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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Quimeras

Quimeras!
Das janelas abertas,
telas brancas anoiteciam
e monocromáticas, figuras se erguiam
passando-me ao lado...
Alado bailado, só. Completamente só.

 

A noite descia rasa e descalça
para me sonhar na sombra inquieta e livre;
mas encalça a surdina das flores macabras
que me viviam no (para)peito
e desfeito, rolou o silêncio do vaso,
as cigarras e o acaso verde-azul
que ali nascia
Rua a baixo corria...
Rua a baixo sentia
as mãos ladras da noite vadia
devorarem-me, só. Completamente só.

 

Escorriam das paredes das esquinas Renacentistas
"Maldições Sobre Filósofos",
enquanto Descartes dormia
E a "Utopia" de Thomas More adormecia,
a par da noite que negra possuía
todas as cores da tela de Michelangelo,
"O Juízo Final" acontecia!

 

Sucedia que, por vezes,
traças vorazes lhe comiam negras
as vestes de cerimónia,
como punhais luzindo.
Rendilhado estrelado manto, sorrindo.
Ladainhas de estrelas, e delas fugindo,
as mártires sombras da madrugada caindo,
dizimadas pela luz das telas brancas
Janelas abertas
Quimeras!

 

Quero ir até à mais forte luz,
tocar-lhe e chegar além.
Cegar-me da escuridão
E quero findar-me no grau superlativo absoluto...
...
...
Quero reencontrar-me! Só.

 

É preciso (re)ensinar os pássaros a cantar nos beirais.
É necessária a melodia do dia ao nascer.

(Im)Perfeitos

Escritos por nós e sobre nós próprios, os
rascunhos dos passos a lápis traçados
e limpos. Apagados que foram os rastos
das pontas das vidas perdidas,
que se arrastam,
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão
das pegadas errantes que deixamos.


Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado
p’la tinta da caneta com que tememos escrever
o presente, assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!
Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária;
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.

- A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém."

Bocas caladas. Mentes amarradas. Corações amordaçados.

 

Descia a avenida, quando ao longe avistei um enorme aglomerado de gente.
Uma multidão, termo comummente utilizado. Tão comum quanto aqueles que dela faziam parte.
Silenciosos. Estranhos entre eles – desconfio que estranhos a eles próprios também. Olhavam-se e entreolhavam-se, mas nada diziam – os que se olhavam. Já que a maioria baixava a cabeça naquele ato já banalizado de quem ignora os restantes. Olhavam para baixo. Para o umbigo, talvez. Na pior das hipóteses já haviam desistido da vida e, apenas existindo, olhavam para o chão.

Observava-os. Também eu calada, receando quebrar o silêncio daquela marcha muda de gente. Na verdade, nem sabia o que lhes poderia dizer. Pareciam alienados, cada um no seu mundo aparte dos restantes. Embora lado a lado.
Nada mais ouviam senão os seus próprios “Eu”. Pensamentos negativos, egos obesos, medos e problemas – vim a perceber mais tarde.
Ninguém ouvia sonhos, ambições, desejos, a força do querer, a voz da alegria e o nome da felicidade. Espantem-se agora, assim eu me espantei, ninguém conseguia ouvir o seu próprio bater do coração. Nas suas mentes ecoava somente o “eu”, “eu”, “eu”, de tal forma alto que ensurdeceram para o mundo.

No meio de tanta gente, aquele silêncio começava a tornar-se incómodo. Ninguém dizia nada a ninguém, no entanto mantinham-se juntos. Ninguém se afastava.
“Menina faça silêncio” – sussurrou-me alguém. “O seu coração bate muito alto, desconcentra-me.”

“Que raio de observação a sua... dizer que o meu coração bate muito alto. O seu é que sofre amordaçado. O meu coração bate ao volume necessário à vida e ao compasso que eu o fizer bater. Era o que mais faltava mandá-lo calar. E digo-lhe mais, se todos os corações tivessem a liberdade de se fazer ouvir, tal como eu permito ao meu que faça, imagine que bonita seria a melodia que se faria ouvir aqui! Mas vocês preferem o barulho ensurdecedor dos vossos egos e de tudo quanto há de negativo em vós. “

Segui adiante certa de que toda aquela gente, durante as suas vidas, haveria abafado a voz dos seus corações, com palavras mudas que nada mais teriam sido, senão a voz do medo de estarem sozinhas.
E ali estavam elas, juntas mas caladas, sendo o silêncio e o medo da solidão, o seu único elo de ligação.

Assim vai o mundo.

Bate coração, bate.

 

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