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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Monólogo

Podias ser só a luz

dos astros ao cair da noite.

Podias ser só o voo, 

inquietação de uma pomba livre,

no meu peito.

Podias ser a vaga que rebenta na areia,

cântico de sereia que me embriaga

o leito, onde me deito a braços com os versos

de amor dos poetas noturnos.

Podias ser só a intempérie, 

tempestade congérie de infurtúnios 

que me inundam o entardecer dos sonhos,

pôr-do-sol da vida, horizonte inacabado...

Podias ser só a navegação

de um casco de navio à deriva

no meu coração, calmamente abandonado

em mar-alto e revolto.

Podias, ai se podias...

Limitar-te ao amanhecer claro dos meus olhos, 

onde te perco, 

me reencontro,

me desvio e retorno

a encontrar-te.

Podias ser...

(Podia)

ser só o meu princípio inacabado.

 

(Mas sou, sem poder ser, tanto mais... e nunca findo!)

 

 

 

 

Memórias

Escorrem as horas pela vidraça
molhadas, longas, salgadas
como a vida.

 

Perdidas.
lavadas memórias
esquecidas.

 

Escorrem as horas pela vidraça
e os dias rolam escadas abaixo.

 

Encaixo o presente
no calendário da parede ausente
e suspiro.

 

Respiro.
Deliro
com os anos, contra a opacidade
dos sonhos

 

Risonhos
que me roubaste.

 

Escorrem as horas pela vidraça,
e eu chovo
em ti.

 

Terra Fértil

Veio o vento soprar-me ao ouvido de menina,
segredos de um país distante.
Cheirava a terra molhada
e a sonhos prometidos.
Não sei se era o futuro, ou a saudade
de tudo quanto ainda não vivi.
Se era uma ou outra,
qualquer coisa entre elas,
ou mais ou menos isso.

 

Estalava a madeira no prolongamento da madrugada,
como as cartilagens estalam aprisionadas no meu corpo.
Cheirava a despedida
e choviam passados lá fora.
Feitos de lágrimas, os Homens eram todos feitos de lágrimas.
Sem cheiro a terra molhada,
sem a candura poética
de quem sofre ou ama,
sofrega e desesperadamente,
ou de vagar, muito devagarinho, de mansinho
como passarinho em ninho de sonhos.
Nada. Nem uma coisa nem outra.
Tão pouco qualquer coisa entre elas.

 

Veio o vento soprar-me ao ouvido de menina,
a canção de um país distante.
Para lá da linha, para lá dos olhos,
para além da imaginação.
Se era o futuro ou a poesia, não sei.
Fusão de ambas, talvez.
És terra. Sou chuva.
Casa fértil, sonhada para lá do horizonte.
Nosso, o jardim de terra molhada, onde brotam sonhos
com cheiro d'amor.

 

Vieste tu soprar-me ao ouvido de menina,
a poesia do coração.
Demos as mãos...
... hoje, ainda cheira a terra molhada!

Travessia

Atravessar a humanidade deserta,
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela,
que pela janela, baixa-mar dos meus olhos, entra serena.
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram?
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada.
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina,
gritar como o silêncio, para lá da rotina
e ligar-me p'lo coração,
à paixão. Poema vivo.
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes,
o luar, o amor e o acreditar que
externa, do lado oposto do mundo,
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.

 

Quimeras

Quimeras!
Das janelas abertas,
telas brancas anoiteciam
e monocromáticas, figuras se erguiam
passando-me ao lado...
Alado bailado, só. Completamente só.

 

A noite descia rasa e descalça
para me sonhar na sombra inquieta e livre;
mas encalça a surdina das flores macabras
que me viviam no (para)peito
e desfeito, rolou o silêncio do vaso,
as cigarras e o acaso verde-azul
que ali nascia
Rua a baixo corria...
Rua a baixo sentia
as mãos ladras da noite vadia
devorarem-me, só. Completamente só.

 

Escorriam das paredes das esquinas Renacentistas
"Maldições Sobre Filósofos",
enquanto Descartes dormia
E a "Utopia" de Thomas More adormecia,
a par da noite que negra possuía
todas as cores da tela de Michelangelo,
"O Juízo Final" acontecia!

 

Sucedia que, por vezes,
traças vorazes lhe comiam negras
as vestes de cerimónia,
como punhais luzindo.
Rendilhado estrelado manto, sorrindo.
Ladainhas de estrelas, e delas fugindo,
as mártires sombras da madrugada caindo,
dizimadas pela luz das telas brancas
Janelas abertas
Quimeras!

 

Quero ir até à mais forte luz,
tocar-lhe e chegar além.
Cegar-me da escuridão
E quero findar-me no grau superlativo absoluto...
...
...
Quero reencontrar-me! Só.

 

É preciso (re)ensinar os pássaros a cantar nos beirais.
É necessária a melodia do dia ao nascer.

Bom Dia Primavera

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada,
respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas
(que te espreitam)
à janela do casaco que vesti.

 

- Não me queiras sem Inverno,
prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me,
aí fora
no meu tempo.
Chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.

 

Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

 

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

Fim de Linha

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como os ombros, carregando os anos
e a fome das respostas
que os romancistas prometeram,
mas que não acontecem, tal como a vida.
Páginas de gente que está, sem existir,
em histórias contadas sem acontecer.
Onde as frases narradas e não proferidas
são escritas para agradar ao nascer, com prazer,
ao mais solitário dos corações vagabundos
por aí...
De que adianta fazer perguntas a um estranho,
quando o mundo dos poetas não é palpável?
Utopias cíclicas, encadeadas e indissociáveis
do sistema solar onde lhes orbita a loucura.
Na verdade, nem a Via Láctea lhes chega!
É-lhes mais que preciso o buraco negro
para onde me arrasto,
sugada pela força centrífuga do devorador de sonhos
dos loucos que escrevem...

 

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como um romance, quando finda
e o coração descai
no verso de uma vida que termina
e se esvai... na leve pena de um poema.

Todas as folhas de Outono são histórias de amor

Tudo são histórias de amor
amarelas e caducas, 
leves e secas, dançando nos braços do vento
ao som da cidade agitada. 
Hão-de guiar-me...
na inflexão da história dos nossos passos,
pelas ruas que existem em ti;
nas horas paradas das tardes de outono
para me agasalhar no teu peito.
Doce jeito de me consertar…
(folha seca caída, no chão estendida e pronta a estalar).

Todas as folhas amarelas e caducas
que renascem
... são histórias de amor que perfazem.

Antes Existir

Passos frios,
de pedra em pedra, calçada
desgastada pelas solas do silêncio
amargo e profundo, mel no olhar derramado,
lentamente, à passagem das mãos vazias
pelos dias.
Vai tudo dormir.
Ouve-se o reflexo da lua no mar
r e v o l t o. E o amor antigo 
que os cascos dos navios fazem 
com a tempestade.
Vai tudo dormir.
Os jardins descansam.
Cheira a melancolia.
Travo a estrelas cadentes,
nos bolsos, guardado;
enjeitado sonho taciturno, 
passeio noturno
pelo calçadão da vida. 
Vai tudo dormir...
... quando, um dia, se abate
o lençol de pedra, sem arte.
Antes existir!

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Pintura: Crepuscular Homem Velho, 1918 por Salvador Dali

 

 

Até pensei...

Junto à minha rua havia um bosque 
Que um muro alto proibia 
Lá todo balão caia 
Toda maçã nascia 
E o dono do bosque nem via 
Do lado de lá tanta aventura 
E eu a espreitar na noite escura 
A dedilhar essa modinha 
A felicidade 
Morava tão vizinha 
Que, de tolo 
Até pensei que fosse minha 
Junto a mim morava a minha amada 
Com olhos claros como o dia 
Lá o meu olhar vivia 
De sonho e fantasia 
E a dono dos olhos nem via 
Do lado de lá tanta ventura 
E eu a esperar pela ternura 
Que a a enganar nuca me via 
Eu andava pobre 
Tão pobre de carinho 
Que, de tolo 
Até pensei que fosse minha 
Toda a dor da vida 
Me ensinou essa modinha 
Que, de tolo 
Até pensei que fosse minha.

 

Chico Buarque

 

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