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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Morro-te

Morro-te. Não te cumpri. 
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas, 
me desviaram de ti.

 

Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento 
que viste partir.

 

Morremos. Não nos cumprimos. 
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar. 
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

... Meu amor!

Quando uma Guitarra se Cala

Porque hoje é, foi e sempre será o teu dia, avô! ♥

 

Quando eu era pequenina
e me sentava a ouvir-te tocar,
sonhava em ter as tuas mãos,
esse ágil dedilhar.

 

Acordes de uma vida,
notas tantas vezes tocadas...
melodias gastas, outras sentidas,
cordas com alma se p'los teus dedos pisadas.

 

Corria-te o Fado nas veias
e era tua a guitarra
que, por paixão, acompanhava
vozes ainda sem nome.
(Pudesses tu nesse tempo prever,
que por elas o Coliseu esgotava).

 

E enquanto essas vozes se elevam,
a tua guitarra nunca mais se ouviu.
Ficou a carcaça do Fado,
e a alma? Essa partiu.

 

A alegria de tantas notas,
os acordes com que cresci,
mais ninguém os sabe tocar
e eu nunca mais os ouvi...

 

As cordas envelheceram.
A guitarra já não toca.
O avô não está em casa.
E o Fado é só Saudade.
(Esse é o fado que trago).
Os anos passam
e eu já não sou pequena...
nem me sento a ouvir-te tocar.
Não porque grande esteja,
mas porque és tu quem já não está
para com o teu mágico dedilhar
me fazer sorrir e sonhar...

 

Antes Existir

Passos frios,
de pedra em pedra, calçada
desgastada pelas solas do silêncio
amargo e profundo, mel no olhar derramado,
lentamente, à passagem das mãos vazias
pelos dias.
Vai tudo dormir.
Ouve-se o reflexo da lua no mar
r e v o l t o. E o amor antigo 
que os cascos dos navios fazem 
com a tempestade.
Vai tudo dormir.
Os jardins descansam.
Cheira a melancolia.
Travo a estrelas cadentes,
nos bolsos guardado;
enjeitado sonho taciturno, 
passeio noturno
pelo calçadão da vida. 
Vai tudo dormir...
... quando um dia se abate
o lençol de pedra sem arte:
- Antes existir!

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Pintura: Crepuscular Homem Velho, 1918 por Salvador Dali

 

 

Abandono

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Em terra de pouca sorte,
insípida p’las águas do pranto,
dizia o vento - que corria parado -
memórias cansadas,
ao entardecer da vida num banco
de praça, deserta e despida,
tricotando, incerta, a nudez
da memória de outrora, esquecida.

 

E à luz da janela improvável,
na cal já gasta esculpida,
vivia de língua amputada
o silêncio da despedida.

 

Um alfaiate não cose vidas

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Dormíamos a maior parte das vezes no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos o que mais parecido havia com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de algum animal durante o período de tempo que durava o destacamento.

Embarquei em Portugal em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete com trinta mil toneladas de peso e capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era, também, parte integrante do nosso equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número e o nome do soldado e o seu tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a aquela a quem chamávamos a Fiel Companheira de Mato, a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, uma arma de grande porte a quem os guerrilheiros ganharam um grande respeito.

Durante as patrulhas as principais funções eram de reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou em linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão. Podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse espaço de tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos por escassos minutos para comer qualquer coisa ou para aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha muitas vezes a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?
(Voltemos ao cais...) 
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

Atração fatal

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Há sempre um momento que nos separa. O momento em que tu morres e em que eu assisto, impávido, ao teu desaparecimento. À beira do abismo. Na fragilidade visceral a que me condenas, não pela tua ausência física, mas pela constante presença emocional com que me manipulas os dias.
O nosso amor foi sempre a minha melhor criação, alimentada pelos meus pensamentos doentes e pelos fugazes encontros a que cedemos. Uma obra cuja temporalidade e materialidade suspeitas, me fazem agora crer, na possibilidade da sua não existência, sempre que te vejo morrer para o amor. Para o nosso amor.
Sou confrontado com a necessidade que as coisas e os acontecimentos têm, de ser apagados. É por isso que te matas, não é? Diz-me. É por isso que te matas? Queres apagar-te de mim, mas as marcas invisíveis não te deixam sair-me da pele.
Contigo, vivo constantemente à beira do abismo. Há sempre um momento que nos separa. O momento em que o amor vaza, escorre e cai morto, depois da despedida do teu corpo inerte. Sempre precisaste de sangue para que o teu nome ficasse gravado no meu coração.
Diz-me. Diz-me com clareza. No amor, qual é a vantagem de ser ferido, quando é por medo que morremos?


(Um texto escrito para a página 7HINK, no facebook.)

Bonecas de corda

 

 

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Naquela manhã todos se pareciam com bonecas de corda. Bem vestidos, cara lavada, cabelo escovado e alinhado, focados e rodopiando sem desvios, em torno das suas vidas. E nós aplaudíamos, levados pela melodia das histórias feitas, ensaiadas e tão poucas vezes dançadas ao ar livre.
Vinte minutos era o espaço de tempo decorrido entre o puxar da corda e a vénia final. Na verdade, cada um dos oradores presentes resumia-se isso, vinte minutos. E o que é um orador de histórias contratadas senão apenas o tempo que demora a passar? Não nasceu antes, nem morrerá depois. Foi ali criado, aliciado pela moda de debitar palavras emotivas. Sinceramente não as entendo. Às palavras. Não aos oradores, que esses são de corda como as bonecas, vestem a dança e morrem no instante em que corda finda. Nem antes, nem depois. Exatamente ali.
No meu tempo enforcavam-se, com palavras é certo. Não sei se será a mesma coisa - corda por corda - mas julgo que sim.

Voltando às palavras, dizia eu que não as entendo. Deram em emotivas? Essas modas que agora seguem. Ali estão enquanto servem, usadas e abusadas por quem escreve e lê e por quem fala e ouve. Depois, cai a moda e abrem-se valas comuns, onde se enterram as ditas, já desgastadas. Mas tal como é costume nas boas modas, logo estarão outras de volta, aquelas que já anteriormente haviam sido usadas e que mais adiante voltarão novamente sê-lo.

 

Das modas e das palavras já sabe que vão e vêm.

 

Fazem-me lembrar os namoros de hoje em dia. Já eu o disse à minha neta. Correm, correm, correm que se farta. Estão sempre cheios de pressa. Para chegar aonde é que eu ainda não percebi. Todos se parecem perder pelo caminho. Quando voltam, já trazem outro pelo braço. Ainda a semana passada lhe perguntei se era ruim o piso do caminho de agora. Tão coxos que os vejo do coração. É no que dão as pressas.
Namorados e oradores são todos bonecas de corda. Bem ensaiadas. Em vinte minutos. Que é o tempo que eu tenho até morrer.

 

Derramem-me o castanho da capa de um livro por cima, deixem-no inundar a manta com que à noite me tapo e permitam-me cheirar a terra fértil molhada, mas não me fechem já o caixão! Ainda não, que ainda quero a última dança. O meu palco final é castanho e a vida só dura vinte minutos.