povo dentro de uma área territorial perfeitamente delimitada. São poderes tradicionais do Estado o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário, sendo que numa Nação o Estado o Estado desempenha funções políticas, sociais e económicas. – e foram os agrupamentos sucessivos e cada vez maiores de seres humanos que nos fizeram chegar a essa concepção.

 

Os Fenícios foram um dos primeiros povos a tentar implementar um conceito semelhante, onde as regras fossem similares entre os diferentes povos que coabitavam a região. Os grandes centros urbanos, por eles dominados, foram os primeiros locais a acolher e a implementar estas regras, o que levou a que uma boa parte dos seus habitantes - habituados a viver segundo as suas próprias normas - começassem a dispersar por todo o sudoeste peninsular, de modo a poderem viver segundo os seus próprios costumes. Por consequência, levavam consigo muito da influência Fenícia no que à construção e à estrutura habitacional dizia respeito.

Com uma história que ascendente os 2500 anos, o Monte Alentejano teve a sua maior influência na arquitetura mediterrânica, instituída, em grande parte, pelos Fenícios. É de realçar a privacidade de espaço como característica principal, situando-se a habitação no centro dos pátios, o que garantia a sua salvaguarda.

 

Contudo, a edificação do Monte Alentejano poderá também ser considerada uma ruptura conceptual, estrutural e arquitectónica para com as características predominantes nas habitações da época. Senão vejamos, com a dispersão dos grandes povoados, na parte final do século VII e no início da idade do Ferro, a realidade do cultivo, da força laboral e do conceito de família é transmitida para a construção, sendo abandonada a estrutura circular das pequenas cabanas, para abraçar uma nova realidade arquitectónica.
Sendo já uma base da comunidade, a família torna-se igualmente base do trabalho e da organização estrutural, cultural e social.

 

Provenientes da região litoral, as técnicas de construção e da própria organização do espaço foram implementadas em determinadas zonas do interior, permitindo a criação de pequenas comunidades rurais auto-sustentáveis, predominantemente instaladas junto a linhas de água, por forma a reforçar o carácter agrícola e agro-pastoril das comunidades.

 

Estudos arqueológicos indicam que estes antiquíssimos protótipos do Monte Alentejano seriam construídos em pedra e terra e seriam, tal como atualmente, pintados de branco.

 

O livro do tempo

 

Do presente, não conhecia mais do que o momento exato. Nem uma hora para trás, nem cinco minutos adiante. Vivia entre o agarrar tremulamente o copo de água, o espaço que o separava dos lábios e entre a demora do vazio, desse mesmo copo, a ecoar novamente na bancada. 

Persistia nos vinte passos arrastados que o separavam do sofá, onde o seu corpo vago caía e se deixava ficar. Diante dele, ocupando o espaço vazio, o presente.
A incapacidade de acompanhar o tempo, havia, ao longo dos últimos anos, imposto uma longa distância entre Domingos e o filho, sentado um metro à sua esquerda.

«Ontem a tua mãe estava muito bonita. Mas hoje ainda não a vi. Que será dela?»

Madalena morrera durante o parto, quarenta anos antes; Duarte não chegara a conhecer a mãe.

«Ó pai, lá está você, a mãe já não se encontra entre nós.»

«Disparates. Só dizes disparates. Pensei eu que te fazias um homem, continuas igual. És tu e o Tó Zé do Edgar, ainda a semana passada lá estive na tasca, só disparates, um cachopo daqueles filho de boa gente. E tu vais pelo mesmo caminho.»

Tó Zé tinha agora 58 anos. E Domingos 83 ,a avaliar pelas muitas histórias contadas pelas rugas das suas mãos; noutros tempos, era certo, quando a destreza era outra. Agora, já nem a sua própria história vestia. Vivia a uma distância de 40 anos dos vinte passos arrastados que o separavam da realidade.
Estendeu lentamente o braço e concentrou-se na abertura dos dedos da mão. Agarrou um livro pousado na mesa de apoio, à sua direita, e levou-o até si. Exatamente até si. Escrito pelo filho Duarte, mal Domingos poderia saber que a história nele contada era também a sua.

«Gosta do livro pai?»

«Tem bom ar. Eu é que não tenho aqui os meus óculos para ler qualquer coisinha.»

Aos olhos de Domingos, com ou sem a precisão das lentes, as letras nada mais eram do que aglomerados de linhas em páginas, todas elas iguais, sem sentido algum - assim lhe pesavam os dias. 

 

“E sem conhecer as histórias que o livro contava, voltou a esticar o braço, a concentrar-se na abertura dos dedos da mão e a pousá-lo na mesa de apoio, à sua direita.
Também o presente havia por ele sido deixado num qualquer recanto da sala, que julgo não saber precisar, para não mais o viltar a viver." 

Findos, o livro e mais um serão de domingo. 

 

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